Paraíso Sombrio
48 Nossos sonhos
Notas iniciais
Sentindo os braços e as pernas finalmente livres do chakra de Hinata, o corpo imaterial de Naruto caiu de joelhos, as mãos apoiadas no chão, enquanto ele puxava o ar dos pulmões a fim de recuperar o fôlego. As lágrimas rolavam por seu rosto de forma involuntária, e ele tentava assimilar todas as lembranças que Hinata acabara de lhe mostrar, todas as informações reunidas em um flash de um segundo, mas que poderia ter durado uma eternidade. Ainda era impossível discernir as cores ao redor, ou a sensação desesperadora que se apossava de seu peito. Tudo o que Naruto conseguia enxergar naquele momento era a lembrança de Sasuke indo embora.
–Sa... Sasuke... – o loiro murmurou, perplexo, vendo os pingos de lágrimas escorregarem por seu rosto e caírem no chão infinito de sua mente. O eco de suas lágrimas e de seu pesar reverberava pelas paredes de sua consciência, como se todo o corpo de Naruto estivesse prestes a desabar.
–Agora você sabe a verdade. – Hinata disse, vendo Naruto erguer o rosto para encará-la com uma expressão contorcida pela dor – Agora você sabe quem ele é.
Naruto permaneceu em silêncio, fitando o rosto sério de Hinata, ainda em estado de choque pelo que acabara de ver. Todo o seu corpo parecia estar paralisado. Era muita coisa para uma só mente assimilar.
–Precisamos voltar. – ela disse, se ajoelhando diante de Naruto e tocando o rosto dele com delicadeza – Você vem comigo?
O toque de Hinata era a maneira mais efetiva de despertar todos os sentidos do loiro. Era como se todo o seu corpo funcionasse em perfeita consonância com o da Hyuuga, como se suas células se agrupassem de acordo com as dela. Os dedos da morena na pele de Naruto faziam com que a respiração novamente fluísse fácil por seus pulmões, e lhe davam a sensação de estar despertando de um terrível pesadelo.
Ele então se levantou, e olhou para Kyuubi.
–Claro que sim. – Naruto respondeu – Preciso dar uns murros naquele Uchiha idiota. – falou, exibindo a garota um sorriso torto.
Hinata também se levantou e caminhou na direção de Kyuubi, seguida por Naruto, parando em frente ao enorme focinho do Bijuu, encarando fixamente os ferozes orbes vermelhos.
“Fez sua escolha, garota?”, Kyuubi questionou, mas não havia revolta, raiva, ironia ou insegurança em sua voz. Seus olhos estavam fixos nas duas estrelas peroladas a sua frente. Mentalmente, Kyuubi se perguntava se Jiraya havia tido aquela bela visão antes de partir. Esperava que sim.
–Sim. – ela respondeu, a expressão mais séria do que nunca.
“Finalmente.”, o Bijuu assentiu, parecendo aliviado. Finalmente, tudo aquilo chegaria ao fim.
Não era hora de ter medo, de recuar ou de se arrepender. Não, Kyuubi não tinha arrependimentos. Vivera uma bela vida ao lado de Naruto, e foi aquele garoto cheio de mágoas e amarguras que o ajudara a amadurecer seu poder. Ao lado do Uzumaki, e também ao lado de Jiraya, Kyuubi pôde aproveitar sua existência da forma mais completa possível. Naruto havia sido o jinchuuriki mais problemático, amargurado, irresponsável... Mas também o mais generoso, forte, e a força dele não se restringia ao poder dado pelo Bijuu. Naruto era forte porque conseguiu abrir seu coração para integrar-se a uma nova família e esquecer o passado atormentado que teve. Ele era forte, pois se importava tanto com sua família que seria capaz de dar a própria vida para salvar um dos seus. Naruto era forte porque possuía um coração forte. E por isso, Kyuubi se sentia grato por ter tido a oportunidade de conhecer um jinchuuriki como ele.
O Bijuu suspirou. Face a face com sua pior ameaça, Kyuubi se curvou, baixando a cabeça, apoiando o queixo nas patas, esperando que viesse o golpe ou a carícia, a morte ou a vida. Não importava.
“O garoto Uchiha é um bom mestre.”, Kyuubi murmurou, percebendo a expressão séria de Hinata suavizar ao ouvir a referência à Sasuke.
–Sim, ele é. – ela respondeu. Sasuke era, de fato, um mestre melhor do que ele mesmo acreditava ser.
“Sabe, garota...”, Kyuubi prosseguiu, “Quando você nasceu, eu não consegui acreditar que poderia existir alguém tão poderoso que pudesse me matar. Agora eu sei que estava errado. Porém, não se engane. Não é o seu poder que te faz tão forte.”
–Ah, não? – Hinata questionou, surpresa com aquelas palavras – E o que é que me faz forte?
O Bijuu suspirou, e seus grandes orbes se fixaram em Naruto.
“O seu coração.”, Kyuubi respondeu, para em seguida fechar os olhos, preparando-se para o que quer que estivesse por vir.
Hinata sorriu. As batidas em seu peito soavam uníssonas com as do coração de Naruto, como se os dois fossem um só. Kyuubi tinha razão. Era o coração dela, unido ao do Uzumaki, que a tornava verdadeiramente forte.
Ela então entrelaçou os dedos nos de Naruto, e os dois também fecharam os olhos, sentindo os chakras azul e laranja inundarem a consciência do loiro e envolver todo o gigantesco corpo de Kyuubi.
Em seguida, tudo virou borrão.
Sem compreender nada do que estava acontecendo, Sakura encarou Temari, os olhos verdes exprimindo a interrogação muda que estampava sua mente. Mas a Sabaku não lhe deu atenção. Sob os olhares de todos os presentes, Temari continuou a encarar Orochimaru, que se contorcia sob o aperto das mãos de Sakura.
Preso no transe do sharingan, o homem-cobra experimentava mil anos de dor em um único segundo. Temari tinha certeza de que Sasori, onde quer que estivesse, poderia perdoá-la por guardar aquele mínimo sentimento de vingança. Afinal, ela ainda queria voltar para casa.
–Os... – Orochimaru tentou murmurar em meio à dor – Os Sabaku são mesmo irritantes, não são? – ele perguntou, sorrindo, embora seu rosto se contorcesse em dor – A sua força me lembra a persistência de Sasori, quando... – suas palavras foram interrompidas pela dor mais intensa que o atingia. Sua provocação estava funcionando – Quando eu o torturei para saber onde inferno estavam os olhos de Itachi... e onde estava o jinchuuriki de Ichibi... Mas ele preferiu morrer do que dizer aonde vocês estavam... Sasori era mesmo um homem estúpido, não é mesmo?
–NÃO PRONUNCIE O NOME DO MEU MESTRE COM ESSA SUA BOCA IMUNDA! – Temari gritou, perdendo totalmente o controle do sharingan.
Aquele segundo de fraqueza foi suficiente para que Orochimaru se livrasse das mãos de Sakura, que rapidamente o soltou antes de ser queimada pelo chakra sombrio que voltava a circular livremente pelo corpo do homem-cobra. Com um único golpe, os dedos contorcidos em presas de Orochimaru esmurraram o rosto de Temari, fazendo com que o corpo dela voasse para longe.
De um dos cantos do grande salão, o arquejar fraco de Sasuke logo se fez ouvir.
–Te... Temari... Não... – o Uchiha murmurou inutilmente, estreitando os olhos a fim de enxergar direito o que acontecia. Tudo ao seu redor parecia embaçado demais para que ele conseguisse distinguir a realidade das sombras que dançavam sobre seu corpo ensanguentado e estirado no chão. O martelar fraco de seu coração dizia que ele estava chegando ao limite.
–Hum... – Orochimaru resmungou, sorrindo, massageando o pescoço. Aquela curadora quase o estrangulara, e seu corpo ainda estava dolorido por ter ficado preso por tanto tempo dentro do sharingan de Temari – Eu quase me esqueci de você, traidor. – ele provocou, caminhando na direção de Sasuke.
