Pais por acaso
20 Jacob- Emergência
Os últimos dois meses na residência passaram voando, mas não sem desafios. Cada dia trazia uma nova carga de trabalho, e a pressão era constante. Conciliei os plantões exaustivos, as emergências, e ainda a presença quase diária de Jacob nos corredores do hospital. Eu sabia que ele sentia o mesmo que eu – em certos momentos, aquele olhar que trocávamos entregava mais do que qualquer palavra. Mas ele sempre manteve nossa relação estritamente profissional, e, no fundo, eu já começava a aceitar que talvez o que aconteceu entre nós se resumisse a apenas uma noite.
Por outro lado, a situação entre Jacob e Seth só piorava. A relação deles estava distante, como se uma barreira invisível os afastasse. Seth tinha perdido o respeito pelo pai, e isso se refletia no hospital – quase todos ali já percebiam o quanto Seth evitava Jacob. Talvez toda essa tensão estivesse me afetando mais do que eu queria admitir, mas preferia me concentrar nos pacientes e nas minhas obrigações.
Hoje, a caminho da pediatria, preparei-me para mais uma visita. Tinha uma paciente, Jakeline, uma menina de treze anos que estava internada por problemas cardiovasculares. Ela era um doce e parecia adorar quando eu vinha para conversar ou fazer os exames de rotina.
Assim que entrei no quarto, ela abriu um sorriso largo.
— Doutora Cullen! Achei que tinha me esquecido de mim!
Sorri de volta, tentando esconder o cansaço.
— Jamais, Jakeline! Eu estava esperando a chance de vir aqui conversar com minha paciente favorita.
Ela riu, ajeitando-se na cama.
— Como foi o seu dia? Tem um monte de gente lá fora falando que você trabalha demais.
— É verdade, trabalho bastante — concordei, me aproximando dela para checar seus sinais. — Mas vale a pena, especialmente para cuidar de alguém como você.
Jakeline sorriu, os olhos brilhando.
— Vou ser médica igual à voce um dia.
— Vou cobrar, hein? — brinquei, piscando para ela. — Preciso de uma ajudante nas minhas rondas.
De repente, um enjoo forte tomou conta de mim, e senti o quarto girar. Apoiando-me na beirada da cama, tentei manter a compostura, mas as forças pareciam escapar.
— Doutora Cullen, a senhora está bem? — Jakeline perguntou, com o olhar preocupado.
Mal consegui responder; tudo ficou borrado, e, em questão de segundos, tudo se apagou.
Acordei ao som da voz suave de Jacob, que me chamava com um toque leve na mão. Pisquei algumas vezes, tentando focar e entender onde estava. O ambiente era branco e iluminado, as paredes frias da enfermaria começando a tomar forma ao meu redor. Jacob estava sentado ao meu lado, o rosto sério, mas os olhos transbordando preocupação.
— Não tente se levantar, Nessie — ele disse, segurando minha mão com firmeza. — Apenas respire fundo.
Eu assenti, ainda confusa, tentando juntar os fragmentos de memória que tinha. Lembrava de estar com Jakeline e, depois… tudo se apagou.
Jacob ajustou o medidor e começou a aferir minha pressão. Enquanto ele fazia perguntas, Jane entrou no quarto, e eu senti o olhar dela pesar sobre mim.
— Encontrei a doutora caída no quarto da paciente — ela explicou a Jacob. — Chamei o senhor imediatamente.
Ele assentiu, os olhos ainda fixos em mim.
— Como está se sentindo, Nessie? — perguntou ele, baixando o tom de voz.
— Enjoada — confessei, esfregando as têmporas. — Não comi nada… mas nem consegui. Sinto um enjoo constante.
Jacob lançou-me um olhar sério, mas segurou as palavras. Em vez disso, ele dispensou Jane com um movimento gentil de cabeça.
— Obrigado, Jane. Pode voltar para seus afazeres. Eu cuido daqui.
Ela hesitou, mas saiu da sala, deixando-nos a sós. Jacob se virou para mim, ainda segurando meu pulso, e, pela expressão no rosto dele, percebi que algo mais o preocupava.
— Estou melhor — murmurei, tentando aliviar a tensão no ar. — Não precisa se preocupar tanto.
Ele me observou em silêncio por um momento, como se estivesse avaliando cada uma das minhas palavras, procurando algo que eu mesma talvez não tivesse notado.
Jacob me olhou por um momento, com aquele semblante sério, antes de dizer:
— Eu acho melhor você fazer alguns exames, Nessie. Só para garantir que está tudo bem.
Balancei a cabeça, tentando dispensar a ideia.
— Não precisa, Jacob. Eu me sinto melhor agora. Acho que só foi um mal-estar passageiro.
Mas ele não parecia convencido. Seus olhos, com aquele brilho de preocupação, não se afastaram de mim.
— Não estou pedindo, Nessie — ele insistiu, sua voz firme. — Eu sou responsável pelo bem-estar dos residentes. E você vai fazer os exames. Não há discussão.
Senti uma leve onda de frustração misturada com algo que eu não queria admitir. Ele parecia tão determinado, quase protetor, e aquilo mexia comigo de um jeito que eu não conseguia entender direito. Mas, ao mesmo tempo, me dava uma sensação de segurança.
Suspirei, tentando esconder meu sorriso.
— Tudo bem, doutor Black — falei com uma leve ironia na voz. — Se você insiste… Eu vou fazer, mas não vai dar nada de diferente.
