Pandora
3 Capítulo III – Porcentagem de Culpa Diária
Notas iniciais
Capítulo III – Porcentagem de Culpa Diária
O som do telefone tocando me fez acordar e rosnar para quem estivesse me ligando. Mesmo eu não tendo atendido ainda. Abri os olhos e tateei a cama, achando o celular sob o travesseiro. Era minha mãe. Meu corpo inteiro ficou mole e eu quase ignorei, mas meu olhar fixou no canto da tela.
5:23 da manhã.
Arregalei os olhos. Alguma coisa aconteceu? Porque minha mãe me ligaria tão cedo? Atendi a chamada e sentei na cama, levanto o celular até o ouvido.
— Mamãe? Aconteceu alguma coisa? – Perguntei com a voz sonolenta. Mesmo estando alerta, a sonolência estava em todo o meu corpo.
— Quinnie! Porque não me avisou que estava em Lima?
Senti meus ombros ficarem densos e eu separei o celular do ouvido. Olhando para a tela, fixando os olhos no relógio antes de voltar a colocá-lo na orelha.
— Você me ligou as cinco e meia da manhã pra perguntar isso? – Resmunguei e me joguei pra trás na cama. Joguei um braço nos olhos enquanto escutava minha mãe falando do outro lado. – E como você sabe que eu to em Lima?
— E que horas eu ligaria? Você nunca me atende! Nunca tem tempo pra mim! Ah! E falando nisso. Posso saber porque não está atendendo minhas ligações? Eu ainda sou sua mãe Quinn! E ainda tive que descobrir por Santana que você está na cidade.
Rangi os dentes e agarrei um travesseiro, jogando-o no meu rosto. Como foi que eu esqueci que Santana trabalhava no mesmo hospital que minha irmã? Mesmo sabendo que Santana nunca falaria, Frannie iria acabar sabendo. Afinal, Santana e eu não nos desgrudamos desde que saímos de Lima.
— Eu ando ocupada, mãe. – Foi a primeira desculpa que surgiu. Eu não estou muito afim de pensar.
— Pois arranje um tempo para vir jantar aqui amanhã. E eu não quero mais desculpas!
— Mãe...
— Nem tente. Você vem. Seu pai quer te ver também. E sua irmã também. Ah, você sabia que tem uma sobrinha.
Fechei os olhos e suspirei. Sim, eu sabia que tinha uma sobrinha de cinco anos que nunca conheci. Já vi duas ou quatro fotos dela no Facebook de Frannie. Certo, isso é péssimo. Afinal, é minha sobrinha. Mas a culpa não é totalmente minha, sabe? Eu tive quatro anos de faculdade, e um ano trabalhando em uma escola em Chicago porque Santana me pediu. Sim, eu sei que eu poderia ter vindo ver minha família em alguns feriados e tal, mas... as vezes não é muito bom ficar perto da minha família por muito tempo. Eles são bem... tradicionais em algumas coisas.
E se eles soubessem que eu... bem, que eu estive noiva por dois anos da faculdade e que terminei porque homens não era bem algo que eu gostava, então eu realmente não sabia como eles iriam reagir a essas coisas.
— Mãe...
— Nem pense! Quero você aqui amanhã pra jantar! — E desligou. Na minha cara. Sem nem se despedir.
Olhei para a tela do celular e o espremi na mão. Bati ao lado da cama quando percebi que não conseguiria voltar a dormir. Levantei da cama e entrei no banheiro.
Minha aula seria a segunda naquela quinta-feira, mas estava cedo demais para ir par ao McKinley agora, mesmo que eu gostasse de chegar cedo, era cedo demais. Com toda certeza eu reclamei muito da minha mãe enquanto me arrumava. Então, quando terminei de me arrumar, sai de casa com minhas cosias e fui para o Lima Bean.
Pedi, finalmente, um cappuccino com canela extra. Sentei em um sofá no fundo do Lima Bean e coloquei a pasta em cima da mesa. Tomei um gole do meu cappuccino. Suspirando feliz quando o cappuccino me aqueceu.
— Estou surpresa por você estar aqui tão cedo. – A voz de Santana me tirou do torpor do cappuccino.
Levantei meus olhos e passei-os por ela. Santana tinha, claramente, saído do plantão do hospital. E como eu sabia? Bem, seu jaleco estava meio encardido, seu cabelo desarrumado, seus olhos vermelhos e com olheiras abaixo deles. Estava acabada.
