Pais por acaso
18 Jacob- Nunca fui seu filho
O elevador desceu lentamente enquanto eu e Renesmee permanecíamos em um silêncio confortável. Eu sabia que já deveria estar em outra sala, respondendo e-mails, ou até lidando com outra emergência, mas ali estava eu, preso naqueles breves momentos de paz ao lado dela. A situação com Seth ainda pesava em minha mente, mas o olhar de compreensão dela parecia aliviar um pouco a tensão. Quando as portas do elevador se abriram, me preparei para sair, mas não sem antes me despedir.
— Obrigado, Nessie — falei, sinceramente. — Por me ouvir.
Ela sorriu, um daqueles sorrisos que pareciam roubar o ar do ambiente e me fazia esquecer de qualquer coisa.
— Sempre estarei disponível, Jacob.
Assenti e, ao sair, me virei uma última vez, observando a porta do elevador se fechar. Havia algo diferente nela, algo que simplesmente me desarmava. Já havia passado por muitos romances, alguns casuais, outros nem tanto, mas... nenhum deles mexia comigo como Renesmee. E eu sabia, lá no fundo, que isso era um perigo por si só.
Mal tive tempo de me perder mais nessas reflexões porque meu celular vibrou, trazendo-me de volta à realidade. A mensagem de Leah aparecia na tela: ela estava com Seth. Um alívio temporário. Respondi rapidamente, perguntando onde estavam, e ela respondeu que estavam na casa dela.
— Estou indo para aí — digitei, já sentindo o peso do que essa conversa poderia trazer.
Me dirigi à minha secretaria e avisei que uma emergência havia surgido, e que eu não voltaria mais ao hospital naquele dia. Ela assentiu, aparentemente acostumada a esses momentos imprevisíveis que a profissão médica me exigia.
Depois, voltei à minha sala, tirei o jaleco e o pendurei cuidadosamente. Peguei minha mochila e dei uma última olhada no lugar antes de sair. Com um suspiro, me preparei mentalmente para mais uma situação delicada. "Vai ser ótimo", pensei com uma leve ironia. Se eu pudesse lidar com cirurgias complicadas, certamente poderia lidar com... bem, com o caos que a minha vida pessoal havia se tornado.
Sorrindo de leve, eu balancei a cabeça. Quem diria que a minha maior luta estaria fora das salas de cirurgia?
Ao chegar ao apartamento de Leah, a tensão já estava quase palpável no ar. Seth estava sentado no sofá, braços cruzados, e mal levantei um pé para entrar quando ele me lançou um olhar cheio de acusação. Respirei fundo, preparado para o que viria, e entrei em silêncio. Leah observava a cena de um canto, visivelmente preocupada, mas deixava espaço para a nossa conversa.
— Então é isso? — Seth começou, a voz carregada de amargura. — Vinte anos, e só agora você decide que não precisa mais fingir?
— Seth, não é assim... — Tentei argumentar, mas ele não quis ouvir.
— Não é assim? — Ele riu, incrédulo. — Como deveria ser, então? Porque, pra mim, parece que você passou a minha vida inteira mentindo. E agora, o que? Quer que eu agradeça por essa revelação?
— Eu nunca quis que as coisas acontecessem dessa forma — expliquei, tentando manter a calma. — Eu amei você como um filho, Seth. E mesmo que as coisas tenham sido complicadas com sua mãe, você sempre foi importante pra mim.
— Não foi o suficiente, né? — Ele apertou os lábios, o olhar endurecido. — Porque eu nunca senti que você me amava de verdade. Sempre teve essa distância entre nós... E agora eu entendo. Faz sentido.
Senti o peso das palavras dele como um soco no estômago, mas tentei me manter firme.
— Eu sei que errei, Seth. E nada que eu disser agora vai consertar essa situação. Mas você precisa saber que nada disso foi culpa sua. O problema foi entre mim e sua mãe, mas isso nunca deveria ter afetado você.
— Ah, então agora é a culpa dela? — Ele olhou rapidamente para Leah, que abaixou a cabeça, desconfortável. — Claro, joga a culpa na minha mãe. Como sempre, é mais fácil.
— Não estou jogando culpa em ninguém — retruquei, mantendo a voz firme, mas sentindo a frustração se acumulando. — Eu só estou dizendo que você não devia sentir que tem alguma responsabilidade por isso. E que, mesmo que as coisas fossem diferentes... eu ainda estaria aqui pra você.
Seth balançou a cabeça, rindo amargamente.
— Você nunca esteve realmente aqui pra mim. Sempre foi distante, sempre focado em... sei lá, em qualquer outra coisa, menos em mim. Se eu não sou seu filho, por que você não teve coragem de falar isso antes?
— Porque eu... — Senti a garganta apertar, as palavras faltando. — Porque eu sempre esperei que... que as coisas se ajustassem. Que eu pudesse ser o pai que você precisava, de alguma forma.
— Bom, você falhou. — Ele falou com frieza. — Eu não preciso da sua compaixão agora, nem do seu arrependimento tardio. Só... vai embora, Jacob. Eu não sou seu filho. Nunca fui.
Aquelas palavras eram duras, cruéis, mas ele estava magoado, e eu sabia que isso o fazia agir assim.
