Pandora
23 Capítulo XXIII – Felicidade Demora Pra Acontecer
Notas iniciais
Capítulo XXIII – Felicidade Demora Pra Acontecer
As Regionais passaram e eu via Rachel andando pelos corredores com a cabeça baixa ou conversando com Kurt com mais frequência do que o normal. Sempre que meus olhos paravam nela, a imagem das mãos de Finn segurando seu rosto enquanto ele a beijava era algo que eu nunca queria ter visto na minha vida. Não depois de saber como era ter Rachel em meus braços e beijar aqueles lábios.
Enquanto os dias passavam eu tentava parecer mais forte. Não para qualquer outra pessoa, mas para mim. Eu precisava estar firme. Eu sou uma professora pelo amor de Deus! Eu tenho que estar firme diante dos meus alunos, e não tremer sempre que ver a morena de cabeça baixa do outro lado da sala.
A primeira semana foi a mais difícil. Terminar com Rachel e logo em seguida ter que entrar em uma sala de aula e tentar não pensar nas coisas que aconteceram ali anteriormente. Minhas memórias eram as piores partes de tudo. Ao menos era o que achava até o dia seguinte em que entrei na minha sala e encontrei Rachel.
Mas tudo piorou quando vi Finn Hudson envolvendo os braços ao redor dela e beijando seus lábios. Não sei exatamente o que deveria pensar sobre isso. Rachel não foi vista com ele pelo corredores na semana seguinte. Apenas com o Kurt, mas aí eu lembro que Finn mora com os Hummels. Então nada deixava minha mente parar de trabalhar.
Mais um motivo pra ficar tão tensa.
— Está tudo bem? — Escutei Will me perguntar quando entrei na sala dos professores e sentei ao seu lado. Acenei lentamente e passei uma mão pelo cabelo. Abri minha bolsa e retirei minhas provas para corrigir. — Tem certeza, sua cara diz que não é bem isso.
Respirei pesadamente e recostei na cadeira, olhando pra Will ao meu lado na mesa.
— Não é bem assim. — Dei de ombros. — Só tensa com tudo isso aqui.
E apontei para as provas. Will me lançou um olhar que dizia claramente que ele não acreditava em mim.
— Tudo bem. — Seu tom também deixou isso claro. — Enfim, como você deve saber, ganhamos as Regionais...
— Eu estava lá, Schuester.
— … E estamos nos preparando pelas Nacionais. E como você nos ajudou bastante nas Regionais...
— Você usou todas as minhas ideias para as Regionais.
— Então quero lhe pedir ajuda mais uma vez. — E ele sorriu, ignorando completamente qualquer coisa que eu tinha dito no meio do pedido dele. — Se estiver disponível, é claro.
Agora ele lembra disso. 'Se você está disponível, é claro'. Claro. Eles só ganharam porque tiveram uma ideia boa, e eu dei todas as ideias. Claro que ele ia precisar de mim se quisesse ganhar.
— Vou ver se tenho tempo. — E fixei meus olhos na primeira prova. Era do primeiro ano. Não foi uma boa ideia ter misturado as turmas. — Droga.
— Misturou as turmas?
— Sim, mas foi totalmente por acidente. — Comentei suspirando e olhei pra ele. — Como vai o coral? Devem estar felizes.
Will acenou animado.
— Sim, Finn está muito feliz. Ele não para de comentar sobre o quanto quer o dueto nas Nacionais. — Franzi o rosto. Lembro bem de ter perguntado sobre o 'coral' e não sobre o 'Finn'.
— E o resto do pessoal? — Enfatizei o 'pessoal' pra ver se ele entende que Finn Hudson não é o único no coral.
— Ah, sim. Sim, estão bem. Animados. — E ele deu de ombros. Sua animação pra falar de Finn era completamente diferente da animação inexistente pra falar do resto do pessoal. Novidade isso não é. Não sei porque estou surpresa.
Acenei e foquei nas provas que corrigia. Finalmente separando as turmas. Os alunos do segundo ano se saindo melhor do que os alunos do primeiro. Os alunos do terceiro se saindo melhores do que o segundo e o quarto. Nada de muito novo nisso.
Até que a prova de Rachel Berry surgiu na minha frente. Engoli em seco e tentei não focar muito em como sua letra era linda e delicada. Mas foi impossível. Sua letra era tão lindamente cursiva, seus 'C's' era lindamente curvados junto com seus 'L's'. Era encantador.
Um sorriso surge impossivelmente em meus lábios. O que Rachel Berry fazia que não me encantava?
