PRÍNCIPE DAS TREVAS
5 Revelações - Parte 2
Notas iniciais
O homem a encarou pelo canto dos olhos, mas antes que pudesse fazer qualquer ação violenta contra ela, peguei minha espada com as duas mãos me apoiando sobre ela para me levantar ainda sobre a pesada pressão espiritual esmagadora dele. Pude notar o espanto nos olhos dos ceifadores e principalmente no olhar daquele ser.
–Onde arrumou este brinquedo? – perguntou ele sem disfarçar a surpresa em sua voz.
–M-mestre – chamou a reconhecível voz de Otávio – Por favor, pare!
Ele olhou para Otávio e pressionou ainda mais o seu poder. Minha fúria subiu rapidamente fazendo meus olhos sangrarem e fortes dores de cabeça me atingiam feito agulhas me perfurando. Cai de joelhos sentindo meu corpo quase explodindo de dor. Fiquei olhando para o chão enquanto recuperava o fôlego e me reconstituía. Aquele homem chutou a espada de mim, provocando minha ira. Levanto-me sem esforço algum como se não tivesse aquela força espiritual maligna. Desta vez ele escondeu bem a sua expressão assustada e curiosa. Estendo a mão para a espada e logo ela vem até mim e ao meu toque, sinto que ela deseja se transformar contendo tanto poder que parecia uma bomba prestes a explodir, ela só queria a minha permissão. Retiro meu capuz revelando meus olhos reptilianos e a cruz invertida em minha testa para ele que deu alguns passos para trás.
–Você! – impressionou-se ele – Otávio seu humano desgraçado, pagará caro por ter quebrado minha ordem.
–Mestre Hares eu-
–MATEM TODOS! – interrompeu o homem.
Quando ele desapareceu da mesma forma que surgiu, levou consigo aquele poder imenso e o peso de sua pressão espiritual diabólica, então os ceifeiros se levantaram e vieram em minha direção soltando suas criaturas que avançaram. Em um simples movimento giratório rasguei o abdômen daquelas coisas jorrando sangue fétido e seus órgãos para fora de seus corpos frios. Um Doll se agarrou em minhas costas mordendo meu ombro tão forte que perdi a força daquele braço e no mesmo instante outro mordeu minha perna me derrubando no chão. Podia sentir meu sangue sendo drenado e meus membros formigando causando-me dores cruéis e ardentes. Este era o seu veneno.
Otávio estava lutando contra outros Dolls que atacavam as garotas.
Segurei a cabeça do Doll em minhas costas e a esmaguei com força até que seus miolos se espalhassem pelo chão. Desfiro um golpe letal com a espada entre os olhos do humanoide que me atacou na perna. Corri para ajudar Otávio que se encontrava rodeado de ceifadores apontando suas foices em posição de ataque quando de repente, um gigantesco Doll, maior que tudo o que já vi, bloqueou minha passagem rugindo como um monstro. Ele abriu a boca e tentou me engolir, mas ele era lento demais. Em instantes eu havia perfurado seus olhos e rasgado sua garganta, porém ele era teimoso e se recusava a cair. Foi quando ele me acertou um golpe no estômago que me fez atravessar dezoito estabelecimentos desmoronando uma parte daquela cidade. Com rapidez me levanto e corro velozmente na direção de seu peito apontando a espada em seu coração que esguicha muito sangue em meu rosto. Aquilo era nojento e fedia mais do que os Dolls normais, no entanto, a criatura continuava viva então tive que cortar-lhe a cabeça e o despedaçar partes por partes. Assim ele não se regenerou como eu desconfiava. Criatura tola e fraca. Quando me dei conta, Luna e Kattarine havia desaparecidas e encontrei Otávio no chão, desacordado. Meu desespero estava me deixado louco. Pela primeira vez me vi confuso e perdido, porém isso não evitou que meu ódio crescesse dentro de mim querendo me possuir. O local da cruz invertida sangrava muito, como se fosse uma hemorragia profunda e a dor me pressionava cada vez mais.
–LUNA! – gritei não reconhecendo minha voz. É claro que existiam muitas perguntas às quais eu necessitava de respostas, mas por onde começar? Por causa de minha fraqueza eu perdi Luna e Kattarine. Elas poderiam estar mortas agora.
Corvos já devoravam os corpos por todo lado. Eram muitos. Uma cena muito estranha.
–Está sozinho agora – sussurrou meus pensamentos.
–Ryan, por favor, me ajude – pedia Otávio esticando a mão, tentando se levantar.
