Paraíso Sombrio
4 Mentes obscuras
Notas iniciais
Shikamaru caminhava pela sacristia com seu traje de padre. Seus ajudantes o achavam uma figura muito interessante: Aquele cabelo amarrado e espetado, o ar entediado e... um brinco em cada orelha. Mas todos o achavam uma boa pessoa – exceto por seu costume de enrolar trabalho.
Mas o Padre Nara não estava muito preocupado com aquilo. Seu mestre havia telefonado, avisando que ficasse atento, e resolvesse aquele assunto o mais rápido possível. Não queria chamar atenção de ninguém perigoso, e aquela “investigação” deveria permanecer em segredo.
Mas as coisas estavam mais complicadas do que pareciam. Ele ainda tinha poucas pistas, e havia algo que o incomodava. Como se estivesse perdendo algum detalhe óbvio e importante, mas não conseguia saber o que era.
Aquela situação o deixava inquieto, e sabia que Asuma tinha razão. Quanto mais demorasse ali, mais chances tinha de acabar atraindo a atenção de pessoas perigosas.
Pensou nas informações que havia reunido até então:
Onze pessoas haviam sido mortas. Todas elas tinham ligação direta com a ORDEM. Todas elas eram grandes e poderosos mestres, mas que pregavam ideias um pouco diferentes, que divergiam das opiniões dos líderes daquela organização. Eles insistiam na ideia de que o desenvolvimento de suas habilidades deveria ser usado em prol de ajudar a humanidade, e não de controlar os setores mais importantes do poder mundial. Afinal, esses “líderes” estavam espalhados por todo o mundo, utilizando-se de seus dons para arrecadarem fortunas e comandarem os demais membros, com um discurso de prepara-los para conviver com seus poderes.
Obviamente aquilo era apenas uma desculpa para manter sob controle aqueles que tivessem capacidade de ir além.
Além disso, as mortes traziam características estranhas. Com a ajuda de Sakura, havia conseguido examinar o corpo de Yahiko. Ele era o padre da Igreja onde Shikamaru estava agora, e também era um grande mestre da ORDEM. Com isso, descobriram que o chakra parava de circular no corpo da vítima, e ela definhava aos poucos, até chegar ao limite de sua existência. Existiam também algumas marcas em lugares específicos do corpo, como pulsos, nuca, tórax e pernas. As marcas, em sua maioria, formavam desenhos estranhos que ele não conseguia identificar.
Refletindo sobre aquilo, ele lembrou-se do velho amigo morto com certo pesar. Yahiko era um padre de verdade, e era uma boa pessoa; tudo o que ele queria, era que seus discípulos pudessem viver em paz com ele, utilizando seus dons para o bem da humanidade.
Shikamaru encarava o vazio, tentando montar o quebra-cabeça em sua mente. Mas ainda sentia que faltava algo.
Foi quando um dos coroinhas entrou na sacristia, recolhendo alguns objetos para levar até o altar, dentre eles as hóstias e o...
–Deixe o vinho aí, Udon. – falou para o menino de óculos redondos.
O coroinha olhou para o padre com a expressão confusa.
–O... o quê? Por que, Padre Nara? Preciso leva-lo para o altar e...
–Crianças não devem ficar mexendo com isso. Aliás, mexer nesse vinho é pecado.
Udon ficou surpreso.
–Pecado? Por quê?
–Não fique me fazendo perguntas problemáticas. Eu sou o padre, sei do que estou falando. Quer ir para o inferno?
–Não, Padre Nara! – apavorou-se o garoto.
–Então deixe o vinho aí e vá arrumar as coisas lá no altar.
–Si-sim, Padre Nara! – disse Udon, saindo dali o mais depressa que pôde, deixando o vinho sobre a mesa.
Shikamaru bebeu um gole, antes de decidir o que faria.
–Que saco. – praguejou.
Precisava de ajuda.
Pegou o celular e procurou um número na lista de contatos.
Depois de algum tempo, Shikamaru ouviu uma voz feminina do outro lado da linha:
–O que você quer? – perguntou ela, de mau humor.
Shikamaru respirou fundo.
–Ter que ligar pra você é um saco, mas... preciso de ajuda.
–Ainda está com o caso do Yahiko? Você é mesmo um incompetente, Nara.
–As coisas ganharam uma proporção maior do que eu previa. – explicou ele. — E não pense que me agrada ficar te ligando e pedindo por ajuda. Eu ainda não confio nem um pouco em você.
