Pais por acaso

67 Jacob - Instável


Deixei o berçário com o coração esmagado e uma lágrima que ainda teimava em escorrer pelo canto do olho. Andava devagar pelos corredores silenciosos, tentando organizar minha mente, respirando fundo para não me perder na dor que ameaçava tomar conta.

Quando dobrei o corredor em direção à minha sala, vi três figuras familiares esperando por mim.

Seth, Leah... e Jane.

Seth veio até mim com passos rápidos e me abraçou apertado, aquele abraço que só um filho sabe dar quando o pai mais precisa.

— A gente ficou sabendo, pai — disse ele com a voz embargada. — Vai ficar tudo bem, a Nessie é forte. Ela vai sair dessa.

— Obrigado, filho. — Apertei sua nuca, sentindo meu coração aquecer por tê-los ali. — É bom ter vocês comigo.

Leah se aproximou, deixando nossos conflitos de lado, me envolveu num abraço forte e solidário.

— Sinto muito, Jake. Tô aqui, tá? Estamos todos aqui por vocês.

— Obrigado, Leah. De verdade. — Minha voz saiu baixa. Eu me sentia esgotado, mas grato. — Só... só peço mais uma coisa.

Eles me encararam atentos.

— Cuidem do Joseph. Ele está muito abalado. Eu deixei ele na minha sala, e... ele precisa se sentir seguro agora.

Seth assentiu de imediato.

— Vou levar ele pro meu apartamento. Vai ser bom para ele... ficar longe desse lugar um pouco.

— Obrigado, filho. De novo.

Estava prestes a acompanhá-los até minha sala quando a voz que eu menos queria ouvir naquele momento cortou o ar como uma lâmina fria.

— Que cena tocante... mais uma ex no seu caminho, Jacob?

Elizabeth.

Ela apareceu encostada na parede, os braços cruzados, com aquele olhar de desprezo disfarçado de falsa serenidade. A provocação foi clara, e Leah não engoliu.

— Você não tem vergonha, Elizabeth? — Leah avançou um passo, os olhos faiscando. — A sobrinha está na UTI e você vem com esse tipo de comentário?

— Eu só estou constatando fatos. É impressionante como as ex-mulheres do Jacob sempre aparecem nos momentos mais convenientes...

— Chega. — Minha voz cortou o ar, ríspida. — Seth, leva o Joseph. Ele está na minha sala.

Seth assentiu com o cenho franzido, lançou um último olhar de reprovação para Elizabeth e seguiu com Leah e Jane até minha sala.

Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. Então me virei para Elizabeth.

— Acabou, Elizabeth.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— O que exatamente acabou, Jacob?

— O joguinho. A manipulação. Você achou que eu não percebi o que estava fazendo com o Joseph? Envenenando ele contra a Nessie, jogando insinuações, mentiras... criando um clima de competição onde nunca deveria existir um.

— Eu só estava tentando me reaproximar do meu filho.

— Reaproximar?! — Eu ri, mas sem humor. — Você estava tentando criar um soldado. Um escudo. E, pior, colocar ele contra a mulher que eu amo. Contra a própria família dele.

Ela cruzou os braços com mais força, a expressão tensa.

— E agora? Vai me impedir de vê-lo?

— Não. Mas a partir de agora, qualquer contato com Joseph será sob minha supervisão. Sem exceção.

Elizabeth me encarou, séria, mas com um lampejo de algo que eu não consegui decifrar.

— Você vai se arrepender de me afastar, Jacob.

— Não mais do que me arrependeria de deixar você destruir meu filho.

Ela não respondeu. Apenas me lançou um último olhar de frieza antes de virar as costas e sair pelo corredor, com passos firmes.

Respirei fundo, sentindo o peso daquela decisão. Mas era necessário.

Por Joseph. Por Nessie. Por Serena.

E por mim.

A partir de agora, não haveria mais espaço para manipulação. Minha família vinha primeiro. Sempre.



A noite inteira se arrastou como uma eternidade. A luz fraca da minha sala mal vencia a escuridão das paredes, e o silêncio era cortado apenas pelo som dos meus próprios pensamentos — pesados, doloridos, desesperados.


Adormeci ali mesmo, na poltrona, com o corpo encolhido e a cabeça pendendo para o lado. O cansaço venceu a angústia, ainda que por pouco.

Foi a voz suave da Bella que me despertou.

— Jake… — ela tocou levemente meu ombro. — Você pode ver a Nessie agora.

Acordei num pulo, como se algo tivesse acendido meu coração outra vez.

— O quê? — meus olhos arderam com a luz que entrava pela persiana. — Você tá falando sério?

Ela assentiu com um sorriso sereno.

— Sim. Olivia disse que Nessie está estável. Pode vê-la.

— Graças a Deus… — murmurei, levando as mãos ao rosto e respirando fundo. — Obrigado, Bella. Obrigado por estar aqui.

Ela me encarou com doçura, e então seus olhos brilharam ao mencionar:

— Vi a Serena… Jake, ela é igualzinha à Renesmee quando bebê. Os olhos, a boquinha, até o jeito de franzir a testa quando dorme.

Sorri, e meu peito aqueceu com uma ternura que me arrancou um alívio sincero.

