PRÍNCIPE DAS TREVAS
6 Fraquezas - Parte 1
Notas iniciais
–Nos encontraremos no Inferno – avisei logo encravando ferozmente meus caninos afiados em seu pescoço, mas não para sugar-lhe o sangue e sim para injetar o mais puro, perigoso e letal veneno de todo o universo. Ele gritou como uma menina, porém o a morte o silenciou e sua alma estava agora sendo levada a punição eterna. Seu corpo se autodevorava pela quantidade exagerada de veneno que estava circulando em suas veias e artérias. Transformei-me ao normal embainhando a espada e levando a criança nos braços até a fazenda. Maria ainda dormia quando coloquei Abby em sua cama. A garota acordaria e pensaria que tudo não passou de um sonho, mas o mistério sobre seu desmaio ainda permanece.
Mais tarde naquele dia, Abby insista em dizer que me viu lutar contra oito criminosos e que possuía poderes incríveis. Sua mãe explicava que tudo não passava de um sonho, então a garota revirou a mochila de pano e viu que seus pertences não estavam ali, mas também não poderia mostrar esta prova para sua mãe, pois ela não sabia de suas passeatas matinais até o riacho e poderia colocá-la de castigo. A menina apenas assentiu desanimada.
Resolvi caçar na floresta. Intencionalmente meu alvo seria um cervo ou algo maior, no entanto só consegui achar um coelho. Logo que me agachei para pegá-lo, percebi que fui vigiado por um enorme urso pardo, e ele parecia ferozmente faminto. Não. Ele não estava olhado para mim. Olhei cuidadosamente para trás e vi a criança paralisada de medo encarando o imenso animal que rugia irritado.
–Não se mova – sussurrei.
Levantei-me devagar para não provocar a fera que estava se aproximando para saltar em cima de Abby, quando analisei que havia outro urso logo atrás dela. Estava cada vez mais fraco como um humano para ter a percepção do perigo. O primeiro urso se sentiu ameaçado pelo outro sabendo que iria perder sua presa, então ele avançou provocando o outro que o imitou. Abby gritou o mais alto que pode até perceber que estava em cima de uma árvore a qual os ursos tentavam subir. Lembra-se que minha intenção era de uma caça maior do que um cervo? Retiro o que disse. Pulei do galho caindo atrás dos animais liberando a espada e encravando nas costas de um que pareceu não se importar com minha presença, continuou tentando derrubar a árvore foi quando deslizei a espada por toda a suas costas rasgando-a até que o animal caísse morto ao meu lado. O outro me viu e tentou me atingir com suas enormes garras rugindo e babando. Ficou pior quando cortei uma de suas patas. O animal se levantou furiosamente e depositou todo o seu peso em sua barriga se deitando em cima de mim. Ouve silêncio por alguns instantes e o animal continuava a rugir, mas logo que o joguei para o lado me vi todo ensanguentado e a espada de diamante engoliu sua vida, destruindo seu coração. Desci a criança no chão e ela não parava de tremer.
–O que houve criança?
–S-san-sangue – gaguejava ela com os olhos abertos ao máximo.
Limpei a espada de diamante que refletia um brilho magicamente impressionante e retirei o capuz olhando diretamente em seus olhos castanhos e inocentes.
–Não foi um sonho o que aconteceu hoje de manhã – confessei – Mas preciso que isso fique em segredo entre nós, posso confiar em você?
–Eu sabia – vi seu sorriso contagiante brilhar em seu rosto – Como você fez aquilo? E que arma é essa? É feita do que? Ela é mágica?
–Sem perguntas – vesti o capuz pegando o coelho e entregando nos braços da menina que gritou de alegria.
Carreguei um dos ursos nas costas. A criatura era pesada, mas consegui chegar à fazenda. Abby, que havia ganhado um coelho de estimação, estava quase o enforcando, mas feliz. Darcy ficou sem palavras para descrever o que via em sua frente e gritou por Maria que veio correndo ver o almoço.
–É Deus nos abençoando, minha filha – dizia Darcy.
–Como caçou isso? Não vemos nada assim há anos. Não está ferido? Está coberto de sangue! Abby não desmaiou ao ver isso? – perguntava curiosamente Maria.
–Porque desmaiaria? – minha vez de ser curioso.
–Ela tem medo de sangue, um trauma de infância.
–Bobagem. Vi muito sangue em minha vida.
A madrugada estava quente e sentia muito cansaço a cada dia que passava. Meus olhos lacrimejavam e pareciam nunca mais abrir a cada piscada. O que era esta acomodação que eu sentia? Seria isso o que todos os mortais chamam de... Sono? O vento me provocou trazendo para mim um cheiro tentador.
–Posso ficar aqui com você? – a doce e suave voz de Maria atrás de mim soou como um sussurro.
Acomodei-me no gramado escondendo a espada debaixo de meu sobretudo.
–Eu... Queria te agradecer. Não vejo Abby tão feliz assim desde... – ela não conseguiu terminar a frase.
–O que houve – fiz uma pausa- Com o seu marido?
–Ele foi um soldado templário da igreja, e no meio de uma guerra ele...
Permaneci calado observando o luar que brilhava sobre as calmas águas do rio.
