Para Sempre - Sombras do Passado
16 A cúmplice
Notas iniciais
Roberta/ Hannah
Neste momento, se alguém me perguntasse o que estou sentindo, eu não saberia responder. Um turbilhão de sentimentos e pensamentos parece me invadir, me sufocando, me corroendo por dentro. Um lado meu gostaria de acreditar que o que meus olhos viram naquele dia não passou de uma confusão da minha cabeça, ou um mal entendido. Adoraria encontrar uma resposta satisfatória para minhas constantes perguntas, o que, infelizmente, parece impossível.
— Muito bem... – Solto um suspiro longo e caminho para longe da janela. Encaro séria e demoradamente cada um dos meus colegas antes de falar outra vez. – Suponho que já saibam por que chamei vocês aqui.
A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi procurar o mala-sem-alça do Adrian, colocá-lo contra a parede, socar aquela cara até vê-la sangrar e, por fim, perguntar-lhe porque ele traiu minha melhor amiga daquela forma tão covarde. Mas alguma coisa me dizia que, ainda que eu o cobrisse de pancadas e o forçasse a confessar, ele não seria sincero comigo. Perderia meu tempo. Decidi, então, me reunir com os meus amigos para escutar suas opiniões e chegar a um possível acordo, se é que isso adiantaria de algo.
— Sim – diz Viviane. – Para decidirmos como podemos ajudar a Larissa.
— E para tentar descobrir o que rolou com o Adrian – complementa Miguel.
Seguro um grito de raiva. Bato o punho fechado sobre a mesa com toda minha força.
— Antes de mais nada, eu quero saber do Adrian, aquele traidor mau-caráter.
— Ele não quis falar com a gente. É sério. – Retruca Henrique. – Tentamos dialogar com ele de todas as maneiras, mas não deu. O cara está irredutível. Não é verdade, galera?
— É, o cara se isolou completamente – comenta Miguel. – Anda todo esquisitão. Nem responde mais as minhas mensagens.
— Conheço bem esse tipo de gente – digo, virando-me novamente para a janela, sentindo a brisa leve do crepúsculo balançar meus cabelos. – Prefere engolir tudo calado, com medo de ser “inconveniente”.
— Não é nada disso, Roberta – diz Bianca, levantando-se de súbito – A culpa é toda da Hannah. Ela voltou do Canadá para acertar as contas com a Larissa. Lembra que elas viviam se enfrentando?
— Claro que eu lembro. Mas não queira justificar o Adrian. Ele é tão culpado quanto ela.
— Então é verdade? – Pergunta Alex. – A Hannah voltou mesmo?
— Voltou. E não perdeu tempo. Me disseram que ela pega o Adrian todos os dias na escola e que eles passam a tarde inteira juntos. Ai, que ódio que eu estou sentindo disso! Como o Adrian pôde ser capaz de fazer uma coisa dessas? Onde aquela criatura está com a cabeça? Voltar com a Hannah, depois de ela o ter abandonado? Ela foi embora sem se despedir dele, sem dar a menor satisfação, e bastou ela estalar os dedos para ele ir correndo atrás dela. Mas querem saber o que eu acho? Que tem um dedo da Yasmin nessa história.
— Agora você exagerou – protesta Viviane. – O que a Yasmin tem a ver com tudo isso?
— Estou muito surpreso, Roberta – diz Henrique. – Não era você quem defendia a Yasmin?
— Disse bem, meu caro. Defendia. Mas eu fui encaixando as peças, e tenho certeza absoluta de que aquela fingida da Yasmin Parker está envolvida nesse esquema.
— Como pode ter tanta certeza?
— Não é óbvio? Pensa comigo. A Yasmin se matricula no nosso colégio. Daí a Larissa é atacada pelo fantasma da irmã dela. E, por fim, a Hannah aparece do nada namorando o Adrian.
— Talvez tudo não passe de uma coincidência.
— Coincidência demais, você não acha?
— Talvez, mas eu confio na Yasmin e tenho certeza de que ela não tem nada a ver com o que está acontecendo. Ela não tem culpa de que o Adrian seja um traidor sem escrúpulos. Ele é que é o culpado. Foi ele quem traiu a Larissa com a Hannah. Ninguém o forçou a fazer isso.
Henrique pigarreia.
— Coincidência ou não, isso está muito estranho para o meu gosto. Eu conheço o Adrian desde que éramos crianças. Ele é louco pela Larissa. Jamais faria uma coisa dessas com ela.
— Você tem razão – comenta Viviane. – Essa história está muito mal contada.
