Paraíso Sombrio
13 Eu me importo
Notas iniciais
Naruto estava em frente a porta do quarto de Hinata já há alguns minutos. Hesitava em chama-la, e tinha sensações estranhas sobre o que acontecera na noite anterior. Seus olhos pesavam com o sono da noite não dormida, o que apenas contribuía para confundir ainda mais as coisas em sua mente.
Hinata o rejeitara. Desde o inicio, Naruto sabia que ela tinha certo receio quando ele tentava se aproximar. Embriagado e confuso como estava quando procurou por ela, achou que pudesse encontrar o conforto não só nas palavras, mas no corpo da morena. Estava acostumado a ter em seus braços a mulher que quisesse, e julgava a noite passada como mais uma de suas investidas vazias. Porém, era intrigante pensar nos motivos que o levara até Hinata. Ele queria companhia e conforto. Não era como as mulheres com quem costumava dormir. Ele precisava saber que alguém de fato se importava com o que ele sentia. Por que achara que Hinata era a pessoa a quem deveria recorrer naquele momento?
A embriaguez e a dor precipitaram suas ações, e ele não conseguiu esperar por respostas da garota. Avançou sem pensar, movido pela dor e confusão que o afligiam, e também pelo desejo. Afinal, desde o primeiro dia em que vira a Hyuuga, não pôde deixar de perceber o quanto ela era bonita. Mas aquela rejeição martelava em sua mente. E a reação dela à sua aproximação o intrigava. Queria saber por que ela se comportava daquela maneira, mas já tinha muitos problemas para lidar naquele momento.
Jiraya o mataria se soubesse daquilo. Faria picadinho dele quando ficasse sabendo que havia encurralado Hinata daquela maneira, deixando-a em tal estado de pavor que a levara ao desmaio. Seu mestre o esganaria, com toda certeza.
Naruto soltou um suspiro de frustração, e finalmente bateu na porta.
Não houve resposta.
–Hinata? – ele chamou, encarando a madeira a sua frente. Mas ouviu apenas o silêncio.
Girou a maçaneta, percebendo que a porta estava destrancada. Entrou no quarto, caminhando com cautela, esperando que ela ainda estivesse dormindo, mas viu que a cama estava vazia. Seus olhos vasculharam o quarto, até se depararem com a garota sentada no chão, encolhida. Encostada na parede, abraçando as pernas, a cabeça enterrada nos joelhos, Hinata não ergueu seus olhos para ver quem estava em seu quarto – embora já soubesse que era Naruto.
O loiro caminhou na direção de Hinata, abaixando-se perto dela.
–Hinata? – chamou, baixinho.
Ela ergueu um pouco a cabeça, encolhendo-se ainda mais ao ouvir a voz dele tão perto.
Naruto suspirou.
–Eu... – ele tentou começar, mas não sabia bem o que dizer – Espero que me desculpe pelo que houve noite passada. Eu estava bêbado e... confuso. Não quis assustar você. Me desculpe. – pediu, sentindo-se estranho por se importar com aquilo. Há algum tempo atrás, ele teria simplesmente deixado pra lá. Incomodava-o que ela o tivesse rejeitado; Naruto nunca havia levado um “não” de uma mulher antes.
Hinata apenas assentiu, em silêncio, erguendo um pouco mais a cabeça, querendo encará-lo.
–Está com fome? – ele perguntou, desviando seus olhos dos dela. O que estava fazendo ali? Por que a reação dela o incomodava tanto?
Ela permaneceu em silêncio.
Naruto tinha consciência do espaço que Hinata estava ganhando em sua vida, desde a primeira vez em que ela o desafiara, e oferecera apoio à sua dor. Sem que ele percebesse, ela havia se tornado parte de sua família, se colocando sempre ao seu lado. Mas havia algo a mais. Algo que começava a ganhar terreno dentro de si, incomodando, deixando-o confuso.
De repente, as palavras que Kyuubi havia lhe dito dias atrás se fixaram em sua mente, as lembranças acesas pela imagem da garota encolhida a sua frente.
“Existe algo naquela garota que pode lhe causar uma dor maior do que a que experimentamos hoje. Tome cuidado.”
–Vou esperar por você na sala. Tem algo que precisamos conversar. Não demore, está bem? – falou ele, pronto para se levantar e sair dali. A lembrança da advertência de Kyuubi o deixara ainda mais nervoso. O que ela queria dizer com aquilo?
