Pais por acaso

90 Jacob- Tragédia



A floresta parecia prender o fôlego.

Eu estava do lado de Embry , Bella e Edward com o coração disparado e o corpo dolorido, mas nada me impedia de acompanhar cada segundo. Edward ao meu lado estava pronto para qualquer coisa. Bella segurava minha mão com força, tentando conter as lágrimas que insistiam em cair. E Esme orava em silêncio.

Elizabeth estava ali, na beira do penhasco. Serena em seus braços, envolta em um cobertor fino, chorava baixinho, assustada. O mar revolto abaixo rugia, como se pressentisse a tragédia que ameaçava acontecer.

Joseph caminhava à frente, tenso, os olhos presos em sua mãe. Renesmee o acompanhava, com os olhos marejados, mas determinada.

— Eu estouaqui, Elizabeth... — disse ela, a voz firme mesmo trêmula.

Elizabeth sorriu, um sorriso distorcido pela loucura.

— Jacob me abandonou, wle nãoficou comigo e nãoficarácom você!

— Você sabe que isso não é verdade, meu pai não sabia— disse Joseph com calma, como alguém que tentava falar com uma criança ferida. — Mãe... por favor. Não faz isso. Me dá a Serena. Você pode levar a Nessie como pediu. Só... deixa a minha irmã ir.

A tensão era insuportável.

Elizabeth olhou para o filho com desconfiança. Depois olhou para Renesmee, que se aproximava lentamente.

— Você vai mesmo vir comigo? — ela perguntou.

Renesmee assentiu.

— Eu vou. Mas deixa minha filha. Por favor. Ela é só um bebê.

Elizabeth hesitou. O braço dela tremia ao segurar Serena. A bebê chorava mais forte agora, o vento do penhasco a assustando.

— Me deixa segurar minha filha. Um último beijo. Depois eu vou com você, — disse Renesmee, com a voz embargada.

Joseph ficou ao lado da mãe e estendeu os braços.

— Dá a Serena pra mim, mãe.

Elizabeth finalmente cedeu. Com movimentos lentos, entregou a bebê para Joseph, que imediatamente a passou para os braços de Renesmee.

— Shhh... mamãe tá aqui, minha princesa..., — sussurrou Nessie, beijando a testa da nossa filha, com lágrimas escorrendo.

Então tudo desmoronou.

— NÃO! — gritou Elizabeth de repente, agarrando o braço de Renesmee com violência.

— Você não vai vencer de novo! VOCÊ VEM COMIGO! — ela rugiu.

— Mãe, para! — Joseph tentou separar as duas, puxando Nessie para longe, mas Elizabeth segurou os dois.

Ela começou a recuar, puxando Joseph e Renesmee em direção à beirada.

— Não! Me solta! Joseph, cuidado! — gritou Nessie.

Eu me movi, mas tudo aconteceu rápido demais.

Elizabeth deu um puxão tão forte que desequilibrou os três.

— JOOOOOSEEEPH! — gritei, com a alma dilacerando.

Joseph, ao perceber o que acontecia, empurrou Renesmee para o lado, tentando salvá-la com o último esforço. Serena ficou segura nos braços da mãe, mas ele e Elizabeth despencaram.

O grito de Renesmee rasgou o ar quando viu Joseph desaparecer no abismo.

Sem pensar, Embry correu até a borda e saltou atrás deles, virando lobo no ar.

O som do impacto nas águas abaixo veio com atraso.

Corri até Nessie, que caiu de joelhos no chão, protegendo Serena com o corpo, o rosto afogado em lágrimas.

— Ele se jogou... Jake... nosso menino... ele caiu com ela... Joseph... — soluçava.

A abracei, ignorando a dor no meu ombro, ignorando tudo, menos o fato de que nosso mundo estava ruindo.

O helicóptero de resgate não pôde pousar na floresta, então os paramédicos correram penhasco abaixo com macas e lanternas. Eu ainda estava ajoelhado ao lado de Renesmee e Serena quando vi Embry emergir das águas com Joseph nos braços, lutando contra a correnteza.

O coração quase saiu pela boca. Corri com tudo que ainda me restava, gritando por ajuda.

— Aqui! Ele tá aqui!

Joseph estava desacordado. O rosto pálido, os lábios arroxeados. Os paramédicos o deitaram na maca e começaram a reanimação ali mesmo, no chão molhado.

— Ele engoliu muita água. Pulmões cheios. Ritmo cardíaco instável! — gritou um dos socorristas.

Eu entrei na ambulância com eles. O som do monitor cardíaco me acompanhava, rápido demais, depois lento... depois de novo. Meu filho. Meu menino. Com quinze anos. Tão valente.

A mão dele estava gelada. Segurei com força.

— Fica comigo, filho... escuta a voz do seu pai. Joseph...

Lágrimas corriam pelo meu rosto, e eu nem me dei conta.

Renesmee havia sido levada por Bella e Rachel , com Serena. Ela chorava tanto que mal conseguia respirar.

Chegamos ao hospital de Forks pouco depois. A equipe médica levou Joseph direto para a emergência. Eu fiquei na sala de espera, andando de um lado pro outro como um animal enjaulado, com a camisa encharcada e o coração preso na garganta.

Carlisle chegou com Edward.

— Calma, Jacob. Eles vão fazer tudo que puderem. — disse Carlisle, com aquela serenidade que eu sempre admirei.