— Viram só? Eu ainda acho que isso é coisa da Yasmin. Hannah e ela não são melhores amigas? Vamos chamá-la aqui e forçá-la a falar.
— Você não deveria acusá-la sem provas – esbraveja Bianca. – E se tudo não passar de uma mera coincidência? Sinceramente, não acredito que a Yasmin seja capaz de planejar algo tão macabro. A Hannah, sim, seria capaz. Ela está muito mudada. E tem motivos de sobra para querer separar o Adrian da Larissa. Se quiser saber minha opinião, acho que deveríamos deixar a Yasmin de lado por enquanto e nos concentrarmos em descobrir o que de fato aconteceu com o Adrian e por que ele fez isso com a Larissa.
— Olha, vamos combinar que o Adrian e a Larissa não têm muito em comum. – diz Alex. – Eles nem curtem as mesmas coisas. Nem sei como eles conseguiram se aturar por tanto tempo.
— Pelo o amor de Deus, cara, isso é o de menos. A Larissa é uma garota linda, inteligente, divertida... Tem tudo o que um garoto precisa em alguém.
Ouço um pigarro alto vindo do fundo da sala.
— Eu agradeceria se vocês parassem de falar como se eu não estivesse aqui.
Sorrio, encabulada.
— Me desculpe, amiga. Esqueci que você tinha vindo para a reunião.
— “Vindo”? A reunião é na minha casa, lembra?
Vejo, com o canto do olho, Viviane levantar-se e ir até Larissa.
— E você, amiga? Tem alguma ideia do que possa ter acontecido?
— Não – diz ela, mordendo o lábio inferior. – Ainda não tive chance de falar com ele.
— Quem o Adrian pensa que é? – Esbraveja Bianca. – Era ele quem deveria vir aqui falar com você. Não o contrário.
— Por acaso já ligou para ele?
— Já, umas mil vezes... Mas ele não quis me atender.
Larissa começa a chorar. Não suporto vê-la assim, impotente. Agacho-me perto dela e acaricio seu queixo.
— Linda, não chore. Primeiro, porque não aguento ver ninguém chorando. Segundo, porque garoto nenhum merece que você derrame lágrimas por ele. Digo isso por experiência própria.
Larissa se levanta e caminha em direção à janela.
— Mas não é isso o que mais me dói... O que me machuca mesmo é ficar tanto tempo sem respostas. – Recosta-se na janela. – Passo noites em claro, me perguntando o tempo inteiro “o que foi que eu fiz de errado”? “O que aconteceu para ele fazer isso comigo”? “Será que eu não o fiz feliz suficiente?”
Viviane vai até ela.
— Não fique se torturando, amiga. A Roberta está certa. Aquele infeliz não merece que você derrame uma só lágrima por ele. Ele não sabe o que perdeu.
— Mas é aí que está o problema. Eu não quero perdê-lo. Nesses últimos dias, dei tudo de mim para tentar odiá-lo. Só que agora eu vejo que estou mais apaixonada do que nunca. Por que ele teve que me trocar pela Hannah? Justo pela Hannah! O que ela tem que eu não tenho?
— Não fique se comparando com a Hannah. Você sabe que é mil vezes melhor do que ela. E sabe por quê? A Hannah não passa de uma invejosa. Na certa ela ainda sente alguma coisa pelo Adrian e por isso está tentando separar vocês. Eu tenho para mim que a Hannah forçou a barra e o Adrian simplesmente se deixou levar.
— Sejamos francos, quem não deixaria? – comenta Alex, cutucando o irmão com o cotovelo. – Aquela “mina” é um pedaço de mau caminho. Já deu uma olhada naquelas pernas, hein?
Henrique dá-lhe uma tapa na parte de trás da cabeça.
— Na moral, mano. Não precisamos que você coloque mais lenha na fogueira. Se não vai ajudar, não atrapalhe.
— Ai, foi mal. Só falei o que eu achava.
— “Se deixou levar”? – Pergunto num tom de ironia. – Mas nesse papo nem minha bisavó cai. E olha que ela já morreu faz tempo.
— Do que está falando?
— Como assim do que estou falando, cara? Ninguém começa a namorar assim da noite para o dia. É óbvio que esse caso está rolando não é de hoje. O Adrian devia estar paquerando a Hannah pela internet esse tempo todo, só esperando ela voltar do Canadá para assumir o compromisso publicamente.
— Enquanto isso ele enrolava a trouxa aqui com aquele papinho sem pé nem cabeça de “eu te amo e a gente nunca vai se separar”. – diz Larissa, entre dentes.
— Caramba – murmura Henrique. – Nem tinha me tocado disso. Mas realmente faz sentido.