Mas antes que pudesse se erguer, sentiu a mão de Hinata puxando seu braço, impedindo-o de se afastar.
–Me... me desculpe, Naruto... – ela sussurrou, num fio de voz.
Ele a fitou, seus olhos se arregalando de surpresa e confusão. Sentia os dedos trêmulos de Hinata agarrando seu braço, e uma pontada aguda atingiu seu interior.
O que aquela garota estava fazendo com ele?
–Pelo que está se desculpando? – perguntou.
–Eu... não posso... eu não consigo me envolver dessa forma... eu não...
A expressão do loiro era cada vez mais confusa. Então, ela queria, mas não... conseguia?
–Do que está falando, Hinata?
–Eu... – ela tentou dizer, sua voz trêmula. Sentia novas lágrimas se acumularem em seus olhos. – Tudo isso é novo pra mim. Eu não... sei... lidar com isso. Não... não posso...
Lentamente, Naruto aproximou o rosto do dela. Hinata baixou a cabeça novamente, encolhendo-se, sem conseguir explicar direito o que queria dizer. Sentia-se estranha, um turbilhão de emoções lhe atingindo de uma vez, como no dia em que o conhecera. Aquilo a deixava atordoada. Ainda não conseguia lidar direito com as sensações que ele lhe provocava, e com o passado que carregava dentro de si, era impossível explicar o porquê de não querer o loiro por perto.
Naruto tocou o rosto de Hinata, fazendo-a encará-lo novamente. Sentia sua mente sendo tomada pelas perguntas que surgiam: O que havia com ela? Qual era o problema? Por que ela não podia deixa-lo se aproximar? Por que não conseguia lidar com aquilo?
O loiro então aproximou seu rosto um pouco mais.
Hinata o fitava, os olhos marejados, afogados pelas palavras que queria dizer, mas não conseguia. Seu coração disparava de maneira estranha, mais pelo estranhamento que sentia, do que de medo. O que era aquilo? O que Naruto estava fazendo com ela?
Os olhos de Naruto se fecharam, mas ele simplesmente depositou um beijo no rosto de Hinata. E se afastou logo em seguida.
–Se apresse. Estou esperando por você na sala. – falou, andando para fora do quarto.
Hinata encarou a porta por onde Naruto havia saído, a expressão chocada, as lágrimas acumuladas em seus olhos. Ela piscou, fazendo-as cair. Mas não queria chorar.
Aquele homem lhe causava sentimentos estranhos, que Hinata ainda não conseguia reconhecer.
Nem admitir.
Quando chegou na sala, Hinata viu que Naruto estava acompanhado de Ino e Deidara. O Uzumaki assinava um cheque, praguejando o tempo todo.
–Isso é um roubo. – reclamou Naruto, encarando Deidara com um olhar estreito.
–Ninguém mandou você avacalhar com a minha boate. Tá pensando que pode sair destruindo tudo e ficar ileso? Hum?
–Que seja. – resmungou, sentando-se no sofá. Quando viu que Hinata já estava ali, apontou para o lugar ao seu lado. Ela caminhou em silêncio, sentando-se também, a cena que acontecera em seu quarto instantes atrás emoldurada em sua mente.
Naruto mantinha a expressão tranquila, como se nada tivesse acontecido.
–Hinata! – cumprimentou Ino, sorrindo.
A Hyuuga sorriu de volta, estranhando a atitude da loira. No dia anterior, ela parecia tão triste e distante... Mas Hinata sabia que Ino não era do tipo que se deixava abater por muito tempo. E, de certa forma, era um alívio poder ver que, devagar, ela se recuperava da dor causada por todos aqueles acontecimentos. Ino era a única amiga que Hinata tinha, e vê-la sorrir alegrou seu coração.
–Oi, Ino. – respondeu a morena, sorrindo também.
–Tsc. Não vai na onda dessa bruxa doida não, hein, Hyuuguinha? – resmungou Deidara, visivelmente contrariado pela presença de Ino ali.
–Fica na sua, recalcado. – a loira respondeu, lançando a Deidara um olha estreito.
–COMO É?! RECALCADA É VOCÊ!
–INVEJOSO! – Ino esbravejou de volta.
–CALEM A BOCA VOCÊS DOIS, QUE DROGA! – Naruto se estressou, intervindo. – Toda vez que vocês se encontram é a mesma coisa, que inferno!
–O que... o que está acontecendo? – Hinata perguntou, confusa. – Vocês não deveriam se tratar desse jeito, afinal... são irmãos...
