Para Sempre - Sombras do Passado
17 A dois passos do inferno
Notas iniciais
Yasmin
— Yasmin? – repete Adrian, obviamente surpreso em me ver. Num estalar de dedos, uma expressão de pura decepção e desprezo se manifesta em seu semblante.
Viro a cara, sem coragem de encará-lo.
— Exatamente como eu queria que estivesse. Fez um excelente trabalho, Yasmin. Não esperava menos de você. – diz Hannah, caminhando lentamente em minha direção, encarando-me com seu olhar penetrante que me deixa ligeiramente desconcertada. – Merece meus parabéns.
Olho para Estephanie, parada a poucos metros atrás dela. Ela sorri para mim, e sorrio de volta, hesitante. Ainda sinto arrepios só de imaginar que ela está realmente aqui, entre nós, como se jamais tivesse partido.
— Quero que me fale como está a Larissa – diz Adrian, a poucos centímetros de mim. Percebo sua respiração descompassada e o brilho intenso refletido em seu olhar e considero a ideia de recuar um ou dois passos para manter a maior distancia possível entre nós. – Não me escutou?
Continuo calada, encarando-o fixamente, lutando para não desviar o olhar, sentindo meu rosto ficar quente e vermelho. Percebo que seus punhos estão cerrados e uma veia pulsa descontroladamente em sua testa.
— Pode falar, Yasmin. Ele precisa saber. Também estou um pouco entediada. Deleite-me.
Pigarreio, tentando disfarçar a tensão que já enrijeceu todo meu corpo, principalmente o pescoço.
— Ela está muito mal, Adrian. Pior do que você imagina.
Adrian avança um passo, torcendo os lábios numa expressão de desprezo.
— Como você pôde ser capaz de fazer isso, Yasmin? Eu estendi minha mão para você, lhe dei atenção... – Seus olhos subitamente se enchem de lágrimas. – Nunca pensei que alguém como você pudesse ir tão baixo.
— Chega – diz Hannah. – Vamos acabar com esse drama. Estou orgulhosa de você, Parker. Devo confessar que você superou todas as minhas expectativas. Muito bem. E agora que tudo está saindo como planejado, chegou a hora de passar para a fase dois.
— Fase dois? – Esbraveja Adrian. – Mas que história é essa? Como assim “fase dois”? Já não basta todo o mal que nos causou? O que mais você quer?
— Eu quero mais – responde Hannah, deslizando o dedo pelo queixo dele. Adrian agarra a mão dela com força e, em seguida, a empurra. Hannah recompõe-se, voltando a provoca-lo com um sorriso de escárnio. – Calma, querido. Está muito tenso. Não quero nada demais. Apenas uma grande festa para esfregar na cara dela a minha vitória. Nós dois sabemos que isto é um jogo, e só pode haver um vencedor. Este sou eu.
— Eu quero que você vá para o inferno!
— Repito que você está muito tenso, querido. Isso não faz bem nenhum.
Adrian agarra o braço dela.
— Me largue!
— Você me dá asco. Sinto vontade de vomitar quando olho para você. Não suporto ficar um segundo mais do seu lado.
— Lamento por você, Adrian. Porque você e eu sabemos que isso não pode terminar de outra maneira. Um passo em falso e tudo pode ir para os ares! Sabe muito bem o que eu quero dizer, não sabe? Acho melhor ir se acostumando com sua nova vida. E nem pense em ignorar meu pedido. Quero você do meu lado sábado à noite, recebendo os convidados e, pelo o amor de Deus, seja gentil. Ai de você se fizer algo para me envergonhar na frente de todos.
Adrian suspira.
— Por que, Hannah? Me diz por que tudo isso?
— Não pergunte o que já sabe.
— Conheço seus planos. Sei o que pretende fazer. Mas eu insisto que você não precisa chegar a tanto. Por favor, Hannah, por tudo o que vivemos... Desista dessa maldita vingança.
Hannah permanece séria por alguns segundos, mas depois seus lábios se entreabrem num sorriso malicioso e começa a gargalhar.
— Maldita... – murmura entre dentes.
— Como você é ingênuo. Não passei dois longos anos esperando para fazer aquela cretina pagar por tudo o que me fez para agora simplesmente esquecer de tudo só porque você está me pedindo. Não me faça rir.
Adrian não se contém e agarra o cabelo de Hannah, fazendo-a perder o equilíbrio. Levanta o punho fechado e está pronto para socar-lhe o nariz, quando ela cospe em sua cara e se solta com uma chacoalhada.