Mas nem mesmo a voz dele conseguia me acalmar.

— Ele tava consciente há algumas horas. Ele me abraçou, ele pediu pra salvar a irmã... ele não pode morrer, Carlisle. Ele não pode...

Edward ficou ao meu lado, em silêncio, a mão pousada no meu ombro como apoio.

Quase uma hora depois, finalmente, uma porta se abriu.

— Responsável por Joseph Cullen Black?

— Sou eu. — respondi, a garganta seca.

O médico — um homem alto, de olhos cansados e expressão grave — fez um gesto com a cabeça.

— Por favor, me acompanhe.

Senti minhas pernas pesarem. Segui-o por um corredor longo demais, frio demais. Entramos numa sala reservada, onde ele me ofereceu uma cadeira.

— Senhor Black, seu filho foi atendido imediatamente, conseguimos reverter a parada cardiorrespiratória inicial. No entanto... Joseph ingeriu uma quantidade excessiva de água do mar. Parte dessa água foi aspirada para os pulmões, causando um quadro grave de afogamento secundário.

Eu engoli em seco.

— Mas ele vai ficar bem, certo?

O médico baixou os olhos, respirou fundo.

— A água foi absorvida pelo tecido pulmonar e atingiu a corrente sanguínea. Isso causou um desequilíbrio eletrolítico severo e, o mais preocupante, uma condição chamada edema cerebral hipóxico. O cérebro do seu filho ficou sem oxigênio por tempo demais... houve um inchaço significativo. Nós tentamos todas as medidas para reverter o quadro, mas...

— Não. Não, não, não... — eu murmurei, sacudindo a cabeça, como se negando pudesse mudar a realidade.

— Joseph sofreu uma morte encefálica irreversível, senhor Black. Ele não resistiu.

O mundo parou.

Minha respiração travou. Não ouvi mais nada. Nem o ruído da sala, nem o som dos meus próprios batimentos. Só a imagem do meu menino sorrindo, brincando com Serena, fazendo planos, chamando Renesmee de mãe, me olhando com aqueles olhos escuros tão parecidos com os meus.

— Sinto muito... — o médico disse, baixinho.

Eu caí de joelhos ali mesmo, sem forças, sem chão.

Meu filho... meu garoto...

Joseph se foi.

Eu não sei por quanto tempo fiquei ajoelhado naquela sala. Talvez minutos. Talvez uma eternidade. Tudo ao meu redor estava embaçado, como se o mundo tivesse perdido a cor, o som, o sentido.

A imagem do corpo do meu filho, imóvel em uma maca fria, assombrava meus pensamentos.

Joseph.

Meu menino. Meu filho.

Ele se foi.

Depois de um tempo, senti mãos me levantando. Era Edward. Seus olhos estavam marejados, o semblante pesado como chumbo.

— Vamos, Jake... você não precisa enfrentar isso sozinho.

Assenti, sem palavras. Saímos do consultório e caminhamos em silêncio até o saguão do hospital. Meus pés pareciam feitos de pedra.

Bella, Carlisle, Rachel e até Charlie estavam lá. Todos se levantaram quando me viram. Ninguém precisou perguntar. Eles viram nos meus olhos.

Bella foi a primeira a cobrir a boca com as mãos e chorar.

— Não... não pode ser... — ela sussurrou.

Rachel caiu sentada, os olhos arregalados. Charlie apertou os punhos, e Carlisle fechou os olhos como se recebesse uma pancada no peito.

Mas foi quando Rachel disse — Renesmee está com Serena , achamos nelhor trqzer a bebê para ser examinada, ela está agora na sala de espera pediátrica...

Eu congelei.

Ela não sabia.

Nessie não sabia.

Sem conseguir esperar mais, fui até o corredor pediátrico. A dor latejava no meu ombro, nas minhas costelas... mas nada doía mais do que o que estava por vir.

Encontrei Nessie sentada no chão, com Serena adormecida em seu colo. Os olhos vermelhos, mas agora tranquilos. Ao me ver, ela abriu um pequeno sorriso aliviado.

— Jake... como estáo Joseph.? Ele tá bem? Já saiu da sala?

Eu parei. Travei.

Como dizer a ela?

Como quebrar o coração da mulher que amava?

Ajoelhei na frente dela. Peguei sua mão. Meus dedos tremiam.

— Nessie...

— Jake...? O que foi? Você tá me assustando...

— Nosso Josh... — minha voz falhou. Fechei os olhos, tentando encontrar ar nos pulmões. — Ele... ele não resistiu.

Ela me encarou por um segundo como se não tivesse entendido.

— Não... não... não, Jacob... — ela balançou a cabeça, as lágrimas brotando imediatamente. — Isso é algum engano... não...ele estava vivo...Embry conseguiu..ele...

— Eu sei... eu sei, amor... eu segurei a mão dele até o fim... ele foi tão corajoso...

Ela soltou um grito sufocado e me abraçou com força, quase esmagando Serena entre nós.

Nessie chorava como se sua alma tivesse sido arrancada. Eu também.

Naquele chão frio do hospital, nós dois desmoronamos.

Sem Joseph.

Sem o nosso filho.

— Ele tentou me proteger... — sussurrou ela. — Ele tentou...

E eu não sabia o que dizer.

Porque meu filho foi um herói.

E nos deixou com a dor que nenhum de nós jamais superaria.