Ino e Deidara encararam Hinata, a fúria marcando os dois pares de olhos azuis.
–O QUÊ?! – os dois gritaram, em coro.
–Vo-vocês não são... não são parentes? – a Hyuuga perguntou, vendo a irritação na expressão dos dois.
Naruto soltou uma risada com a pergunta de Hinata.
–NÃO! – eles novamente responderam em coro.
Naruto suspirou profundamente, tentando conter o riso.
–Então, Deidara, você trouxe os documentos que eu pedi? – o loiro perguntou.
–Hum. – assentiu o outro, entregando os papéis – Mas pra quê você quer isso?
–Ero-sennin está voltando. – contou Naruto, vendo o sorriso de Ino e Deidara se alargarem com a noticia – Quero mostrar a ele os resultados e lucros que tivemos no tempo em que ele esteve fora.
–Peraí... O Jiraya tá voltando? – perguntou Deidara — Não acredito! – celebrou, os olhos azuis brilhando de contentamento.
–Quem é Jiraya? – perguntou Hinata.
–Meu mestre. – respondeu Naruto, os olhos fixos nos papéis em suas mãos.
–Ele é o maior pervertido e sem noção do mun... – Ino tentou cochichar para Hinata.
–O que é que você tá falando do Jiraya ai, hein? – intrometeu-se Deidara, saindo em defesa do mestre de Naruto. Jiraya era um companheiro de farra, e para Deidara, aquilo era um laço que precisava ser preservado acima de tudo.
Ino revirou os olhos. Mas, pelo sorriso da loira, Hinata percebeu que ela também gostava muito do famoso mestre.
Depois de examinar os papéis, Naruto colocou sua assinatura em todos eles.
–Que documentos são esses? – Hinata questionou.
–Ero-sennin é dono de muitas empresas, mas sou eu quem administra tudo. – respondeu o Uzumaki, ainda sem olhar para ela.
A morena estranhou a atitude de Naruto. Parecia que ele evitava encara-la. Talvez estivesse tentando esquecer o que acontecera no quarto, mais cedo.
–Por que você o chama de “Ero-sennin”? – ela perguntou.
–Porque ele é um sennin. – respondeu, e pelo silêncio da morena, ele sabia que ela não havia entendido – É o que nós da ORDEM chamamos de sábio. E o “Ero” é porque... ele... gosta de... coisas eróticas.
–Ahn? – grunhiu a Hyuuga, surpresa com aquela resposta. Afinal, pelo que ela sabia, fora o mestre de Naruto quem o havia instruído a resgatá-la. Era ele quem estava interessado nas habilidades que ela supostamente possuía. E saber que ele era considerado um tanto... pervertido apenas a deixou intrigada. E um pouco assustada.
–Bom, mas não foi pra isso que eu chamei vocês dois aqui. – disse Naruto para os dois amigos sentados a sua frente. – Ino... – ele chamou, dando a vez da fala a loira.
Ela então voltou seus olhos azuis para Hinata.
–Naruto pediu que eu tentasse entrar novamente em sua mente, Hinata.
–O quê?! – apavorou-se a garota – Por quê?!
Ino e Naruto trocaram um olhar cauteloso.
–Para que possamos despertar seu poder. – explicou a loira.
–Ma-ma-mas você sabe o que aconteceu da ultima vez em que...
–Eu sei, querida. Mas seremos mais cuidadosos dessa vez. Não vamos deixar você se machucar.
Hinata olhou para Naruto, em busca de apoio. Mas o loiro ainda se recusava a encara-la.
–Sei que é difícil, mas confie em mim, está bem? – pediu Ino. – Precisamos entender o seu poder e despertar as suas habilidades o mais rápido possível. Vamos precisar de toda a ajuda que conseguirmos, considerando o que está por vir.
–O que está por vir?
–Sim... – falou a loira, virando-se para Naruto – Você ainda não explicou a ela?! – acusou.
O loiro apenas deu de ombros.
Ino suspirou, voltando a encarar Hinata.
–Vem, Hinata. – falou, levantando-se e estendendo a mão, incentivando Hinata a acompanha-la. – Vamos dar uma volta.
A morena se levantou.
–Pra onde você vai levá-la? – perguntou Naruto, encarando a loira.
–Fica quieto ai, e não se mete. – disse Ino, já arrastando Hinata pelo braço.
Antes de saírem da casa, a Hyuuga olhou novamente para Naruto, e o viu desviar os olhos dela.