—_
Entrei no meu apartamento, já esperando que Santana estivesse lá. Ela encheu meu celular de mensagens porque tinha perdido minha chave e não sabia como entrar no meu apartamento. Então falei pra ela aonde estava a chave reserva – em cima da porta – e ela já estava lá. Especificamente jogada no meu sofá e assistindo alguma série.
Não era uma novidade, aparentemente ela gostava da minha televisão mais do que as que ela tem em seu apartamento. E também da minha sala.
— Acha que eu tenho que parar de ver essa série? — Santana perguntou tirando os olhos da televisão e fazendo uma careta. Olhei pra tela da TV e vi um beijo hétero.
— Sim. — E saí da sala, entrando na cozinha e abrindo a geladeira.
— Acho que vou começar a ver Black Sails. — Santana comenta entrando na cozinha. Pego uma lata de coca. Viro pra ela, abrindo a lata e tomando um gole. — O desenvolvimento dos personagens são reais lá.
— Vi a primeira temporada, é bem interessante.
— Claro que é, tem piratas e gente nua. Nada de ruim nisso.
Balancei a cabeça, soltando uma risada e me apoiando no balcão. Tomei mais um gole da coca, vendo Santana se aproximar da geladeira e retirar uma coca pra ela.
— Não a vi hoje. — Comentei silenciosamente. Minhas mãos se fecharam na lata de coca, e meus olhos se fixaram no líquido que tinha dentro.
— Não teve aula com ela. — Santana concluiu e eu acenei. — Isso é pra ser uma coisa boa?
Balancei a cabeça lentamente.
— Eu não sei.
Santana apenas continuou ali. Ela assentiu lentamente e sentou na minha frente. O silêncio ficou por alguns segundos. Tomando nossos refrigerantes.
— Estou pensando em sair do armário para meus pais. — Comentei respirando trêmula. Santana arregalou os olhos pra mim.
— Quando?
— No jantar de Ação de Graças.
— Você enlouqueceu?
Franzi o rosto.
— Porque? Porque quero sair do armário?
— Não, porque você quer sair do armário no dia de Ação de Graças.
Dei de ombros e me sentei ereta no banco.
— E o que tem a ver?
— Você quer sair do armário no dia de Ação de Graças. — Ela repetiu como se fosse um absurdo. — Vai fazer o quê? Quando todos sentarem pra jantar você vai falar que gosta de comer mulher?
Revirei os olhos pela vulgaridade que Santana fazia questão de usar.
— Não, claro que não. Vou conversar depois do jantar.
— Como porra... — Ela balançou a cabeça, ainda incrédula. — Vai falar só sobre a sua bissexualidade?
— Não, vou falar sobre o casamento também.
Ela balançou a cabeça mais uma vez. Santana estava exasperada e mesmo que fosse por causa de mim, me divertiu.
— Você vai contar que casou com um cara por motivo nenhum?
Neguei com a cabeça.
— Eu não casei com o Greg por motivo nenhum, Santana. Eu o amava, você sabe.
— “Amava” — E ela fez as aspas com os dedos. — Não sei o que viu nele. Ainda me pergunto como você se casou tão rápido com ele.
Eu apenas balancei a cabeça. Gregory era um bom rapaz quando nos casamos. Eu estava apaixonada por ele, mas demorei pra entender que a paixão não era bem uma paixão. Era mais algo pra que eu não me sentisse sozinha depois do término com Holly. A faculdade pra mim foi mais um lugar aonde eu dormia com várias meninas antes de me acalmar com Gregory. Então me arrepender de casar com ele e nos separarmos.
Não tinha um motivo exato para me casar com ele.
— Eu acho que casei com ele porque não sabia o que fazer da minha vida. E ele estava ali. Tinha um futuro. — Chutei e dei de ombros. Santana fez uma careta e balançou a cabeça em negação.
— Não, sabe o que é?
Revirei os olhos.
— O quê?
— Você achou que depois da Holliday você iria ficar sozinha pra sempre. Que não iria achar ninguém. Então o Greg chegou e falou com você, sua mente se apaixonou pela dele, afinal, o cara é inteligente. Então você casou com ele e passaram um ano casados até que você entendesse que não era bem ele que deveria ser seu par para o resto da vida. Afinal, você é mais inclinada para mulheres. E também, você não se sentiu clicar com ele, não é?
Engoli em seco. Santana realmente me conhecia mais do que eu mesma.
— Você é ridícula. — E tomei o resto da coca, virando pra jogar no lixo.