As garotas já não podiam fazer mais nada, e os rapazes estavam feridos demais para impedi-lo. Orochimaru lambeu os lábios, deliciando-se com a visão da presa indefesa à sua frente. O ferimento de Sasuke era profundo demais para que ele tivesse forças para fugir. E, para o homem-cobra, não havia nada mais delicioso do que o sangue de um traidor sendo derramado pelas suas mãos. Se não poderia matar a família do Uchiha, mataria então o próprio Sasuke, para saciar seu desejo assassino.
“Droga... Não vai dar tempo...”, Sasuke pensou, desesperado. Com dificuldade, ele ergueu a cabeça a fim de olhar para onde Naruto e Hinata estavam. Será que a Hyuuga não iria conseguir? Será que estava tudo perdido?
Porém, pela escuridão ou pelo torpor, Sasuke não viu nem Hinata nem Naruto no lugar onde antes os dois estavam presos em transe. Onde eles estavam?
Preparando-se para aceitar a derrota, Sasuke fechou os olhos. A última coisa que viu foi o sorriso sádico de Orochimaru, que estava prestes a golpeá-lo fatalmente.
Foi quando um baque surdo atingiu o estômago de Orochimaru, e ele teria sido arremessado para longe com aquele murro, não fosse uma mão desconhecida agarrá-lo pelos cabelos, impedindo-o de se afastar, para em seguida cravar os dedos no pescoço do homem-cobra. Um chakra alaranjado repentinamente envolveu o corpo do inimigo, se confundindo com as fagulhas azuis que zuniam como mil correntes elétricas em choque, queimando a pele de Orochimaru, mas dessa vez, as escamas não apareciam mais para curá-lo. Antes que a pele do homem-cobra pudesse se regenerar, o chakra que o envolvia queimava suas células, impedindo a cura dos ferimentos que agora se alastravam por seu corpo.
–Ky... Kyuubi... – Orochimaru conseguiu murmurar, as palavras carregadas de ódio soando com dificuldade. Afinal, não era fácil falar quando uma mão tão forte agarrava seu pescoço com tamanha brutalidade.
A cortina de chakra baixou, revelando o corpo de Naruto na frente de Sasuke, a cabeça baixa e os olhos fixos no chão, uma das mãos cravadas no pescoço de Orochimaru.
E quando o loiro ergueu o rosto para fitar o inimigo, seus olhos estavam completamente vermelhos, embora apresentassem o brilho azul de um poder que o deixava mais forte do que nunca.
–O nome dele é... – Naruto sibilou, os olhos avermelhados fixos nos do homem-cobra – KURAMA! – gritou, o bijuu desperto dentro dele rugindo alto.
O chakra de Kyuubi dominou todo o lugar, fazendo a família de Naruto arregalar os olhos ao ouvirem o rugido do Bijuu ecoar pelo salão. Nunca nenhum deles havia visto ou ouvido tal coisa. Como um bijuu poderia ser tão forte a ponto de expandir-se da mente do junchuuriki e dominar tamanho poder? Como poderia existir um ser humano capaz de suportar uma energia como aquela?
Mas eles também sabiam que não se tratava de um ser humano qualquer, e muito menos de um bijuu qualquer.
Aqueles eram a raposa de Nove Caudas e o jinchuuriki mais poderoso que já existiu:Uzumaki Naruto.
E toda a sua família sabia que um discípulo de Jiraya não seria nada menos do que o homem de coração mais forte que qualquer um poderia conhecer.
O loiro rosnou junto à Kurama, seu coração finalmente unido ao poder do bijuu. Então aquele era o tal poder de que seu mestre tanto falara... Tantos anos de treino, tantos sermões sobre o momento de estar pronto. “Quando estarei pronto?”, Naruto havia perguntado à Jiraya. “Quando encontrar algo que valha realmente a pena proteger.”, o mestre respondera.
Os olhos vermelhos de Naruto vasculharam a escuridão do salão, deparando-se com os rostos de Ino, Sakura, Gaara, Kiba, Shikamaru, Temari, Hanabi, Neji, Tenten, Sasuke e Hinata.
Os olhos poderosos da Hyuuga o encaravam como se também houvessem encontrado algo importante para proteger.
Naruto finalmente entendera o que seu mestre levou tantos anos para lhe ensinar.
Percebendo que havia algo estranho acontecendo, Sasuke finalmente abriu os olhos, enxergando vagamente o corpo de Naruto à sua frente, protegendo-o do poder de Orochimaru. As fagulhas de chakra azul rodeavam o salão, misturando-se ao chakra laranja de Naruto em perfeita sintonia, colocando o poder do loiro em potência máxima. De longe, Sasuke viu o corpo de Hinata envolvido pelas mesmas faíscas azuis que zuniam em seus ouvidos como mil correntes elétricas sendo disparadas em sua direção.
Os olhos da Hyuuga brilhavam, fixos em Naruto, enquanto ela se concentrava em unir seu coração ao dele. Dentro da mente de Hinata, o rugido de Kyuubi ecoava alto.
Sentindo que aquele poder era forte demais para que qualquer outra pessoa, a não ser Naruto e Hinata, pudesse suportar, Sakura se abaixou e colocou as mãos no chão. Tentou se concentrar por um instante, fazendo com que seu chakra curador se alastrasse pelo piso do salão, alcançando todos os membros de sua família. Eles se deixaram envolver pela energia protetora, sentindo o peso do chakra de Naruto aliviar um pouco. A luz verde brilhou com mais intensidade ao redor do corpo ferido de Sasuke, e ele sorriu. Sakura era tão teimosa... Esperava que sua filha não herdasse toda aquela teimosia. Esperava, também, que sobrevivesse para mostrar à Haruno que havia aprendido sua lição: Não duvidaria, jamais, do poder e da coragem da mulher que amava.
Foi quando Sasuke sentiu a aproximação de alguém, mas estava fraco demais para olhar para trás. A sombra de belos contornos se abaixou perto dele, e sua visão embaçada distinguiu o brilho vermelho que ele conhecia tão bem... Sharingan? Seria possível?
–E ai, Sasuke? – Temari o cumprimentou, sorrindo – Te deixo sozinho por alguns anos e você se mete numa encrenca dessas, cara? – perguntou, debochada.
O moreno tentou responder, mas estava fraco demais para conseguir falar. Sentiu seu corpo sendo levantado pela Sabaku, o braço sendo passado ao redor do pescoço dela enquanto a loira o arrastava para algum lugar que ele não conseguia distinguir. Sua visão estava cada vez mais embaçada... Havia perdido sangue demais, e o veneno ainda ardia em seu corpo. Sasuke olhou para o lado, tentando verificar se estava delirando, ou se o que vira antes era mesmo real.
Os olhos vermelhos pelo sharingan desperto de Temari o fitaram, e a loira sorriu para ele.
–Descanse... – ela murmurou, carregando o Uchiha com cuidado – Você já fez o bastante. Logo tudo isso vai acabar.
O moreno suspirou, sentindo o corpo latejar, as pálpebras pesarem. A Sabaku tinha razão, afinal. Não estava mais nas mãos dele.
Antes de desmaiar, Sasuke poderia jurar que, através dos olhos de Temari, Uchiha Itachi sorria para ele.
“É isso o que se sente quando você está dobrado e quebrado
É isso o que se sente quando sua dignidade é roubada
Quando tudo que você ama está indo embora
Você se apóia no que você acredita
A última coisa que ouvi foi que você sussurrando adeus
E então eu ouvi seu coração parar
Não, não morreremos hoje à noite
Temos que ficar e lutar para sempre”
Not Gonna Die – Skillet
Um soco. Dez. Cem. Os punhos cerrados de Naruto acertavam o rosto de Orochimaru, mas ele não reagia. O chakra de Kyuubi, misturado ao de Hinata, queimava a pele do inimigo de tal forma que impossibilitava a regeneração das células. A testa de Naruto colidiu com a do homem-cobra e ele foi lançado para longe, sendo barrado por uma árvore que se espatifou com o baque, tendo sua metade superior derrubada.
A visão grotesca do corpo queimado de Orochimaru se arrastando para fora do salão atraiu a atenção de todos. Os chakras de Naruto e Hinata se uniam com tal força sobre ele que o homem-cobra mal conseguia respirar.