— E o que você faz aqui?- Indaguei divertida observando as caretas que ela fazia ao sentar.
— Meu plantão acabou agora. – Ela resmungou suspirando. Balancei a cabeça.
— Da pra ver. – Apontei para a cara de destruída dela e Santana não pareceu feliz com isso. Soltei uma risada baixa.
— Eu estava ganhando dinheiro. Sendo uma boa profissional. Salvando vidas. – Ela rebate com uma carranca. – E o que você está fazendo aqui? Achei que sua aula só começasse às nove e meia.
— E começa. Mas minha mãe resolveu que era uma boa hora para me acordar e me dar uma bronca. – Reclamei e Santana soltou uma risada cansada por trás do copo de café.
— Foi mal. Eu não deveria ter falado com a Fran.
— Então foi você?
— Nah. Ela veio falar comigo e me perguntou de você. Nem tive tempo de responder e ela já ligava pra tia Judy. – Explicou a latina e eu soltei um bufo.
— Fico pensando se vir para cá foi uma boa ideia. – Resmunguei e Santana me encarou sobre seu copo de café. Ela parecia me analisar.
— Você sabia que tem uma sobrinha de 5 anos? – Ela questionou e eu soltei um suspiro.
— Sim. Mamãe fez questão de me lembrar hoje cedo.
— Sim? Pois ela está certa. Eu já vi sua sobrinha mais vezes do que você. – Santana zomba e toma um gole de café.
— Isso não é verdade! – Guincho indignada e olho para minha pasta contando as vezes que vi minha sobrinha. Ou seja, nenhuma.
— Sim, é sim. E você sabe disso. Lembra quando eu vim para Lima porque meu irmão ia se formar? Pois então, vi sua sobrinha no shopping quando levei Ricardo para comprar um presente de formatura. – Santana lembra e eu faço uma careta. – E você nem mesmo a conhece!
— Você já me disse isso. – Resmunguei sob a respiração, sentindo-me meio chateada comigo mesma.
— Pois é. Vi mais vezes que você. E ela me chama até de tia. – Fez questão de acrescentar fazendo um gosto amargo subir na minha língua.
— Obrigada por me falar isso.
— De nada!
Sim, eu me sentia uma péssima pessoa por só ter visto minha sobrinha... nunca. Mas eu a vi em fotos e ela parece muito com Frannie, minha irmã quatro anos mais velha que eu. E eu queria muito poder conhecê-la, mas falta tempo. Eu nunca tive tempo para viajar para Lima. Então, talvez, fosse uma boa ideia esse jantar.
Mas... Droga! Rachel tinha me chamado para jantar na sua casa na sexta. Bem, não foi exatamente Rachel e sim seus pais. Eles queriam me agradecer por ter feito o meu trabalho com sua filha. Mesmo sem necessidade, eu prometi que iria.
Argh!
Despedi-me de Santana e pedi mais um cappuccino para viajem. Entrei no meu carro e dirigi tranquila até o McKinley. E quando eu digo tranquila, eu quero dizer nervosa. Porque tenho que falar com Rachel sobre o jantar e ainda tenho que enfrentar meus pais e minha irmã na sexta.
Não fui logo para minha sala quando entrei no McKinley. Will estaria dando aula agora, então aproveitei meus minutos sozinha e fui para a quadra do colégio.
Sempre tive muita tranquilidade quando estava na quadra do McKinley. Meus dias como Cheerio eram os melhores, passei anos ficando mais horas do que o necessário naquela quadra. Portanto criei uma espécie de intimidade com aquele ginásio.
Estava tendo treino de basquete. Sentei-me na arquibancada e peguei meu livro na pasta, cruzando as pernas e começando a ler. Não durou muito quando escutei os gritos da treinadora com os jogadores do time. Levantei os olhos e vi o tal vi Finn Hudson choramingar para a treinadora. Ela gritava com ele com tanta força que eu via os respingos de saliva saindo da boca dela.
Fiz uma careta quando Finn cambaleou para o meio da quadra e recebeu uma bolada no estômago.
— Mas que novidade! Quinn Fabray de volta a onde pertence!
Virei-me para Sue Sylvester e dei um sorriso enorme.
— E você ainda por aqui. – Falei e me levantei, abraçando-a apertado. – Na verdade, nunca achei que sairia daqui. Sempre gostou tanto.