— Estou certa, né?
— Não. — Menti, mas ela estava certa. O que ela disse não deveria ter encaixado tão perfeitamente no que eu sentia naquela época.
Escutei Santana bufar e ignorei.
— Claro que não. Enfim, vai contar sobre o casamento e sobre a sua sexualidade para seus pais, né? — Acenei virando-me pra ela e Santana balançou a cabeça lentamente antes de acrescentar. — E você sabe que eles não vão ficar nem um pouco felizes por saber que você casou sem eles saberem.
— Foi no cartório, não teve nada demais, você sabe.
— Sim, mas seu nome mudou, e isso é grande coisa. Sua mãe não vai ficar nada feliz. — E ela me deu aquele olhar de 'eu to te avisando'.
— E o que eu tenho que fazer? Esconder isso pra sempre? É uma parte de minha vida, infelizmente fui egoísta demais para cortá-los dela, mas ainda assim, é parte da minha vida e eu tenho que me abrir pra eles.
E saí da cozinha. Não sei se Santana me seguiu, mas entrei no banheiro e tirei as roupas. Tomar banho era melhor opção agora.
—_
Ação de Graças era no final de semana. Na segunda daquela semana, comecei a ter crises de ansiedade. Claro que eu teria crises de ansiedade antes de sair do armário para meus pais. Claro que isso iria acontecer. E é claro que elas pioraram quando na quarta Rachel estava parada em seu armário falando com Finn. E a proximidade deles não era algo que eu queria comentar.
Não sei dizer se ela percebeu que eu estava alí, olhando pra ela. Mas com toda certeza percebeu quando passei rapidamente por eles ofegante, virando na esquina dos corredores e saindo para o campo do futebol.
Dentro do McKinley estava ficando sufocante. Quando o ar frio de Novembro finalmente entrou meu coração parou de bater em meus ouvidos e minha mente se acalmou. Tinha nevado. Desde a semana passada começou a nevar. E estava lindo. O campo de futebol estava branco. Tudo estava branco e me lembrava de New Haven.
Passei o mão pelo banco das arquibancadas, retirando a neve e sentando-me. Respirei fundo mais uma vez, inclinando-me para trás e puxando o ar com mais força. O ar frio era calmante. Minha mente ficou dormente.
Eu sei que era bem egoísta da minha parte. Afinal, terminei com Rachel pra que ela fosse ter o seu ensino médio, que fosse ir para o baile com um namorado, que focasse em entrar numa faculdade. Então não tinha o direito de ficar mal sempre que ver ela perto do ex-namorado. Finn Hudson com toda certeza ainda tem sentimentos por Rachel, e eu não o culpo por isso.
Não tinha direito de sentir isso, de me sentir traída.
Eu fiz isso, então teria que lidar com as consequências. Mesmo que doesse tanto vê-la seguindo em frente.
Abaixei a cabeça e coloquei as mãos no rosto. Respirando fundo mais uma vez, arrastei as mãos até meu cabelo, olhando para o outro lado do campo de futebol. Meu coração tinha parado de bater em meus ouvidos e estava ficando mais fácil de pensar. Assim era melhor.
Meu celular vibrou no meu bolso. Demorei pra apanhá-lo no meu bolso. Arranquei minha luva e enfiei a mão no bolso do sobretudo.
Era uma mensagem da minha mãe.
“Você vem me ajudar no jantar hoje? — JF”
Respirei fundo mais uma vez, passando a mão gelada pela nuca antes de retira a outra luva e escrever uma resposta.
“Sim, estou indo para aí depois da aula. — QF”
Agora eu tinha que descobrir como mascarar a minha clara vontade de me encolher sob um lençol da minha mãe. Não vai ser fácil.
Tudo bem, eu claramente evito pensar em Rachel. Claramente evito pensar na vontade enorme de pedir pra que ela volte pra mim. Porque isso não é só pra ela, é pra mim também. Eu precisava disso. Não só pra me estabilizar emocionalmente, mas pra ter certeza de que vou ter meu emprego. Afinal, o que eu estava fazendo, não era bem visto nos olhos de mundo. Se alguém sonhasse que isso estava acontecendo, eu seria presa. E se não fosse presa, com toda certeza, não poderia ensinar em um colégio nem tão cedo.
Então sim, talvez fosse a opção certa. Tinha que ser. Se for pra acontecer, algo irá guiar nossos caminhos de volta.
