Domingo em Brasília era algo fora do normal para uma capital, era quase que completamente parado, desolado, solitário, era uma cidade morta. Samira estava desanimada quando o carro parou perto da torre de TV no centro.

Ao descer do carro os olhos de Samira procuraram algo de diferente mas não encontraram nada de especial.

—--Eu conheço a torre de TV, eu nasci nesta cidade lembra?

—--Creio que sim querida, mas hoje nós iremos conhecer de um ângulo diferente.

Um segurança da torre abriu a porta de entrada, olhou as duas belas mulheres e apontou para dentro.

—--Obrigada Jorge por nos receber! Disse Selene para o idoso segurança.

O segurança apenas abriu um largo sorriso. O elevador subiu até a plataforma superior.

—-- Vamos subir até a o alto da estrutura. Jorge por favor, espere aqui!

Selene junto com Samira escalaram a estrutura de ferro, o topo ficava a 224 metros do chão uma visão limpa e maravilhosa de Brasília. Poucas pessoas tinham o privilegio de ver a cidade de tão alto, uma imagem de encher os olhos e fazer suspirar. As asas do avião brilhantes e as ruas quase desertas davam uma sensação única, era uma lembrança que valia a pena ser gravada no fundo da mente.

—--Já tinha visto a sua cidade aqui de cima?

—--Não. Mas é lindo, um pássaro luminoso ou para ser mais exata um avião.

—--Hoje você vai aprender um pouco da Brasília que não pode se ver, um pouco sobre pessoas que não conheceu e muito sobre como trabalhar duro para se encaixar aqui.

Samira estava um pouco confusa, mas sabia que estava sendo acolhida para algo, algum proposito, se isto a levaria a ser mais completa, estava pronta para aprender e trabalhar.

—--Samira a primeira coisa que deve aprender é que tudo o que existe de baixo do sol é vaidade. O que os olhos podem ver é apenas um mundo ilusório para os humanos, um mundo de conflito para os seres mysticos e um mundo perdido que precisa de redenção perante um criador. Todas as pessoas e todos os seres mysticos são peças de um jogo nas mãos de alguém, somos parte de um grande jogo, mas também somos os jogadores. Não pense você que alguém está fora do jogo, pois não está. Quem não faz nada, a não ser chorar a vida que tem, se torna uma peça conformada, mas seu choro e sua miséria fazem parte do jogo de alguém. Aquele que pensa que pode mudar o mundo é uma peça perigosa, mas logo é posto a coleira do conformismo e ele se torna uma peça comum, igual às outras, algumas peças morrem, outras se perdem, mas o jogo continua.

Samira estava ouvindo atentamente, a mente trabalhando rapidamente para tentar gravar cada palavra. Mas a cada palavra que saia da boca de Selene a conversa tomava um tom mais negro e sombrio.

—--Mas eu já via o mundo assim antes mesmo de ser uma vampira o que mudou?

—--Não mudou nada. Agora você vai conhecer apenas outros jogadores mais experientes, que vão elevar o nível da crueldade e a um patamar demoníaco. Alguma vez seu criador lhe falou da sociedade vampírica local?

—--Falou rapidamente, disse algo de eu ser apresentada a pessoas importante em alguns anos. Pessoas que eram como ele, que eu iria aprender sobre o mundo dele e como viver neste mundo.

—-- Existe uma sociedade mystica em quase todas as cidades, que vivem nas sombras e controlam o mundo humano indiretamente, eles são os vampiros, bestas e bruxos. Hoje nós vivemos em relativa paz com os humanos, pois não sabem de nossa existência real, mas se algum dia souber, a paz irá acabar e o mundo entrará em uma guerra sangrenta novamente. Isto já aconteceu antes, você a conhece como caça as bruxas na idade média. Antes do século XIV não existia leis ou ordem que limitasse os seres myticos de se mostrarem ao mundo. Então alguns viviam abertamente, usando seus dons e poderes. Alguns eram adorados como curandeiros, druidas, xamãs, magos ou feiticeiros, outros eram temidos como demônios, feras e assombrações malignas, alguns outros viviam isoladamente sem contato com os humanos, mas por fim a paciência humana acabou devido aos abusos de alguns e se deu inicio a caças as bruxas no XIV até o século XVII.

