Pandora

22 Capítulo XXII – Dormente Sem Você


Notas iniciais
Mais um capítulo pra vocês! Esse capítulo é bastante confuso por ser na mente da Rachel e ela está bem sentimental. Mas vai melhorando no decorrer do capítulo. Boa leitura!

Capítulo XXII – Dormente Sem Você

Eu sabia que, no momento em que dois braços me envolveram, não eram os braços de quem eu queria que fosse. Meu coração estava quebrado no meu peito, minha garganta ardia e tudo que eu queria fazer era gritar. Gritar pra quem quer que fosse. Gritar pra que isso tudo ser um sonho. Um pesadelo horrível.

— Rachel, querida, você tem que me falar o que foi. — A voz de Kurt no meu ouvido tirou o ultimo resquício de esperança de que aqueles braços fossem dela.— Rachel.

— Ela foi embora, Kurt. — Consegui falar e apertei o rosto em sua jaqueta vermelha que provavelmente era muito cara. — Ela me deixou.

E o choro ficou mais intenso. Meu corpo inteiro tremia e eu só queria fechar os olhos e nunca mais acordar.

Em algum momento, Kurt me levantou do chão, me prendendo ao seu lado e me guiando pelo corredor até sairmos do colégio. Eu lembrava bem de me despedir dele antes de ir pra sala dela. Então, como ele chegou aqui, era um mistério pra mim.

Não sei bem como fui parar na minha cama. Mas eu tinha minha cabeça no colo de Kurt enquanto ele passava os dedos pelo meu cabelo, cantarolando alguma música que eu ainda não tinha conhecimento dela.

Em algum momento, eu abri a boca. Falei baixinho sobre o que tinha acontecido e Kurt escutou tudo em silêncio. Eu tentava não chorar enquanto falava, mas tinha o rosto enterrado na camisa dele. Meu corpo todo tremia sempre que eu tentava falar o nome dela.

Depois que terminei de falar, Kurt soltou um xingamento baixinho. Ele xingava ela.

Seria muito mais fácil culpá-la por isso, mas ela estava certa. Em algum momento, nosso relacionamento teria que acabar. E eu iria ficar na mesma situação. Se eu tivesse me controlado no início. Se eu tivesse ficado calada e não ter beijado ela na sala dela. Se eu tivesse recebido o rumor de que ela e a Professora Holliday estavam juntas como se fosse algo normal, e não uma ameaça, nada disso teria acontecido.

Não era pra ter acontecido. Desde o início. Não era pra ter acontecido. Se alguém tinha culpa aqui, esse alguém sou eu.

Em algum momento da conversa, comentei isso, não por querer, apenas saiu. E Kurt pareceu seriamente ofendido.

— Nunca isso vai ser sua culpa, Rachel. Você é a menos culpada de toda a situação aqui. — Ele disse e, mais uma vez, enterrei o rosto na camisa dele. A presença de Kurt ali me acalmava e fazia com que eu me abrisse com ele.

Ainda bem que eu contei pra ele sobre meu relacionamento – ou sei lá o que tínhamos – se eu não tivesse feito isso, provavelmente estaria pior agora.

Kurt me perguntou se eu iria para o colégio amanhã, e eu não respondi. Era óbvio. Eu não conseguiria sair daquela cama. Não depois de olhar nos olhos de Quinn e dizer que a amava e não receber nada em troca. No momento em que eu olhar em seus olhos, eu vou quebrar. Portanto, ir amanhã para o McKinley estava fora de cogitação.

Kurt foi embora dez minutos antes que meus pais chegassem em casa. Consegui levantar da cama, entrar no banheiro e tomar um banho. Não consegui me olhar no espelho. Eu não iria conseguir me encarar depois do que aconteceu naquele corredor. Se olhasse em meus próprios olhos, eu iria quebrar. E a ultima coisa que eu queria agora, era quebrar.

Eu sei, era estranho eu estar deste jeito por alguém que eu estava namorando por 3 meses. Sim, era estranho. Eu não me sentia assim pelo Finn, e nós namoramos por 1 ano. Quando terminamos – porque eu queria dar um passo em direção ao que eu sentia por Quinn – eu só me sentia aliviada. Como se estivesse feliz por não ter que lidar com ele.

Quando voltei pra cama, meu primeiro insistindo foi pegar o celular na cabeceira e ir pra lista de contatos. Meu dedo pairou no nome 'Quinn'. Respirei fundo e desliguei o celular. Dormir seria uma dificuldade.

Fechei os olhos e repassei o que tinha acontecido no McKinley.