— Imaginei que estaria aqui fora. — Escutei e levantei a cabeça, encontrando Holly Holliday me observando calmamente. Ela estava encostada na grade da arquibancada, sorrindo suavemente pra mim.
— O que você quer? — Perguntei e meu tom ignorante era um convite óbvio pra ela sair de perto, mas ela tomou como algo pra se aproximar. — Holly...
— Eu sei que você não quer me ver, mas...
— Mas nada. — Me levantei colocando as luvas e lançando um olhar pra ela antes de descer as arquibancadas. Holly me seguiu até virar a esquina até a entrada do prédio do McKinley. — O que você quer?
Perguntei mais uma vez e escutei um suspiro.
— Queria ver se você estava bem. Mal vejo pelos corredores ou na sala dos professores. Faz três semanas e...
— Eu já sei. — Virei pra ela e vi que ela tinha os braços cruzados e um olhar compreensivo. — Pare de olhar pra mim com pena. Eu fiz o que você mandou.
— Eu não mandei eu aconselhei e...
— Holly! — Ergui a mão para que ela parasse de falar. — Eu não quero escutar!
E continuei andando. Entrei no McKinley e os alunos ainda estavam nos corredores. Respirei fundo, sentindo o corredor apertar. Passei a mão pelo cabelo e virei pra ver que Holly ainda me seguia.
Senti ela segurar meu pulso e me puxar para parar de andar.
— Você não está bem pra dar aula, Quinn. — Ela murmurou olhando ao redor. Franzi o rosto. Isso era uma ofensa pra mim. Como porra ela conseguia dizer se eu estava bem ou não?
— E quem é você pra dizer isso? — Rosnei e puxei meu pulso.
Ela segurou mais forte e olhou ao redor.
— Vamos conversar sobre isso lá fora. — Holly pediu suavizando a voz.
Soltei uma risada debochada.
— Cala a boca, Holly. Não tenho nada pra falar com você. — E puxei mais uma vez o pulso, aparentemente Holly era mais forte do que eu. — Me soltei.
Quando rosnei ela soltou, enfiando as mãos nos bolso e se aproximando de mim. Balancei a cabeça e dei alguns passos para me distanciar dela.
— Você ainda não está bem pra dar aula, Quinn. — Ela sussurrou rápido e virei revirando os olhos.
— Porque? Porque terminei um relacionamento? — E dizer isso doeu mais do que eu deveria. — Eu não devo nada a você, Holliday.
E dei mais alguns passos, mas ela foi rápida em correr e parar na minha frente.
— Você está certa. — Ela falou rapidamente com as mãos balançando na minha frente. Holly estava exasperada. — Mas você está pálida e ofegante, se você entrar na sala de aula,vai desmaiar.
E foi minha vez de olhar ao redor. Vários alunos prestavam atenção em nós, conversavam entre si e lançavam olhares curiosos na nossa direção, e isso fez com que o ar saísse quase completamente dos meus pulmões.
— Vamos lá pra fora. — Holly sussurrou e eu puxei o ar, olhando por cima do ombro dela.
Rachel.
Ela estava ali. Olhava na minha direção. Sua expressão era indiferente, ao menos era o que dava pra entender naquela distância. Balancei a cabeça e virei as costas saindo pela porta tendo certeza de que Holly estava me seguindo.
—_
Dois dias tinham se passado desde o meu ataque de ansiedade no McKinley. E era Ação de Graças. Não fui pra casa da minha mãe naquele dia, não tinha como. Fiquei fora do colégio até a minha aula e voltei pra sala, dando aula rapidamente, não falando muito. Os alunos pareceram entender. E mesmo na sala do terceiro ano, não levantei meus olhos pra Rachel. Se eu fizesse iria perder o que me fazia ficar ali dando aula.
Na quinta não foi muito diferente.
Aparentemente, os alunos sabia quem eu não tinha a cabeça no lugar no momento e eles se mantinham apenas em silêncio. Então, talvez, aquela discussão com Holly no corredor foi algo produtivo. Em certo ponto.
Finalmente saí debaixo do chuveiro e me enxuguei em meu quarto. Vesti uma calça jeans e um suéter vermelho, logo em seguida botas pretas. Por cima uma jaqueta preta e um sobretudo preto. Passei a mão pelo cabelo, arrumando-o e juntei minhas coisas, saindo do quarto e encontrando a sala vazia do meu apartamento. Não veria Santana até a semana que vem, ela e seus pais viajaram para passar o dia de Ação de Graças com sua família em Paradise.