“Mestre Hares”, “Mestre Hares”, “Mestre Hares” – repeti esta fala em meus pensamentos até deduzir uma traição.
Furioso, ergui-o pelo pescoço até retirar seus pés do chão.
–Você trabalha para Hares, maldito desgraçado, eu deveria lhe matar traidor.
–E p-por que não m-me mata? – gaguejou tentando respirar.
–Você vai encontrá-las e se elas estiverem mortas eu mesmo vou atrás de você... E de Hares – lancei-o em uma viga de madeira que se partiu ao meio – Agora eu entendo como você escapou daquela cela: Hares te ajudou, não foi sua coragem. Covarde desgraçado!
Sua raiva modificou sua expressão de coitado para alguém que desejava lutar. Era quase engraçado vê-lo daquele jeito, até que minha diversão cessou por conta de um terremoto que deu origem a uma serpente gigante de olhos amarelos flamejantes e de grandes dentes afiados. Ela veio em minha direção e me engoliu. Era grande demais para que eu pudesse cortá-la ao meio. Podia ouvir a risada de Otávio. Era uma risada ridícula que fazia qualquer criança chorar. Rastejo-me entre toda aquela gosma e sucos gástricos do réptil até encontrar uma área mais plana e perfurar a parede do seu estômago rasgando-o. Sinto a queda do animal agora morto. Ao sair de dentro da serpente todo encharcado de sangue e gosma, reparei o desespero de Otávio ao ver sua querida serva morta.
–DESGRAÇADO!
–É só isso? – provoquei-o.
Ao desembainhar sua espada, correu velozmente em minha direção fazendo um movimento de mãos indescritível. Estava invocando alguma coisa. Logo uma serpente de fogo com uma força anormal se enrolou em meu corpo impossibilitando-me de fazer qualquer defesa. Fúria, ódio. Era isso o que estava me tomando o controle. Senti fortes dores de cabeça e minha visão do olho esquerdo começou a escurecer. Minha espada emanava uma sensação estranha e desconfortante. Ela queria lutar. Ela queria arrancar-lhe os membros e se sujar com o sangue impuro da sua próxima vítima.
Otávio vinha com toda sua força confiante de um único golpe certeiro, porém ele não contava com uma pequena surpresa. Notou que eu estava posicionando a espada em suas costas, ofegante. A serpente de fogo havia desaparecido e a espada de diamante agora se encontrava transformada pela metade, assim como senti meu olho esquerdo sangrar e meus caninos do mesmo lado surgirem. Metade de mim havia se transformado. Eu fugi do controle e por muito pouco eu não viro aquele monstro novamente.
–C-como...? – notei o seu espanto ao olhar bem devagar para trás e ver a minha aparência. Eu me observei por alguns segundos. Era como se duas pessoas, completamente diferentes, habitassem o mesmo corpo, porém uma queria a destruição do corpo inimigo, e a outra da minha própria alma.
–Eu sou um deus – respondi arfando o ar sentindo a meia transformação desaparecer – O seu dever é encontrá-las, por este único motivo não o matarei.
Ele assentiu e andou alguns metros para o final da cidade onde se agachou e retirou do cinto uma adaga a qual usou para fazer um corte em sua mão despejando-o no chão. Aproximei-me e vi que havia um pentagrama bastante decorado em um metal brilhoso de cores vibrantes. Era como diamante, mas as cores pareciam dançar. Aquele era um portal. Confesso que era diferente dos outros portais e que me chamou muita atenção.
–Quando os humanos começaram a entrar pelos portais abertos misteriosamente, Hades colocou uma “chave”, assim os portais seriam abertos apenas pelos guerreiros e pelos reis.
Um desses humanos era Luna, a inocência daquela menina a condenou por toda a eternidade aqui, agora que estava livre dos meus serviços eu deveria levá-la para o mundo humano.