Depois que a Professora Holliday foi na sala dizendo que precisava falar com ela, Quinn voltou estranha. Quando fui falar com ela na ultima aula, Quinn estava tensa. Desde o momento em que bati os olhos nela ao entrar na sala, ela não tinha retribuído meus olhares. Ignorando todos eles e indo comigo até as escadarias.

Então sim, a Professora Holliday tinha alguma coisa a ver com isso.

Respirei fundo e apertei os dentes. A vontade de chorar foi impossível de segurar. Não tinha como Quinn ter terminado comigo daquele jeito. Simplesmente não tinha. Ela não poderia não retribuir meus sentimentos. Ela não poderia ter ido embora só com um 'eu sinto muito'. Não. Isso não poderia ter acontecido.

Virei na cama e abracei um travesseiro apertando o rosto nele e deixando um soluço escapar.

Não tinha como aquilo ter acontecido. Quinn nunca iria faze isso. Não. Ela nunca faria isso. Sexta foi maravilhoso. Nós dançamos na sala de astronomia e eu cantei pra ela. Não tinha como ela não me amar. Não tinha. Eu sei que ela me ama, eu vi em seus olhos que ela me ama. Ela me beija e eu sei que ela me ama. Ela não poderia ter ido embora só com aquele 'eu sinto muito'.

Sábado, quando fui pra sua casa, ela fez sorvete vegan e nós nos aconchegamos nos sofá dela. Quinn com os braços me envolvendo enquanto a gente via algum filme na Netflix. Ela sussurrou palavras amorosas no meu ouvido e nós nos beijamos. Não tinha como ela não me amar. A Quinn que me beijou sábado, que fez um jantar pra mim, que dançou comigo na sexta, que me chama de Pandora. Ela nunca faria isso. Aquilo não podia ter acontecido.

De repente, o ar do meu quarto não é o suficiente. Levantei da cama, tropeçando no tapete antes de abrir a janela. O vento frio me fazendo tremer. Respirei fundo e o ar frio acalmou minha respiração. Sentei na janela, me encolhendo e olhando para fora.

Iria nevar. Em alguns dias, eu vi. Iria nevar. E eu tinha meus planos com Quinn. Tinha meus planos para passarmos o Natal juntas daqui a um mês. Eu iria dar um jeito de fugir de casa e iria para seu apartamento, nós passaríamos a noite juntas. Seria nossa primeira noite juntas. Não necessariamente com sexo, nós ficaríamos abraçadas. E seria o suficiente.

Quinn não poderia ter terminado comigo. Porque ela fez isso? Porque ela tinha que criar aquela ideia idiota na cabeça dela de que eu tinha que focar na minha vida e que o nosso relacionamento não deveria estar nos meus planos. Ela estava sempre nos meu planos. No momento em que ela me salvou dos meninos do futebol, ela não saiu da minha cabeça, não tinha como aquela Quinn ter desaparecido.

Quinn tinha que me amar. Porque ela não disse que me amava?

—_

Fechei os olhos quando escutei a voz de Kurt no andar de baixo conversando com meus pais. Meus pais estavam preocupados já que não saí do meu quarto ontem quando Kurt me trouxe, não saí pra jantar quando eles me chamaram e fingi estar dormindo. E hoje de manhã quando me chamaram para o café, eu disse que estava doente e não me sentia bem pra ir pro colégio. Porém, Kurt veio pra minha casa depois das aulas e meus pais estão aqui.

A porta do meu quarto abriu atrás de mim e Kurt entrou silencioso. Parei de respirar quando senti ele subir na cama e me envolver em seus braços. Até que nós dois estávamos de conchinha na minha cama.

— Hiram e Leroy estão preocupados. — Ele comentou. Fiquei em silêncio sentindo meu lábio inferior tremendo com a vontade de chorar retornando. — Não acha que esse seria o momento perfeito pra contar pra eles o que está acontecendo?

Meu coração parou. Me soltei dos braços dele e sentei na cama lhe lançando um olhar ofendido. Nunca, em toda a minha vida, eu faria isso com Quinn. Ela terminou comigo deixando claro que se alguém descobrisse seria ruim pra nós duas. Mas eu sabia que seria pior pra ela. Ela perderia o emprego. E não poderia ensinar em nenhum outro colégio em Lima, ou até em Ohio. Ou em colégio algum.

Eu amo meus pais demais, mas eles nunca iriam deixar essa passar. Eles iriam até Quinn e lhe questionariam, ela não iria mentir pra eles. Ela nunca faria isso. E eles iriam levar isso para o diretor. Quinn seria demitida.

— Eu nunca vou fazer isso, Kurt. — Rosnei e me afastei dele. Fui até o banheiro no meu quarto e fechei a porta atrás de mim. Tranquei quando vi que ele se levantou pra me impedir de me esconder.