Uma nova rajada da energia de Kyuubi o atingiu, e o barulho do baque ecoou por todo o salão, misturado ao rugido do Bijuu e às milhares de fagulhas azuis que ainda zuniam como correntes elétricas em colisão. Naruto fitou Orochimaru com desprezo, seu rosto estampado por uma expressão séria e concentrada. O inimigo agora em nada parecia o homem imponente e irônico que chegara à mansão instantes atrás. Orochimaru se arrastava pelo chão como uma serpente derrotada, apavorado pelo poder desperto da besta de Nove Caudas.
O punho cerrado de Naruto, envolvido pelo chakra laranja de Kyuubi e pelas fagulhas azuis de Hinata, acertou novamente o corpo de Orochimaru. Por seu mestre. Por Sasuke. Por Hinata. Por sua família.
Arquejando de dor, imobilizado pelo chakra de Naruto, Orochimaru se contorceu no chão, e seus olhos encontraram os da poderosa Hyuuga.
–Minha... Minha joia preciosa... – Orochimaru murmurou, os olhos fixos em Hinata. O poder que ele mais queria, misturado ao poder de que ele mais precisava. Naruto e Hinata, como uma só força. Uma força que ele jamais teria.
–ELA É MINHA! – Naruto gritou, esmurrando o homem-cobra novamente. O corpo queimado do inimigo agora começava, aos poucos, a se esfarelar.
Gaara olhou para Ino, que assistia a tudo com uma expressão paralisada. Seus olhos azuis estavam fixos em Naruto e Hinata, e a loira não conseguia assimilar como aqueles dois eram capazes de guardar dentro de si tamanho poder. Mesmo estando envolvida pelo fraco chakra curador de Sakura, a energia de Kyuubi, misturada ao chakra de Hinata, começava a afetar o corpo de Ino, e ela caiu de joelhos, sentindo mais um pouco de sangue jorrar de seu nariz.
–Ino, saia daqui. – Gaara falou, vendo os grandes olhos azuis da Yamanaka encararem-no com incredulidade. O ruivo estava todo estropiado, as roupas rasgadas, o sangue jorrando, farto, de um ferimento na testa e de outro no ombro – Deidara e Sai devem estar sofrendo com esse chakra monstruoso, eles sequer sabem o que está acontecendo aqui dentro. Alguém tem que tira-los daqui.
–Mas você... – ela tentou protestar.
–Eu vou ficar bem. – Gaara garantiu, tentando sorrir em meio a dor – Juntos até o fim, lembra? – perguntou, vendo mais sangue jorrar do nariz de Ino – Vá, tire eles daqui e depois me espere na floricultura. Eu vou encontrar você lá. Prometo.
Os pensamentos de Ino se voltaram para Sai e Deidara, imaginando que os amigos deveriam estar confusos e um tanto assustados com aquele chakra que agora se alastrava por toda a mansão. Ela olhou para Gaara, limpando o sangue que escorregava pela curva de seus lábios.
–Se você não for me encontrar, se você morrer... – ela sibilou, os olhos estreitos na direção do ruivo em sinal de ameaça – Eu vou até o inferno só pra matar você de novo, entendeu?!
Gaara sorriu e assentiu, antes de ver Ino apressar-se na direção dos portões. Ele então voltou os olhos para Naruto, que agora arrastava o corpo arquejante de Orochimaru pelo salão.
O loiro jogou o corpo do inimigo aos pés de Hinata, encarando-a com um sorriso cruel nos lábios.
–Quer fazer as honras? – ele perguntou à morena.
Fraco, o homem-cobra tentou rastejar para distante de Hinata, mas o pé da garota atingiu seu peito com força, grudando suas costas no chão. Os olhos perolados, rodeados pelas veias ressaltadas, o fitavam com uma expressão séria, fazendo o corpo de Orochimaru tremer de pavor.
A Hyuuga ergueu os punhos, a ponta dos dedos iluminada pelo brilho azul de seu chakra.
–Pi... Piedade... – Orochimaru murmurou o pedido desesperado.
Hinata suspirou e, por um instante, a lembrança de sua mãe lhe tomou a mente, fazendo seu crakra brilhar com mais intensidade. De uma maneira estranha, ela sentia que a mãe estava ao seu lado naquele momento.
–Pessoas insignificantes não merecem piedade. – a Hyuuga rebateu, repetindo as mesmas palavras que Orochimaru havia lhe dito pouco antes de ela entrar em transe com Naruto.
Os olhos do homem-cobra se arregalaram ainda mais de pavor quando os dedos de Hinata se moveram na direção de seu pescoço e ele gritou, arqueando o corpo, como se todas as suas terminações nervosas queimassem dentro de si. Seu último vislumbre foi o poder que ele tanto quis alcançar escapando de seus dedos, enquanto ele afundava na escuridão.
O salão foi inundado pela luz azul que explodia como um milhão de fagulhas elétricas incendiando o lugar, cegando a todos que estavam ali.
Aquele era, sem dúvida, o brilho mais bonito que qualquer um deles já havia visto na vida.
Era o brilho da liberdade.
Quando a luz azul finalmente cedeu espaço à escuridão do salão, não havia sequer restos mortais de Orochimaru para serem contemplados. O chakra de Hinata envolvera o homem-cobra com tamanha força que o corpo dele se desintegrara nas sombras, perdendo-se em dor e agonia.
Hinata fitou o chão vazio a sua frente, sentindo os joelhos fraquejarem. Ela teria caído no chão, não fossem os braços de Naruto, que logo a envolveram em um caloroso abraço. Os olhos dele haviam voltado à tonalidade azul e a encaravam com preocupação.
–Ssshh... – Naruto murmurou, acariciando os cabelos de Hinata – Acabou... Acabou...
Perplexa, a morena ainda fitava o chão vazio. Estava acabado. O pesadelo havia acabado.
Finalmente caindo em si, ela abraçou Naruto de volta, sentindo o loiro suspirar de alívio. Hinata mal podia esperar para contar a Sasuke que o inimigo agora já não existia mais, que ele poderia voltar para casa, e que todos eles poderiam começar a viver seus sonhos. Ela mal podia esperar para também voltar para casa e recomeçar a viver ao lado de Naruto. O pesadelo havia acabado. Eles estavam livres.
Foi quando os dois escutaram o murmúrio incrédulo de Temari vindo de um dos cantos do salão.
–Não... Não... Não... – a voz dela ecoava, fraca.
Naruto e Hinata se apressaram na direção onde estava Temari, percebendo que todos estavam ao redor da Sabaku, paralisados. Abriram caminho por entre Kiba e os outros, vendo Sakura e Temari sentadas ao lado do corpo de Sasuke, fitando o moreno com expressões apavoradas. Os olhos da Sabaku brilhavam pelas lágrimas acumuladas nas pálpebras.
–Ele... Ele não reage... – Temari falou, a voz trêmula pelo choro que ela não deixava cair. Sua mente se recusava a acreditar no que estava acontecendo. Não depois de tudo o que passaram juntos, não depois de terem chegado até ali. Não depois de poderem, finalmente, voltar para casa.
Hinata caiu de joelhos ao lado do corpo do mestre, a incredulidade estampando sua expressão paralisada. Eles haviam feito tudo certo... O inimigo fora derrotado... Eles poderiam voltar para casa, agora. Aquilo não deveria estar acontecendo. Por que aquilo estava acontecendo?
A Hyuuga arfou, apavorada. Não era real. Não, ela não poderia perder seu mestre. Não depois de tudo, não depois de todos os esforços, não depois de tudo o que aprendera com ele, não depois de Sasuke ter se sacrificado tanto. Ele merecia ver o futuro acontecer, merecia ver seus sonhos virando realidade, merecia viver... Então, por que aquilo estava acontecendo? O que havia dado errado?
Desesperado, Naruto também caiu de joelhos ao lado do irmão.
–VOCÊ NÃO PODE MORRER, ENTENDEU?! NÃO PODE MORRER! – o loiro gritou, enquanto suas mãos pressionavam o peito de Sasuke, tentando reanima-lo – ABRA OS OLHOS, IDIOTA! MOSTRE PRA MIM A DROGA DESSE SHARINGAN MAIS UMA VEZ! ANDA!
Ao lado do Uzumaki, Hinata esperava. Os olhos perolados da morena estavam fixos no corpo inerte de Sasuke, enquanto Naruto tentava, a todo custo, reanimar o irmão.