–Eu sei – ela disse, e Shikamaru percebeu que ela estava rindo.
Ele suspirou.
–Então, você vai me ajudar ou não?
–O que eu ganho com isso?
Shikamaru pensou um pouco.
–Você poderá me ver dando uma de padre no lugar de Yahiko.
Ele ouviu uma gargalhada.
–Não acredito! Yahiko deve estar se debatendo no túmulo!
Uma veia saltou na testa do Nara. Ele era geralmente uma pessoa calma, mas o caráter volátil de uma feiticeira o tirava do sério. E aquela, em particular, conseguia lhe torrar a paciência rapidamente.
–Você vem ou não vem?
–Hum... deixe-me ver... – falou ela, fingindo refletir sobre aquele pedido. — Tudo bem. Ajudo você. Com uma condição.
Ele já esperava por aquilo.
–Qual?
–Você tem que desfilar de padre pra mim. – ela disse, para logo em seguida explodir em uma gargalhada.
–Não fique de gracinhas! – indignou-se ele. Já era ruim o suficiente ter que enganar as pessoas se fazendo de padre, não precisava que ficassem zombando dele.
–Tá bom, tá bom... mas e então? Quando é que eu posso aparecer por ai, pra fazer o trabalho que você não conseguiu?
Ele respirou fundo. Ela realmente conseguia tirá-lo do sério.
–Venha o mais rápido que puder. As coisas estão realmente complicadas por aqui. Ah, e se perguntarem, você é a irmã Temari, certo?
Shikamaru então ouviu um grito de incredulidade que quase lhe estourou os tímpanos.
–O QUÊ?!
Naquela madrugada, Sakura chegou em casa exausta. Ela jogou-se no sofá, querendo descansar um pouco as costas e as pernas antes de se dirigir ao banheiro para tomar um banho. Ainda com a bolsa na mão, ela sentou só um pouco, apenas um pouco...
Acordou sobressaltada pelo toque do celular. Tateou sua bolsa, um pouco desnorteada pela sonolência. Quando enfim achou o aparelho, olhou para a tela e viu que a ligação era de um Número Restrito. Seria alguém do hospital? Será que algo havia acontecido com algum de seus pacientes mais graves?
A preocupação a despertou um pouco. Com a testa levemente vincada, ela atendeu ao telefone.
–Alô?
Mas não houve resposta.
–Alô? – tentou ela, mais uma vez. Mesmo assim, tudo o que ela pôde ouvir foi um suspirar pesado do outro lado da linha. E logo em seguida, quem quer que fosse, desligou.
Ela ficou olhando para o aparelho, e praguejou sobre aquilo. Levantou-se, caminhando até o quarto. Jogou a bolsa e o celular sobre a cama, e deixou suas roupas num cesto. Entrou no banheiro e ligou o chuveiro, deixando a água quente desfazer os nós de tensão e cansaço em seus ombros, fechando os olhos, tentando relaxar. Sentou-se por um minuto no chão de piso branco, debaixo da água que caía ininterrupta sobre si, querendo esquecer-se de sua rotina cansativa, de seus amigos desmiolados, e dele...
Em sua cama, o celular vibrava insistentemente, o Número Restrito piscando na tela do aparelho.
Um chamado distante demais para que Sakura ouvisse...
O sol já brilhava forte quando Sai acordou. As janelas abertas deixavam a luz do dia entrar no quarto, ferindo seus olhos. Reclamou mentalmente sobre aquilo. Levantou-se, e dirigiu-se até o banheiro. Sem camisa, vestindo apenas uma calça de moleton, ele olhou-se no espelho, e o reflexo não o agradou. Ainda estava aprendendo a lidar com demonstrações de suas emoções, mas fazer aquilo pela manhã enquanto ainda estava sonolento era algo realmente difícil.
Depois de tudo o que vivera, sorrir não era a sua principal característica.
Sorriu para o próprio reflexo, treinando.
–Pra quem está dando esse sorriso fingido, seu sonso? – falou Ino, abrindo a porta do banheiro.
–Eu podia estar pelado. – falou ele, olhando para ela de forma apática.
–E daí? Até parece que eu já não vi tudo o que tinha pra ver. – falou, entrando no banheiro e colocando no armário ali alguns objetos de uso pessoal.
–Você foi às compras? – ele perguntou.