Sem compreender aquela atitude, ela se deixou ser rebocada pela loira, sem protestar.
Quando as duas garotas desceram do carro, Ino seguiu até um grande estabelecimento, entrando sem cerimônia. Hinata foi logo atrás, parando na entrada, analisando o lugar.
Era grande e repleto de plantas. O cheiro era bom, fresco, como se estivessem em uma floresta. Havia algumas pessoas escolhendo flores, e outras que trabalhavam nas vendas. Hinata observava tudo aquilo admirada.
–Onde nós... estamos?
–Floricultura Yamanaka. – respondeu Ino – Meu mestre e Sai me ajudaram a monta-la. No começo era uma floricultura pequenininha, mas os negócios começaram a prosperar e... acho que quando se faz o que gosta, as coisas acabam dando certo, não é? – falou a loira, sorrindo.
Hinata assentiu, ainda boquiaberta com a beleza e sutileza do lugar. Caminhava ao lado da loira, admirando as flores, fascinada com o perfume que elas exalavam.
–Vem, vamos até a minha sala. – chamou Ino.
Hinata a acompanhou. E chegando ao escritório, a morena pôde perceber que não era diferente do restante da floricultura. A sala sequer parecia um ambiente de trabalho; flores se espalhavam por todo o lugar. Atrás da mesa, estendia-se uma grande parede de vidro, que deixava a mostra o céu azul, e o imenso jardim cultivado no grande espaço atrás da floricultura.
A Hyuuga se sentou, sua expressão ainda demonstrando admiração pela paisagem. Ino se sentou a sua frente.
–Hinata... preciso que você confie em mim e me deixe entrar em sua mente novamente. Quanto mais rápido despertamos seu poder, mais depressa saberemos se Jiraya é o mestre certo para você, ou se teremos que encontrar outra pessoa para lhe ensinar a controlar suas habilidades.
A morena encarava Ino, sentindo-se cada vez mais confusa.
–Eu... eu confio em você, Ino. É só que... toda essa confusão me deixa... – ela se interrompeu, sem saber como continuar.
–Eu entendo. Mas você precisa confiar em mim... em nós. Não ligue para as bobagens do Naruto. Ele é meio idiota, mas é um grande amigo. Eu confiaria minha vida a ele.
–Eu sei... Mas ele... – novamente Hinata se interrompeu.
–Ele o quê?
A morena desviou os olhos de Ino, envergonhada. Será que poderia mesmo confiar nela?
–Aconteceu alguma coisa entre vocês? – a loira perguntou.
–Nã-não! Não aconteceu nada! – a Hyuuga apressou-se em dizer.
Ino estreitou os olhos azuis, intrigada. Já desconfiava que, mais cedo ou mais tarde, Naruto iria tentar seduzir Hinata. Mas, pelo pedido que ele lhe havia feito naquela madrugada, ela desconfiava que algo mais se passava entre aqueles dois.
Algumas horas atrás
O celular tocava de maneira insistente, fazendo Ino despertar, irritada. Ainda era madrugada. Quem diabos estaria ligando numa hora daquela?
Deitada, ela tateou pela cômoda ao lado da cama, até encontrar o aparelho.
–Alô?!
–Ino? – a voz de Naruto soou do outro lado da linha.
–Naruto?! Você sabe que horas são?! – ela esbravejou, a voz arrastada pela sonolência.
–Sei. Não queria ter que te ligar tão cedo, mas... – ele hesitou. Tinha acabado de falar com seu mestre por telefone, e mesmo com a noticia de que ele voltaria em breve, outra coisa lhe ocupava a mente. – Preciso da sua ajuda. É a Hinata.
Ino se ergueu um pouco, querendo se concentrar nas palavras do amigo.
–Hinata? Aconteceu alguma coisa com ela?
–Não sei... Por isso preciso de você. Quero que a convença a deixar você entrar na mente dela novamente.
Dessa vez Ino precisou se erguer completamente, ficando sentada. Passou a mão no rosto, atentando-se à loucura das palavras do loiro.
–Naruto, você sabe o que aconteceu da última vez em que tentamos isso. A mente da Hinata é um terreno perigoso, ela pode acabar se machucando seriamente se continuarmos com isso.
–Sei que você vai ser cuidadosa. – ele insistiu.
Ino suspirou.
–Existem limites que nem mesmo meu poder pode ultrapassar, Naruto. E, afinal de contas, o que você quer com isso?
–Quero que você vasculhe a consciência dela em busca de qualquer vestígio do passado. Qualquer coisa suspeita.
