Pais por acaso

23 Jacob- Inseguranças


Quando entramos na minha sala, Nessie parecia estar em outra dimensão, o olhar distante e a testa levemente franzida. Fechei a porta, tentando deixar do lado de fora o turbilhão de pensamentos e os olhares de julgamento de quem pudesse desconfiar. Fui até ela e me ajoelhei, segurando suas mãos com delicadeza. Ela desviou o olhar por um momento, mas não resisti. Inclinei a cabeça, tentando encontrar seus olhos.

— Nessie, eu sei que tudo isso parece assustador agora. — Passei o polegar de leve nas costas da sua mão, tentando transmitir alguma segurança. — Mas eu quero que você saiba... eu vou estar aqui para esse bebê. Quero ser o melhor pai que eu puder, e quero fazer direito dessa vez, ser o pai que não consegui ser com o Seth.

Ela mordeu o lábio, visivelmente tentando conter as emoções. Depois, soltou um suspiro e olhou para mim, a confusão no fundo de seus olhos.

— Jake... eu não sei o que fazer. — Sua voz era quase um sussurro, carregada de medo e incerteza. — Eu tinha tantos planos, tantos sonhos... — Ela fez uma pausa, respirando fundo, como se tentasse reorganizar os pensamentos. — Nunca imaginei que isso fosse acontecer agora.

Pude ver o peso de tudo que estava dizendo, de todas as expectativas que tinha sobre a vida e que agora se viam interrompidas por uma nova realidade. Inspirei fundo e apertei suas mãos um pouco mais forte.

— Nessie... — comecei, tentando encontrar as palavras certas. — Eu entendo. Eu sei que tinha outros planos, e não quero que abra mão de nada. Mas não precisamos decidir tudo agora, certo? Vamos fazer o seguinte: hoje à noite, vamos conversar no meu apartamento, com calma, sem interrupções. Vamos pensar juntos em tudo isso.

Ela me olhou, hesitante, e depois assentiu, um leve sorriso surgindo nos lábios.

— Está bem, Jake. — Ela apertou minha mão de volta, e pela primeira vez vi um vislumbre de tranquilidade no seu olhar.

Rezei para que, pelo menos por essa noite, conseguíssemos encontrar um pouco de paz em meio a tanta incerteza.

Após um longo dia, visitei alguns pacientes e aproveitei cada brecha para ligar para Nessie. Queria ter certeza de que ela estava bem, de que ainda respirava com calma em meio à tempestade de emoções. Ao final do expediente, fui até o quarto de Bree. Ela estava acordada, e quando entrei, abriu um sorriso hesitante.

— Jacob... eu... — Bree começou, um pouco sem jeito. — Sobre o que disse mais cedo... queria pedir desculpas. Fui um pouco... invasiva.

Sorri para tranquilizá-la, balançando a cabeça.

— Tudo bem, Bree. Esquece isso. Eu sei que às vezes é difícil não dizer o que se sente. E, se precisar, saiba que tem um amigo aqui.

Ela pareceu aliviada, mas logo inclinou a cabeça, me observando com curiosidade.

— Quem é ela? — perguntou de repente.

Franzi o cenho, confuso.

— Ela? Não entendi, Bree.

Ela riu, dando de ombros.

— Essa pessoa que está mudando o seu olhar, doutor. Tem alguém, não tem? É engraçado, você... parece mais... leve. Diferente de antes.

Não consegui conter o sorriso e acabei soltando uma risada baixa.

— Ah, Bree... às vezes, a vida é uma verdadeira caixinha de surpresas.

Ela me lançou um olhar curioso, como se quisesse perguntar mais, mas não insisti.

— Bom, Bree... vim me despedir e avisar que o doutor Montserrat vai assumir seu caso.

Ela assentiu, parecendo entender, mas seus olhos mostravam uma ponta de decepção.

— Entendo, doutor Black... espero te ver logo. E obrigada por tudo.

— Cuide-se, Bree. E espero que logo você esteja fora daqui.

Ela sorriu, e eu lhe dei um último aceno antes de sair, com um alívio misturado à ansiedade para encontrar Nessie logo mais.

....