— Claro que faz – digo, tirando o celular do bolso da saia. – Esse cretino merece um corretivo. Vou ligar agora mesmo para minha galera barra-pesada pegar o Adrian na saída do colégio. Ele vai saber o que acontece com quem se mete à besta com minha melhor amiga.
— Ei, ei, ei! Espere um pouco! – Viviane toma o telefone das minhas mãos. – Você enlouqueceu? A situação já está complicada demais. Não vamos tornar isso ainda pior. Violência não vai ajudar.
— Ah, é mesmo? Fala isso para sua amiguinha ali!
Viviane olha para trás. Larissa está no canto da sala, montada em cima de um urso gigante de pelúcia, desferindo-lhe socos, unhadas e xingando-o.
— Desgraçado! Mentiroso! Duas caras! Quando eu puser as minhas mãos em você...
Viviane corre até ela e a levanta à força.
— Larissa, pare! Chega! Se acalme! Olhe para mim! – Viviane segura o rosto dela com as duas mãos. – Escuta... Eu não faço ideia do que está acontecendo, mas estamos todos aqui e vamos ajudá-la a superar isso. Você não está sozinha. Pode contar com a gente para o que for.
— Desde que não seja para servir de saco de pancadas... – brinca Alex.
Larissa, agora mais calma, respira fundo e enxuga os olhos com as costas da mão. Encara-nos, os olhos a brilhar, os lábios a tremer, engolindo em seco.
— Muito obrigada, gente. Acho que é disso mesmo que estou precisando. De amigos de verdade, que me dão apoio e estão comigo nos bons e nos maus momentos. Eu agradeço por tudo que estão fazendo e... sei que posso confiar plenamente em vocês.
***
A noite está gelada. Sinto o ar frio penetrar em meus poros, causando-me espasmos. Não há estrelas, nem nuvens. Apenas breu. Breu e mais breu, estendendo-se ao infinito, engolindo tudo como um gigantesco lençol negro. O mesmo lençol que agora acoberta minha alma, meu coração.
Não sou mais a mesma de antes. Sinto como se tivesse acordado em um mundo totalmente diferente, numa realidade que não me corresponde. Não reconheço mais as coisas que me cercam. Sempre me considerei uma pessoa estranha, movida por sentimentos que jamais imaginei que pudesse nutrir, consumida por desejos que alguns considerariam obscuros, mas que agora para mim soam... Como eu poderia dizer? Normais. Irônico, não é? Me sinto estranha, e ao mesmo tempo creio que qualquer pessoa no meu lugar faria exatamente a mesma coisa. Somos humanos, não somos? Seres imperfeitos. Temos o bem e o mal dentro de nós. Não somos santos.
Eu tinha uma escolha. Esquecer o passado e levar a vida adiante, ou voltar às minhas raízes e tentar recuperar aquilo que perdi. Algo que, para deixar bastante claro, não foi nada fácil. Como bem sei, fui obrigada a abrir mão daquilo que eu mais amava no mundo por causa de uma armadilha do destino. Uma armadilha na qual caí feito um patinho. Num piscar de olhos, todas as portas se fecharam para mim e minha única opção foi me afastar. Ir para longe. E assim o fiz.
É claro que, se eu pudesse escolher, jamais teria optado por ir embora, mas no final não tive alternativa. Fui forçada a ir com meu pai para o Canadá, onde o irmão mais velho dele – Travis Anderson – mora. Para ele, era a melhor coisa a se fazer. Era isso ou ir para o olho da rua. Mas eu teria preferido qualquer coisa – até mesmo a morte – a ter de deixar para trás a razão da minha existência. Isso teria evitado a surpresa desagradável que tive ao chegar aqui.
Reconheço que foi muita ingenuidade da minha parte achar que nada havia mudado entre nós. Só depois que soube que o havia perdido é que percebi que havia cometido um grave erro. Deixei-me levar pela ilusão, acreditei na minha própria mentira, e paguei um alto preço pela minha estupidez. Tive vontade de morrer, mas percebi que isso seria fácil demais. E não só isso. Me dei conta de que nada disso foi culpa de mim. E sim dela. Da garota que se meteu no meu caminho. Da maldita intrusa que ousou roubar de mim o amor do meu namorado, meus sonhos, meu futuro. Larissa Oliveira é a única culpada pela minha desgraça.
O destino nem sempre joga sujo. Às vezes, ele se torna seu cúmplice, e te leva para lugares e situações em que você nunca imaginou estar. No meu caso, foi um golpe de sorte. Um jogo de conveniências no qual me saí vitoriosa.