–Uhum. Também fui ao orfanato hoje pela manhã. – falou.
–Você ainda visita aquele lugar? E por Deus Ino... por que você resolveu acordar tão cedo?
–Naruto me ligou pedindo que eu fosse até a casa dele. Aparentemente, precisam de mim lá. – explicou, saindo do banheiro. Mas parou na porta, voltando-se para Sai novamente. – E sim, ainda vou ao orfanato toda semana. É bom levar às crianças um pouco de alegria. Quem dera alguém tivesse feito isso na época em que vivi lá.
Sai ficou em silêncio. Ino ainda era muito presa às lembranças da infância, e ele não gostava disso. Mas ele logo a viu sorrir para ele; aquele sorriso grande, largo e franco que só ela conseguia exibir. Sai invejava aquele sorriso.
Ele jamais conseguiria sorrir daquela maneira.
–Venha logo tomar café da manhã, você precisa estar bem disposto. Gaara também vai estar na casa do Naruto.
Sai suspirou.
–Eu preciso mesmo ir? Você sabe que aquele ketchup não vai com a minha cara, Ino...
–Você vai sim, que história é essa? E o Gaara só implica com você porque ele... bem...
–Ele tem ciúmes de você, Ino. – falou Sai, estreitando os olhos.
–Se você ao menos me deixasse contar pra ele que...
–Não começa, Ino! Você prometeu que não ia contar pra ninguém!
–Tá, tá, eu sei! Mas depois não fica no meu pé, reclamando que ele implica com você.
Sai alisou a testa, tentando não perder a paciência. Os anos de amizade com Ino surtiram efeito em despertar suas emoções adormecidas. As vezes, ele tinha vontade de mata-la.
–Não conte nada a ele, Ino. – pediu.
–Já sei! O grande segredo do Sai e blá, blá, blá! – falou, impaciente, dando as costas para ele. –Se arrume logo, estamos atrasados! E você conhece o Naruto! Ele não tem um pingo de paciência!
O outro revirou os olhos. Escovou os dentes, tomou banho, e entrou no quarto, enxugando os cabelos. Vestiu-se, e antes de ir ao encontro de Ino, olhou-se mais uma vez no espelho. O reflexo agora tinha um pouco mais de vida, e sabia que a loira o ajudaria a manter as emoções fluindo.
Mas era a amizade de Naruto que o agarrava à vida, e o fazia ter esperanças para continuar sobrevivendo.
O loiro encarou a porta por um minuto, e respirou fundo. A garota estava trancada lá desde o dia anterior, e ele não tinha certeza se ela continuava viva. Aquela suposição quase o fez sorrir. Se livrar dela era, realmente, um pensamento tentador.
Resolveu bater. Deu três batidas leves, mas não ouviu nenhum barulho. Ele bateu um pouco mais forte, mas ainda não obteve resposta. Logo estava esmurrando a porta, e parou quando ouviu um suspiro pesado vindo de dentro do quarto.
–Se você não abrir, eu vou derrubar a porta. – falou ele, baixo e calmo, sabendo que ela o ouviria.
Percebendo que ela não iria abrir, ele começou a esmurrar a madeira novamente.
Naruto piscou, surpreso, ao ver a porta se abrindo à sua frente. Hinata o fitava friamente, lançando para ele aquele olhar vazio que o loiro odiava perceber nela. Parecia-lhe que a garota só vivia quando experimentava o medo.
–Vá se trocar. Receberemos visitas.
Ela então apenas se virou, e começou a revirar a única mala que ele a permitira trazer. Ele observava aquela cena, sem conseguir deixar de reparar no discreto rebolado de Hinata enquanto ela caminhava. Quase sorriu ao atentar-se às formas perfeitas da garota.
Mas os olhos dela eram vazios e tristes, e aquilo o irritava. Naruto se encostou na porta aberta, os braços cruzados, observando a garota com uma séria expressão. Ela enfim parecia ter achado uma peça de roupa e, ainda sem dar uma palavra sequer, dirigiu-se ao banheiro que havia dentro do quarto, e fechou a porta. Alguns minutos depois, ela saiu de lá, de roupa trocada, parando na frente do loiro. Ele afastou-se, dando espaço para que ela passasse. Os dois caminharam pelo corredor em direção à sala, mas antes que pudessem chegar até lá, o loiro segurou Hinata pelo braço.