–VAMOS... – o Uzumaki insistia, sua voz soando como um rosnado desesperado – VAMOS, SASUKE... – ele implorou mais uma vez, forçando ainda mais o peito do amigo – VOCÊ NÃO PODE SIMPLESMENTE ME DEIXAR... NÃO DEPOIS DE TUDO... VAMOS... VAMOS, SASUKE, ABRA OS OLHOS...
De joelhos ao lado do corpo de Sasuke, Sakura também fitava o corpo do moreno com a expressão de quem não estava acreditando no que via. Seu chakra parecia ter parado de circular, tão perplexa estava. Ela havia tentado reanima-lo, mas não obteve sucesso. Seus olhos demonstravam cansaço, pavor, medo. Paralisada, ela também esperava que Naruto conseguisse fazer com que o Uchiha acordasse.
–ANDA, IDIOTA, ABRA OS OLHOS! – o loiro rosnou mais uma vez, sentindo as lágrimas começarem a se acumular em seus olhos, enquanto as de Hinata já rolavam, fartas – ABRA OS OLHOS! VAMOS... VAMOS, SASUKE! – Naruto berrou, dessa vez esmurrando o peito do moreno. Inconformado, ele apoiou a testa no tórax de Sasuke. Não, não, não e não. Aquilo de novo, não. Outro dos seus que se ia. Não... Aquilo não podia estar acontecendo. Não mesmo.
Mas, sob suas mãos, as batidas do coração de Sasuke já esmoreciam.
Até que Naruto sentiu o peito do Uchiha pulsar pela última vez, e em seguida...
Não havia mais nada.
–SASUKEEEEEE! – o grito de Naruto ecoou por todo o salão.
Memórias de um passado distante
–SASUKEEEEEE! – Naruto gritou, indignado – Não vale! Eu que tava com a bola!
O pequeno Uchiha se aproximou do amigo, encarando-o com uma expressão emburrada. Estavam no imenso jardim da ORDEM, e enquanto caminhava, Sasuke podia sentir a umidade da grama verde sob os pés descalços. A sensação era boa, mas, naquele momento, não era aquilo que prendia sua atenção.
–Não tava! – Sasuke rebateu, os dedos firmes na bola, enquanto Naruto tentava toma-la de suas mãos.
–Tava sim! – o loirinho berrou, esforçando-se para arrancar a bola de Sasuke.
–Não tava, não!
–Tava sim!
–Não tava!
–Parem já com essa discussão idiota antes que eu parta a cabeça de vocês dois! – Sakura berrou, se colocando no meio dos garotos e acertando os queixos de Naruto e Sasuke com os punhos cerrados, fazendo com que eles caíssem sentados na grama, alisando a pele atingida pelo soco da rosada – Tio Kakashi nos mandou para cá para treinarmos e não pra vocês ficarem brincando de bola! – disse, para em seguida se abaixar para pegar as pequenas muletas que havia deixado no chão para bater nos amigos. Com dificuldade, ela se afastou dos dois, equilibrando-se com a ajuda das muletas e da perna que não estava engessada. “Droga de escada...”, ela praguejou mentalmente, lembrando-se da queda que havia levado e que acabara fazendo com que quebrasse a perna.
Sentado sob a sombra de uma das árvores, em silêncio, Gaara suspirou, apoiando o queixo nos joelhos. Dia após dia, ele observava aquelas crianças barulhentas, sem conseguir enxergar o que seu mestre tanto queria que ele entendesse. Naruto, Sasuke e Sakura estavam sempre discutindo por alguma bobagem, embora não desgrudassem nunca um do outro. O ruivo revirou os olhos ao se lembrar da insistência daqueles três para que ele os acompanhasse num jogo de futebol. Gaara não se interessava por esportes, então achava melhor ficar quieto, apenas observando, já que Naruto, Sasuke e Sakura não estavam dispostos a deixa-lo sair dali.
–Você só tá brava porque não pode brincar! – Sasuke revidou, levantando e pegando a bola que havia derrubado quando recebeu o soco da rosada.
Sakura cruzou os braços, emburrada.
–Seus idiotas! Eu não quero brincar disso! Quero treinar! – ela gritou, sentando-se na grama.
–Mentira! Você tá é com inveja porque não pode brincar! – Naruto rebateu, levantando também. E quando ele estava prestes a correr na direção de Sasuke, a fim de retomar a briga pela bola, os dois garotos ouviram o fungar baixo da rosada.
Sentindo um arrepio de pavor percorrer suas espinhas, Sasuke e Naruto se viraram para onde Sakura estava sentada com o rosto escondido entre os joelhos.
–S...Sakura? – Sasuke chamou, paralisado. Sua expressão aterrorizada se igualava a de Naruto, e os dois mantinham o olhar fixo na figura miúda da Haruno.
–Vocês são uns bobos! Uns bobos! – Sakura gritou, erguendo rapidamente a cabeça, exibindo aos amigos as lágrimas que desciam. Irritada, ela novamente escondeu o rosto entre os joelhos.
Um outro arrepio percorreu o corpo dos garotos. Tomados pela sensação desconfortável de quem não sabe o que fazer, eles se aproximaram de Sakura, abaixando-se cada um de um lado dela.
–Sa-Sakura... A gente tava só brincando... Não... Não chora, não... – Naruto murmurou, apavorado, ouvindo os soluços da rosada – Sasuke, sua vez. – ele resmungou para o Uchiha, sem saber o que fazer.
–O quê?! – Sasuke grunhiu, apavorado também – Ah... Sa-Sakura... Não chora... – pediu, debilmente, ouvindo a rosada soluçar cada vez mais alto, ainda de cabeça baixa – A gente dá um jeito de você poder brincar... Né, Naruto?
O loiro franziu o cenho, como se perguntasse à Sasuke como poderiam fazer a menina brincar de bola estando com a perna engessada. O Uchiha deu de ombros, como se tivesse dito aquilo apenas para tentar fazer Sakura parar de chorar, e também não tivesse a mínima ideia de como colocar sua ideia em prática.
Ainda fungando, a rosada ergueu o rosto, a fim de encarar os amigos.
–Mesmo? – ela perguntou, começando a se animar.
–Claro! – Naruto entrou no embalo, sorrindo – Vamos fazer de conta que você é a goleira, daí você pode ficar sentada aqui, e essas árvores vão ser as traves do gol... Dai você defende as bolas que a gente mandar e como o espaço entre as árvores é pequeno, você pode ficar sentada!
Sakura sorriu.
–Tudo bem! Vamos lá! – a rosada alarmou, jogando as muletas para longe.
Os garotos se levantaram, satisfeitos por fazer a amiga parar de chorar. Porém, antes de se afastar, Sasuke olhou para Sakura, exibindo um sorriso travesso.
–Aliás, você está muito linda hoje, Sakura! – Sasuke falou, piscando para a rosada.
A Haruno sentiu as bochechas serem tomadas pelo rubor que fazia sua pele esquentar, mas logo o grito de Naruto a despertou do transe em que parecia ter mergulhado.
–Quêêêê?! Isso não vale! Isso é trapaça! – o loiro se intrometeu – Você só tá dizendo isso pra ela não defender as bolas que você chutar pro gol!
–Mentira! – Sasuke se defendeu – É mentira, Sakura!
–É verdade! – Naruto gritou, indignado – Sakura, se isso contar em meu favor, eu acho você linda todos os dias, não só hoje!
–Por que está gritando no meu ouvido, idiota?! – Sasuke gritou de volta para o loiro, começando a se irritar com o escândalo de Naruto.
–CALEM A BOCA OS DOIS E COMECEM LOGO A CHUTAR A DROGA DESSA BOLA! – Sakura berrou, impaciente.
Os dois garotos pararam de discutir por um instante e se entreolharam, sorrindo um para o outro, como se estivessem prestes a fazer alguma traquinagem. Em seguida, encararam Sakura.
–O que... Por que estão me olhando desse jeito? – ela perguntou, receosa.
Naruto e Sasuke correram na direção de onde ela estava sentada, e a rosada não conseguiu escapar a tempo. Os dois garotos se jogaram por cima dela, obrigando-a a deitar na grama, cobrindo o rosto de Sakura de beijos.