— Claro que sim. – Sue se afasta e leva as mãos até a cintura. Assisto ela respirar profundamente e fechar os olhos. – Ah o cheiro de hormônios adolescentes. Sempre adorei senti-los. Principalmente quando estão aflorando. Parece sempre desesperado. – Ela abriu os olhos e lançou-me um olhar determinado. – Se é aqui que vou moldar o mundo, então é aqui que pertenço.
E ela assente para si mesma, como se tudo que ela acabou de dizer não tivesse sido uma enorme bola de confusão. Mas eu soltei uma risada com isso.
— Faz sentido. – Comentei e ela acenou olhando para frente, como se tivesse vendo o futuro e um sorriso cruzou meus lábios. – Senti sua falta, treinadora.
Sue riu e passou um braço pelo meus ombros, apertando-me contra ela.
— Nós podemos moldar o mundo juntas, Q. – Ela falou e eu acenei sorrindo.
— É por isso que eu voltei. – Menti dando de ombros. Apenas falei para ela não continuar falando esse tipo de coisa. Era meio assustador.
— Fico feliz que tenha voltado. Seja bem vinda ao meu território. – Ela me soltou e esticou os braços. Abaixei a minha cabeça, venerando-a rapidamente fazendo-a sorrir orgulhosa. – Agora tenho que controlar os hormônios adolescentes.
E saiu de perto, cruzando a quadra e empurrando Finn para o lado, fazendo-o tropeçar e cair assustado, virando-se com a mão ainda no estômago.
Ah, eu sentia falta do humor de Sue. Nunca encontrei alguém com o humor igual. Sue era única. E a melhor treinadora que já tive. Se eu sou como sou hoje, é graças a ela... bem, claro que não. Mas ela meio que me ajudou com meus problemas durante a minha adolescência.
Levantei da arquibancada e sai da quadra. Alguns alunos estavam nos corredores, fazendo-me acreditar que a aula já estava acabando e que os professores liberaram alguns deles. Andei até a minha sala e entrei, suspirando aliviada ao ver que Will não estava aqui e nem em lugar algum.
Sentei e coloquei minha pasta na mesa, recostei na cadeira e feche os olhos. Minha cabeça estava começando a doer com a falta de sono. E eu quis amaldiçoar a minha mãe por ter me acordado tão cedo. Levei uma mão até a ponte do nariz e apertei com força.
— Professora? – A porta da minha sala estava aberta, portanto, me assustei quando escutei alguns passos e vozes. Meus alunos já entravam na sala. Terceiro ano.
— Sim? – Ergui meus olhos para Finn Hudson. – Algum problema, Hudson?
Finn corou um pouco e levou uma mão até a nuca, coçando-a antes de responder.
— Eu queria pedir dispensa da sua aula para treinar na quadra. – Ele pede e eu estranho. Geralmente alunos faltam aula, mas não avisam antes, apenas gazeiam sem avisar a ninguém.
Olhando ao redor da sala, vi que Rachel Berry tinha um olhar atento em Finn e quase sorri. Rachel o impediu de gazear aula, e ele insistiu em fazer, então ela o mandou falar comigo antes. Por isso ele estava tão sem jeito.
Pigarreei antes de me voltar para ele.
— A treinadora sabe? – Questionei apenas por diversão e ele arregalou os olhos. Claro que ela não sabia.
— Ahn... Hm... Ela...
— Pode ir, Hudson. – O cortei e peguei um papel, assinando meu nome e escrevendo algo para liberá-lo. Entreguei o papel pra ele e apontei para a porta. – Apenas no caso de alguém o parar.
Ele parecia imensamente feliz e nem ao menos agradeceu antes de sair correndo da sala. Pergunto-me se deveria realmente ter feito isso. Franzi o rosto e me levantei depois que a porta fechou.
— Puckerman não está na sala por quê? – Indaguei depois de olhar por toda a sala e ver que ele não estava na sua cadeira, mesmo eu tendo o visto mais cedo.
A sala ficou em silêncio e eu soltei um suspiro. Ele provavelmente estaria com Finn.
— Bem, vamos começar. – Lancei um olhar rápido para Rachel que sorriu suavemente e virei para o quadro escrevendo “Narciso” nele. – Alguém o conhece? – Apontei para o nome e vi várias mãos se erguendo. Olhei por cima e apontei. – Berry?