–Por quê?
O loiro suspirou. Não queria ter que responder àquela pergunta.
–Tenho um mau pressentimento, e isso está me incomodando. Preciso de qualquer pista que me ajude a compreender o comportamento daquela garota.
–Não estou entendendo, Naruto.
–Não precisa entender. Apenas venha aqui mais tarde, e me ajude a descobrir o que quero saber.
Ino não teve escolha se não concordar. Prometeu que estaria na casa dele naquela manhã e desligou, preocupada. O que Naruto queria descobrir sobre o passado de Hinata?
Com a mente de volta ao presente, Ino encarou a morena. Sem saber quais os motivos por trás do pedido de Naruto, ela se empenhou em convencer Hinata. Afinal, entrar na mente dela novamente era também uma oportunidade de tentar descobrir algo sobre o poder da garota – além das informações sobre o seu passado, é claro.
–Nós sabemos que seu poder pode ser muito útil, pois tempos difíceis estão por vir. Alguém está provocando uma verdadeira chacina entre os mestres da ORDEM, e estamos perdendo muitas pessoas queridas, Hinata. Estou lhe pedindo como alguém que também pode perder seu mestre, se não encontrarmos o culpado, ou os culpados. – Ino disse, visivelmente preocupada. – Então... peço que cofie em nós. Queremos apenas te ajudar, e que você nos ajude também.
Diante daquele apelo, Hinata não pôde negar o pedido de sua única amiga. Assentiu.
Ino sorriu.
–Ótimo. Não há tempo a perder. Vamos começar. – falou a loira, levantando-se, e levando Hinata até o grande jardim nos fundos da floricultura.
Ali, em meio a tranquilidade das plantas, Ino se aprofundava na mente de Hinata. Avançava lenta e cautelosamente, com medo do que pudesse encontrar. Afinal, da última vez em que estivera ali, experimentara o verdadeiro horror, e tinha medo de se deparar com aquilo novamente.
Com os dedos nas têmporas de Hinata, Ino instruía a garota a relaxar, enquanto tentava fazer o mesmo.
E quando estava prestes a infiltrar-se de vez a mente da Hyuuga, algo lhe barrou a passagem. Ela forçou um pouco mais, seu chakra fluindo para a consciência de Hinata, sendo anulado pela energia negra que a garota emanava. Ino foi expulsa da mente da morena em instantes.
A loira olhou para a garota a sua frente, atônita. Por que não conseguia avançar?
Tentou de novo. E novamente, e mais uma vez. A energia negra da mente de Hinata a expulsava todas as vezes.
A tarde transcorreu na medida em que se esgotava a energia da loira. Diante de todas aquelas tentativas frustradas, percebia que não havia como atender ao pedido de Naruto.
Sem explicar nada, Ino levou Hinata de volta, confusa pela barreira que encontrara. Não se lembrava de tê-la percebido da última vez.
A noite já caia quando chegaram à casa do loiro. Ino tocou a campainha, e quando Naruto abriu a porta, Hinata percebeu que, novamente, ele a ignorou, como se não a tivesse visto.
Sem olhar para a morena uma única vez, Naruto deu passagem para que as duas entrassem. Ino se sentou no sofá, e quando Hinata estava prestes a fazer o mesmo, o loiro lhe dirigiu a palavra.
–Daqui a pouco vou buscar meu mestre no aeroporto. Quer ir também?
Hinata o olhou, surpresa por ele finalmente ter falado com ela. Mas não respondeu de imediato. Depois de tudo o que ouvira pela manhã, ainda não tinha certeza se queria conhecer aquele tal de “Ero-sennin”.
–Você vai gostar do Jiraya. – incentivou Ino, sorrindo. – Ele é um grande mestre, e uma boa pessoa. Foi ele quem resgatou Naru...
–Você vai ou não? – interrompeu o loiro. Ino sempre tinha tendência a falar demais.
–Estou indo tomar banho. – Hinata respondeu, apática. Queria saber por que ele a estava tratando daquela maneira, depois de tudo o que dissera naquela manhã. O que havia de errado com ele? Por que ele a estava evitando?
Sem dizer mais nada, ela se dirigiu até seu quarto.
Quando ouviram o barulho da porta sendo fechada, Ino e Naruto se encararam.
–E então? Conseguiu alguma coisa?
Ino suspirou, exibindo ao loiro uma expressão preocupada.
–Não. O que aconteceu entre vocês dois?