— Rachel, eu sei que não, querida, mas eles estão preocupados com você. E eles podem questionar ela com isso. Afinal, eles conhecem ela, não é? Se você ficar sem falar sobre isso com eles, eles vão até ela e vão perguntar o que aconteceu no colégio.

Eu não tinha pensado nisso.

— Eu arrumo uma desculpa. — Soltei e respirei fundo logo em seguida. Meus olhos foram para o espelho na minha frente.

Eu não era a imagem mais bonita. Meu cabelo desgrenhado, meus olhos inchados, meus lábios brancos e as olheiras abaixo dos olhos. O moletom da OSU azul do meu pai e um short de pijama.

Era a primeira vez desde que voltei pra casa ontem, que eu me olhei no espelho. Minha mente estava mais clara, consegui pensar com clareza em algumas coisas. Ontem eu não sabia exatamente como tinha ido parar na cama depois da crise que tive. Só lembro de acordar de madrugada na cama com a janela do quarto fechada. Provavelmente meus pais a fecharam quando vieram ver se eu estava dormindo.

Lavei o rosto e prendi o cabelo. Em algum momento eu tinha que acordar da bolha que estava vivendo com Quinn. Se era isso que ela queria. Se ela queria que eu tivesse uma vida sem que ela estivesse nela. Eu faria o que ela me pediu. Eu faria isso. Não porque eu queria, mas porque é a única maneira de passar por isso sem fazer com que não tenha valido a pena.

Saí do banheiro e Kurt estava sentado na minha cadeira da escrivaninha. Ele levantou os olhos pra mim quando escutou a porta fechando.

— Achei que não fosse sair tão cedo dali. — Ele comentou e colocou o celular na mesa. — Blaine me chamou pra sair.

E ele falava com uma expressão de culpa. Franzi o rosto pra ele.

— Você aceitou, certo? — Perguntei sentando-me na cama e passando uma mão na outra. Kurt deu de ombros. — Kurt, só porque terminei um relacionamento, não quer dizer que você tem que terminar o seu.

— Blaine e eu não estamos...

— Convenhamos, vocês estão. — E Sorri pra ele, demonstrando que não tinha mais aquele peso nos ombros. Não como ontem. — Sai com ele, Kurt. Eu vou viver se você não estiver aqui. Passei o dia inteiro só.

— Tem certeza? — Ele me olhou daquele jeito que fazia com que eu me sentisse culpada por ter preocupado ele.

— Eu não vou me matar por causa de um término, Kurt. — Engoli com força depois dessa frase. Quinn chegou na minha vida e fez um baita estrago dentre de mim.

Ainda evitava pensar no rosto dela e nos sorrisos dela. Depois da crise de alguma coisa que tive ontem a noite, não queria ter que pensar nela com tanta profundidade.

— Eu sei que não. Mas Rachel, querida. — E Kurt me lançou um olhar suave. — Eu vi quão apaixonada você estava...

— Eu sei. Já sei. — E engoli em seco.

— Barbra, eu estou preocupado com você. — Ele fez uma expressão genuinamente triste. — Você não estava bem ontem, hoje não foi pro colégio. Não é sempre que você falta, Rach. E você faltou por causa de um término de namoro.

— Amanhã eu vou, Kurt. — Avisei quase implorando pra ele parar de falar sobre o término. Passei a mão pelo cabelo preso. — Eu vou dar um jeito de ficar melhor do que isso e vou pro McKinley amanhã.

Kurt continuou me dando aquele olhar triste e eu fiz o máximo pra ignorar, mas com o suspiro pesado dele e a cadeira rolando até se aproximar da minha, não deu pra conseguir ignorar.

— Ela foi hoje. — Escutei ele sussurrar e respirei fundo. Não sabia se queria escutar isso, mas queria saber como ela estava. Se estava tão miserável quanto eu. — Não saiu da sala dela o dia todo. Fiquei de olho nisso. Mas não deu pra ver como ela estava, não tivemos aula com ela hoje.

— Kurt...

— Amanhã vamos ter aula com ela. Você tem certeza de que vai? — E eu levantei meus olhos pra ele. Kurt deu de ombros. — Nós podemos arranjar um jeito de matar a aula dela. Poderíamos ficar no auditório ensaiando para as Regionais.

— Sim, Kurt. — Meu olhar era determinado. Não iria deixar que isso me abatesse. Eu precisaria viver.Como Quinn disse, eu tinha que focar na minha vida. — Eu vou.

— É a aula antes do almoço. — Ele murmurou e eu engoli em seco.

Kurt sabia como os horários de almoço eram importantes pra mim. Depois de Quinn, nunca mais almocei no refeitório com ele e o pessoal do coral. E saber que eu iria assistir a aula dela amanhã, antes do almoço. Fazia meu estômago revirar e uma vontade enorme de pedir pra faltar mais um dia.

