Pais por acaso

91 Renesmee- O sim



Faz um mês que enterramos Joseph.

Um mês.

Mas, pra mim, parece que o tempo parou naquele instante em que Jacob me disse que nosso filho… se foi. Tudo desde então tem sido um borrão de silêncio, de noites mal dormidas, de lágrimas contidas por Serena, de lembranças que cortam como navalha.

Os Reed estão revoltados. Culparam Jacob desde o início. Disseram que ele devia ter impedido, que se fosse um bom pai, Joseph nunca teria ido até lá. Eu não os julgo. Eles perderam um filho também.

Mas o que mais dói… é ver Jacob acreditando nisso.

Ele não diz em voz alta. Mas eu vejo.

Vejo no modo como evita olhar nos olhos de Serena.

No jeito que sussurra o nome de Joseph em sonhos.

Na forma como passa horas trancado no quarto que era do filho.

Hoje não foi diferente.

Deixei Serena dormindo no berço, enroscada em uma manta rosa. Ela se mexeu um pouco, soltou um suspiro suave. Beijei sua testa e saí.

O corredor até o antigo quarto de Joseph parecia mais longo que o normal. A luz do fim da tarde entrava pelas frestas da porta entreaberta. Jacob estava lá dentro, sentado na cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, segurando uma das camisas preferidas do nosso menino.

O quarto parecia intocado.

As prateleiras cheias de livros e miniaturas.

A escrivaninha com os papéis da escola, o tênis largado no canto, o cheiro dele ainda ali.

— Jake… — sussurrei, entrando devagar.

Ele não respondeu. Só olhou pra mim. E nesse olhar, eu vi o homem que estava se despedaçando por dentro.

Me sentei ao lado dele e o abracei. Ele respirou fundo, deixando a cabeça cair sobre meu ombro.

— Você tem certeza de que quer vender o apartamento? — perguntei baixinho, mesmo já conhecendo a resposta.

Ele hesitou por um instante. Apertou a camisa contra o peito.

— Tenho — disse, com a voz rouca. — Cada vez que eu entro aqui… é como se eu o visse. Esperando eu chegar. Me chamando de “velho”. Rindo. E isso me parte… me parte mais do que eu consigo aguentar.

— Então vamos vender — sussurrei, acariciando os cabelos dele. — Vamos dar um passo de cada vez. Eu tô com você, Jake. Sempre vou estar.

Ele assentiu, mas uma lágrima escorreu por seu rosto.

E eu a enxuguei com a ponta dos dedos, mesmo que a minha própria visão também estivesse embaçada.

A dor dele era minha.

E mesmo que o tempo jamais curasse por completo…

Eu prometi ali, naquele quarto repleto de saudade, que eu jamais deixaria Jacob carregar essa culpa sozinho.

Porque Joseph era nosso.

E o amor… o amor que temos por ele jamais será vendido, esquecido ou enterrado.

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Meses depois....

Hoje nossa filha completou um ano de vida.

Um ano.

Eu ainda me lembro do primeiro choro. Da forma como ela agarrou meu dedo com a mão minúscula. Do jeito como Jacob olhou pra ela como se tivesse acabado de conhecer a própria alma.

E hoje, enquanto observava Serena soprando (ou melhor, tentando soprar) sua primeira velinha, senti algo que há tempos parecia distante: alegria. Simples, pura e inteira.

A sala principal da casa dos Cullen estava transformada. Alice, claro, tomou as rédeas da decoração — e, sinceramente, ninguém nesse mundo poderia ter feito melhor.

Bolinhas cor-de-rosa e douradas flutuavam sob o teto, formando um delicado arco sobre a mesa principal. O tema era “pequena princesa da floresta”, então flores naturais decoravam cada canto — margaridas, lavandas, peônias — tudo suave, como o sorriso de Serena.

A mesa do bolo era um encanto. Um castelinho em miniatura feito de açúcar dominava o centro, rodeado de cupcakes decorados com coroas, lobinhos fofos e estrelinhas. Fotos de Serena ao longo do ano estavam penduradas em cordões de luz que atravessavam a parede. Cada uma contava uma história… e carregava um pedacinho de Joseph também.

Estávamos morando na casa dos meus avós nos últimos meses. Jacob aceitou uma proposta de trabalho em Manhattan, e embora meu coração apertasse com a ideia de partir, eu sabia que era o certo. Um recomeço. Nova cidade, nova energia. Mas antes disso… queríamos dar esse tempo a Serena. Dar a ela mais do que memórias. Dar raízes.

Bella chorou quando viu a neta de vestido branco e coroa de flores. Edward sorriu do jeito que só ele sabe — aquele sorriso orgulhoso, mas contido, como se todo o universo pudesse desabar que ele ainda seria firme por nós.

Jacob estava ao meu lado o tempo todo. Ele parecia mais leve hoje. As sombras em seus olhos estavam ali, é verdade. Mas havia também algo novo: esperança.

— Você acha que ela vai lembrar disso? — perguntei, observando Serena tentar arrancar a tiara com as duas mãos.

— Talvez não — Jake respondeu, com um meio sorriso. — Mas nós vamos. E um dia, vamos contar tudo pra ela. Cada detalhe.

Assenti, emocionada.

— Já consigo ouvir você contando que ela tentou comer a vela achando que era bala.

Jake riu, e aquele som… aquele som foi o melhor presente de aniversário que Serena poderia ter.