–Ei. Será que você pode agir como humana só um pouquinho? Prometi a meu mestre que seria paciente, mas você não está facilitando as coisas.
Ela continuou em silêncio, seus olhos perolados encarando os do loiro sem deixar transparecer uma única emoção. Ele respirou fundo, agarrando-a pelos ombros, fazendo com que Hinata se chocasse de costas contra a parede.
–Será que você só consegue reagir quando está com medo? Se é isso, então acho que posso me divertir um pouco. – falou, exibindo um sorriso cruel.
Hinata permanecia em silêncio. Logo, uma aura densa tomou o corredor. Os olhos de Naruto brilhavam intensamente, o azul das pupilas ganhando uma tonalidade escura. Como se o céu da manhã fosse subitamente substituído pelo céu da noite.
O loiro sentiu a Hyuuga estremecer levemente, mas seus olhos ainda não demonstravam nada.
Ele soltou os ombros da garota, apoiando as mãos na parede de modo a prendê-la ali. Aproximou-se um pouco mais dela, e ficou surpreso ao ver a garota ofegar com aquela proximidade. Hinata viu os olhos de Naruto ganharem um novo brilho.
–Interessante... – falou ele. Aproximou-se ainda mais, seu corpo quase colado ao dela. Agora os olhos de Hinata arregalavam-se, mas Naruto não conseguia discernir o sentimento que eles transmitiam. Por um momento, lhe parecia um novo tipo de pavor, mais intenso e doloroso. Resolveu testar um pouco mais.
Aproximou agora seu rosto do de Hinata, ficando tão perto dela que podia sentir a respiração acelerada da garota. Não conseguiu conter o sorriso torto de satisfação que se formava em seus lábios. Mas a expressão aterrorizada nos olhos dela ainda o intrigava.
Tirou uma das mãos da parede, e afastou uma mexa de cabelo que cobria a bochecha dela. Deixou a mão no rosto de Hinata, ainda sorrindo.
Ela estava paralisada, os olhos ainda arregalados.
“Acho que o Ero-sennin não vai se importar se eu...”, pensava. Mas seu gesto foi interrompido pelo toque da campainha. Ele afastou-se dela, como se nada tivesse acontecido.
Hinata ainda estava paralisada, respirando fundo. O pavor ainda estampado em seus olhos perolados.
–Não fique aí parada. – falou ele, enquanto se afastava dalí.
Depois de alguns segundos, ela conseguiu se recuperar. Por um momento, certos fantasmas do passado voltaram a assombrar-lhe os pensamentos...
Indo para a sala a passos cautelosos, ela observou Naruto abrir a porta. Hinata viu então uma garota loira muito bonita, com um sorriso enorme no rosto. Um pouco atrás, estava um garoto, a expressão congelada num sorriso que Hinata achou um pouco forçado.
–Até que enfim. – falou Naruto, enquanto a loira entrava, acompanhada do rapaz que viera com ela.
–Que é? Nem vem com esses seus abusos. Ainda é cedo. – a loira respondeu, enfezada. Hinata viu o semblante da loira mudar rapidamente, o grande sorriso que exibia há alguns segundos desaparecendo rapidamente, e dando lugar à uma expressão zangada. Ela encarava Naruto com os olhos estreitos.
–E aí, Sai? – cumprimentou o loiro.
Sai estendeu à mão para Naruto, apertando a mão do amigo calorosamente. Naruto sorriu para ele, e o moreno sorriu de volta, agora de forma verdadeira. Afinal, aquele era o homem que havia lhe mostrado a vida, e o valor dos laços de amizade.
–Essa é a garota Hyuuga. – falou Naruto, gesticulando na direção de Hinata. A morena permanecia paralisada, muda, apenas olhando para o trio que a encarava curiosamente. –Garota Hyuuga, estes são Sai e Ino. Meus amigos desde sempre. – falou o loiro, a voz soando tediosa.
Ino aproximou-se de Hinata, sorrindo novamente.
–Não ligue pra esse ridículo. Qual o seu nome? – perguntou.
–Hi... Hinata.
–Oi, Hinata. Eu sou a Yamanaka Ino. Aquele é o Sai, meu amigo de infância. Eu sou uma feiticeira.
–Uma... feiticeira? E eu...?
–Naruto, você não explicou para ela? – questionou Ino, lançando ao loiro um olhar enfezado.
Ele deu de ombros, enchendo o copo de uísque, como se aquilo simplesmente não lhe importasse.