— Então vou ter que lidar com isso. — Murmurei esperando que fosse o suficiente pra Kurt.

— Como vai ser quando vocês se olharem na sala? — Kurt me perguntou e meu estômago revirou mais uma vez. Engoli com força e dei de ombros logo em seguida dando um suspiro apertado.

— Só vou saber quando acontecer.

E isso pareceu ser o suficiente pra ele, mesmo que sua expressão falasse o contrário.

Kurt foi embora depois de alguns minutos conversando comigo sobre o encontro que ele teria com o Blaine depois das Regionais no sábado. Quando ele saiu da minha casa resolvi que era hora de mostrar a cara para meus pais.

Tomei um banho e vesti uma roupa que não me deixasse tão miserável como a que eu estava usando antes, e desci as escadas. Pai e papai estavam na cozinha. Eles sorriam enquanto conversavam. Pai sentado no banco do balcão, sorria para papai que fazia café para os dois.

Eles não tinham me percebido ainda, então aproveitei aquele momento pra admirar a relação maravilhosa que os dois tinham.

Meus pais eram tão felizes e passaram por tanta coisa pra chegar até onde estavam. E talvez isso me desse esperanças. Esperança de que, algum dia, o destino ligue o meu caminho com o de Quinn mais uma vez. E nada iria nos separar. Eu seria feliz, faria Quinn feliz, ela me faria feliz. Bem longe de Lima. Só nós duas.

Mal podia esperar pra esse dia chegar.

— Estrelinha? — Pai Hiram me chamou e eu ergui os olhos pra ele, forçando um sorriso. Pai me olhou com os olhos tristes. — Está tudo bem, querida?

— Sim, pai. — E forcei mais ainda o sorriso, dessa vez pra parecer mais normal. — Provavelmente foi algum resfriado que peguei ontem, mas já estou bem.

— Ainda está pálida querida. — Papai comentou e colocou uma xícara na minha frente. Peguei a xícara. Era chocolate quente. — Com leite de soja. — Ele piscou e eu segurei a xícara em minhas mãos, esquentando-as. — Tem certeza de que está bem?

E acenei tomando um gole do chocolate quente. Não sabia que estava com fome quando tomei o primeiro gole. Papai sorriu suavemente pra mim e falou que ia fazer um sanduíche de manteiga de amendoim pra mim. Pai olhou pra mim e colocou um braço em volta dos meus ombros. Eu ia ficar bem. Esse término tinha que ser algo positivo e não negativo. Eu não ficaria paranoica. Não precisaria olhar pra todo lugar sempre que estivesse saindo da sala de Quinn. Nem me preocupar com os olhares de acusação. Não que isso tenha acontecido, mas minha mente me pregava peças.

— Voltei para meu quarto e deitei na cama. Fechei os olhos e esperei dormir logo em seguida, mas quando meu estômago se revirou de ansiedade eu soube que dormir, não seria uma opção essa noite.

—_

Levantar no dia seguinte foi extremamente difícil pra mim. Eu não sei como realmente consegui fazer. Meu corpo pesava, minha cabeça não parecia estar no lugar, me sentia dormente. Mas consegui levantar da cama e cambalear até o banheiro na frente dela. Tomei um banho longo e quente, no final mudando pra frio, pra me acordar de qualquer coisa que me prendia na cama.

Vesti uma roupa quente quando vi que estava ameaçando chover bastante. E, aparentemente, nevou de madrugada, mesmo que eu não vi neve alguma quando passei a noite acordada.

Era, provavelmente, a primeira vez que vesti uma calça jeans pra ir pro McKinley. Vesti um suéter e um sobretudo sobre ele. Quando desci as escadas, papai estava me esperando no andar de baixo com um sorriso. Ele me levaria para o colégio.

Me deixou na porta do colégio e antes que eu pudesse sair, papai segurou meu pulso. Virei e vi que ele ainda tinha um olhar preocupado.

— Tem certeza de que está bem pra assistir aula? Ainda está bem pálida, querida. — Ele tinha a voz cheia de preocupação. Acenei lentamente.

— Sim, papai. Sim, eu estou bem. Preciso sair de casa, sabe que não consigo passar muito tempo em casa sem ficar louca. — E sorri pra ele, tentando não deixar que ele descubra que esse sorriso era forçado.

Papai sorriu pra mim e soltou meu pulso.

— Tome cuidado lá. — Ele avisou e eu acenei, me preparando pra sair do carro. — E manda um abraço pra Quinn, faz um bom tempo que não a vejo. Quem sabe ela vá jantar lá em casa algum dia.