Em menos de uma semana, minha vida se transformou de uma forma extraordinária. Meu tio Travis – que recentemente se mudara para o Rio e tornara-se governador –, fora como um verdadeiro anjo para mim. Além de conseguir uma ótima vaga para o papai em sua agência imobiliária, ele me matriculou numa das melhores escolas de Ottawa e me encheu de presentes caríssimos. E, como se não bastasse, Travis permitiu que eu me hospedasse em sua mansão sempre que eu quisesse voltar à minha cidade-natal. As coisas não podiam ficar melhores.
Bem, até descobrir que minha pior inimiga conseguira ficar com meu bem mais precioso.
Maldita seja! Conseguiu vencer a primeira batalha. Mas eu jurei que isso não ficaria assim. Jurei que as lágrimas que derramei por causa dela seriam cobradas, uma por uma. Jurei me vingar. Larissa não faz ideia do que a espera. O jogo só está começando. As cartas já foram lançadas. Ela nem sequer imagina, mas eu a tenho em minhas mãos. A destruirei sem piedade. Logo, logo, será ela quem irá derramar lágrimas de sangue!
— Alguma novidade?
Ouço uma voz atrás de mim. Sinto um arrepio cruzar minhas costas de uma ponta à outra. Você precisa parar de me assustar assim, tenho vontade de dizer.
É Estephanie, em sua forma humana.
Continuo parada, encarando o horizonte sombrio, ouvindo o barulho das ondas lá embaixo chocando-se contra as rochas. Sinto um pouco de vertigem por causa da altura, mas ignoro isso para não parecer vulnerável.
— Ainda não. Mas ela deve chegar a qualquer momento.
— Confia nela?
— Não plenamente. Mas eu sei que ela não se atreveria a me trair. Caso isso aconteça, ela sabe quem será a mais prejudicada.
— Ela?
— Não. – Ranjo os dentes, sentindo a ânsia de vômito aumentar. – A maldita da sua irmã. A Larissa.
Viro-me e começo a adentrar a enorme sala de estar que se estende à minha frente até um enorme e pesado portão de madeira. Adrian está sentado em uma poltrona, cabisbaixo, batendo os pés nervosamente, na certa imaginando por quanto tempo mais o manterei recluso aqui. Pobre imbecil, penso comigo. Não consegue disfarçar o desespero por estar longe da sua noivinha sem sal. Se ele soubesse o quanto isso me irrita. Parece que minhas ameaças não surtiram o efeito desejado. Ele não cede. Não para de pensar um só segundo naquela cretina! Sinto vontade de cortar-lhe a garganta, mas isso não faz parte dos meus planos.
Sinto os olhos dele sobre mim, e o encaro de volta. Vejo o puro ódio nos seus olhos, e sou forçada a admitir que isso me deixa ligeiramente consternada. Ele se levanta e caminha em minha direção.
— Por quanto tempo pretende me manter aqui trancado?
Será que você não sabe perguntar outra coisa, seu imbecil?
— Até quando eu quiser. Já deixei isso bastante claro. Ou será que preciso explicar outra vez?
Adrian respira fundo, claramente obrigando-se a não surtar.
— É impossível acreditar que um dia eu amei você. Sinceramente, nunca pensei que pudesse...
— Que eu pudesse o quê? Mudar tanto assim? Já falamos sobre isso, meu querido. A vida foi... um tanto injusta comigo. Mas o mundo dá muitas voltas, Adrian. E a gente nunca sabe o dia de amanhã.
— Como assim? O que quer dizer com isso?
Não respondo. Deixo a pergunta no ar ao escutar o barulho da porta se abrindo atrás de mim. Alguém está entrando.
— Finalmente – digo, sem me virar. – Estava imaginando a que horas você iria chegar.
Viro-me. Uma garota alta, vestindo uma capa negra com capuz, se aproxima. Seus cabelos longos e lisos escorrem para fora, e embora eu não consiga ver seu rosto, sei perfeitamente quem é.
Encaro Adrian, sorrindo, enquanto o mesmo observa a garota de capuz que está entrando. Receio que ele suspeite de quem se trata. Mas, pensando bem, o que importa?
— Então? Alguma novidade?
A criatura pára bem no meio da sala e, após alguns segundos, levanta a cabeça e retira o capuz. Olho para Adrian a tempo de vê-lo recuar um passo, como se estivesse a perder o equilíbrio. Divirto-me com sua cara de espanto. Pergunto-me o que estará passando pela sua cabeça.
— Yasmin? – Diz, finalmente. – Não...
— O plano funcionou perfeitamente. Larissa já está no fundo do poço.
Fale com o autor