— Esta já é a segunda vez... – esbraveja Hannah. – Não está cumprindo com o nosso acordo. Não me obrigue a renunciar ao seu bota-fora por causa de sua histeria.
— Espere um pouco, o que você disse?
— Eu pretendia falar sobre isso durante o jantar, mas como você está se comportando muito mal, vai ter que esperar até amanhã para descobrir.
Adrian volta a agarrá-la, desta vez pela cintura.
— Já estou farto desse joguinho. Você vai me explicar agora mesmo do que diabos está falando.
— Acho que preciso te lembrar outra vez quem é que manda aqui. Estephanie...
Os olhos de Adrian se arregalam quando o nome da criatura lhe chega aos ouvidos. O ambiente, de repente, se torna frio e sombrio. Não teve tempo sequer de respirar. Estephanie – já em sua forma monstruosa, como se tivesse simplesmente se despido de seu disfarce humano –, usa um de seus tentáculos para agarrá-lo e lança-lo à parede com violência, fazendo um baque sonoro ressoar no ar quando suas costas e sua cabeça se chocam contra a superfície marmorizada.
Tapo a boca espantada, sentindo que as coisas já foram longe demais.
— Você não precisa se preocupar com nada! – diz a criatura.
Adrian geme de dor. Estephanie o está pressionando contra a parede, fazendo seus ossos estalarem e seu rosto ficar roxo. Contenho um grito de desespero, enquanto Hannah assiste à cena com um sorriso de deleite.
Ela se aproxima.
— É isso mesmo, querido. Não tem que se aborrecer com nada. Deixe tudo em minhas mãos. – Hannah tira um pedaço de papel dobrado do bolso de trás da calça. – Tenho aqui comigo o número de uma das melhores promotoras e organizadoras de eventos do país. O nome dela é Samantha. Você não a conhece. Nem eu, admito, mas combinamos de nos encontrar amanhã à tarde. Falaremos sobre a festa. Ela irá me ajudar. Portanto, fique tranquilo. Você não vai precisar mover um só dedo. Não, por enquanto.
— Por favor, Hannah... – diz Adrian, as palavras saindo abafadas.
— Solte-o, Esteph. Já é o suficiente.
Estephanie recua e Adrian cai no chão com um forte baque. Solta um grito de dor ao sentir a superfície dura e fria embaixo dele.
Hannah agacha-se próximo a ele.
— Sugiro que, a partir de agora, você tome bastante cuidado com o que vai dizer. Há palavras que machucam mais do que um tapa. Pense na sua namoradinha. Se não fizer o que eu mando, é ela quem vai sofrer as consequências.
Ela se levanta e se prepara para sair da sala de estar. Faço-a parar com um pigarro.
— Quer me dizer algo, Yasmin?
— Bom... Eu ia dizer que...
— Fale, mulher!
— É que... Você não acha que o Adrian tem razão?
Ela me encara por alguns segundos. Sinto um arrepio cruzar a minha coluna de cima a baixo.
— Como é que é?
— Veja bem, você já conseguiu o que queria, certo? A Larissa já foi derrotada. Você a tem em suas mãos. Eu pensei que você não precisava mais ir adiante com...
— Você pensou?
Ela caminha em minha direção mantendo um sorriso sereno em seu rosto. Algo me alerta para me afastar, mas não consigo sair do lugar. Ela me encara fixamente, e, sem aviso, começa a acariciar meu cabelo.
— E desde quando... – solto um suspiro doloroso quando sua mão se fecha em meu cabelo e o puxa com brutalidade, forçando meu rosto para trás. – ... a garota que só aprendeu a falar com sete anos sabe raciocinar?
— Me desculpe... – é tudo o que me ocorre dizer.
— Tudo bem. De agora em diante, deixe que eu pense por você.
— Claro.
Hannah larga meu cabelo e se afasta. Respiro fundo e engulo o nó que se formou em minha garganta.
Sinto muita raiva e indignação, mas penso que seria tolice demonstrar qualquer sentimento de revolta a essa altura do campeonato. Hannah já deixou claro que não se importa com nada, e – como ela mesma disse – um passo em falso colocaria a minha vida e a de todos os envolvidos em perigo. Por mais que eu não concorde com o que ela está fazendo, não posso contestar ou sequer questionar.
De um jeito ou de outro, estamos todos perdidos, à mercê de seus caprichos, e, a menos que ocorra um milagre, ela não vai parar enquanto não ver Larissa totalmente destruída.
— Ah, querido... – cantarola Hannah. – Faria a gentileza de ir até meu quarto pegar meu celular? Obrigada.
Lança-lhe um beijo enquanto Adrian desaparece porta afora.
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