— Seth, eu estou aqui pra ajudar você, mesmo que agora você não queira ouvir isso — insisti, tentando passar uma sinceridade que, claramente, ele não estava disposto a aceitar.
Mas ele apenas fechou o rosto ainda mais, balançando a cabeça com desprezo.
— Não preciso de ajuda. Não de você. Se eu precisar de algo, falo com minha mãe. E... olha, só... vai embora.
O tom dele era definitivo, e a dor que aquilo me causava era quase insuportável. Mas o que eu podia fazer? Ele estava no direito dele de me rejeitar, de se afastar... de ter o tempo necessário para processar tudo isso. Eu assenti, segurando a vontade de discutir, de explicar mais. Olhei para Leah, que parecia tão perdida quanto eu.
— Dê um tempo a ele, Jake — Leah disse, colocando uma mão firme em meu braço. — Vamos cuidar disso com calma. Só... dê a ele o espaço que precisa agora.
Senti o peso da situação, e dei um último olhar a Seth, esperando que, de algum modo, ele soubesse que isso não mudava o que eu sentia por ele. Mas ele não me olhou de volta. Apenas se virou, se afastando mais.
Saí do apartamento, o coração apertado, sabendo que não poderia fazer nada além de esperar e torcer para que, um dia, ele estivesse pronto para entender.
...
A ligação de Embry chegou exatamente no momento em que eu precisava escapar dos meus próprios pensamentos.
— Jake, estamos no mesmo bar de sempre. Paul e Quil já estão aqui. Vem logo — ele disse, a voz animada.
A ideia de me distrair um pouco com os amigos parecia promissora. Depois dos últimos acontecimentos, uma noite fora, longe dos problemas, parecia exatamente o que eu precisava.
Segui para o nosso ponto de encontro: o “Timberline Tavern,” um bar aconchegante no centro de Seattle, onde sempre nos reuníamos. Ao chegar, encontrei o grupo inteiro: Paul estava com Rachel, Embry com sua namorada Samara, e Quil com a noiva Claire. Todos pareciam animados, rindo e conversando enquanto eu me aproximava.
— Olha quem apareceu! — Paul disse, levantando seu copo com um sorriso.
Rachel, no entanto, rapidamente notou meu semblante abatido. Com um olhar cuidadoso, ela se aproximou e apertou meu ombro.
— Jake, tá tudo bem? Você parece... diferente — ela comentou, e não precisei de muito para saber que ela já estava preocupada.
Suspirei, tentando manter a compostura, mas a verdade pesava. — Seth descobriu. E de um jeito... muito ruim.
Rachel me olhou com ternura, colocando a mão sobre a minha. — Jake, ele vai entender com o tempo. Ele só precisa processar tudo. Você não está sozinho nisso, tá?
Assenti, absorvendo as palavras dela, enquanto a conversa ao redor continuava. Paul logo se levantou, puxando Rachel para dançar, tentando aliviar a tensão que eu claramente trazia comigo.
— Vamos dançar um pouco, amor? — ele perguntou a ela, e ela sorriu, aceitando o convite.
Logo depois, Embry e Quil também seguiram para a pista com suas respectivas namoradas, me deixando ali sozinho. Pelo menos, era o que eu pensava, até sentir uma presença conhecida se aproximando.
— Jake? — Uma voz suave chamou, e ao levantar os olhos, vi Bree Tanner, amiga de Rachel. Ela era uma presença familiar, com seus longos cabelos escuros e um sorriso que lembrava velhos tempos.
— Bree— cumprimentei, surpreso. — Quanto tempo.
Ela se sentou ao meu lado, virando-se para mim com um sorriso ligeiramente provocador. — Você parece abatido, Jake. Nem parece aquele homem galanteador que conheci.
Dei um leve sorriso, tentando disfarçar o cansaço. — Acho que hoje não é meu dia.
Bree inclinou-se levemente, examinando meu rosto. — Lembro quando costumávamos sair para fugir dessas coisas. Lembra? Só nós dois, sem ninguém por perto...
Ri um pouco, tentando afastar as lembranças que começaram a surgir. — É, bons tempos.
— Podemos revivê-los — ela disse, com um brilho no olhar, e se aproximou mais, tocando meu braço de maneira suave. — Você lembra... das noites que passávamos juntos?
Um arrepio percorreu minha pele. Havia uma familiaridade ali, algo reconfortante, que me fazia esquecer por um momento tudo o que me incomodava.
— Eu lembro, sim. — Olhei para ela, percebendo a proximidade e o jeito que me observava, como se o tempo não tivesse passado.
Bree sorriu, seus olhos escuros fixos nos meus. — Não tem ninguém aqui, Jake. Só nós. Que tal? — ela sussurrou, inclinando-se para mim.
Por um momento, esqueci de tudo: do que havia acontecido com Seth, das discussões, de todo o peso dos últimos dias. Envolvi minha mão na cintura dela e a puxei para perto, aceitando o convite.
Quando nossos lábios se encontraram, foi como um retorno aos velhos tempos, um conforto imediato. Tudo parecia mais leve, mesmo que fosse apenas por um instante.
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