Ino suspirou e voltou-se novamente para Hinata.
–Você tem um poder um pouquinho mais especial que o meu. – explicou, sorrindo. – Mas para compreendermos isso melhor, teremos que entrar um pouco na sua mente... se você me permitir, é claro.
–Entrar na minha mente? Como assim?
Mas antes que a loira pudesse responder, todos da sala ouviram um ronco. Um ronco de fome...
Ino se virou novamente para Naruto.
–Seu idiota, você não deu comida pra ela?! – gritou.
–Eu tenho que fazer isso? – falou ele, arregalando seus olhos azuis de surpresa.
–Que tipo de pergunta é essa, seu retardado?! É claro que você tem que dar comida pra ela! – estressou-se a loira.
–A culpa não é minha! Ela se trancou na droga daquele quarto, e não quis mais sair!
Ino gritou de volta, e a loira começou com Naruto uma discussão sem fim. Sai aproximou-se de Hinata, a expressão parecendo desolada.
–Vamos, Hinata. Vou preparar alguma coisa para você comer. – falou ele.
Os quatro estavam sentados à mesa, esperando que Hinata terminasse de comer. Mas existia um detalhe naquela situação que não passou despercebido à Naruto.
Hinata estava corada.
Ela estava envergonhada pelo ronco que seu estômago fez soar na sala.
O loiro deixou escapar por seus lábios um sorriso. E não era o sorriso de deboche ou malícia que ele estava acostumado a exibir. Não era o sorriso de sarcasmo e crueldade. Era um sorriso de satisfação.
Ela estava corada, reagindo à uma situação. Ela finalmente parecia viva.
Talvez não precisasse recorrer ao medo para ensiná-la a viver, no final das contas.
Aquele pensamento foi interrompido pela campainha que tocava insistentemente.
–Pra quê esse desespero? Quer queimar essa porra? – praguejou o loiro, abrindo a porta.
–Cala a boca, raposinha. – falou Gaara, entrando na casa. Seus olhos verdes pairaram sobre Ino, que sorriu para ele.
Era sempre difícil encarar aquele sorriso.
–Olha quem fala. O cara que brinca de castelo de areia no parquinho com o Bijuu. – retrucou Naruto.
Mas Gaara perdeu o foco da discussão vendo que Sai também estava lá. Ele respirou pesadamente, dirigindo-se à mesa.
–Ei aí, Hyuuga? Naruto tá te tratando bem? – perguntou o ruivo, sorrindo maliciosamente.
O loiro deu um tapa na cabeça de Gaara.
–Fica na sua, Ketchup. – ralhou Naruto.
–Ai! Qual é... ela é uma gata!
Naruto viu Hinata ruborizar um pouco mais, e não pôde deixar de se sentir contente com aquilo. A garota fitava Gaara com os olhos levemente arregalados, uma vez que o ruivo falava como se ela não estivesse ali.
–Ero-sennin falou pra eu não mexer com ela. – sussurrou Naruto, sentando-se ao lado de Gaara, tentando fazer com que apenas o amigo o escutasse.
–Se você não pode, eu posso? – perguntou o ruivo, baixinho.
Ino observava aquela conversa levemente irritada, pois estava sentada próxima aos dois, e escutava tudo nitidamente.
–Já disse pra você ficar na sua. – respondeu Naruto.
Gaara soltou uma risada alta. A expressão de Hinata era cada vez mais confusa.
–Então? Vamos começar com isso ou não? – falou Ino, levantando-se.
O ruivo viu Sai levantar-se também, seguindo a loira até a sala, e bufou. Qualquer dia ia dar um murro naquele cara.
Todos então foram para a sala, inclusive Hinata.
–Sente-se aqui. – Ino falou para a Hyuuga, indicando o local que Naruto usava para meditar.
–Esse lugar é meu. – reclamou o loiro.
–E por acaso você tem usado ele? Acho que não, já que você está sendo um verdadeiro pé no saco. – retrucou a loira.
Gaara soltou uma gargalhada de deboche.
–Tá rindo do quê, areinha? – a loira falou, ácida.
–Por que está tão estressada? – o ruivo perguntou.
A loira respirou fundo, e virou-se para Hinata.
–Tudo bem. Preciso que você feche os olhos, e relaxe, está bem? Esqueça deles, esqueça que está nessa casa. Preciso que você se concentre apenas na minha voz. Pode fazer isso? – perguntou Ino, e Hinata notou que a voz da loira agora assumia um tom muito calmo.