—--Porque não lutaram, somos mais fortes, somos poderosos!

—-- Criança, nós não somos muitos. O poder da humanidade quando lutam por uma mesma causa pode acabar com qualquer coisa, podem acabar com uma raça, país, com religiões, até mesmo acabar com a própria espécie ou até o planeta. Não se engane criança, o ser humano é perito em matar e destruir qualquer coisa que seja diferente dele, desde sua ideologia, até mesmo de sua cor. Em milhares de anos os humanos mataram e destruíram mais povos e culturas que quaisquer punhado de seres mysticos, individualmente somos mais forte, mas em conjunto somos poucos, não podemos controlar abertamente os humanos, apenas manipula-los escondidos nas sombras.

—-- Como fizeram então para sobreviver a caçada na idade média?

Selene fechou os olhos, a lembrança era dolorosa e cruel, muitos conhecidos se foram nesta época, foi um período negro tanto para a humanidade quanto para os seres mysticos. O som dos cavalos, as tochas, os gritos tudo ainda era muito vivido em sua mente, a lembrança ainda trazia o medo.

—--Os que quiseram lutar foram os primeiros a morrer, decapitados, na fogueira ou ao sol. Nenhum ser mystico consegue lutar por muito tempo, se não descansar e se alimentar, o poder se esvai e no fim não lhes resta mais nada. Os que fugiram para lugares ermos e inóspitos com o tempo ficaram loucos, nem um ser mystico consegue viver por décadas em isolamento, nem as bestas. Aprenda uma coisa, nós vampiros podemos ser quase imortais, mas nossa mente está tão vulnerável a doenças mentais quanto os humanos que fomos um dia. A carne e os ossos se regeneram, mas as lembranças ruins, o sentimento de vazio, as atitudes falhas ficam marcadas para sempre em nós, com o tempo isto vai se acumulando ao ponto de desejarmos o vazio da morte. Por isso eu acho, que com o tempo, todo vampiro fica louco ou parte em busca de redenção. Mas existiu um grupo que resistiu a caçada, um grupo seleto que soube tirar lições valiosas da humanidade. Este grupo sobreviveu porque aprendeu a andar, vestir e viver como humanos comuns, e assim, a se infiltrar em todos os círculos humanos, eles se tornaram clérigos, cavaleiros, artesões, prostitutas, plebeus e nobres. Eles eram parte da sociedade humana, camuflados em simplicidade e escondidos do ódio.

—--Você viveu esta época?

—--Sim! Eu já era uma vampira nesta época.

—--O que fizeram depois de acabar a caça as bruxas?

—--De imediato não fizemos nada, ficamos no anonimato, o tempo foi passando, as gerações humanas que tiveram contato com os seres mysticos morreu. O mundo se renovou e os seres sobrenaturais agora eram historias de terror, apenas fábula. Quando nossa existência não passava de mito e delírios, começamos a procurar outros como nós, vampiros, bestas e nomeadores se juntaram e como resultado destes esforços uma organização mystica chamada de Sentinelas foi criada, com a intenção de proteger nosso anonimato, nossa não existência perante a humanidade, para proteger aquilo que chamamos de Fábula.

—--Então vocês criaram uma organização para proteger os seres mysticos da humanidade?

—--Quase isto. Criamos uma organização para proteger a todos, as Sentinelas cuidam para que não existam excessos em ambos os lados. A função deles é zelar pela Fábula, ou seja, eles dão cabo de qualquer ser mystico que ponha em risco nossa existência, outra função é cuidar para que os seres mysticos não causem danos severos no modo de viver da humanidade. Existem mais funções exercidas pelas Sentinelas, mas as principais são estas. Eles são como uma força de equilíbrio evitando que um confronto como o ocorrido na idade média volte a acontecer.

—--Então você, Enkidu e Kazuma são parte das Sentinelas?

—--Sim.

—--Eu fiz algo de errado? Algo que não deveria?

—--Você não fez nada, mas seu criador fez, e foi punido por deixar rastros sobre a existência dos vampiros.