— Isso significa que eu tô ferrado. Uma Renesmee em miniatura vai me enlouquecer de amor e preocupação por uns bons anos.

Bella riu baixinho e passou a mão no meu ombro antes de sair. Fiquei ali por alguns segundos, absorvendo aquele momento. Depois me levantei, ajeitei a camisa amarrotada, lavei o rosto no banheiro da sala, e saí pelo corredor em direção à UTI.

Cada passo era pesado e rápido ao mesmo tempo. O coração batendo forte, mas com esperança agora.


Ao chegar na ala de tratamento intensivo, parei em frente à porta indicada. Me preparei com os protocolos exigidos, vesti o avental, higienizei as mãos… e entrei.

O quarto estava calmo, silencioso, com aquele cheiro de hospital que sempre me foi tão familiar — mas agora parecia muito mais pessoal.

Olivia estava ali, de pé ao lado da cama, checando os monitores. Assim que me viu, me ofereceu um sorriso gentil.

— Bom dia, Jacob. — Ela disse, mantendo o tom calmo. — Eu estava esperando você. Tenho boas notícias.

Me aproximei rapidamente, o olhar indo direto para Renesmee, deitada, pálida, mas viva. Respirando com a ajuda de aparelhos, mas com sinais estáveis. Minha Nessie.

— Fala, Olivia. Por favor. — Minha voz mal saiu.

Ela assentiu com a prancheta em mãos.

— A pressão dela estabilizou. O sangramento foi controlado e os exames mostram uma boa resposta aos antibióticos. A febre baixou. Ela está fraca, mas consciente e com o quadro melhorando aos poucos.

Fechei os olhos por um segundo, deixando o alívio me invadir.

— Isso significa que ela vai ficar bem...

— Significa que ela está lutando… e vencendo. — Olivia tocou levemente meu braço. — Como médico você sabe, ela ainda precisa de cuidados intensivos por alguns dias, mas se continuar assim, logo poderá ver Serena.

Olhei para Renesmee e me aproximei da cama, segurando sua mão com todo o cuidado do mundo.

— Estou aqui bonequinha… — sussurrei. — Você não está sozinha.


Ela não reagiu, mas eu sabia que, de algum jeito, ela sentia. Meu coração finalmente respirava.

E pela primeira vez desde aquela ligação, eu me permiti acreditar.

Que ela ia voltar.

Que nós três seríamos uma família.


Depois de ver Renesmee respirando… depois de ouvir da própria Olivia que ela estava reagindo bem… eu finalmente consegui relaxar. Um pouco. O suficiente para notar o peso que meu corpo carregava, a fome roendo o estômago e a tensão nos músculos que não descansaram desde ontem.

— Vamos tomar um café, Jake. — Disse Olivia, com aquele olhar clínico e firme que não aceitava negativas.

— Eu não quero sair daqui…

— Ela está sedada, estável… e tem uma equipe inteira monitorando cada batida do coração dela. Dez minutos, vai te fazer bem. — Insistiu.

Suspirei e cedi.

Seguimos juntos até a lanchonete do hospital. O ambiente era mais calmo, quase acolhedor se comparado ao clima tenso da ala de tratamento intensivo. Pegamos duas canecas grandes de café e sentamos perto da janela, onde a luz do sol começava a aquecer o vidro.

— Quando você disse que estava casado, eu… achei que era brincadeira. — Olivia começou olhando para a própria caneca antes de erguer os olhos para mim. — Nunca te imaginei casado, Jake.

Ergui uma sobrancelha, curioso.

— Sério?

— Sério. Você sempre fugiu de qualquer coisa que parecesse compromisso. Sempre foi… — ela deu uma risadinha curta — o cara mais descompromissado de Seattle.

— Isso é injusto. Eu só... não tinha encontrado a pessoa certa. — dei de ombros, tomando um gole do café quente.

Ela sorriu, meio nostálgica, e depois tocou minha mão, de leve. O gesto foi surpreendentemente sincero, sem segundas intenções.

— O que eu vi nas últimas horas me fez repensar um monte de coisa. A forma como você olhou para ela… como correu pra salvá-la. Aquela menina deve ser muito especial pra ter conquistado o coração do homem mais arredio que eu já conheci.

Fiquei em silêncio por um segundo. Porque sim. Ela era especial. A mulher da minha vida.

— Ela é. — falei, sem hesitar. — E mesmo que eu viva mil vidas, acho que nunca conseguiria retribuir tudo que ela já me deu. Mesmo com toda dor, insegurança, confusão… ela é minha paz.

Olivia sorriu e puxou a mão de volta.

— Fico feliz por você, de verdade. E espero que… a gente possa ser amigos. De verdade, agora.

— Claro. — Assenti. — E obrigado… por tudo que você tá fazendo por ela.

— É meu trabalho. — Respondeu com um sorrisinho. — E também… ela é filha dos donos do hospital, né? Não quero perder meu registro.

Nós dois caímos na gargalhada. Por alguns segundos, foi bom esquecer da dor, das feridas recentes, do medo. Foi bom rir de novo.

Mas no fundo, mesmo sorrindo, eu só pensava em uma coisa:

Renesmee… me espera. Tô voltando.