Pais por acaso

68 Jacob - Serena


O corredor do hospital parecia menos sombrio naquele dia. Talvez fosse o sol entrando pelas janelas ou... talvez fosse a notícia que Olivia acabara de me dar.

— Ela está pronta para ir para casa, Jake — disse Olivia com um sorriso gentil, enquanto ajeitava os papéis da alta. — A Serena está perfeita, forte e saudável. Mantê-la aqui por mais tempo só aumenta o risco de infecção.

Essas palavras me atingiram com força. Uma onda de alegria, alívio... e um aperto no peito. Serena Iria para casa. Mas Renesmee… ainda não.

Olhei pela janela, como se pudesse ver o caminho de volta para casa lá de cima. Como se pudesse vê-la, com os pés descalços no nosso jardim, sorrindo ao me ver chegando com a nossa filha nos braços.

Mas aquele dia ainda não tinha chegado.

Pouco tempo depois, a chegada de duas figuras conhecidas e queridas me arrancou um meio sorriso cansado: minha mãe, Sarah, e minha irmã, Rachel, apareceram no corredor da ala neonatal. Bella foi a primeira a abraçá-las, aliviada por ver rostos familiares.

— Você está exausto, meu filho. — Disse minha mãe, colocando as mãos no meu rosto. — Agora é nossa vez de cuidar de você.

Eu assenti, sem palavras. Só o calor daquele toque já me deu mais força que qualquer noite mal dormida.

Rachel se aproximou com o olhar marejado e brincou:

— Então é verdade mesmo… você virou o “paizão”.

— É… e ainda não consigo acreditar. — Soltei um riso baixo e nervoso.

Alguns minutos depois, uma enfermeira saiu da UTI neonatal com aquele embrulhinho nos braços. Um cobertorzinho branco com detalhes rosas, e um gorro de lã minúsculo. Meu coração parou por um segundo.

— Pode pegá-la, papai — disse a enfermeira com um sorriso caloroso.

Estendi os braços com cuidado, mais cuidadoso do que jamais fui na vida. E quando ela foi colocada nos meus braços… tudo parou.

Serena.

Tão pequena que parecia feita de vidro. Tão leve, mas carregando um peso imenso de amor nos meus braços. Sua respiração era tranquila, os olhos estavam fechados, mas ela franziu o rostinho como se sentisse minha presença. Como se já soubesse quem eu era.

Meu coração doeu de ternura.

Toquei sua bochecha com a ponta do meu dedo e sorri. Era tão suave. Tão pura. A perfeição em forma de gente.

— Oi, pequenininha… — sussurrei, a voz embargada. — Eu sou seu pai.

Ela bocejou. Como se aquilo fosse tudo que precisava saber.

Observei cada detalhe como se minha vida dependesse disso. Os traços suaves, as mãozinhas delicadas fechadas em punhos minúsculos… os lábios eram de Nessie, sem dúvida. A pele alva também. O narizinho arrebitado era uma cópia perfeita da mãe.

Só uma coisa ela herdou de mim: o tom castanho dos cabelos.

— Ela é linda — disse minha mãe, com a voz embargada, emocionada. — A cara da Nessie.

— Sim… — eu disse, quase num sussurro. — Ela só puxou o meu tom de cabelo. O resto… é tudo da mãe.

Olhei para Serena e senti algo dentro de mim mudar. Uma promessa silenciosa nasceu naquele instante. De protegê-la. De amá-la como ninguém jamais foi amado.

E mesmo com o coração dividido, mesmo com a ausência de Renesmee doendo mais do que qualquer ferida, naquele instante eu soube: ela estaria orgulhosa de mim. Porque Serena estava ali, nos meus braços, perfeita. E eu estaria inteiro por ela, até que sua mãe voltasse para casa.

Para nós.


O silêncio dentro do carro era sereno, quase sagrado. Serena dormia profundamente na cadeirinha, com o mesmo jeitinho tranquilo que tinha quando a peguei nos braços pela primeira vez. Cada semáforo, cada curva... tudo parecia mais lento. Como se o mundo estivesse esperando esse momento conosco.

Quando estacionei em frente ao nosso prédio, respirei fundo. Ainda era *nosso*... mesmo sem a Nessie ali.

Bella e minha mãe desceram primeiro, e Joseph abriu a porta de trás com um cuidado que eu nunca tinha visto nele. Ele estendeu os braços como se quisesse ajudar, mas hesitou.

— Vai, pai... pode pegá-la — disse, num sussurro.

Peguei Serena com todo o carinho do mundo, apoiando sua cabecinha no meu braço. Atravessamos o saguão como uma pequena procissão silenciosa. O porteiro sorriu, desejando felicidades. Eu só assenti, emocionado demais pra responder.

Subimos.

E quando a porta do apartamento se abriu, o cheiro da casa me atingiu como uma lembrança viva. Lavanda. O cheiro preferido da Nessie. Ela espalhou sachês por todos os cantos no final da gravidez. "Quero que nossa filha saiba que o lar dela tem perfume de amor", ela disse sorrindo enquanto colocava os últimos detalhes no quarto.

Caminhei devagar até o quartinho. O chão de madeira clara, o papel de parede com desenhos de flores suaves, a poltrona de amamentação no canto... tudo exatamente como ela deixou. O móbile de borboletas girava levemente com o ar, emitindo um som suave e infantil.

Meu coração apertou.