Selene sentiu um sentimento de revolta e frustração nascer na mente da jovem vampira, algo perigoso que poderia a vir trazer problemas futuros, um sentimento de vingança e inconformismo, mas logo estes sentimentos foram suprimidos pelo seu poder de manipulação, mas a semente havia brotado e algum dia cedo ou tarde ficaria incontrolável e selvagem.

—--Eu já imaginava que algo parecido tinha acontecido. O que irão fazer comigo agora?

—--Cuidaremos para que você aprenda o básico sobre como sobreviver sem ser notada. O resto é com você. Sua vida, sua escolha. Mas quero que saiba que gostaríamos que ficasse com a agente, sempre precisamos de pessoas para nossas fileiras, e você tem um perfil ideal, sem histórico ruim na vida humana, sem filhos, sem marido, sem contato com a família. Seria fácil arrumar uma vida nova para você.

—--Mas tenho amigos e uma banda, não posso deixa-los, já passamos por muita coisas juntos e são com uma família para mim.

—--Você não precisa se desfazer deles, apenas se afastar por algum tempo, até está apta a viver entre eles novamente, sem ser uma ameaça. No momento você não tem condições de viver como humana sem colocar em risco os que estão perto de você e os segredos da fábula.

—--Eu sei... Samira sabia que Selene estava certa, mas pensar em deixar a vida que conhecia era como dar adeus a um melhor amigo para se aventurar com pessoas estranhas em um mundo desconhecido. Mas realmente ela estava oferecendo perigo a todos que amava.

—--Criança, não se preocupe. Em breve você terá condições de viver como bem entender, mas agora é hora de deixar o passado e saber quem você é, e o que pode fazer. Em dois meses você será apresentada para a sociedade mystica, mas até lá, terá que aprender sobre o seu novo mundo.

—--Como assim vou ser apresentada a sociedade mystica?

—--Existem algumas leis na sociedade mystica que devem ser obedecidas, principalmente se você é um vampiro, pois são os mais intransigentes com relação a seus novos membros. Todo vampiro recém-criado deve se apresentar ao Regente e seus aliados. Esta é uma medida para que o Regente possa monitorar o fluxo de vampiros na cidade e esclarecer quais os locais de caça que podem ou não podem ser usados, e quais serão as atribuições do novo membro dentro da cidade.

—--É como se fosse uma ordem secreta?

—--Sim. Isto é uma ordem secreta. Real, cruel e perigosa. Que deve ser tratado com muita seriedade e respeito.

—--O que mais devo saber?

—--Já sabe usar suas potestades?

—--Hum. Na verdade sei que de vez em quando posso fazer algumas coisas fora do comum, como aumentar a minha força e minha velocidade. É isto que você chama de potestades?

—--Na verdade criança, a força, resistência e a velocidade são apenas melhorias que o sangue pode oferece , assim como a visão noturna o aumento temporário da audição, olfato, paladar e tato. As potestades são coisas mais além, são poderes únicos herdados diretamente do primeiro vampiro da linhagem, você é da linhagem Voluntas, os dominadores das sombras, do sangue e da forma animal. Uma linhagem repleta de assassinos e guerreiros.

—--Uau! Mas eu não sei fazer nada de especial ainda.

—--Por isto estou aqui, para lhe ensinar a desenvolver suas primeiras potestades.

—--Você também é uma Voluntas?

—--Não criança, eu não o sou. Ser uma vampira com poderes voltados para batalhas e assassinatos, seria um tanto quanto especial para mim. Sou uma Cogitatio, uma vampira que pode ler e alterar emoções alheias, ler e alterar mentes e entrar em sonhos. Posso aprender outros poderes de outras linhagens devido à antiguidade do meu sangue, mas nunca serei tão boa quanto um vampiro original da linhagem.

—--Nossa! Existem mais linhagens?

—--Sim, existe mais uma linhagem chamada de Sensus, é especialista em criar ilusões, alterar sentidos e copiar formas humanas. Existem apenas estas três linhagens, que são as linhagens de sangue originais.

Samira estava chocada com as novas informações, com a ideia de pertencer a um mundo completamente novo e envolto em mistério.

—--Vamos! Está na hora de voltar, você ainda tem que aprender o básico da caçada e alimentação ainda esta noite.