Passei o fim da tarde preparando o apartamento para a chegada de Nessie. Organizei a sala, coloquei a mesa com velas discretas e abri uma garrafa de vinho sem álcool para ela. Na cozinha, me concentrei em fazer um prato especial: fettuccine com molho cremoso de cogumelos e pancetta. O aroma da massa se espalhava pelo ambiente, e a comida ficou exatamente como eu queria, com a cremosidade perfeita e um toque de ervas frescas para dar o sabor final.

Estava terminando de arrumar os pratos quando a campainha tocou. Tirei o avental e fui até a porta, abrindo-a com um sorriso que ficou ainda maior ao ver Nessie. Ela parecia nervosa, mas encantadora. Sem pensar duas vezes, puxei-a para um abraço, sentindo seu perfume e o calor reconfortante do seu corpo. Beijei seus cabelos antes de guiá-la para dentro do apartamento.

— Hmm, estou sentindo um cheiro delicioso — comentou ela, olhando ao redor com uma expressão surpresa e curiosa.

— Preparei o jantar pra gente. Achei que precisávamos de uma noite calma, e também... temos o que comemorar, não acha?

Ela sorriu, visivelmente surpresa.

— Comemorar? Você cozinhando... é uma comemoração mesmo! Não sabia que era o tipo que fazia jantar assim, tão... sofisticado.

Ri, guiando-a para a mesa enquanto servia o fettuccine.

— Eu tenho alguns talentos secretos. — Pisquei para ela. — Mas hoje é especial. E nada melhor que uma massa italiana pra comemorar a chegada de um novo membro na família.

Ela riu, um pouco sem graça, mas o olhar carinhoso que me deu confirmou que estávamos exatamente onde devíamos estar. Sentei-me ao lado dela, brindando nossa nova fase, e por um momento, tudo ao redor parecia em paz.

Depois do jantar, estávamos no sofá, conversando em um clima de descontração que aos poucos foi ficando mais sério. Nessie estava encolhida em um canto, olhando para mim com uma expressão de preocupação.

— Jake... preciso ser honesta sobre o que me preocupa. — Ela desviou o olhar, parecendo hesitar. — Você é chefe dos residentes no hospital. Se as pessoas descobrirem que estou grávida do meu superior... isso vai complicar as coisas pra você. É o tipo de coisa que pode até colocar sua posição em risco.

Assenti, compreendendo as dúvidas dela.

— Foi por isso que você não disse nada à Alice? — perguntei suavemente.

Ela suspirou e balançou a cabeça.

— Não é só a Alice. Sei que isso vai se tornar uma questão complicada, e não sei como meus pais vão reagir. Eles têm expectativas... e talvez nem você esteja preparado para lidar com o que isso pode trazer.

Acariciei a mão dela, tentando passar segurança.

— Nessie, escuta... nada é mais importante do que você e o bebê. Nem o hospital, nem a minha posição lá. Eu quero que você confie em mim e não se preocupe com o que podem pensar. Vou enfrentar qualquer coisa para que vocês dois fiquem bem.

Ela sorriu levemente, mas ainda com um toque de insegurança.

— Jake, só... — Ela fez uma pausa, os olhos suplicantes. — Podemos guardar isso em segredo por um tempo? Pelo menos até eu falar com meus pais? Eu quero que eles ouçam isso de mim, e da forma certa.

Olhei fundo em seus olhos, vendo o quanto essa situação era pesada para ela. Respirei fundo, ponderando, e por fim assenti.

— Se é isso que você precisa... eu vou respeitar. Mas quero que saiba que estou disposto a enfrentar qualquer consequência. Nada vai me afastar de vocês dois. — Passei minha mão pela sua bochecha, sentindo a pele macia dela sob meus dedos enquanto nossos rostos estavam a centímetros de distância. — Nessie... eu tenho desejado isso desde aquela noite... desejado você ao meu lado.

Ela corou levemente, e, como se nossas dúvidas tivessem sido varridas, nos aproximamos. Meus lábios encontraram os dela em um beijo profundo e cheio de promessas. Ela retribuiu, e naquele instante, todas as preocupações pareciam desaparecer, deixando apenas a certeza de que estávamos exatamente onde precisávamos estar.