A vida ainda doía. Joseph ainda morava em cada silêncio. Mas naquele dia, naquele momento… éramos uma família. Ferida, sim. Mas de pé. Juntos.


O sol da tarde entrava pelas janelas amplas da casa dos Cullen, aquecendo suavemente o chão de madeira. Eu ainda podia sentir o aroma dos últimos cupcakes da festa de Serena espalhado pelo ar, misturado ao perfume floral das decorações que Alice recusava-se a tirar tão cedo.

Então a porta da frente se abriu.

Seth entrou com um sorriso largo no rosto e os olhos marejados de emoção. Nos braços, ele carregava o pequeno Ethan, enrolado num cobertor azul-claro com estrelinhas bordadas. Jane vinha logo atrás, discreta e carinhosa, com aquele brilho calmo que ela sempre teve desde que se apaixonou por ele.

Jacob se virou ao ouvir a voz do filho. E naquele instante, algo mudou no ar.

— Ei, paizão… — Seth disse, oferecendo o bebê nos braços com o mesmo carinho com que se oferece um pedaço do próprio coração. — Olha quem chegou.

Jake demorou um segundo para reagir. Seus olhos, ainda marcados pela saudade de Joseph, brilharam com algo diferente dessa vez. Um recomeço.

— Meu garotão...

Com delicadeza surpreendente para aquele homem de mãos firmes e olhar guerreiro, Jacob recebeu Ethan nos braços. O bebê fez um som baixo, um suspiro quase inaudível, e Jacob sorriu. Um sorriso completo. Cheio. Vivo.

— Olha só pra você, garotão… — ele sussurrou, os olhos fixos no rostinho calmo do neto. — Você é perfeito.

Serena, como se entendesse o clima, correu de forma desengonçada até o pai e se aninhou do lado dele, apoiando o rostinho no joelho de Jacob. A cena… era tudo.

Seth se aproximou de mim, envolveu meu ombro com o braço e respirou fundo.

— Eu não via o pai sorrir assim há muito tempo — ele murmurou, quase num sussurro.

Assenti, com um nó apertado na garganta.

— Nem eu.

Ficamos em silêncio por alguns instantes, apenas observando aquele homem que tinha suportado o mundo desabar tantas vezes… agora completamente entregue ao amor que segurava nos braços.

E, pela primeira vez em muito tempo, eu senti que havia espaço no peito de Jacob para algo além da dor.

Talvez aquele fosse o momento certo.

O momento de dar um passo que já vinha sendo adiado há tempo demais.

Não por medo… mas por respeito ao luto.

Suspirei e olhei para Serena, rindo baixinho enquanto tentava alcançar o pezinho de Ethan.

Para Ethan, dormindo tranquilo no colo do avô.

Para o homem que eu amava.

Talvez agora…

Agora fosse hora de começar a escrever o próximo capítulo da nossa história.

A casa estava silenciosa. Depois de tanta alegria, risadas e doces espalhados por todos os cantos, o silêncio da noite parecia ainda mais aconchegante. Eu havia colocado Serena para dormir, e ela caiu no sono com um sorriso no rosto, abraçada ao novo ursinho que ganhou de Esme.

Agora, sentada na beirada da cama, esperava por ele.

A porta do banheiro se abriu com o som do vapor escapando, e Jacob apareceu, com os cabelos úmidos e a toalha amarrada na cintura. Ainda estava enxugando o pescoço quando me olhou e sorriu.

— Você sobreviveu à festinha da princesa — ele brincou, vindo em minha direção.

— Mal posso sentir minhas pernas — respondi rindo, e ele riu também, aquele riso grave que eu tanto amava.

Ele se sentou ao meu lado, ainda com a pele quente do banho.

— Eu estava pensando… sobre o trabalho em Manhattan. — disse, olhando pra frente, como se estivesse visualizando o futuro — Acho que você vai gostar do hospital. É moderno, tem estrutura, e os diretores ficaram empolgados quando leram seu currículo. Vai ser uma nova fase, sabe?

Assenti devagar. Sentia o coração acelerado, mas de um jeito bom. Um jeito que dizia agora ou nunca.

— Jake…

Ele virou-se para mim, os olhos curiosos.

Peguei o pequeno chaveirinho do bolso do meu casaco — eu havia escondido ali durante a festa — e coloquei na mão dele. Era uma peça em acrílico com a escrita em 3D: Yes, moldada na nossa digital, unida como em um selo. Eu havia comprado a meses como presente de aniversário que havia sido adiado.

Jacob olhou para o objeto com uma expressão confusa.

— É… um chaveiro?

— É a resposta. — sussurrei, o coração batendo forte no peito.

Ele levantou os olhos lentamente e me encarou.

— A resposta…?

— A que você espera há mais de um ano.

Vi quando os olhos dele se arregalaram. O silêncio foi quebrado apenas pelo som do chaveirinho caindo no colchão quando ele o soltou para me puxar com força nos braços.

— Você tá falando sério? — ele sussurrou contra meu pescoço, a voz embargada.

— Sim, Jake. Quero me casar com você.

Ele me levantou do chão num movimento rápido, me girando pelo quarto enquanto eu ria e o abraçava com força. Então, ele me olhou nos olhos com um sorriso que fazia o peito doer de tão bonito… e me beijou.

Um beijo cheio de promessas.

De recomeço.

De amor verdadeiro.

Finalmente… o sim estava dito.

E o futuro estava prestes a começar.