Ainda sentado sob a sombra da árvore, Gaara suspirou e revirou os olhos. Bando de malucos.
–Argh! Eca! – a rosada esperneou, tentando se soltar, mas Naruto e Sasuke não deixaram – Tio Kakashi! Socorro!
***
–Por... Por que está gritando no meu ouvido... Idiota...? – o murmúrio fraco atraiu a atenção de todos os presentes.
Naruto ergueu rapidamente a cabeça para encarar os olhos semiabertos de Sasuke. O moreno exibiu ao irmão um sorriso torto e irônico, debochando da expressão perplexa do Uzumaki.
Sob suas mãos, Naruto pôde sentir o martelar forte do coração de Sasuke que, por teimosia, voltava a bater.
–SASUKE! – o loiro abraçou o Uchiha sem parar para pensar no que estava fazendo.
–Ai. – Sasuke murmurou, o arquejo fraco fazendo com que Naruto se afastasse.
–Epa. – o Uzumaki coçou a cabeça e sorriu, displicente – Vou deixar pra te socar depois que a Sakura te curar. – disse, ainda sorrindo.
Em meio a dor, Sasuke ainda sorria, sem perceber que Temari o encarava com os olhos cheios de lágrimas. Quando ele enfim olhou para ela, percebeu que a loira estava de mãos dadas com Shikamaru, e sorriu mais ainda. A Sabaku sorriu de volta, e em seguida, suspirou. Ela ainda se lembrava do sorriso de Itachi, pouco antes de ele morrer. Os Uchihas eram mesmo idiotas... Por que, mesmo na dor, eles insistiam em sorrir?
Talvez, a resposta estivesse na felicidade de Naruto em ver o irmão vivo, ou em seus dedos entrelaçados aos de Shikamaru. Temari não tinha certeza. O único pensamento que ocupava sua mente naquele momento era o de que ela poderia, finalmente, voltar para casa.
Sasuke novamente olhou para Naruto, e os dois se encararam por um instante. O loiro sentiu os olhos encherem de lágrimas, mas pigarreou, tentando disfarçar a emoção que sentia.
–Idiota. – o Uchiha debochou, sentindo uma lágrima involuntária rolar pela bochecha. Ele ergueu fracamente o punho fechado na direção de Naruto.
O loiro sorriu e juntou o próprio punho fechado ao de Sasuke, selando o cumprimento.
–Agora você pode voltar pra casa, idiota. – Naruto rebateu, e as lágrimas também rolavam por seu rosto.
–Sim... – Sasuke murmurou, sorrindo. Olhou para Hinata, e seu sorriso fraco se alargou. Sua expressão era a de um mestre orgulhoso — Você conseguiu, Hyuuga. – falou, vendo a discípula sorrir também – Estamos livres.
Hinata apertou a mão de Sasuke, deixando mais algumas lágrimas rolarem por seu rosto.
–Sim, estamos livres. Podemos, finalmente, começar a viver nossos sonhos, lembra? Eu prometi a você que sobreviveríamos para ver o seu futuro acontecer. – ela disse, percebendo os primeiros pingos de chuva começarem a cair sobre o salão. Hinata soltou a mão de Sasuke e se levantou, ficando ao lado de Naruto, dando espaço para Sakura se aproximar.
–Obrigado... – Sasuke agradeceu à discípula – Por... tudo.
A morena assentiu, mas antes de falar qualquer outra coisa, ela olhou para os lados. Estava faltando alguém ali.
–Ei, cadê o Gaara? E a Ino? – ela perguntou, preocupada.
Naruto riu, envolvendo a Hyuuga em um abraço apertado. Aos poucos, a chuva desabava sobre o salão, obrigando a todos a se refugiarem dentro da mansão. Shikamaru e Neji ergueram o corpo de Sasuke com cuidado, deixando-o sob os cuidados de Sakura.
–Acho que eles dois também podem começar a viver, agora, não é mesmo? – Naruto disse, respondendo à pergunta de Hinata.
Chovia como nunca quando Gaara enfim chegou à floricultura. Já era tarde, o céu da madrugada ainda estava escuro, como se o mundo estivesse prestes a acabar, mas ele sabia que não acabaria. Aquele era apenas o começo de suas vidas.
O Sabaku desceu do carro, sem se importar com a chuva que lhe encharcava os cabelos e o corpo. Ele esmurrou a porta da floricultura, fazendo o baque surdo de seu chamado ecoar por toda a rua. Não demorou até que ouvisse os passos apressados da Yamanaka, que arregalou os olhos ao ver o rosto do rapaz pela vidraça da porta.
“E nós estamos longe de casa, mas estamos tão felizes
Longe de casa e sozinhos, mas tão felizes.
Depois de cada dia ensolarado
Vem uma noite tempestuosa.”
From Finner – Of Monsters And Men
–Gaara? – ela perguntou, surpresa ao ver o ruivo completamente molhado, emoldurado pelos constantes relâmpagos que vez por outra iluminavam aquele céu escuro – Gaara! – gritou, sentindo seu coração ser invadido pelo alívio.
–Acabou, Ino. – ele murmurou, sorrindo, respirando com dificuldade pelo esforço de ter corrido do carro até ali – Finalmente acabou.
–Do que você está fa... – a loira tentou começar, mas se interrompeu quando girou a maçaneta e sentiu Gaara empurrando a porta com força a fim de entrar na floricultura. Ela recuou um passo, dando espaço para que ele passasse, mas o ruivo apenas sorriu abertamente para ela e a envolveu em um forte e molhado abraço – Gaara, o que está acontecendo?
–Nós conseguimos! – ele alarmou, rindo alto – Acabou! Orochimaru está morto! Nossos mestres foram vingados! Podemos seguir em frente, podemos tentar... – ele disse, afastando-se um pouco para poder fita-la nos olhos – Podemos tentar recomeçar nossas vidas de verdade!
Ino sorriu, sentindo as lágrimas inundarem seus olhos. As palavras de Gaara atingiam seus sentidos como aquela chuva atingia as plantas de seu jardim, trazendo nova vida às suas esperanças. Sem conseguir conter a alegria que a invadia, ela o abraçou, mas logo sentiu os braços dele afastarem-na.
A loira o encarou, sentindo o sorriso desaparecer de seus lábios. O que ainda impedia Gaara de finalmente se entregar?
–Antes, tem algo muito importante que eu gostaria de dizer a você. – ele avisou, encarando-a seriamente.
Ino o fitou por um instante, preocupada. Que pendência ainda a impediria de alcançar a completa felicidade ao lado daquele ruivo complicado?
–O que foi? – ela perguntou, aflita.
Gaara apoiou as mãos na cintura da loira, aproximando o rosto do dela. Seus lábios se curvaram em um sorriso feliz quando ele enfim roçou carinhosamente o nariz no de Ino.
–Eu amo você. – ele sussurrou, vendo-a suspirar de alívio – Eu amo você mais do que sou capaz de dizer. Eu te amo, Ino.
A loira sorriu, aliviada, e em seguida envolveu os braços no pescoço de Gaara.
–Eu também te amo. – ela confessou — Amo tanto que acho que meu coração as vezes vai explodir com esse sentimento louco... Então por favor, por favor, não me deixe novam...
–Nunca mais. – ele interrompeu, deixando clara a promessa que fazia naquele momento – Nunca mais vou deixar você.
–Então o que está esperando pra me fazer sua? – ela perguntou, fitando-o seriamente.
Um trovão explodiu lá fora, fazendo tudo na floricultura estremecer. Mas os corações de Ino e Gaara continuavam firmes, finalmente e completamente entrelaçados um ao outro.
–Você já é minha. Sempre foi. – o Sabaku esclareceu — Estou apenas reavendo o que já me pertence.
–Estou querendo dizer pra você me beijar logo, idiota. – ela disse, sorrindo para a lentidão de Gaara.
–Então porque não disse logo, loira psicopata? – ele respondeu, puxando-a com força para si e beijando-a com vontade.