– Noite sem lua. Sem estrelas. Sem vida. Causou o roubo do futuro do Inferno. Tragam de volta o herdeiro da maldição. O pior monstro foi quem o abandonou. Perdida está na escuridão, a inocência da humanidade – dizia Otávio em uma antiga língua dos domadores que por algum motivo desconhecido eu havia reconhecido. Não sabia o quê aquele “poema” queria dizer, mas neste instante o portal brilhou como uma luz incandescente mostrando a imagem de uma floresta estranha com árvores altas e bem verdes escondendo o céu azul e a brisa refrescante que soprava para o Inferno. Ouvia criaturas grunhindo em um ritmo musical e o gramado não estava manchado com sangue. Não sentia nenhum tipo de perigo naquele lugar. Nenhuma força espiritual. Era algo misterioso. Peguei apenas as coisas mais importantes do meio de minhas bagagens e passei pelo portal que se fechou atrás de mim. Andei calmamente observando cada detalhe daquela floresta. A brisa soprava trazendo-me um delicioso aroma. Sangue fresco, ainda circulando nas veias. Avistei uma criança na beira de um riacho. Aproximei-me vendo que ela estava jogando pedras na água e cantarolando. Parecia não se importar com a minha presença.
–Qual o seu nome, criança?
Olhou-me ela sorrindo.
–Abby.
–Eu sou Ryan e estou perdido nesta floresta, pode me levar para algum lugar o qual eu possa me limpar?
A cidade humana era cada vez mais curiosa. Mulheres usavam longos vestidos e tinham muito cuidado com as cores. A maioria usava tons de azul da Prússia, cinza escuro ou preto. Enfeitavam-se com lenços e aventais brancos decorados com babados e renda. Muitas possuíam uma aparência horrível, pareciam cansadas e velhas. Muitos homens vestiam uma espécie de terno e amarravam uma fita no pescoço. Não entendo o porquê desta fita, pareciam estar sendo enforcados. Algumas exceções usavam chapéus de diferentes tipos e tamanhos.
Desconfiados, todos me encaravam de estabelecimentos e moradias, pude reconhecer uma casa noturna no fim de uma estrada de terra, parecia estar lotado, pois havia muitos cavalos parados ali.
Passamos em frente a um grande templo cujas janelas tinham formas arredondadas e portas de madeira. Um comprido carpete vermelho se esticava até uma espécie de altar onde um homem trajado de preto parecia dar aulas ás pessoas que se assentavam em largos bancos de madeira rústica. Ele possuía em suas mãos um livro preto e na outra um crucifixo. De repente um som alto, agudo e irritante me deixou inquieto. Era um sino. Saímos o mais rápido daquele local, pois o barulho era perturbador.
Avistamos uma fazenda após algum tempo de caminhada para fora daquela cidade estranha. Uma mulher, cansada do trabalho no campo, alimentava alguns poucos animais inofensivos, mas seu olhar foi direto para mim se desconfortando com a minha presença ao lado daquela criança a qual aparentava ser sua criação, pois correu em nossa direção afastando a menina de perto de mim. Imediatamente pensei em alguma mentira para conseguir a confiança daquela humana. Ficar no mundo dos humanos não seria nada fácil, era algo ridículo e entediante, portanto precisava de alguma companhia para me servir abrigo e comida.
–Perdoe-me senhora – forcei um sorriso por debaixo do capuz – Estive viajando por muito tempo e estou muito cansado, aliás, estou perdido nesta cidade e não tenho para onde ir, pois fui abandonado aqui.
–E o que deseja moço? – perguntou ela com a voz rouca.
–Se a senhora pudesse me hospedar em sua honesta casa, eu poderia lhe pagar com muito ouro e uma boa caça.
Ela ficou pensativa por longos minutos. Sua face se aliviou abrindo um grande sorriso e uma risada baixa soou de seus lábios carnudos de uma mulher jovem e bela. Talvez a única bela daquela cidade humana ridícula.
–Não tenho fé que conseguirá uma boa caça aqui, há anos esta cidade não tem fartura com carne. Eu sou Maria, e esta é minha filha Abby.
–É uma honra conhecê-la Maria. Eu sou Ryan e encontrei Abby no riacho daquela floresta do outro lado da cidade, então pedi que me trouxesse aqui.
Maria lançou um olhar furioso á filha que, por medo, abaixou a cabeça em sinal de arrependimento.
–No riacho? De novo Abby? Vá se limpar menina, e avise sua avó que temos visita.
Adentramos a pequena casa, o primeiro cômodo devia ser o local das refeições. Era bem organizado, simples e humilde. Uma velha sentada em uma cadeira de balanço tricotava um lenço e logo que me viu, sorriu simpaticamente.
–Olá meu jovem, seja bem-vindo! – cumprimentava ela.