— Famoso por sua beleza e orgulho, Narciso foi herói em Tespias. Ele tinha uma irmã gêmea. Vestiam-se igualmente e faziam tudo junto. Narciso acabou apaixonando-se por ela. – Rachel fez uma leve careta quando terminou de falar a primeira parte e eu me encostei na mesa, divertindo-me com sua expressão.
— Isso mesmo senhorita Berry. Alguém andou lendo o livro. – Acenei para ela e sorri suavemente. – A irmã gêmea de Narciso morreu. Ninguém soube exatamente o porque. Mas ele encheu-se de desgosto e colocou na cabeça que o reflexo que via no rio, era de sua irmã gêmea. Certo dia ele se afogou no rio e onde seu corpo estava tinha apenas uma flor. Narciso. Claro que essa é apenas mais uma das história que contaram sobre ele. Mas todas elas terminam de um jeito. A flor.
Continuei dando a aula tranquilamente, sendo interrompida apenas por alguns alunos que erguiam as mãos para fazer algumas perguntas. Quando terminei, assisti todos arrumando as coisas e se preparando para sair.
— Quero um relatório sobre a aula de hoje, valendo nota. Quem me trouxer ganhará pontos na prova e quem não trazer, perderá pontos nela. – Sim isso foi bem filha da puta. Estava claro que Finn não estava aqui e que Puck gazeou aula, e eu estava passando isso apenas para testar meus alunos. – Até amanhã.
E eles saíram apressados. Menos Rachel. A morena esperou que todos fossem embora para se aproximar da minha mesa e me olhar curiosamente.
— Finn não vai fazer o relatório. – Ela murmurou e eu soltei um suspiro.
— Eu lhe dei a permissão para sair, Berry. Portanto é minha responsabilidade. Não se preocupe, eu verei o que posso fazer com ele. – Expliquei e ela acenou parecendo mais aliviada.
Passou alguns segundos ainda na minha frente. Ela parecia nervosa.
— Meus pais pediram-me para confirmar o jantar. – Ela avisa envergonhada.
Eu quis rir quando vi que ela estava corada, mas o que disse me fez quase engasgar.
— Eu preciso falar com você sobre isso. — Avisei e ela ergueu os olhos curiosos para os meus. Meu estômago se revirou. Ela não devia ter um olhar tão intenso assim para alguém da idade dela... existe uma idade para olhares intensos? — Não vou poder ir.
Percebi que Rachel engoliu em seco e desviou o olhar rapidamente.
— Porque não? — Ela questionou.
— Minha mãe quer me ver. Ela ainda não me viu desde que cheguei em Lima então...
— Tudo bem, eu entendo. Não se preocupe. Falarei com meus pais e eles entederão. — Rachel disse rapidamente e se afastou para sair da sala.
E eu deixei ela sair. O que poderia fazer?
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Toquei a campainha e recolhi as mãos, colocando-as no bolso da jaqueta. Meus olhos estavam fixados na madeira branca da porta enquanto escutava passos e conversas dentro da casa. Passei a mão pelo cabelo, organizando-o para logo em seguida passar as mãos pela calça de couro preto e pela camisa vermelha. Precisava limpar qualquer tipo de vestigio de qualquer coisa que minha mãe provavelmente encontraria.
Mesmo não tendo coisa alguma.
A porta abriu e eu forcei um sorriso, mas logo ele não precisou ser forçado quando vi minha sobrinha de cinco anos me encarando curiosamente.
— Você é a tia Quinn? — Ela perguntou e eu me senti mal. Minha sobrinha não me conhecia. Isso era péssimo.
Engoli rapidamente e me agachei para ficar do seu tamanho. Ela usava um fofo vestido azul de bolinhas brancas.
— Sim, sou eu. E você deve ser a Stephanie. — Seus olhinhos azuis identicos aos da minha irmã me observaram atentamente. Sorri e abri os braços. — Eu não sou uma má pessoa.
— Como posso ter certeza disso? — Stephanie retrucou e isso me deixou surpresa. Ela parece bastante comigo.
— Se você não é uma má pessoa eu não sou. — Dei de ombros e ela cerrou os olhos pra mim. Ela era bem novinha para alguém desse tipo.
Fiquei realmente surpresa quando ela deu alguns passos para se aproximar de mim e pulou para me abraçar, seus bracinhos circulando meu pescoço e seu rosto enterrando-se em meu ombro. Apertei minha mão no meio das suas costas e quase chorei quando percebi o quão pequena ela era. Minha mão era praticamente do tamanho das suas costas!