Não adiantava que ele sugasse sua língua com força enquanto lhe puxava para cada vez mais perto, aquela proximidade ainda não era suficiente para Ino. Ela queria mais, bem mais que aquilo. Estava sedenta de uma necessidade que apenas Gaara seria capaz de saciar, porque havia caminhado por tanto tempo em um deserto de solidão que tudo aquilo parecia uma miragem. Mas era real. Tão real quanto seu coração acelerado, tão real quanto seu gemido quando Gaara a empurrou sobre o balcão, fazendo com que todos os objetos que estavam ali em cima se espatifassem no chão. Ele fez com que a loira enlaçasse sua cintura com as pernas, grudando o corpo no dela, sem largar jamais os lábios da mulher que amava tão profundamente que chegava a doer. Mas nada se compararia a dor de tê-la deixado, um dia, ou ao peso da promessa que ele carregou durante tantos anos. A dor que ele sentia agora era a agonia dos fantasmas da solidão se desfazendo em sua mente e em seu coração. Ele jamais teria que passar por aquilo novamente. Jamais teria que fazer Ino passar por aquilo novamente.
Era hora de reencontrarem-se um no outro. Por que apenas em Ino, Gaara conseguia se enxergar o homem que ele gostaria de ser. O homem que seu mestre sonhou que ele seria, um dia, o homem de quem sua família poderia se orgulhar. Apenas no olhar bondoso de Ino, ele conseguia ver a si mesmo como alguém completo e feliz. Ino também sabia que apenas em Gaara ela seria capaz de reencontrar a mulher que havia sido capaz de amolecer o coração do grande Sabaku. Apenas nos braços de Gaara, ela poderia voltar a sentir-se completa, inteira, sem medos ou restrições, forte o suficiente para defender sua família de qualquer ameaça. Ele era sua emoção, sua coragem. Ele era a força que fazia seu coração bater.
E se Gaara se entregasse às trevas mais uma vez, ela seria a luz que iria libertá-lo. Se ele não conseguisse retornar, ela seria a força que o traria de volta. Se ele não pudesse ficar, ela seguiria com ele, para onde quer que ele fosse. Nada mais importava, desde que estivessem juntos.
Unidos por aquela certeza, enquanto a chuva forte caía lá fora, os dois se entregaram completamente um ao outro, como duas metades que vagaram pelo deserto, sedentas e separadas durante muito, muito tempo.
Aquele era o momento do reencontro. Juntos, eles poderiam, finalmente, voltar a ser um só.
Os olhos semicerrados de Sasuke se fixaram na expressão séria de Sakura por um instante. A curadora estava bastante concentrada no que fazia, com as mãos impostas a alguns centímetros de seu ferimento, recusando-se a encara-lo. O moreno pigarreou, tentando chamar a atenção de Sakura, mas ela sequer piscou, mantendo os orbes verdes fixos no grande ferimento sob suas palmas.
Sasuke suspirou. Pelo visto, a Haruno estava muito, muito brava.
–Obrigado por... cuidar de mim. – ele murmurou, para em seguida sentir Sakura concentrar ainda mais chakra nas mãos, forçando seu ferimento a se fechar – AI!
–Isso é pra você aprender a não ser tão idiota! – a rosada acusou, fazendo seu chakra curativo se alastrar pela ferida de Sasuke com força.
–AI! – o Uchiha reclamou novamente, agarrando os pulsos da curadora e afastando as mãos dela de seu machucado — Sakura, está querendo me matar? – perguntou, indignado.
–Eu devia te matar! – ela sacudiu os braços, tentando se soltar, mas ele segurava seus pulsos com firmeza – Você é um idiota, Uchiha! Um grande idiota! – ela rosnou, sentindo as lágrimas quentes rolarem involuntariamente por seu rosto.
–Do que está falando, Sakura? – Sasuke perguntou, franzindo o cenho e afrouxando o aperto nos pulsos da rosada. Com uma das mãos, ele tocou o rosto da Haruno, limpando as lágrimas que desciam.
Ela se desvencilhou no toque do moreno como se tivesse levado um choque.
–Como você pôde se arriscar desse jeito, idiota?! – Sakura vociferou, a voz irritada misturada aos soluços que agora ela já não conseguia controlar – E se você tivesse morrido?! E se eu tivesse perdido você pra sempre?!
O moreno riu.
–Agora você me tem pra sempre, Sakura. Não é suficiente? – ele perguntou, os lábios curvados em um sorriso torto.
A Haruno estreitou o olhar embaçado pelas lágrimas na direção de Sasuke.
–Do que você está falando? – a rosada questionou, enraivecida – Você podia ter morrido!
Sasuke suspirou. Que mulher difícil...
–Tem uma coisa pra você no meu bolso direito. – ele falou, mudando o rumo da conversa e soltando o outro pulso de Sakura – Pegue.
Os olhos verdes da rosada se estreitaram ainda mais em desconfiança. Ainda fungando, ela enfiou a mão no bolso do rapaz, retirando de lá uma pequena caixinha. Ela olhou o objeto com uma expressão chocada, e em seguida encarou Sasuke, como se fosse estrangulá-lo.
–Que porra é essa, Sasuke?! – ela sibilou, vendo Sasuke revirar os olhos e tirar a caixinha de suas mãos, abrindo-a e mostrando o lindo anel que havia dentro.
A esmeralda encrustada no metal reluzia tanto quanto os olhos verdes cheios de lágrimas de Sakura.
–Vamos casar. – Sasuke declarou, como se aquela fosse a coisa mais natural e óbvia do mundo.
–Vamos o quê?! – Sakura grunhiu, a voz falhando de surpresa.
–Já que você concorda, me dê sua mão para que eu possa colocar o anel. – o moreno falou, agarrando novamente o pulso da Haruno.
–Eu não concordei com nada! – Sakura gritou, irada, desvencilhando-se das mãos de Sasuke, que insistia em tentar colocar o anel em seu dedo.
O Uchiha continuou com a expressão serena, parecendo estar se divertindo muito com tudo aquilo.
–Você é minha, esqueceu? – ele disse, sorrindo.
–Não sou de ninguém! – a rosada rebateu, impaciente, sentindo o Uchiha agarrar seu pulso com força.
–Você mente muito mal, Sakura. – Sasuke acusou, mostrando a pulseira no braço dela. Ele tocou o pingente, virando o símbolo do clã Uchiha e exibindo as palavras gravadas no metal – Vê? Você é minha. E eu sou seu. Não é uma escolha.
Os olhos arregalados de Sakura fitavam o pingente em seu pulso, como se ela estivesse sendo inundada pela verdade nas palavras de Sasuke. Todo o seu corpo amoleceu, como se um leve torpor se apoderasse de seus sentidos. Ele tinha razão. Não era uma escolha.
Óh, céus. Ela estava encrencada.
Percebendo a paralisia que se instalara no corpo de Sakura, Sasuke aproveitou para entrelaçar os dedos nos da rosada.
–Eu te amo, Uchiha Sakura. – ele disse, sem conseguir conter o sorriso de satisfação ao ouvir o nome da rosada unido ao seu sobrenome.
Sakura revirou os olhos.
–Não vou mudar meu sobrenome por su... – ela ia protestar, mas antes que o fizesse, Sasuke a puxou pela nuca, calando-a com um beijo – Por sua causa! – ela completou, se afastando e puxando uma lufada de ar.
O moreno riu da teimosia de sua noiva, bufando de deboche.
–Não ria! – ela bateu levemente no ombro de Sasuke, mas começou a rir também. Sentiu o rapaz pegar sua mão com delicadeza e aproxima-la do próprio rosto.
Sasuke beijou cada um dos dedos da rosada, os lábios se demorando um pouco mais no dedo anelar, onde ele, carinhosamente, encaixou o anel que selaria sua união eterna com a mulher de sua vida.
Em seguida, colocou a mão dela em seu rosto, fechando os olhos ao sentir o toque de Sakura. Os olhos verdes da Haruno estavam fixos no anel que agora brilhava em seu dedo.
–Uchiha Sakura, não é? – ela repetiu, sentindo a garganta fechada de emoção – Talvez não seja uma ideia tão ruim...