Dei alguns passos, ainda com Serena nos braços. Lá estava o berço. Branco, com os detalhes em dourado. Lembro da Nessie sorrindo enquanto colava as letras do nome com cuidado: *S-E-R-E-N-A*.

Senti as lágrimas escorrerem antes mesmo de perceber que estava chorando.

— Ela fez tudo com tanto amor… — murmurei, olhando em volta. — Cada detalhe... foi você, Nessie. Isso aqui é seu amor em forma de lugar.

Apoiei Serena no ombro e respirei fundo. Ela ainda dormia, serena como seu nome. Com todo o cuidado do mundo, a deitei no berço pela primeira vez. Seus braços se moveram, e ela soltou um suspiro baixo, como se estivesse confortável. Em casa.

Senti uma mão no meu ombro.

Me virei devagar e vi Joseph ali. Os olhos vermelhos. Mas não de cansaço. Ele também chorava.

— Me desculpa, pai... — sussurrou. — Eu juro que nunca quis machucar a Nessie. Nem a minha irmãzinha.

Me ajoelhei e o puxei para um abraço apertado, como só um pai sabe fazer.

— Eu sei, filho. Eu sei. A culpa não é sua.

Ficamos ali por um instante, só nós dois, abraçados no meio do quartinho recém-preenchido por mais uma vida.


Joseph se afastou um pouco, olhou para a Serena no berço e depois pra mim, com os olhos cheios de determinação.

— Eu vou ajudar você com ela, pai. Prometo. E... e vou ser o herói dela. Como você é o meu.

Engoli em seco. O nó na garganta era enorme demais para responder com palavras. Apenas o abracei de novo, puxando-o para a perto.

Naquele momento, percebi que, mesmo em meio à ausência e à dor, o amor ainda resistia.

Ele morava naquele quartinho.

Nos braços daquele menino.

No silêncio adormecido de uma bebê.

E na esperança do meu coração.


A noite caiu com um peso estranho. A casa estava cheia de gente que eu amava, mas vazia da única presença que realmente fazia tudo fazer sentido. O relógio marcava quase três da manhã quando ouvi o choro rasgado de Serena ecoar pelo apartamento. A princípio, tentei ignorar — talvez Bella conseguisse acalmá-la.

Mas o choro só aumentava. Alto, desesperado.

Como se... ela também sentisse falta da mãe.

Levantei num impulso, o coração acelerado. Cruzei o corredor e encontrei Bella andando de um lado pro outro no quarto da bebê, com Serena nos braços. Ela tentava cantar, mas estava visivelmente exausta. Minha mãe, Sarah, também estava ali, oferecendo mamadeira, tentando mil e uma formas de acalmar a pequena.

Nada funcionava.

— Me dá ela — pedi, estendendo os braços.

Bella hesitou por um segundo, mas depois entregou Serena, como quem entrega algo sagrado.

E era.

Ela chorava com tanta força que seu rostinho estava vermelho, as mãozinhas fechadas em punhos. Apertei-a com delicadeza contra o meu peito, afaguei suas costas com calma e comecei a cantarolar a única canção de ninar que eu lembrava — uma que a Nessie me fez prometer que eu aprenderia para cantar para nossa filha.

Aos poucos... o choro cessou.

Serena fungou, descansando a cabeça bem no centro do meu peito, onde o coração batia rápido. E ali, finalmente, ela se acalmou.

— Você sente falta dela, não é? — Murmurei, embalando-a com leveza. — Eu também, minha pequena. A mamãe vai voltar para casa. Eu prometo.

Senti o olhar de Bella sobre mim. Ela segurava uma xícara de chá agora, os olhos marejados. Sarah se aproximou, passou a mão pelo meu cabelo com carinho, como quando eu era criança.

Não disseram nada. Mas seus olhares diziam tudo.

— Eça sente façta da Nessie — minha mãe sussurrou.

Antes que eu pudesse responder, Joseph apareceu na porta, os olhos semiabertos, a camiseta amarrotada.

— Ela tá bem? — Perguntou, esfregando os olhos.

— Está sim, filho — respondeu minha mãe, indo até ele. — Vem, vamos deixar seu pai com sua irmã. Ela só precisava sentir ele perto.

Bella assentiu e os dois saíram do quarto com Joseph.

Fiquei sozinho.


Sentei na poltrona com Serena ainda no meu colo. Seu corpinho tão pequeno subia e descia suavemente com a respiração tranquila. Deitei-a com cuidado sobre meu peito e fechei os olhos, embalando-a com o movimento da cadeira.

O mundo podia esperar.

A dor também.

Ali, naquela paz silenciosa, meu coração encontrou um pedaço de cura.

Sem perceber, adormeci com ela.


Fui acordado horas depois com um toque suave no ombro. Era minha mãe.

— Jake...

Abri os olhos assustado, olhando em volta.

— A Serena...?

— Está bem. A Bella a colocou no berço — disse, com um sorriso. — Ela teve medo de você soltá-la dormindo.

Assenti, ainda sonolento, mas aliviado. Suspirei.

— Jake... — ela tocou meu rosto com ternura. — Ligaram do hospital. A Nessie acordou.

Por um segundo, achei que ainda estava sonhando. Pisquei várias vezes. O coração disparou.

— O quê?

— É isso mesmo, filho — ela sorriu, os olhos brilhando de emoção. — A sua princesa acordou.

Senti as lágrimas queimarem meus olhos, e o mundo girar em volta daquela única frase.

Renesmee acordou.

A luz da minha vida voltou.