Conforme a noite se aproximava, já havia organizado minhas pequenas malas no quarto de hospedes. Decidi fazer a minha primeira caça naquele lugar. Retirei meu capuz observando a noite calma com muitas estrelas e lua crescente. Totalmente diferente das noites infernais onde quase nunca surgem estrelas e as diferentes fases da lua. Joguei minhas roupas no chão e entrei nas águas geladas do rio que se encontrava a alguns metros atrás da casa. A espada de diamante se limpava facilmente sobre a água, retirando todo o sangue imundo que a estava manchando. Cheguei do outro lado do rio onde uma imensa floresta se encontrava. As árvores dançavam conforme o vento soprava, brincando de esconder o céu perfeito daquela noite. Mergulhei nas águas de modo que eu ficasse a vontade para me limpar e relaxar. Meu corpo doía como se eu fosse um humano esmagado por inúmeros pesos. A sede consumidora provocava esta sensação. Deslizei minha mão pelo meu peitoral sentindo que as feridas que havia ganhado nesta viagem, estavam um pouco infectadas. E tinha certeza que isto era obra do sangue podre daqueles Dolls malditos.
Reparei que uma grande criatura marinha estava nadando perto de mim. O segurei na mão e o encarei. Era um peixe. Não parecia ser perigoso, pois tudo o que vem do inferno com aparência inocente são os mais perigosos, como aquela sereia por exemplo.
Quando me virei para a margem do rio o qual havia deixado minhas roupas, deparo-me com Maria na beira do rio me olhando paralisada por alguns instantes. Ela estava lavando algumas roupas e desviou o olhar quando notei que estava sendo vigiado. Percebi que ficou envergonhada se retirando em seguida.
No jantar todos nos sentamos como uma família. A velha, cujo nome era Darcy, ainda estava espantada com a refeição daquela noite, então ela segurou a mão da pequena Abby e de Maria que se encontrava de cabeça baixa para fazer uma oração, no entanto permaneci sentado e encapuzado, devorando minha parte do peixe. Isso não matava minha sede, apenas enganava, mas por quanto tempo poderia resistir sem ferir os inocentes? Que pensamento ridículo é esse de “sem ferir os inocentes”?
–Não acredita em Deus, meu jovem? – perguntou Darcy.
–Digamos que eu e Deus – fiz uma pausa engolindo o alimento – Não somos muito amigáveis.
–Deus ama a todos, e cuida de nós como seus filhos.
Sorri, porém em meus pensamentos estava gargalhando. Jamais elas poderiam imaginar que eu Ryan Sanchez vim diretamente do Inferno.
Após o jantar, Darcy me contou histórias sobre demônios e anjos que lutavam para ganhar almas, mas muitos humanos escolhiam seus próprios caminhos e muitos caíram na tentação de um arcanjo chamado Lúcifer que foi banido por Deus. As histórias eram interessantes e lembravam muito com as guerras que vivenciei. Pensando nisso, há quantos dias estou fora do palácio mesmo?
A lua lutava contra as nuvens para refletir seu brilho, a floresta estava escura e com minha necessidade por sangue me tomando o controle pouco a pouco, estava me tornando fraco como um humano, tanto que mal podia ver além da floresta. Retirei o capuz observando este mundo insuportável. Era apenas uma questão de tempo até que os soldados de Copérnicus me encontrem e matem todos que entrarem no caminho. Essas humanas as quais estou convivendo estão correndo um grande risco ao me hospedarem, pois agora os soldados estão mais violentos do que eu. Maldição! O que houve comigo?
–Está frio aqui – ouvi a suave voz de Maria atrás de mim. Vesti o capuz rapidamente antes que ela reparasse com a minha feição e fiquei atento para que ela não visse a espada de diamante guardada em sua bainha de prata decorada com uma serpente de ouro que se encontrava debaixo de meu sobretudo.
–Eu... – fez uma pausa – Queria lhe fazer muitas perguntas.
Ela se sentou ao meu lado ainda me olhando curiosa e tímida.
–De onde você veio?
Pensei em alguma resposta por longos minutos. Sabia que cedo ou tarde ela iria me perguntar isso.
–Vim de uma cidade bem longe daqui, na verdade eu não sei como parei nesta cidade. Enfrentávamos muitas guerras provocando muitas mortes e espalhando sangue por todos os lados. É um lugar onde Deus não existe.
–Isso deve ser horrível, mas e sua família?
–Não tenho. Os perdi há alguns dias.
–Eu sinto muito – dizia ela me olhando com uma expressão de pena – Enquanto sua espada brilhosa?
Como ela sabe? Ah! Foi quando eu estava no rio me limpando. Faz sentido já que meus instintos falham por causa da sede. Permaneci calado olhado para a floresta depois do rio a nossa frente.