Ainda de olhos fechados, o moreno riu. Levou a mão para o ventre de Sakura, a fim de acariciar sua filha, percebendo o pequeno volume sob o tecido. Aquele vestido frouxo disfarçava bem a barriga que já estava um pouco crescida... Há quanto tempo não dormia com Sakura? Sasuke vasculhou a própria mente em busca de lembranças, e sua memória logo lhe trouxe a resposta: desde o dia em que Hinata encheu seu saco pedindo que ele procurasse a rosada. Sem conseguir aguentar a saudade que o consumia, Sasuke acabou seguindo o conselho da discípula. Aquilo havia acontecido há um bom tempo...
Mas os pensamentos de Sasuke foram interrompidos quando ele sentiu algo se agitar sob seus dedos. O Uchiha arregalou os olhos, percebendo a mesma expressão perplexa estampando o rosto da rosada.
–Q-que foi isso, Sakura? – ele gaguejou, assustado.
–Ela... Ela chutou! – Sakura respondeu, ainda chocada. Novamente arregalou os olhos e Sasuke pulou ao sentir outra agitação no ventre da rosada.
–Ela já fez isso antes? – o moreno perguntou, se sentando com dificuldade, as mãos ainda apoiadas no pequeno volume na barriga de Sakura.
–Não! É a primeira vez! – ela respondeu, sentindo as lágrimas novamente se acumularem em suas pálpebras – Acho que ela gosta de você. – disse, vendo Sasuke piscar, atônito.
–Sério? – o Uchiha perguntou, com um sorriso bobo nos lábios. Deslizou as mãos pela barriga de Sakura, sentindo novamente a pequena se agitar – Ela... Ela gosta de mim?
–Ela ama você, seu bobo. – a rosada respondeu, sorrindo, vendo-o desviar os olhos de sua barriga para fita-la com admiração – Nós duas amamos você.
Sasuke sorriu. Ainda com as mãos sobre a barriga de Sakura, ele selou os lábios nos dela e fechou os olhos, enxergando, sob as pálpebras fechadas, o belo futuro que se estendia a sua frente.
Hinata tinha razão. Enfim, seus sonhos poderiam se tornar realidade.
Lentamente, Ino abriu os olhos. Ela se sentia tão bem naquela manhã, que era praticamente impossível acreditar que estivesse acordando do sonho bom que tivera. Mas a luz fraca do sol que nascia já invadia o quarto, avisando-a sobre a chegada de um novo dia. Um novo dia feliz, tão feliz quanto seu coração estava naquele momento. Um novo dia ao lado dele...
E, de repente, sua mente foi tomada pelas lembranças da madrugada.
Ela se ergueu rapidamente, sentando-se na cama. Olhou para os lados, procurando pela presença que já não estava mais sob os lençóis. Passou as mãos pelo rosto, afastando os cabelos compridos. Ele não estava ali.
Seu coração apertou.
Ino rapidamente se enrolou no lençol, apressando-se na direção de seu jardim. Estava tão aflita que quase não conseguia andar, vez por outra enrolando os pés no lençol, sendo invadida pelo pressentimento de que Gaara a havia deixado novamente. De que ele havia destruído seu jardim mais uma vez, para provar que não era bom o suficiente para ela, ou que não era merecedor de tê-la ao seu lado.
Com um grande receio esmagando seu coração, ela abriu a porta que dava para o jardim, sentindo a luz do dia que nascia ferir um pouco seus olhos ainda sensíveis pelo sono. Avançou um passo para fora, tentando distinguir o estranho brilho vermelho do homem que jazia de pé, sem camisa, descalço, usando apenas uma calça.
Em uma das mãos, ele carregava um regador.
–Bom dia. – Gaara falou, virando-se para Ino e sorrindo para ela.
–O que... O que você está fazendo? – ela perguntou, surpresa, sem conseguir reprimir o sorriso que se formava em seus lábios.
–Não pareça tão surpresa por eu continuar aqui. Vou me sentir ofendido. – ele brincou, debochado.
–Você está regando minhas plantas? – Ino perguntou, incrédula.
–Acho que preciso fazer as pazes com elas... Sabe... Depois de ter destruído tantas...
–Você está perdoado. – Ino interrompeu, aproximando-se e tomando o regador das mãos do ruivo – Agora pare de matar minhas plantas afogadas.
–O quê? – ele questionou, confuso.
–Você não pode despejar tanta água assim. Vai sufocar as raízes. – ela explicou, contendo o riso pela expressão lívida de Gaara.
–Isso é sério? – o ruivo perguntou.
–Muito sério. – ela garantiu.
–Epa. Desculpe.
–Tudo bem. Você aprende com o tempo. – ela falou, e em seguida o encarou com uma expressão preocupada – Nós teremos tempo, não teremos?
–Enquanto você me quiser. – ele prometeu, sorrindo para ela.
–Então teremos toda a eternidade diante de nós. – Ino falou, sentindo Gaara envolve-la pela cintura, arrastando-a para perto.
–Já disse que amo você? – ele sussurrou, os lábios colados nos dela.
–Talvez. Mas só pra garantir... Diga de novo. – ela pediu, sentindo-o aperta-la contra si com mais força.
–Amo você. – Gaara falou, para em seguida beijá-la.
Ino então jogou o regador no chão e o abraçou também com força, entrelaçando os dedos nos fios ruivos do rapaz.
Naquele momento, o futuro começava a acontecer.
Sentada ao lado de Naruto, enquanto o loiro dirigia, Hinata olhava as ruas passando como borrão ao seu redor. O loiro dirigia como um louco, como se estivesse desesperado para chegar a algum lugar, e Hinata sabia que ele queria aproveitar o tempo perdido e ficar ao seu lado. Ela também queria, e por isso a velocidade absurda com a qual ele dirigia não lhe incomodava nem um pouco. Enquanto a escuridão daquela madrugada chuvosa cedia lugar aos primeiros raios de sol do novo dia, Hinata mal via a hora de poder vislumbrar novamente sua antiga casa, o lugar onde fora tão feliz, onde reaprendera a viver. O lugar onde pôde fazer parte de uma família. Ela sentia falta do cheiro de bebida da casa de Naruto, que se misturava ao perfume dele. Sentia falta dos móveis, do corredor repleto de portas. Da varanda com a bela visão das árvores que enchiam as ruas e do céu azul que podia ser visto de lá. Obviamente, ela podia ver o céu de qualquer lugar, mas Hinata achava que a imensidão azul ganhava uma intensidade maior e melhor quando era contemplada daquela varanda. Talvez porque aquele fosse o lugar preferido de Naruto, ou talvez porque o verdadeiro céu estivesse nos olhos dele. Ela achava que poderia se perder na imensidão dos orbes azuis do Uzumaki tanto quanto em qualquer trecho do céu.
Quando o carro enfim parou de se mover, Hinata se surpreendeu ao perceber que já estavam em casa. Ela sorriu ao contemplar a fachada do lugar, e ergueu o rosto, a fim de ver as grades da varanda. Estava tudo do jeito que ela se lembrava, o que era bom. A sensação familiar tomou conta de seus sentidos, e só nesse momento Hinata se deu conta de que tudo aquilo era, de fato, real.
Ela havia voltado para casa.
Naruto desceu do carro, abrindo a porta do carona e pegando Hinata em seus braços. A madrugada tingia o céu com um tom lilás, iluminando a pele e os cabelos do Uzumaki, enquanto ele encaixava as pernas de Hinata em sua cintura. Os cabelos negros dela caíram como cortinas sobre os ombros pálidos, e ela sorriu.
–Eu ainda consigo andar. – Hinata falou, estreitando os olhos para Naruto.
–Eu sei, mas é bem mais legal desse jeito. – ele sorriu, malicioso, enquanto atravessava o jardim e se dirigia até a porta. Não demorou até entrar na casa e caminhar em direção ao quarto.
–Achei que você iria estar cansado demais para... – Hinata começou a falar, mas o loiro logo a interrompeu, grudando os lábios nos dela.
–Não estou nem um pouco cansado. – ele murmurou, sentindo os dedos da Hyuuga entrelaçarem-se em seus cabelos enquanto a deitava na cama.
–Mas você... – a morena tentou falar, mas era difícil quando Naruto ainda a beijava – Você está ferido... Me deixe cuidar disso.
–Não estou ferido. – o Uzumaki protestou, tocando o rosto de Hinata com delicadeza enquanto procurava a boca dela. Logo os dedos da garota apertaram o ferimento em sua testa, o que fez com que ele se contraísse de dor – Ai!