Eu travei, engolindo em seco e virei para meu pai, sorrindo forçado.

— Certo. Eu falo com ela. — E saí do carro. — Até mais, papai.

E saí de perto do carro, andando reto na direção da entrada do colégio. Meu coração batia com força contra minhas costelas e uma vontade enorme de vomitar me dominava. Balançando a cabeça, entrei no colégio e fui direto para meu armário.

Senti que alguém se aproximava e olhei por cima do ombro. Era Tina. Soltei o ar e forcei um sorriso. Não sei quantas vezes eu já forcei um sorriso desde que acordei.

— Eu sei que não é da minha conta, mas porque você faltou ontem? — Foi a primeira coisa que Tina disse quando se aproximou de mim. Ela apertava as mãos nervosamente, como sempre. Ela tava sempre tímida e nervosa perto de qualquer um.

Deixei que um sorriso que não fosse forçado surgisse em meus lábios.

— Peguei o resfriado na segunda, e não consegui sair da cama ontem. — Expliquei tentando não fugir muito do que eu contei para meus pais. Tina não era como Kurt, mas eu confiava nela, e ela conseguia me ler muito bem, então eu teria que indicar o mínimo. — O que aconteceu ontem?

A pergunta pareceu tirar Tina do nervosismo e ela ficou animada.

— Professor Schuester finalmente decidiu as músicas e vamos passar o intervalo e a ultima aula ensaiando. De acordo com ele, os professores da ultima aula vão nos dar esse tempo livre. E vamos ensaiar até o sábado.

— Acredito que tenho o solo. — Comentei fechando o armário e me dirigindo para a sala de cálculo. Tina ficou tensa com a minha suposta afirmação. Respirei fundo já imaginando o porquê que ela ficou tensa. — Quem tem o solo?

— Mercedes. — Ela respondeu ainda tensa.

Respiro fundo mais uma vez.

Pela primeira vez, eu não me sentia traída com essa notícia. Talvez, não ter o solo, fosse a melhor opção pra mim, já que minha cabeça não estava no lugar.

— É, talvez seja pela melhor causa. — Comentei e senti o olhar de Tina queimando na minha cabeça.

— É a primeira vez que escuto isso sair da sua boca.

Parei de andar quando cheguei na porta da sala de cálculo. Tina ainda me seguida, afinal, era uma aula que tínhamos juntas. Mas ela ainda tinha aquele olhar surpreso pra mim.

— Não estou com muita cabeça pra focar no solo das Regionais, talvez nas Nacionais. — E abri a porta da sala vazia, entrando com Tina me seguindo. — Ando meio atrasada em algumas matérias, não quero tirar nota baixa na semana que vem, então preciso estudar.

— Também é a primeira vez que escuto isso de você. — Ela comentou sussurrando e foi impossível não deixar um sorriso verdadeiro cruzar meus lábios.

— Não se preocupa, Tina. — Sorri pra ela. — Eu estou incomodada pelo meu solo roubado.

E Tina pareceu relaxar. Sim, eu esqueci que sou arrogante quando se trata da minha vontade de cantar. E eu tinha ele agora. Tinha uma vontade gigante de cantar o que sentia. Mas perder as primeiras aulas não era algo que deveria fazer. Principalmente perdendo as aulas do dia anterior.

As aulas antes da aula de Quinn passaram mais rápido do que eu gostaria. E quando eu caminhava lentamente para sua sala, meu coração parecia que ia pular da minha boca. Kurt andava ao meu lado, conversando animadamente com Tina sobre seu encontro de sábado. Tentei prestar atenção no que ele falava, mas minha mente corria com o que estava prestes a acontecer.

Viramos a esquina e a porta da sala de Quinn ficou visível pra mim. Fixei meus olhos na madeira pintada de cinza e respirei fundo. Kurt colocou a mão nas minhas costas, fazendo com que eu não perdesse os passos. A mão de Kurt suavemente me guiava para ficar ao lado dele enquanto andávamos na direção da porta que se aproximava a cada passo.

Ainda estava fechada, o que indicava que Quinn ainda não estava alí. Provavelmente na sala dos professores. Kurt abriu a porta apenas pra que Tina e eu entrássemos. Como imaginava, a sala estava vazia, mas as coisas de Quinn estavam na mesa dela indicando que ela voltaria em alguns minutos para dar a aula.

Kurt me guiou para sentar ao seu lado. Não era o mesmo lugar que eu sempre sentava, mas sentar ao lado de Kurt fez com que me sentisse mais confortável. Tina, completamente confusa, sentou-se atrás de mim. Ela era uma boa amiga, mesmo sem ter ideia do que estava acontecendo. Ela ainda começou a falar sobre as Regionais e me falou sobre as músicas que o nós iríamos cantar.