Saí do meu apartamento, pegando a chave do carro e fechando atrás de mim. O prédio inteiro estava silencioso. Ninguém estaria em casa hoje a noite.
Desci de elevador e fui para o estacionamento. Entrei no meu carro, agarrei o volante e respirei fundo. É bem complicado não estar tendo um ataque de ansiedade nesse momento. Ainda me pergunto como não estou ofegante com o coração batendo no ouvido.
O caminho até a casa dos meus pais foi mais rápido e tranquilo do que eu esperava. A cidade estava calma nessa hora da noite. Todos provavelmente em suas casas se preparando para o jantar.
Eu deveria ter passado o dia na casa da minha mãe, ajudando-a a preparar as coisas, mas não tinha cabeça pra isso, e se ela me visse na minha situação que estava... Bem, Judy não é o tipo de pessoa que deixa passar um olhar triste de uma filha. Ela com certeza me colocaria contra a parede e me faria falar tudo.
Então menti sobre ter que corrigir provas. E acabou sendo isso que eu fiz o dia inteiro.
Estacionei o carro na frente da casa dos meus pais e desci dele, vestindo o sobretudo e passando a mão pelo cabelo. Ele estava longo mais uma vez e, realmente, não tinha vontade de cortar. Já passava dos ombros, descendo até o meio das omoplatas. Um tamanho razoável. Talvez deixar assim por um tempo fosse interessante.
— Quinnie! — Minha mãe abriu a porta e me puxou para um abraço. — Demorou tanto minha querida.
— Ainda tinha que terminar algumas provas. — Murmurei sorrindo contra seu ombro. Ela me apertou mais.
— Você está toda se tremendo. — E me puxou pra dentro tão rápido quanto me abraçou.
— Ta nevando, mãe. — Expliquei o óbvio quando ela fechou a porta atrás de mim e me ajudou a puxar o sobretudo dos ombros. — Aqui tá bem quente.
— Seu pai conseguiu acender a lareira. — Ela bufa e dobra meu sobretudo colocando-o na cadeira ao lado da porta. — Quase a tarde inteiro pra entender como acende.
— Mas só precisa de...
— Não é pra mim que você precisa falar, Quinnie. — Ela ergue a mão pra falar e eu não consigo evitar o sorriso. — Vamos lá pra dentro, sua irmã está dando banho na Steph. Achei que Santana fosse vir?
— Ela viajou para Paradise. — Expliquei seguindo ela pra sala. Enfiei as mãos no bolso e sentei no sofá sorrindo pra lareira acesa.
— Sim, a família dela é de lá, né?
— Sim, sim. — Apontei para a lareira. — E como ele conseguiu acender, afinal?
— Sua irmã. — Ela revirou os olhos. — Seu pai não sabe que ele só sabe de tecnologia. Química não é com ele. Nada que envolva química ou biologia. Não é com ele. Lembro de quando falei pra ele que tava grávida da Frannie e ele passou meia hora pra entender a foto da ultrassom. Me acusou de mentir pra ele todas as vezes.
Soltei uma gargalhada e levei uma mão até a testa, ainda rindo enquanto minha mãe balançava a cabeça com um sorriso carinhoso no rosto. Ela sentou na poltrona ao lado do sofá e lançou pra mim aquele olhar materno. Cheio de carinho e amor.
— O que foi, mãe? — Perguntei suavemente e ela franziu o cenho, ainda me olhando com carinho e amor.
— Tem alguma coisa te incomodando, né?
Respirei fundo no meio da pergunta dela. Minha mãe me conhecia mais do que a mim mesma. Ela sabia quando tinha algo de errado antes mesmo que eu percebesse que era algum problema.
— Sim, tem. — Eu não iria mentir pra ela. Não tinha como. Ela iria saber se eu estivesse mentindo. — Mas não é assunto pra agora, mãe. Depois do jantar eu falo sobre isso.
E o olhar dela foi virando um olhar preocupado.
— Tem certeza de que não quer falar comigo agora? Você não parece bem.
Franzi o cenho pra ela e me arrumei no sofá, inclinando-me pra frente.
— Só... — Suspirei. — Quero falar quando todo mundo estiver aqui.
E ela apenas acenou, sem insistir.
Enquanto esperávamos meu pai e minha irmã descerem as escadas para o jantar. Minha mãe e eu fomos para a cozinha e eu a ajudei arrumar a mesa. Nós conversávamos sobre receitas que ela tinha preparado e eu ia anotando suas dicas na cabeça. Não porque eu queria, mas porque ela me obrigava enquanto repetia cada item.