–“Não estou ferido”, uma ova. – ela o encarou, preocupada, vendo-o revirar os olhos, como se aquilo não fosse nada – Vai pegar álcool, algodão e esparadrapos pra que eu possa fazer um curativo nisso.
–Mas...
–Vai! – Hinata insistiu, ouvindo o loiro suspirar, derrotado. Ele então saiu de cima dela para em seguida ir revirar as gavetas da cômoda em seu quarto em busca do que ela pedira.
Hinata aproveitou aquele momento para se sentar e dar uma olhada ao seu redor. O quarto de Naruto não havia mudado nada, nada mesmo. Os móveis eram os mesmos, estavam no mesmo lugar, e o ambiente era tomado pelo mesmo cheiro de que ela se lembrava. O cheiro dele.
Porém, tinha algo ali que Hinata nunca havia visto antes. Uma caixa sobre o pequeno móvel ao lado da cama lhe chamou atenção e, curiosa, ela não hesitou em abri-la. A morena percebeu que Naruto a olhava de soslaio enquanto procurava os esparadrapos, fingindo não se importar com o que ela fazia, mas aquilo apenas atiçou ainda mais sua curiosidade.
Dentro da caixa havia uma pilha de fotos pela qual ela não se interessou nem um pouco. O que deteve sua atenção, na verdade, foi o lindo anel decorado com uma pedra azul que estava sobre a pilha, e Hinata pegou a joia, admirada.
–O que é isso? – ela perguntou, os olhos fixos no anel. Colocou a caixa de volta na mesinha ao lado da cama enquanto via Naruto se virar e caminhar em sua direção.
–Ah, é o seu anel. – Naruto respondeu, como se aquela fosse a coisa mais natural do mundo. Com as coisas que Hinata lhe pedira nas mãos, ele se aproximou, sentando-se lado dela.
–Meu... Meu anel? – a Hyuuga questionou, confusa.
–Aham. – ele falou, tranquilamente – Bem, na verdade, eu o achei em uma caixa cheia de tralhas que Ero-sennin deixou pra mim... Lá dentro tinha esse anel, e nas fotos, minha mãe o usava.
–Sua mãe? – Hinata perguntou, sem entender absolutamente nada.
–Sim... Eu explico isso depois. Mas agora ele é seu.
–Não estou entendendo, Naruto.
–Bem... É que... – o loiro começou, mas, repentinamente, parecia nervoso demais para conseguir falar.
–O quê? – Hinata insistiu, encorajando-o a continuar.
Naruto suspirou.
–Ah, droga... Eu não sei como fazer isso. – ele resmungou, colocando o vidro de álcool, o algodão e os esparadrapos sobre a mesinha ao lado da cama.
–Isso o quê? – a morena questionou, sentindo o coração apertar ao perceber aonde Naruto parecia querer chegar.
–Bem... Eu... Hinata...
–Apenas diga logo, Naruto. – a Hyuuga se impacientou, sorrindo com a confusão do loiro.
–Tudo bem. Eu consigo fazer isso. – ele murmurou consigo mesmo, ouvindo a risada de Hinata ecoar pelo quarto.
Ela parecia estar se divertindo muito com aquilo, afinal, Hinata nunca vira Naruto tão nervoso daquele jeito. Ele parecia estar prestes a ter um derrame!
–Bo-Bom... Hinata... Eu... – Naruto tentou prosseguir, tomando o anel da mão de Hinata e segurando-o com os dedos estranhamente trêmulos.
–Naruto, o que você pensa que está fazendo? – ela questionou, ainda sorrindo.
–Quer que eu pare? – o loiro perguntou, receoso.
–Não, quero que fale de uma vez! – Hinata exigiu, e foi a vez de Naruto rir.
Ele coçou a cabeça, sem jeito.
–Hinata... Quer... Você... Você quer...
A morena estreitou os olhos na direção do Uzumaki.
–Meu Deus, Naruto, você é péssimo nisso. – ela comentou, fingindo desgosto.
–Eu sei... – o loiro suspirou, arriando os ombros, desanimado.
–Sai, deixa que eu faço. – Hinata falou, tomando o anel da mão de Naruto.
–Ahn? – ele grunhiu, incrédulo.
–Eu vou te pedir em...
–De jeito nenhum! – Naruto a interrompeu, pulando sobre o corpo de Hinata, tentando, a todo custo, tomar o anel dela — Sou eu quem tem que fazer o pedido!
–Deixa de ser idiota! Você tá nervoso demais, deixa que eu faço! – ela rebateu, se contorcendo sob o corpo de Naruto.
–Não! Me dá esse anel, Hinata!
–Não dou, eu vou pedir primeiro!
–Não vai, não!
–Vou sim!
Os dois rolaram pela cama, entrelaçados no que parecia ser uma briga de crianças. Não demorou até que caíssem no chão, arfando de dor com o impacto. Naruto se apressou em tomar o anel de Hinata e em seguida o jogou do outro lado do quarto.
–Deixa esse anel pra lá. Acho que desse jeito não tá dando certo. – ele resmungou, enfezado, se levantando e estendendo a mão para ajudar a Hyuuga a se erguer também. Estava nervoso demais, e isso dificultava tudo. Naruto achava melhor esperar pelo momento certo... Mas, quando seria o momento certo? Como ele iria saber?
Hinata revirou os olhos, se levantando, prestes a começar uma discussão, mas o cansaço foi mais forte, e antes que conseguisse dizer qualquer palavra, um bocejo escapou de seus lábios.
Naruto a puxou para a cama, fazendo com que ela se deitasse sob as cobertas.
–Descanse um pouco... Já está amanhecendo. – ele falou, colocando o lençol sobre o corpo de Hinata.
–Mas... – a Hyuuga tentou argumentar, porém, Naruto logo a interrompeu.
–Vou estar aqui ao seu lado, quando você acordar. – ele garantiu — Prometo. Agora descanse, amor.
A morena suspirou, certa de que não adiantaria discutir, até porque, ela estava mesmo muito cansada. Vendo Naruto se deitar ao seu lado, ela logo relaxou, sentindo, pela primeira vez, seu corpo latejar. Ele tinha razão, Hinata sabia que precisava mesmo descansar.
Ela novamente bocejou, sentindo os braços de Naruto envolve-la por trás em um forte aperto, trazendo-a para perto. O calor do peito dele em suas costas era acolhedor, e o toque das pernas dele entrelaçadas às suas lhe dava a sensação de que não havia nada melhor no mundo do que estar ao lado do Uzumaki.
Naruto aproximou o rosto dos cabelos de Hinata, aspirando o perfume dela. Aquela proximidade o despertou para algo mais valioso do que o desejo que se ascendia em seu corpo, ou a vontade de faze-la sua, naquele momento. De repente, ele percebeu que, talvez, estivesse diante do momento certo. E não precisava de anéis ou de discursos bem elaborados para fazer com que fosse perfeito. Tudo o que ele precisava era ter Hinata ali, em seus braços, segura, com um futuro repleto de possibilidade diante de si.
Ele a abraçou mais forte, aproximando o rosto do dela. O corpo de Hinata já amolecia em seus braços, sinal de que ela já devia estar se entregando ao cansaço.
–Hinata... – ele chamou baixinho — Eu te amo.
–Eu também te amo. – ela murmurou, sonolenta, deixando escapar de seus lábios um sorriso mínimo.
A luz do dia entrava pela janela, revelando a manhã que chegava.
Naruto a abraçou mais forte, fechando os olhos, deixando-se levar pelo sono.
–Você quer casar comigo? – ele perguntou baixinho, os lábios colados na orelha de Hinata.
A morena se encolheu nos braços de Naruto, aninhando-se um pouco mais no calor que a envolvia.
–Claro que sim, idiota... – ela resmungou, finalmente caindo no sono.
Os lábios de Naruto se curvaram em um pequeno sorriso de satisfação enquanto ele se rendia ao cansaço, sentindo seu coração bater, tranquilo, rumo à inconsciência.
Juntos, eles poderiam, enfim, começar a viver o futuro.
Ser feliz era mais fácil do que Naruto havia imaginado.
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