Naruto arregalou os olhos.
–Do que você está falando? – ele rebateu.
–Não sei. Hinata não quis contar, mas acho que você fez alguma coisa... porque só você seria idiota o suficiente para provocar uma garota como a Hinata, que tem uma personalidade tão frágil. Seja o que for, algo aconteceu, e uma espécie de barreira foi levantada na mente dela. Não há como passar.
–Como assim, barreira? O que isso quer dizer?
–Existem duas possibilidades... Alguém pode ter entrado na mente de Hinata antes de mim. Pode ter sido no período em que ela esteve naquele sanatório, antes ou depois... não sei. Mas aquela barreira foi ativada, e tenho certeza de que o que está sendo velado é o passado dela... mais especificamente, o que você quer descobrir. Alguém esteve na mente dela e selou o passado da Hinata, ou...- ela se interrompeu, sem querer acreditar na segunda possibilidade. Afinal, o que havia acontecido com aquela garota?
–Ou...? – incentivou Naruto.
–Ou ela mesma criou esse selo, involuntariamente, em resposta aos traumas que sofreu, e o fato de termos visto aquela memória do sanatório foi um sinal de que a barreira estava enfraquecida. Mas, se ela tiver passado por alguma situação de stress psicológico, a proteção pode ter se fortalecido, como uma forma de evitar lembranças desagradáveis. E me parece que ela tem feito bom uso desse selo, nos últimos anos. Hinata não parece ser do tipo que sabe lidar com as coisas que aconteceram no passado.
–E por que você acha que fui eu que provoquei o fortalecimento dessa barreira?
–Porque você é idiota, já disse.
Naruto bufou com aquela resposta. Mas intimamente, ele sabia que havia a possibilidade de aquela barreira ter se fortalecido por culpa do que acontecera na noite passada. E não queria pensar no porquê de aquilo perturbá-lo tanto.
Antes que pudesse prosseguir com aquela conversa, Hinata reapareceu na sala, de banho tomado e roupa trocada. A morena dava graças silenciosas ao fato de Ino ser totalmente fascinada por roupas e sapatos, e ter comprado várias peças, como um presente a Hinata, já que Naruto não a deixara trazer muitas roupas de sua antiga casa.
–Estou indo embora. – falou a loira, levantando-se para abraçar Hinata. A morena retribuiu ao gesto, sentindo-se aquecida e acolhida. Ino era uma boa pessoa. – Se cuida, garota.
–Você também. E... – agora Hinata sussurrava – Sinto muito pelo que aconteceu. – falou, referindo-se ao Gaara. Era visível quão abalada Ino havia ficado com tudo o que acontecera.
Ino apertou o abraço, também se sentindo acolhida.
–Obrigada, Hinata. – sussurrou de volta, antes de se afastar. Voltou-se para Naruto, abraçando-o também.
–Obrigado. – ele sussurrou, abraçando a loira com carinho. Ino era maluca, mas era uma grande amiga.
Mas Naruto arrependeu-se daquele pensamento quando sentiu a garota lhe dar um forte beliscão.
–De nada... só espero que da próxima vez em que eu vier aqui, você não esteja grudado com aquele ridículo do Deidara, cuidando de papelada das empresas.
–A-AAAIII! Não sei por que vocês dois não superam essa rixa idiota!
–Supero quando ele deixar de ser invejoso e pintar aquele cabelo! E mudar o penteado! E parar de falar “HUM” e “KATSU” o tempo todo como um retardado!
Hinata ergueu uma sobrancelha. Então era por isso que Ino não gostava do Deidara?
Se bem que, logo quando o conheceu, a Hyuuga achou que os dois fossem parentes... Deidara parecia uma cópia masculina de Ino. O cabelo e o penteado... até os olhos eram da mesma cor. Claro que, vendo o quanto a loira se irritava com aquela semelhança, sendo Deidara aquela pessoa irritante que todos achavam que era de sua família, Hinata agora entendia o porquê da indignação dos dois, quando ela havia perguntado se eles eram irmãos.
Naruto se desvencilhou do beliscão de Ino, abrindo a porta para que ela saísse. Esperou Hinata passar também, e logo em seguida trancou tudo, caminhando em direção ao carro. A Hyuuga o acompanhou em silêncio, observando Ino chegar até o próprio carro e dar a partida, acelerando para longe dali.
