A dor de cabeça estava colossal, algo fora dos limites humanos. Enkidu abriu os olhos e Selene não estava ao seu lado, a cama destruída era apenas um reflexo da noite anterior. Uma sede insana o estava incomodando, pois tinha perdido muito sangue, ou melhor, tinha doado muito sangue.

Ao sair do quarto já vestido, olhou para o relógio na parede, apenas duas horas da tarde, abriu a porta ao lado, mas Kazuma não estava, na outra porta Selene estava ao lado de Samira que dormia profundamente, Selene estava trabalhando na mente da garota e Enkidu achou melhor não atrapalhar.

Foi até a cozinha e encontrou seu almoço pronto, carne com suco de frutas, era a melhor comida do mundo, com certeza. Ao abrir a porta da cozinha, a luz invadiu a casa, seus olhos se fecharam com a intensidade da claridade, mas rapidamente se acostumou.

A casa ficava longe da cidade, numa zona rural com terrenos enormes, olhou os pés nativos do cerrado procurando o pé de lobeira para um tira gosto, avistou a moto de Samira, o jeep dele e da esposa, nada do Impala do Kazuma, ele não costumava sair sem avisar, mas saberia se virar sozinho se algo acontecesse.

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Kazuma estava no centro de Brasília, era domingo e estava aproveitando para relaxar um pouco, saiu para jogar card game e heroclix com algumas pessoas que tinha conhecido na visita ao pub medieval. Estudar, jogar e ler eram as únicas coisas que relaxavam sua mente dos problemas da vida, eram as únicas coisas que o faziam se sentir uma pessoa normal, por mais que gostasse de ser um Nomeador e conhecer um mundo totalmente diferente, ele ainda era humano e tinha necessidades sociais que precisavam ser preenchidas.

A tarde passou de maneira agradável, era legal de vez em quando conhecer pessoas novas, falar de frivolidades e voltar a ser um adolescente, mas assim que a noite caísse ele teria que voltar a vida secreta de responsabilidades e escolhas, mas naquela noite uma escolha com muitas consequências deveria ser feita.

Ele pegou o celular para ler novamente o e-mail de resposta da chefia, o e-mail era portador de mau agouro, ele sabia quando o recebeu de madrugada, como ele iria falar com seus companheiros que a resposta era uma negativa, a garota deveria morrer, não era do interesse da chefia cuidar dela, mas como se isto não fosse o bastante uma nova ordem chegou avisando da chegada de uma recruta vindo do Mato Grosso do Sul, para terminar o treinamento com eles e ajudar na missão principal. Seria um pandemônio ter um novato envolvido nisto, imagine dois novados. Ele conhecia bem Enkidu e Selene para ter certeza que eles não iriam cumprir a ordem de eliminar por conveniência da chefia uma vampira neófita, seria uma briga de cachorro grande literalmente e certamente mais um embate com a chefia em menos de um ano.

—--Foda-se a chefia. Disse Kazuma enquanto ligava seu Impala e voltava pra casa com seu espírito anarquista em evidencia.

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Enkidu estava acabando de lavar o jeep, jogou o pano ainda molhado nas mãos de Kazuma que estava sentando em um banco de madeira.

—--Como foi na cidade?

—--Tudo tranquilo! Mas chegou um e-mail da chefia que está me incomodando.

—--Diga. Se estiver te incomodando, então está incomodando a todos nós.

Kazuma jogou novamente o pano molhado em Enkidu, pegou o celular de maneira displicente. Estava se sentido desconfortável com a situação, não era de sua natureza tramar ou impelir seus amigos contra as autoridades, mas nós últimos meses o líder das Sentinelas na América do Sul estava um tanto quanto repugnante em suas atitudes, não respeitava mais a autonomia das equipes e usava de sua autoridade para humilhar os subordinados. Kazuma já estava farto dele, o sentimento piorou quando Leo lhe repreendeu de maneira vexatória na frente dos recrutados, apenas para mostrar a autoridade que tinha, se não fosse a intervenção de Enkidu, ele teria entrado nas vias de fato com a maldita serpente e lhe cortado a cabeça. Maldito seja o homem serpente.

—--Leo mandou um e-mail, dizendo que não é problema da Sentinela a existência da cria neófita de Carlos, que devemos elimina-la e aguardar a chegada de uma recruta para darmos inicio a missão de derrubar a Regente dos vampiros em Brasília.

—-- Foda-se o Leo. Disse Enkidu sorrindo.

—-- Então Foda-se o Leo. Eu trago a cerveja para brindarmos nossa simpatia a este grande líder. Mas antes vamos perguntar a sua esposa, só posso confiar na palavra de um homem casado após o consentimento de sua esposa. Onde ela está?

--- Hem?...

—--Brincadeira cara! Brindemos.

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—-- Nós vamos sair esta noite! Apenas eu e você. Tenho que lhe ensinar o básico e a cima de tudo como o mundo mystico funciona. Selene estava acabando de se trocar, estava vestida para um passeio casual enquanto Samira se maquiava ao seu lado.

—-- Vamos a onde realmente?

—--Já falei vamos dar uma volta, iremos a muitos lugares, não se preocupe querida, será uma noite emocionante.

Após se vestir as garotas saíram do quarto enquanto os homens estavam de conversa fiada na varanda, o carro estava limpo, perfumado e pronto para uma volta.

—--Meu bem, tente resolver isto para mim! Selene tinha escrito alguns afazeres importantes e uma das coisas no topo da lista era trazer os pertences pessoais de Samira para a nova casa.

Enkidu deu apenas uma rápida olhada, pois já tinha ideia do que era, apenas guardou as anotações no bolço da calça enquanto admirava a bela esposa.

Os olhos de Kazuma travaram ao olhar Samira, estava bela, um anjo a luz da lua, algo fascinante. A garota tinha algo de diferente, algo misterioso e envolvente. Seus olhos apenas a seguiu até entrar no carro e desaparecer na escuridão da noite, a garota sequer tinha passado o olho nele.