E isso me distraiu por alguns minutos. Minutos esses que passaram rápidos demais. Porque quando o sinal bateu e a porta abriu, meu coração bateu com força contra minhas costelas. Subi os olhos rápido para a porta, esperando encontrar Quinn nela, mas era apenas Finn e Puck rindo e conversando sobre o jogo de basquete.

Abaixei a cabeça, respirando fundo e tentando focar na conversa de Tina e Kurt, mas estava impossível. Meu coração batia alto demais nos meus ouvidos.

Os outros alunos foram entrando na sala e eu não escutava mais nada. Abaixei a cabeça e senti a mão de Kurt nas minhas costas. Não levantei a cabeça, esperando que ele não estivesse falando comigo, apenas assegurando de que eu estava bem.

Não estava, mas levantar a cabeça não era uma opção agora. Não quando tudo que comi de manhã estava se revirando em meu estômago com a ansiedade.

Então a porta abriu mais uma vez e a sala ficou silenciosa. Todos correram para sentar em suas cadeiras e abrir seus livros. A mão de Kurt pareceu ficar mais pesada em minhas costas.

— Bom dia. — A voz de Quinn soou pela sala. Logo em seguida uma sugada de respiração. Levantei meus olhos, totalmente fora do meu controle, e encontrei os seus com facilidade. Até porque ela olhava pra mim.

Eu não sei exatamente o que senti. Mas a vontade de sair correndo quase me dominou. Quinn tinha os olhos levemente vermelhos atrás de uma armação preta de óculos. Desde quando ela usava óculos? Seu cabelo desarrumado preso em um rabo de cavalo baixo.

Ela me olhava assustada e surpresa. Como se não estivesse esperando que fosse me ver ali tão cedo.

— Bom dia, professora.- Os alunos falaram e nossos olhos desgrudaram.

Abaixei meus olhos e escutei Quinn pigarrear.

— Sim, então. Fizeram a atividade que passei na segunda? — Escutei ela perguntar e os alunos soltaram um murmúrio, alguns dizendo que sim, outros reclamando que não. — Não vamos falar sobre isso hoje. Darei mais um tempo para que respondam as atividades da folha. E também quero que reúnam dúvidas e venham falar comigo.

Levantei a cabeça rapidamente, vendo-a virar para se aproximar da mesa, sinalizando que iria sentar na cadeira.

— Professora? — A mão de Puck estava no ar. Quinn parou de andar e virou, abaixei a cabeça imediatamente.

— Sim, Puckerman? — Quinn ainda parecia ter dificuldades em não olhar pra mim. Eu sentai seus olhos, mas mantinha os meus em minhas mãos na mesa.

— Tem uma coisa que você comentou aqui no final da folha de atividades pra prova. — E escutei ele pegar a folha. — “Todo mundo se encaixa numa situação da mitologia, basta encontrar a sua”.

— Sim, Puckerman. — Ela suspirou e eu fiquei tensa quando seus olhos grudaram em mim por alguns segundos. — Qual a sua pergunta?

— Não é bem uma pergunta, professora. — Virei o rosto um pouco para ver Noah segurando o papel como se sua vida dependesse disso. — Queria dizer que entendi.

E tive que levantar os olhos pra Quinn. Foi impossível não fazê-lo. Quinn tinha os olhos em Noah, um olhar compreensivo. Nunca contei pra Quinn a história da vida de Puck, mas ele sofreu muito nas mãos do pai. Ele e a irmã dele, a irmã dele mais ainda. Então, provavelmente, tinha alguma história na mitologia que falava sobre isso.

— Eu também encontrei uma. — A voz de Kurt soou ao meu lado. Ele parecia perdido em pensamentos.

Quinn dirigiu o olhar pra ele. Então pra mim. Ela respirou fundo e comprimiu os lábios. Foi impossível pra mim desviar o olhar do dela.

— Pra mim também. — Outro aluno disse, não sei dizer quem.

Então vários alunos foram falando que também encontraram suas histórias. E os olhos de Quinn desgrudaram dos meus, ela sorriu suavemente para todos os alunos.

— Isso é importante, pessoal. É o primeiro passo pra gostar da mitologia. — Ela se apoiou na mesa, seus olhos foram pra mim mais uma vez. — É o primeiro passo pra se identificar com um assunto. Fico muito feliz que encontraram uma maneira de se identificar.

— Foi assim que se identificou, professora? — Noah perguntou e minha garganta apertou com a vontade de chorar.

O olhar de Quinn queimou em mim quando centrei o meu em Noah. Eu lembrava exatamente do momento em que Quinn sentou ao meu lado e me contou o momento exato em que ela começou a se interessar pela mitologia. Dias depois ela me chama de Pandora. Pandora.