Naruto dirigia pela avenida em silêncio, a expressão vincada de seriedade. Não trocara uma única palavra com Hinata desde que entraram no carro, e aquilo a incomodava. Mas não sabia como iniciar um diálogo com ele e, para falar a verdade, tinha medo do que ele diria quando finalmente falasse com ela.
Meia hora transcorreu sem que os dois falassem absolutamente nada. Havia apenas o silêncio desconfortável entre eles, e aquela situação deixava Hinata cada vez mais aflita. Ela conhecia Naruto o suficiente para saber que sempre que ele ficava quieto daquela maneira, é porque estava prestes a explodir.
E foi isso que aconteceu.
De repente, Hinata viu Naruto soltar um suspiro impaciente, e desviar-se bruscamente da avenida movimentada, entrando em uma ruela escura e deserta.
Ele encostou o carro perto de uma calçada e Hinata olhou para os lados, vendo apenas árvores e muros ao redor.
–Por que parou aqui?
Naruto não respondeu. Ficou olhando para a paisagem a frente, sentindo sua mente sendo tomada pela confusão. Sem saber exatamente o que fazia, ele destravou o cinto de segurança, e encostou a cabeça no volante, respirando lenta e pesadamente.
Pensava em tudo o que Ino lhe dissera sobre a mente de Hinata, e em quando havia ido procura-la no quarto, em busca de consolo. Em sua cabeça, pintaram-se as sensações de ter seu corpo colado ao dela, do desejo que sentira, da necessidade de sentir que alguém se importava com ele. O loiro soltou outro suspiro irritado. O que estava acontecendo com ele, afinal?
–Naruto? Está tudo bem? – ela perguntou, apoiando a mão no ombro do rapaz.
O loiro sentiu uma onda de calor invadi-lo.
–Não toque em mim agora, Hinata. – ele falou, baixo, a cabeça ainda apoiada no volante.
Ela recolheu a mão, confusa. O que havia de errado com ele?
–Foi alguma coisa que eu fiz? Alguma coisa que eu... disse? – perguntou Hinata, preocupada. Não havia falado nada o caminho inteiro, e vasculhava sua mente em busca de qualquer coisa errada que pudesse ter dito enquanto ainda estavam em casa.
Ele suspirou. Tentava entender o que estava acontecendo, e por que ameaçava se descontrolar sempre que estava com ela. Praguejava mentalmente sobre aquela situação. O que quer que aquela garota tivesse feito com ele... não era normal.
–Naruto...? – ela chamou novamente, realmente preocupada.
O loiro então ergueu a cabeça, encarando a morena. A maneira como ela o fitava fez algo em seu peito se agitar.
–Posso perguntar uma coisa, Hinata?
Ela apenas assentiu.
–Por que você me rejeitou, ontem? – questionou ele, sendo direto.
Naruto viu os olhos perolados a sua frente se arregalarem.
–Do que... do que você está falando?
–Você sabe. Noite passada, no seu quarto. Por que você me rejeitou?
–Vo-você estava... bêbado e... confuso e... – gaguejava ela, diante da pergunta do loiro. As palavras que ele lhe dizia pareciam uma acusação. –E-e-eu não queria que...
–Eu quero a verdade. – exigiu ele.
–Estou falando a verdade! – ela quase gritou, começando a se desesperar. Sabia que mais cedo ou mais tarde aquele assunto viria a tona, mas não esperava que ele a pressionasse daquela maneira.
–Não. Você está mentindo pra mim. De novo. – ele a acusou, e então voltou a apoiar a cabeça no volante.
Hinata revirou sua mente, tentando encontrar alguma saída que tirasse de si o foco daquela situação. E foi num ato de desespero e ousadia que as palavras saíram de sua boca, de forma involuntária, como se quisesse acusa-lo de alguma coisa também:
–E por que você quer saber disso?
Ele novamente ergueu a cabeça, piscando, confuso com aquelas palavras.
Droga. Ela o pegara.
Hinata o encarava, com uma sobrancelha erguida, esperando pela resposta. E pela reação do loiro, ela havia conseguido mudar o foco da conversa.
–E-eu... – dessa vez era Naruto quem gaguejava.
A garota estreitou os olhos na direção do loiro.
–Estou esperando. – ela pressionou.
Ele novamente piscou. Como ela havia conseguido inverter a situação daquela maneira?
Naruto suspirou, impaciente e irritado.
–Porque... porque eu quero você, droga! – explodiu, o punho cerrado esmurrando o volante. A mão acertou a buzina do carro, fazendo-a soar estridentemente por toda a rua.