— É um prazer tia Q.! — Ela disse soltando-me sem querer sair do meu colo. Seus olhinhos azuis me olhando ainda fixamente, só que dessa vez, a curiosidade neles era diferente.
— É um prazer Stephanie. — Sorri e ela soltou uma risada.
— Vejo que conheceu sua sobrinha depois de tanto tempo! — A voz da minha irmã Frannie soou pela sala e eu entrei, fechando a porta atrás de mim. Frannie tinha os braços cruzados e um olhar divertido.
— E nem parece que esse tempo realmente existe. — Comentou suspirando a soltando uma risada. Stephanie agora brincava com o meu cabelo e murmurava algo sobre ser macio. Eu apenas sorri para Frannie.
— Steph, porque não deixa a sua nova titia para que ela possa falar com a mamãe? — Frannie perguntou e Stephanie franziu o cenho antes de acenar e eu colocá-la no chão.
Stephanie ficou olhando pra mim do chão e sorriu.
— Podemos brincar depois? — Ela perguntou e eu ri, acenando e vendo-a correr para a sala.
Antes mesmo que eu me virasse para Frannie, a minha irmã já estava envolvendo os braços em mim e fungando suavemente.
— Não acredito que 'tá chorando. — Zombei, mesmo que meus olhos estivessem aguados.
Fazem cinco anos que não vejo minha irmã!
Mesmo que a culpa seja minha, eu me arrependia terrivelmente por ter feito isso com meus pais e minha irmã. Principalmente com minha sobrinha.
— Você não deveria ter sumido por tanto tempo. — Frannie resmungou afastando-se de mim e passando a mão pelo nariz antes de soltar uma risada aguada.
— Eu sei que fiz merda. Mas eu 'tô aqui, né? — Frannie revirou os olhos e eu soube que já estava tudo bem.
— Ei! — Saltamos e olhamos para entrada da sala. Minha mãe nos encarava com fogo nos olhos. — Só fala com sua irmã? Não vai falar com sua mãe não?
Frannie e eu gargalhamos e me soltei dela, indo até minha mãe e abraçando-a.
— Senti sua falta, mamãe. — Falei e senti meus olhos aguarem mais ainda quando seus braços me apertaram com mais força.
— A culpa é sua! — Ela bateu no meu ombro, soltando-me para bater mais algumas vezes em meus ombros. — Se tivesse voltado, ninguém estaria com sentindo falta de ninguém! E olha só pra esse cabelo! Qual foi a ultima vez que você cortou?
Ela passou a mão pelo meu cabelo, fazendo-me rir.
— Eu precisava ir para a faculdade, mãe. — Lhe lembrei e ela bufou antes de me puxar para a sala.
— Faculdade são só quatro anos, você passou cinco. Cinco!
Ela continuou falando enquanto ia entrando. Meus olhos foram digitalizando a sala, vendo cada foto e cada móvel. Algumas coisas mudaram de lugar, mas eram poucas mudanças. Esse lugar ainda é o mesmo que eu cresci.
— Papai já deve estar voltando do trabalho. — Frannie avisou e segundos depois o som de chaves e a porta foi aberta.
Papai entrou com um suspiro e já foi desfazendo-se do nó da gravata. Apoiei meu corpo na parede e sorri pra ele, que ainda não tinha percebido minha presença. Russel parecia ter envelhecido mais do que mamãe. Ele tinha deixado a barba crescer um pouco, as rugas começaram a aparecer ao redor dos olhos, seu cabelo estava ficando ainda mais grisalho e dava para perceber mesmo com o loiro.
— Judy! Você sabe que horas que a Lucy vai... Lucy? — E ele finalmente me percebeu. Sorri mais ainda ao ver os olhos azuis se arregalarem. — Minha menina!
E eu não consegui evitar que uma lágrima caísse antes que eu abraçasse meu pai. Russel meu apertou com força, rindo contra meu cabelo enquanto eu fungava em seu terno caro.
Mamãe riu atrás de mim, uma risada leve e aguada. Frannie lhe acompanhou e Stephanie lhe fez algumas perguntas sobre todo mundo estar chorando, o que fez com que todos rissem mais um pouco.
Eu fui realmente idiota por ter passado tanto tempo assim longe da minha família.
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