Sabia que ela estava fazendo isso para me distrair. Se Judy vê que suas filhas estão com as mentes cheias, ela faz de tudo pra que não se sintam assim mais. Meu estômago se revirava com a ideia e que ela poderia ficar chateada comigo depois de saber o que eu tinha pra contar.
— Lucy Quinn Fabray. — Escutei atrás de mim e virei com um peru na mão. Minha irmã, Frannie, estava olhando pra mim com as mãos na cintura e um olhar que deveria ser intimidador, mas acabou por ser engraçado. — Quando é que vemos você e porque é sempre quando você quer?
Soltei uma risada e coloquei o peru em cima da mesa. Tirei o pano dos ombros e coloquei em cima da cadeira antes de abrir os braços pra minha irmã.
— Só vem aqui Francine. — Meu tom era duro, mas o sorriso no meu rosto deixava claro que era apenas uma brincadeira. Frannie balançou a cabeça revirando os olhos e andando até mim, envolvendo os braços na minha cintura e enterrando o rosto no meu ombro.
— Eu sinto uma falta da porra de tu e tu num faz porra nenhuma. — Ela murmura no meu ombro e tenho que apertar a boca no seu pra impedir que meu sorriso exploda no rosto.
— Frannie! Olha essa boca. Sua filha chega aqui daqui a pouco. — Minha mãe ralhou e Frannie se separou de mim com um suspiro.
— Estou aproveitando esses segundos pra falar palavrão, mãe. — Ela admitiu com um sorriso sarcástico e minha mãe só balança a cabeça.
— Eu não sabia que minha filha viria. — Olhei por cima do ombro de Frannie quando meu pai entrou na sala com um sorriso. Ele usava um suéter cinza e uma calça jeans. Seu cabelo loiro e grisalho estava confortavelmente desarrumado e era reconfortante vê-lo assim. Sem um terno tornando-o frio e inalcançável. Mesmo ele sendo exatamente o contrário.
— Pai. — Chamei abrindo os braços quando Frannie saiu da minha frente com um bufo. Fui até meu pai e o abracei, enterrando o rosto em seu peito. Seu cheiro era suave e reconfortante. Um cheiro másculo, paternal. — Nem parece que passei semanas vindo pra cá todos os dias.
Murmurei e ele riu antes de beijar minha cabeça e nos separarmos.
— Mas então, o carro está funcionando normal?
— Sim! Nenhum problema. Consegui comprar um aparelho de som para substituir aquele. Agora tenho uma tela touch no meu carro! — E acenei rindo e indo com ele pra mesa quando minha mãe e Frannie sentaram-se. — Aonde está Steph?
— Tô aqui, titia! — E virei a tempo de sentir um serzinho abraçando minhas pernas. Soltei uma risada e me abaixei, abraçando-a com força.
— Ah, que saudade da minha pequena.
O jantar passou mais rápido do que deveria. Ou melhor, passou mais rápido do que eu queria. Todos conversavam animadamente uns com os outros. Em vários momentos eu apenas fiquei ali, sentada, olhando para todos com um sorriso no rosto. Meus pais estavam tão felizes por todos nós estarmos sentados na mesa com eles. Depois que saí, eles ficaram bem sozinhos e depois Frannie se mudou pra cá com Steph depois do divorcio, eles ficaram mais felizes. Mas eu não estava ali, e agora estava.
Saber que o que eu iria falar depois poderia estragar aquilo que estava tendo ali, fazia com que pensasse algumas vezes. Meus pais poderiam não me perdoar nunca por ter casado sem eles saberem. Sairia do armário e rezar pra que eles me apoiem como sempre me apoiaram em minhas decisões. Mas talvez a junção dos dois possa fazer minha família se decepcionar comigo.
Ajudei minha mãe a tirar os pratos da mesa, colocando-os na pia e ajudei Frannie a lavá-los enquanto minha mãe colocava a comida em potes para que eu levasse pra casa e outros pra ficar aqui.
Depois disso, fomos juntas sentar na sala com meu pai que brincava com Steph no chão. Sentei no sofá com minha mãe e Frannie sentou na poltrona ao lado do sofá. Meu pai ainda brincava com Steph, fazendo-a rir gostosamente.
— Acho que Quinn tem algo para nos falar. — Sim, foi minha mãe que disse isso. Meu pai levantou os olhos pra mim, franzindo o rosto ainda sorrindo. Olhei pra minha mãe, que tinha um sorriso carinhoso nos lábios. — Não é Quinnie?