Hinata assentiu, e fechou os olhos. Ino estava sentada à sua frente, e colocou os dedos nas têmporas da Hyuuga. Os três rapazes observavam à cena em completo silêncio.
–Quero que você se perca um pouco dentro de si mesma agora, Hinata. Quero que você ache o local escuro que há dentro de você.
A morena estremeceu um pouco com aquelas palavras. Hinata evitava visitar os lugares escuros de sua mente.
–Estou com você. – falou Ino. – Confie em mim, não irei deixar você sozinha. Você não conseguirá me ver, mas eu vou estar com você. Consegue sentir minha presença em sua mente?
Hinata assentiu. A pressão dos dedos de Ino em suas têmporas a deixava um pouco tonta, como se algo estivesse turvando sua mente. Logo Hinata se viu em um lugar escuro, e percebeu a si mesma como um corpo imaterial dentro de sua própria consciência. Ouvia a voz de Ino vindo de algum ponto atrás de sí, mas não conseguia vê-la.
–Ótimo, você conseguiu achar o caminho. Agora preciso que você se concentre um pouco mais. Preciso que entre um pouco mais fundo nesse lugar escuro. Eu estarei com você. – repetiu, tentando tranquilizar a garota.
Hinata estava um pouco desnorteada naquele lugar. Deveria seguir para onde?
–Apenas concentre-se no que desejamos encontrar. Você deve procurar por uma porta. Dentro de sua mente, existem várias portas, e qualquer uma que você consiga abrir irá nos dar alguma informação sobre seu poder, Hinata. Preciso que você ache uma dessas portas, e concentre-se na informação pela qual procuramos.
Hinata suspirou, e começou a caminhar. Na medida em que avançava, notava uma espécie de névoa lilás tomando o lugar ao seu redor, dando à sua consciência escura um tom ainda mais assustador. E quanto mais andava, mais medo sentia. Temia o que poderia encontrar ali; conhecia o suficiente de si mesma para saber que não queria mergulhar nos porões de sua mente.
Mas enfim deparou-se com uma porta. Era grande, e parecia pesada. E velha. Havia um selo nela, com um símbolo que não sabia identificar.
–Essa porta não! – falou Ino, e sua voz soava urgente na cabeça de Hinata.
Hinata deu um passo para trás, assustada com o tom de Ino.
–Volte a embrenhar-se na escuridão da sua mente, e procure por outra porta. Essa que encontramos agora não pode ser aberta por enquanto. Entendeu?
Hinata assentiu e voltou a caminhar. Não conseguia mais sentir-se presa a um corpo. Parecia que estava cada vez mais fundo no transe forçado por Ino, e estava cansada. Aquilo era muito exaustivo.
Logo Hinata sentiu-se envolta por uma névoa avermelhada. Sentia a vibração de sua mente mudar de frequência, e de repente, o lugar estava pesado, pesado demais para que prosseguisse. Uma nova porta apareceu diante de si.
–Chega por hoje. – ouviu Ino dizer – Amanhã tentaremos novamente. Volte daí.
Mas Hinata não conseguia se mexer. Queria abrir a porta, afinal, não era para isso que Ino a levara até ali?
Sentindo a hesitação de Hinata diante da porta, Ino fez sua voz soar agora de forma autoritária na mente da Hyuuga.
–Hinata, volte daí. Você já está exausta. Volte.
Hinata deu um passo a frente. E outro.
–Volte! – Ino gritou. Mas Hinata não ouvia.
–Volte, Hinata! – ela gritou novamente. Mas era tarde demais.
Hinata abriu a porta que estava diante dela.
Ino afastou as mãos de Hinata, ofegando, os olhos azuis arregalados. Apoiou as mãos no chão, tentando puxar o ar de seus pulmões.
–Ino! – alarmou Gaara, aproximando-se da loira. Sai também levantou-se rapidamente de onde estava, indo até ela.
Gaara reprimiu o impulso de socar a cara do rapaz.
–Ino, o que foi? – perguntou o ruivo, e sua voz era tomada de preocupação.
–Ela... abriu uma porta.
–E o que tem isso? – perguntou Naruto, a testa franzida pela confusão.
O grito aterrorizado e dolorido de Hinata foi tudo o que Naruto ouviu como resposta.
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