Eu era sua Pandora.

Sua tentação.

Sim, eu pesquisei sobre isso.

— Sim, Puckerman. — Ela acenou lentamente. — Foi assim que me identifiquei.

E ela sorriu pra ele. Era um sorriso falso. Eu sabia disso. O sorriso não chegava em seus olhos.

—_

A aula não demorou pra acabar. E eu me sentia aliviada por causa disso. Passei a aula inteira tentando não olhar pra Quinn, e ela não pareceu ter o mesmo pensamento que eu. Senti claramente todos os seus olhares na minha direção. Mesmo quando ela fazia perguntas e alguém levantava a mão pra responder, ela tinha os olhos em mim.

Como se ela quisesse, desesperadamente, que eu olhasse de volta.

E, apesar da enorme tentação, eu não devolvi seu olhar. As palavras que ela me disse na segunda, em como ela falava que eu deveria seguir em frente, repassavam na minha mente. Então aceitei essas palavras, me preparei pra seguir em frente. Quinn terminou comigo, então... É. Seria assim a partir de agora.

— Senhorita Berry? — Escutei a voz que tanto adoro me chamar e meu corpo tensionou. Meus pés se dirigiam para a porta quando ela me parou.

Virei o rosto pra ela, não completamente, apenas pra demonstrar que estava lhe escutando.

— Sim?

— Posso falar com você por um minuto? — Sua voz tremeu levemente e minhas mãos apertaram o caderno em meu peito.

— Não posso. — Falei e virei completamente para lhe enfrentar. A sala estava vazia. Apenas nós duas estávamos aqui. Ela tinha o olhar quebrado. Como se estivesse implorando para que eu ficasse. — Regionais será no sábado. Vamos ensaiar agora.

E virei para terminar meu caminho pra porta.

— Rachel. — Escutei e travei com a mão na maçaneta. — Eu não mudei de ideia, é só que...

Ela demorou pra terminar e meu corpo inteiro estava tremendo. Apertei a maçaneta na mão, tentando arrumar coragem pra não sair correndo dali.

— Sim? — Encorajei pra que ela continuasse falando.

Escutei um suspiro pesado.

— Queria saber se estava bem, fiquei sabendo pelo Schuester que você faltou ontem e...

— Isso não é da sua conta, professora.

O professora saiu mais amargo do que eu queria. Talvez tivesse depositado dor demais nessa palavra. E talvez fosse exatamente isso que nós precisássemos. De algo pra aumentar o muro entre nós. Algo pra impedir que eu me jogue em seus braços todas as vezes que ela olha pra mim. Ou chega perto de mim. Ou até mesmo entrar no mesmo ambiente que eu.

— Tudo bem. — Escutei e logo em seguida um suspiro. — Tudo bem. Eu entendo.

Não aguentei ficar mais um segundo, abri a porta e saí da sala.

Eu procuraria trabalhar no que realmente quero pra minha vida. Conseguiria a minha vaga em NYADA no ano que vem, e ignoraria que tinha aula com o amor da minha vida quatro vezes na semana.

—_

A semana passou rápida. Era sábado, o dia das Regionais. E enquanto todos estava nervosos e ansiosos na sala verde. Eu tinha minhas costas na parede ao lado da porta, minhas mãos entrelaçadas em minhas costas. Todos já estavam prontos. A meninas usavam um vestido verde com uma faixa preta, e os meninos usavam calças pretas, camisas verdes e gravatas pretas.

A semana inteira passou muito rápido. Na quinta tivemos outra aula com Quinn e na sexta tivemos mais outra, mas nas duas, ela não olhava pra mim. Não como antes. Apenas curtos olhares na minha direção. Eu não entendia bem o que ela queria com isso, mas quando sentia algo querendo que olhasse pra cima, eu sabia o que ela sentia.

Era uma vontade incontrolável de olhar pra ela.

E nessas duas aulas, consegui evitar.

E não foi fácil. As noites que passei chorando e tentando não chorar foram longas.

Quinn não tentou se aproximar de mim. Ela não tentou falar comigo, não tentou chamar minha atenção. Foi como se ela fosse um fantasma. Apenas ali. Existindo, dando aula, mas nunca se dirigindo a mim. Nem direta, nem indiretamente. Apenas ali. Ou, talvez, eu fosse o fantasma. Apenas ali, existindo, tentando não se percebida por ela.

Mas dei tudo de mim nos ensaios para as Regionais. Ao menos tudo o que eu conseguia dar. Todos estavam empolgados e nervosos para essas Regionais. E eu não estava muito pra trás, acrescentando apenas o 'triste' na lista de sentimentos.