É, ela não iria deixar isso passar.
— Está tudo bem, Lucy? — Meu pai me perguntou, seu olhar era preocupado. Steph se encostou nele e olhou pra mim curiosa.
— Quinn? — Frannie chamou e olhei pra ela com um suspiro.
— Então, eu acho que está na hora de falar sobre o tempo que eu passei longe. — Comentei forçando uma risada e os três franziram o rosto pra mim. Até mesmo Steph, que olhou ao redor e franziu o rosto também.
Então eu comecei a falar dos meus anos na faculdade. Deixando de fora apenas minhas aventuras com garotas mais velhas na faculdade, afinal, Steph estava ali, toda sonolenta nos braços do meu pai. Expliquei me relacionamento com Gregory e esperei alguns segundos para ver suas reações. Meu pai parecia decepcionado com a ideia de que eu casei e não contei pra eles, minha mãe apenas continuava olhando pra mim, esperando que eu terminasse de falar. E Frannie estava apenas surpresa.
Continuei falando sobre o casamento, e expliquei exatamente o que Santana tinha me dito antes, que era basicamente como me sentia. Insegura. Minha mãe envolveu um braço em meus ombros, me puxando pra ela e beijando minha cabeça.
Depois disso comentei que ainda faltava uma coisa, e falei sobre minha bissexualidade. Meu pai soltou uma risada imediatamente, e minha mãe tremeu fazendo com que eu me afastasse incrédula e olhasse pra ela.
— Querida, nós somos seus pais, pais sempre percebem esse tipo de coisa. — Meu pai falou enquanto minha mãe ainda ria. Balancei a cabeça, ainda incrédula. — Nós sabíamos do seu interesse por meninas desde o dia em que você me pediu pra namorar com sua coleguinha quando tinha seis anos.
Meu rosto inteiro contorceu-se em confusão enquanto Frannie gargalhava no fundo. Eu não lembrava dessa de quando tinha seis anos. Olhei pra minha mãe, que sorria.
— Isso é verdade querida, viemos tentando fazer você nos contar sobre isso desde então. — Minha mãe admite e eu balanço a cabeça tentando conter a vontade de rir. Aparentemente, eu não fui uma criança muito discreta.
— Sim, lembro também do dia em que você tava dando uns amassos com aquela loirona de olho claro. — Frannie começou a falar e eu fechei os olhos, lembrando do dia que ela estava falando. — No seu quarto ela com as mãos em todo lugar e você fingiu como se nada estivesse acontecendo mesmo que estivesse bem claro.
E ela gargalhava. Balancei a cabeça e senti minha mãe me abraçando de novo, beijando minha cabeça repetidamente.
Passamos um tempo daquele jeito. Cada um com sorrisos pensativos. Deixei meu corpo relaxar contra o da minha mãe. Demorou alguns minutos nesse silêncio. Steph já estava adormecida no colo do meu pai e ele acariciava suas costas suavemente enquanto olhava para lareira. Frannie tinha se apertado na poltrona, os joelhos contra o peito e os olhos na lareira.
— Então, quer dizer que a minha pequena se casou. — Minha mãe falou num tom reconfortante. Levantei a cabeça para encontrar seus olhos. Ela tinha aquele olhar preocupado e levemente chateado. Assentia calmamente, olhando-a triste. — Porque não me ligou? Eu poderia ter te ajudado e você não precisava casar com ele.
— Eu sei, mãe. — Sussurrei e senti um bolo se formar na minha garganta. — Santana clareou minha mente várias vezes alguns dias atrás e eu finalmente entendi porque me casei. Ela estava certa, eu me senti insegura. Como falei sobre o término com... a Holly, não senti que merecia um final feliz, e quando ele chegou...
— Foi como se tudo estivesse bem e que com ele você poderia viver. — Frannie murmurou e olhei pra ela, seu olhar perdido deixava claro que ela pensava no seu ex-marido. — Que com ele você não precisaria preocupar com o futuro, apenas em tentar ser feliz.
— Mas a felicidade demora demais quando a pessoa não é a certa. — Terminei e Frannie focou os olhos em mim, assentindo lentamente.
— Ainda não encontrei essa pessoa. — Frannie admitiu e eu solto uma risada.
Eu encontrei, e a afastei.
— Nem eu. — Menti, tentando ser o mais sincera possível. Com sorte, minha mãe não percebeu.