A morena pulou de susto com aquela reação de Naruto, que, como sempre, era exagerada. Olhou para os lados, preocupada com a possibilidade de a buzina ter atraído a atenção de alguém.
Mas não havia realmente ninguém ali.
–Eu me sinto atraído por você, tá legal?! – ele continuava esbravejando para Hinata. – E... – Naruto se interrompeu, hesitando. Mas as palavras começaram a jorrar sem que ele pudesse controla-las – E eu sei que você também sente o mesmo. – falou, dessa vez mais baixo, desviando os olhos dela.
–Eu?! – ela alterou-se, entrando em pânico com aquela conversa.
–Sim, você! – ele voltou a acusa-la. – E eu não sei por que diabos me importo tanto com isso... – falou, mais para si mesmo do que para ela – Você está acabando comigo, Hinata!
–O quê?! Mas eu não estou fazendo nada! – defendeu-se a Hyuuga.
–É exatamente isso que está me deixando louco! Eu sinto como se... – ele começou, mas novamente se interrompeu.
–O quê? – ela pressionou para que ele continuasse.
–Como se você estivesse me escondendo alguma coisa. E... você parece sofrer com isso. E que droga, eu me importo! Está acabando comigo ver você sofrendo em silêncio! Argh! – ele grunhiu, frustrado – Eu me importo! – falou novamente, cuspindo as palavras como se elas fossem um palavrão.
–E isso é ruim? Você... se importar?
–É claro que é! Por que ver você sofrer me incomoda tanto? Eu não deveria me sentir assim! Aaarrgghhh! – ele grunhiu mais alto.
–É por isso que você está me evitando? – ela perguntou.
Naruto não respondeu.
–Eu não... sabia que você... se sentia desse jeito. – a garota falou, baixinho.
Ele voltou a encará-la.
–Você vai me contar ou não? – ele perguntou.
–Nã-não tem nada para contar...!
Naruto estreitou os olhos para ela.
–Droga, Hinata. – reclamou.
Ela sorriu fracamente para ele.
–Sinto muito preocupar você.
–É, eu também não estou achando uma maravilha me sentir desse jeito. – o loiro resmungou, esfregando as mãos no rosto de forma impaciente. Parecia uma criança, indignado daquela maneira.
Hinata riu da reação de Naruto, e isso fez com que ele focasse seus olhos novamente no rosto dela. Era tão raro vê-la sorrir!
E sem pensar, ele aproximou o rosto do dela. Suas mãos seguraram os pulsos da garota, para evitar o que Naruto sabia que ela faria: afastá-lo.
Os olhos perolados da garota se arregalaram.
Os lábios do loiro tocaram o canto da boca de Hinata, movendo-se para os lábios dela.
A morena rapidamente virou o rosto.
–Na-Naruto, não! – pediu.
–É só um beijo, Hinata. – insistiu ele, falando baixinho, visivelmente decepcionado.
Ela ficou em silêncio, o rosto ainda virado. O loiro soltou os pulsos da Hyuuga, contrariado.
–Que seja. – falou, afastando-se, e recolocando a trava do cinto de segurança, pronto para ligar o carro.
Hinata suspirou.
–Naruto, espera.
Ele parou, com as mãos no volante.
–O que foi? – perguntou, apático. Ela o havia rejeitado novamente, e aquilo o frustrava profundamente.
–Fique quieto! — ela mandou, aproximando o rosto do dele.
Os olhos de Naruto se arregalaram ao sentir Hinata depositar um rápido selinho em seus lábios. Não durou muito, mas foi tempo o suficiente para que, surpreendentemente, um sorriso se espalhasse na expressão do loiro quando ela se afastou um pouco.
–Tenha paciência comigo, está bem? – ela pediu, e voltou ao seu lugar.
A garota encostou a cabeça no banco, olhando fixamente para frente, sentindo o coração acelerado. Cravou os dedos no assento, tentando controlar o tremor.
Naruto olhava para ela, ainda sorrindo, o que tornava tudo ainda mais estranho. Por que diabos ele se sentia tão feliz?
–Mas o que... – ele começou.
–Cala a boca e dirige, Naruto! — ela mandou, ainda olhando fixamente para frente.
O sorriso se alargou com aquela reação. Desde quando ela era tão mandona?
Em silêncio, ainda sorrindo, ele deu partida no carro, e acelerou, o pedido de Hinata ecoando em sua cabeça.
Infelizmente, – ou felizmente — paciência não era um de seus pontos fortes.
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