–Está ficando tarde, eu vou me retirar para dormir, enquanto você pode ficar aqui – dizia ela – Boa noite.
O nascer do sol era a única coisa bela daquele mundo. Era quase indescritível. O alaranjado e o amarelo dançavam com o cor-de-rosa sobre o azul celeste e na colina pude ver a estrela da manhã se levantando nos céus como se tivesse o maior cuidado para não bagunçar as misturas coloridas que se formavam em seu caminho.
Maria e Darcy ainda estavam dormindo quando a pequena criança saiu correndo da casa e indo em direção á cidade carregando uma mochila de pano. Decidi segui-la discretamente e ela só parou quando chegou ao riacho da floresta em que eu havia passado pelo portal. Escalei uma árvore atrás dela e fiquei observando-a pegar de dentro da sua mochila um barco de papel carregado de flores e o colocou na água.
–Papai, eu sinto sua falta, por favor, volte logo – dizia ela. Apesar das lágrimas em seus olhos, um sorriso alegre e confiante estampava seu rosto.
Em seguida ela voltou a correr de volta para a fazenda e no meio do caminho foi bloqueada por oito mal-intencionados que a cercaram que a colocaram nos ombros e saíram caminhando calmamente enquanto a menina gritava pedindo ajuda ate que um deles tapou a boca dela com um pano. Pulei na frente deles que se posicionaram percebendo que teríamos uma luta sangrenta.
–Soltem a menina – ordenei.
–Ou o que? – retrucou o que segurava Abby – Vai me encapuzar?
Seus companheiros soltaram altas gargalhadas revelando suas armas.
–Saia da frente otário, ou ficará bem machucado.
Permaneci no meu lugar soando desafiador para eles. Seu líder mandou que os três mais fortes me cercassem armados com facas, cravados mace e machados. Quando pularam em cima de mim, ouvi risadas vindas dos outros que estava de fora e se cessaram quando viram os três sendo lançados bem longe da nossa roda esguichando sangue por todo o trajeto. Notaram a minha espada de diamante brilhando com o reflexo do sol cegando-os. Ficaram admirados e seduzidos pela beleza indescritível dela.
–Que demônio é você? – perguntou entusiasmado o líder.
–Seu pior pesadelo – retirei o capuz e os encarei com meus olhos reptilianos e dentes pontudos. Com um pouco do meu poder á mostra eu pensei que iriam fugir correndo, mas pelo contrário, todos – com exceção do líder que carregava a menina – vieram em minha direção jogando suas armas que foram facilmente divididas ao meio com a minha velocidade demoníaca. Era tão veloz que para eles eu não havia movido um membro para destruir seu armamento, porém o líder testemunhou detalhadamente a minha lâmina riscar os ares cortando as cabeças de seus aliados e queimando seus corpos sem tocá-los. Encarei furioso em seus olhos sentindo o medo que sua alma emanava, provando do doce sabor que o seu temor provocava.
–Devolva-me a menina.
Mesmo apavorado, ele se negou a entregá-la e assim correu o mais rápido que pode para a floresta e chegando ao meio dela onde ninguém poderia nos ver ou ouvir, seu espanto o controlou quando notou que estava cercado por um fogo místico, mas não estava queimando a floresta. Pulei dos galhos de uma árvore caindo em sua frente como um gato pula de um telhado. Ele apontou uma faca tentando – de uma maneira ridiculamente fracassada – se defender, mas o suor escorreu frio em suas têmporas no instante em que sua arma se desintegrou em sua mão. Aproximei-me pegando a menina desacordada do seu ombro e a colocando delicadamente no chão, em seguida segurei com muita força seu pescoço obrigando-o a olhar em meus olhos sombrios os quais estavam lacrimejando sangue negro.
–Nos encontraremos no Inferno – avisei logo encravando ferozmente meus caninos afiados em seu pescoço, mas não para sugar-lhe o sangue e sim para injetar o mais puro, perigoso e letal veneno de todo o universo. Ele gritou como uma menina, porém o a morte o silenciou e sua alma estava agora sendo levada a punição eterna. Seu corpo se autodevorava pela quantidade exagerada de veneno que estava circulando em suas veias e artérias. Transformei-me ao normal embainhando a espada e levando a criança nos braços até a fazenda. Maria ainda dormia quando coloquei Abby em sua cama. A garota acordaria e pensaria que tudo não passou de um sonho, mas o mistério sobre seu desmaio ainda permanece.
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