— Rach? — Escutei Finn me chamando e levantei os olhos pra ele. Finn tinha a gravata totalmente desarrumada. — Tudo bem?

— Sim, sua gravata está desarrumada. — E me aproximei dele, erguendo os braços para arrumar sua gravata. Finn corou levemente. As vezes eu esquecia que ele sentia alguma coisa por mim.

Enquanto atava sua gravata, Finn pigarreava nervosamente.

— Então... Ansiosa para seu dueto?

Acenei rapidamente.

Teria meu dueto com a Tina. O que foi surpreendente. Professor Schuester tinha sugerido que Tina e eu ficássemos com o solo, e não foi só surpreendente pra mim, mas também para todos. Mais ainda pra Tina.

— Sim, Tina e eu ensaiamos demais pra que tudo ficasse perfeito. Corrigimos algumas coisas hoje mais cedo, e temos tudo perfeitamente pronto para daqui alguns minutos.

E Finn sorriu animado.

Antes que pudéssemos continuar a conversar, a luz piscou, sinalizando que teríamos que entrar no palco. Terminei de dar o nó na gravata de Finn e me afastei dele com um tapinha em seu ombro. Finn ainda parecia nervoso quando se aproximou de Puck coçando a nuca e falando alguma coisa que não consegui ouvir.

Tina se aproximou de mim com um sorriso animado e comentou o quão ansiosa estava. Enquanto isso, professor Schue estava arrumando tudo para que saíssemos da sala. Finalmente saindo, ele nos guiou pelos bastidores como se nós nunca estivéssemos ali. O que era uma mentira.

A primeira música começou a tocar e Finn entrou com Kurt e Artie no palco. A intenção era que nós cantássemos The Greatest da Sia. Outra grande surpresa do professor Schue. Logo depois que Artie terminou de cantar, todos nós entramos no palco.

Foi rápido, mas foi maravilhoso. Fizemos um leve tributo para as vítimas de Orlando, que, surpreendentemente, foi uma ideia do professor Schue.

Logo em seguida, era minha vez e de Tina.

Tina começou a introdução de Scars to Your Beautiful. Logo em seguida eu entro e nós cantamos juntas. Enquanto o resto do coral fazia o coro atrás.

Em algum momento enquanto cantava, algo guiou meus olhos para os bastidores. Ali, me observando com um sorriso, estava Quinn. Não fixei meus olhos nela, não iria conseguir cantar se fizesse isso, então fixei em Tina e continuei. Tentando ignorar completamente o ritmo acelerado do meu coração no meu peito.

Depois que Tina e eu terminamos, demos passos para trás e nos encaixamos entre o resto do pessoal. Então Mercedes dá um passo pra frente e o holofote fixa nela.

O piano de If Ain't Got You começou e Mercedes foi dando alguns passos pra frente. Ela ia cantando perfeitamente no centro palco. E eu queria muito conseguir manter meus olhos nela, mas o olhar de Quinn queimava em mim. Mesmo que o holofote estivesse só em Mercedes, ela conseguiu me encontrar.

Mercedes ia cantando a música ia fazendo mais sentido na minha mente. Não tinha como a música fazer mais sentido pra mim. Não quando era exatamente o que eu estava passando.

Fixei meus olhos em Quinn, ainda escondida nos bastidores.

Seus olhos me devolviam o olhar, até que Mercedes cantou um trecho em especial.

Hand me the world on a silver platter
And what good would it be
With no one to share, with no one who truly cares for me

Desviei meus olhos dos dela, escutando o resto da música e respirando fundo.

Eu falei, abertamente, o que sentia por ela. Falei que a amava. E ela me devolveu um olhar assustado. Ela me apresentou tudo que eu teria se não estivesse com ela, e que seria mais feliz se experimentasse tudo aquilo.

Mas...

If I ain't got you with me baby
Nothing in this whole wide world don't mean a thing
If I ain't got you with me baby

Voltei meus olhos pra ela. Quinn ainda mantinha os dela nos meus.

Eu não sabia o que seu olhar significava.

Não sei bem se queria saber.

Sim, nós tínhamos ganhado as Regionais. E mesmo que eu estivesse animada, comemorar não era algo que queria fazer. Mas aceitei ser levantada por Finn e beijada na bochecha diversas vezes por Kurt.

Mas algo que eu não esperava, foi o beijo surpresa que Finn me deu.

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Notas finais
Sim, esse final foi meio "MAS QUE PORRA" mas relaxem, a Rachel dessa fanfic não é o tipo de pessoa que ficaria com outra pra fazer ciúmes. Ela é madura. É isso! Comentem! Me digam o que acharam. Até a próxima!