— Mas não vamos falar sobre esse tipo de coisa, não é? Hoje é Ação de Graças, afinal. — Meu pai tentou animar e ele sorriu para mim antes de sorrir pra Frannie. — Vamos lá! Lucy, vá no meu escritório e pegue o Monopoly e o Scrabble.
—_
Voltei pra casa quando estava faltando duas horas pra amanhecer. Tirei o sobretudo e apanhei um edredom no meu quarto. Andei até a varanda do meu apartamento, abri a porta de correr e sentei na espreguiçadeira. Cobri meus ombros com o edredom e apanhei meu celular, colocando-o ao meu lado. Tirei minhas botas e me encolhi na espreguiçadeira.
Respirando fundo, finalmente me permiti relaxar. Hoje, aparentemente, não é um dia triste. Só porque todas as minhas semanas foram passadas em lamentação, ontem e hoje não são dias tristes. Meu celular vibrou com uma mensagem de Santana perguntando se tudo tinha acabado bem, respondi que sim, que tudo se esclareceu e ela pareceu ficar feliz por mim. Do modo dela, é claro. Me xingando.
Olhei para longe, percebendo a claridade súbita. O sol ainda não tinha nascido, mas já eram cinco da manhã, então o céu estava um pouco claro.
Estava terrivelmente frio aqui fora, mas não era bem o meu foco. Claro que eu tremia horrores dentro do cobertor, mas assistir o sol nascer, principalmente chegando no inverno, era algo magnífico.
O dia inteiro, não pensei em Rachel e no fato de que a cada dia sem ela eu me sentia mais vazia. Passei um dia inteiro sem pensar nisso. E agora, assistindo o sol nascer, eu pensava exatamente nisso. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto, mas não levantei a mão para enxugar. Era assim. Não tinha como evitar, eu teria que chorar abertamente em algum momento.
Sim, eu esperava que, em algum momento, pudesse ter Rachel de volta em meus braços. Era o que eu mais desejava nesse momento. Rachel chegou na minha vida fazendo tal impacto e agora não era como se fosse fácil deixá-la ir embora. Então sim, em algum momento, daqui a dois anos, eu esperava ter Rachel comigo mais uma vez.
Seria egoísta da minha parte pedir que ela esperasse por mim. Muito egoísta. Mas não era como se eu fosse capaz de não esperar por ela. Eu iria esperar. Não era algo que poderia controlar. Ou melhor, algo que eu queria controlar. Eu não queria ter que ficar com outras pessoas enquanto esperava o momento em que minha vida e a de Rachel se entrelaçassem mais uma vez.
Então sim, eu iria esperá-la. Ela iria se formar, entrar na faculdade e, talvez, nós pudéssemos ficar juntas. E dessa vez, sem nada nos impedindo de ficarmos juntas pra sempre.
Solucei cobrindo a mão para não desabar em um choro mais forte. Mesmo querendo chorar a vontade, não queria me acabar. Ainda veria meus pais nesse domingo, almoçaria com eles mais tarde. Se eu tiver a cara de quem chorou copiosamente a noite toda, minha mãe não me tiraria na uma cadeira até que eu falasse tudo que estivesse na minha mente.
Então suspirei ainda sentindo as lágrimas caindo e fechando os olhos quando os primeiros raios solares invadiram a varanda do meu apartamento.
Eu te amo.
As palavras de Rachel ressoaram na minha mente. Abri os olhos, sentindo um vento frio me abater e apertei o cobertor ao meu redor.
Eu sabia, sabia que Rachel tinha ficado magoada por não receber o 'eu te amo' de volta. Sabia porque era exatamente como eu me sentiria se fosse ela. E também porque foi o que vi em seus olhos quando não consegui falar as três palavrinhas.
Mas não consegui falar não foi porque eu não a amava. Muito pelo contrário, se eu falasse essas três palavrinhas, Rachel nunca me deixaria ir. Ela nunca viveria sua vida. Ela estaria exatamente como eu estou, engolindo a vontade de falar isso sabendo que a outra pessoa se sentia dessa maneira.
Então, se ela não sabia que eu a amava, estava tudo bem. Ela ficaria bem.
E eu observaria a distância. Observaria ela ficando com outras pessoas, se apaixonando por elas, dançando com elas nos bailes, cantando pra elas. E eu apenas observaria. Como se aquilo não estivesse fazendo o meu coração cair no meu estômago e meu ar sair do meu pulmão. Como se aquilo não partisse meu coração. Porque eu não tinha direito de reclamar, afinal, eu que parti o coração dela primeiro.
Mas eu a amava. Eu a amava muito. A ponto de doer.
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