Ele sorriu de volta, ainda com aquele olhar preocupado, e então, com uma leveza que só ele sabia fazer, apertou meu queixo carinhosamente.
— Vai ser só para garantir. Aqui — ele me entregou a solicitação de exames. — Vá até o laboratório e tire o resto do dia para descansar, ok?
Olhei para ele, tentando resistir à vontade de argumentar, mas acabei cedendo, como sempre acontecia quando ele tinha essa postura firme, mas cuidadosa. Eu sabia que ele só queria o meu bem.
— Não é necessário — disse eu, mais uma vez. — Mas, já que é uma ordem de meu superior… eu vou fazer isso.
Jacob riu suavemente, seus olhos brilhando com algo mais, algo que eu não conseguia decifrar.
— Exatamente. Agora vá, e, por favor, tire o dia para descansar.
Com isso, nos despedimos, e eu segui para o laboratório. Quando passei por ele, não pude deixar de notar o sorriso que ele me deu, ainda preocupado, mas um pouco mais tranquilo. E, por mais que eu soubesse que devia me concentrar nos exames, não consegui evitar o pensamento de que, talvez, ele se importasse mais do que eu queria admitir.
Quando vi Nessie acordar, pude ver a confusão em seus olhos, o jeito como ela tentava entender o que tinha acontecido. Ela parecia frágil, e eu não conseguia ignorar aquela sensação persistente de que algo estava errado.
— Não tente se levantar, Nessie — falei, segurando sua mão com firmeza. — Apenas respire fundo.
Ela assentiu, ainda meio perdida. Eu podia ver que tentava organizar as lembranças, conectando as peças do que tinha ocorrido. Enquanto ajustava o medidor de pressão para checar seus sinais vitais, Jane entrou, lançando um olhar preocupado para mim.
— Encontrei a doutora caída no quarto da paciente — explicou, com uma nota de ansiedade na voz. — Chamei o senhor imediatamente.
Assenti, sem tirar os olhos de Nessie.
— Como está se sentindo, Nessie? — perguntei, baixando o tom de voz para que ela pudesse se sentir mais à vontade.
— Enjoada — ela confessou, esfregando as têmporas. — Não comi nada… mas nem consegui. Sinto um enjoo constante.
Um enjoo constante? Aquilo me deixou desconfiado. Não era comum ela apresentar esse tipo de sintoma. Tentei segurar as perguntas que se acumulavam na mente, dispensando Jane com um gesto de cabeça.
— Obrigado, Jane. Pode voltar para seus afazeres. Eu cuido daqui.
Ela hesitou por um segundo, mas acabou saindo, deixando-nos a sós. Com um leve aperto no pulso dela, olhei-a diretamente nos olhos. Havia algo ali que me preocupava mais do que eu queria admitir.
— Estou melhor — murmurou ela, claramente tentando aliviar a tensão. — Não precisa se preocupar tanto.
Observei-a em silêncio por um momento, avaliando cada uma de suas palavras e o jeito como falava. Eu sabia que ela tentava minimizar a situação, mas meu instinto me dizia que deveria investigar um pouco mais.
— Eu acho melhor você fazer alguns exames, Nessie. Só para garantir que está tudo bem.
Ela balançou a cabeça, tentando descartar a ideia.
— Não precisa, Jacob. Eu me sinto melhor agora. Acho que só foi um mal-estar passageiro.
Só que, dessa vez, eu não estava disposto a ceder. Mantive meu olhar fixo, determinado, e deixei claro que não era apenas um pedido.
— Não estou pedindo, Nessie — insisti, a voz firme. — Eu sou responsável pelo bem-estar dos residentes. E você vai fazer os exames. Não há discussão.
Ela suspirou, com um leve sorriso frustrado, talvez um pouco divertida com minha teimosia. Havia algo quase imperceptível nela que me trazia uma sensação mista de preocupação e... outra coisa. Algo que eu não queria, ou talvez não conseguia, definir.
— Tudo bem, doutor Black — respondeu ela com um tom irônico. — Se você insiste… Eu vou fazer, mas não vai dar nada de diferente.
Ela sorria, mas o cansaço ainda estava evidente em seu rosto. Queria garantir que ela entendesse que isso era sério, mas também não queria deixá-la ainda mais preocupada. Inclinei-me ligeiramente, com uma expressão leve, e toquei seu queixo com um gesto carinhoso.
— Vai ser só para garantir. — Entreguei a ela a solicitação dos exames. — Vá até o laboratório e tire o resto do dia para descansar, ok?
Ela me lançou um olhar quase desafiador, tentando resistir à ordem, mas eu sabia que ela cederia. Ela sempre cedia quando eu adotava esse tom mais firme.
— Não é necessário — murmurou, insistindo. — Mas, já que é uma ordem de meu superior… eu vou fazer isso.
Eu ri suavemente, balançando a cabeça com um toque de humor. Nessie conseguia me desarmar de um jeito que poucas pessoas podiam. Vi que havia algo mais por trás de seus olhos, um brilho que ela talvez nem percebesse.
— Exatamente. Agora vá, e, por favor, tire o dia para descansar.
Ela assentiu, aceitando, e nos despedimos ali mesmo. A vi seguir para o laboratório, o passo leve, mas ainda carregado de uma vulnerabilidade que me deixava inquieto. Observá-la assim me lembrava do quanto era difícil manter-me apenas na linha profissional; estar perto dela estava mexendo comigo mais do que eu queria admitir.
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