–Porque não retira seu capuz para eu vê-lo melhor? – perguntou ela entusiasmada.
–Não viu o suficiente no rio ontem?
–Perdoe-me, pensei que não tivesse reparado.
Ela ficou corada e desviou o olhar para o outro lado do rio em seguida se levantando. Segurei em sua mão antes que ela caminhasse para a casa.
–Não vá – pedi me levantando de frente para ela. Por fim retirei o capuz e vi seu rosto se surpreender.
–Ryan... – ela sorriu tímida – Você é dono de uma beleza inestimável.
Sorri pelo canto dos lábios. Caminhei para a margem do rio a qual deixei minhas roupas e minha espada ficando nu entrando no rio. Não vi a reação dela, mas convidei para que entrasse comigo. Ela aceitou o convite e fez o mesmo. Aproximei-me dela e envolvi-a em meus braços.
Fitei seus olhos cor de mel, analisando cada detalhe de sua feição jovem. Seus lábios carnudos e rosados pareciam me enfeitiçar. Foi quando trocamos um beijo que se intensificou. Sentia sua respiração acelerada. Minhas mãos subiam pelos seus seios grandes e fartos enquanto senti suas pernas se cruzarem nas minhas costas. Ela suspirava de prazer e aquilo me excitava. Agarrei suas coxas com nossos corpos colados e quentes em uma transa ardente e calorosa. Seus gemidos me deixavam louco, e nos tornamos um só naquela noite em que a necessidade de sexo nos consumia.
Antes do sol nascer estávamos vestidos e deitados no gramado, como se nada tivesse acontecido. Maria dormia tranquilamente em meus braços, mas foi acordada quando sua filha saiu correndo para a floresta.
–Deixe-a ir – pedi – Ela leva um barco de papel carregado de flores para o riacho, é um sinal para que seu marido retorne.
–Ela sente falta do pai.
De repente, gritos desesperados de várias pessoas soaram no vilarejo. Uma nuvem negra e diabólica surge devorando tudo o que atingia. Maldição. Era o exército das Trevas. Maria correu atrás da filha chamando-a pelo nome. Direcionei-me para o local o qual parecia um segundo inferno para quem sobreviveu ao primeiro. Crianças eram espancadas e chicoteadas, mulheres violentadas sexualmente em público, homens sendo esquartejados e os velhos eram levados para dentro de um portal.
–HEI! – gritei fazendo aquele exército me encarar.
–Enfim lhe encontrei Ryan – comentou o líder estalando os dedos. Cinco monstros gigantes surgem do portal. De silhuetas humanas, porém não possuíam mãos ou pés, apenas uma garra em cada membro e pareciam bem afiadas. Não tinham rostos e seu cheiro era ardente e queimava os pulmões. Eles vieram em minha direção, extremamente rápidos e pude sentir a garra de um deles perfurando meu ombro, queimando intensamente e não me contive aos gritos. Fui cercado enquanto ele retirava sua garra violentamente abrindo uma ferida profunda a qual jorrava sangue negro e me impossibilitava de usar a espada com aquele braço. Ouvia as risadas daquele exército. Eu estava sendo humilhado. Levantei-me com dificuldade e retirei a espada com o outro braço o qual não estava acostumado a lutar. Dois daqueles monstros me atacam pelas laterais, rapidamente giro a espada cortando suas cabeças. Eles caem no chão e os outros dois da frente resolvem atacar juntos usando suas garras, que são bloqueadas pela minha espada e consigo desviar de seus ataques. Aquelas criaturas eram incrivelmente fortes e me arrastavam com facilidade tentando fugir da minha barreira. Não percebi que estava sendo levado para uma armadilha, então o ultimo monstro perfurou minha coxa com sua garra ardente. Gritei desconcentrando-me do bloqueio e aquilo foi o suficiente para que eles rasgassem meu peitoral. Mais sangue tingiu o chão. Muitas pessoas olhavam apesar do medo que sentiam.
–Vamos Ryan, mostre-nos o seu poder – provocava o líder – E se dizia rei com apenas isso?
Estava odiando ouvir aquilo, minha fúria aumentava a cada palavra mal dita. Percebi que os monstros que havia decapitado estavam regenerados e todos juntos me cercaram. Minhas forças foram embora com as dores que sentia, e um sentimento poderoso e maligno me domou. Sorri por debaixo do capuz notando a espada começar a se modificar. Uma nuvem negra soprava dentro do diamante querendo torná-la completamente transformada.
–Você quer ver o meu poder?
As dores não me incomodavam mais quando me transformei naquele monstro novamente. A cruz invertida em minha testa era a única ferida que eu sentia queimar. Dei uma risada sarcástica olhando o espanto dos soldados. Muitos perderam suas cabeças, arrancadas facilmente pela minha espada numa velocidade foram do comum. Os monstros tentavam ajudá-los enquanto tentavam se defender, porém eu era um oponente muito poderoso e esperto. Esmaguei o crânio de um soldado enquanto os monstros perfuram dois de seus colegas por acidente. O único sobrevivente era o líder que resolvi deixá-lo por último, pois adoraria que ele testemunhasse o meu poder e o porquê eu me autoproclamava rei. Algo óbvio me surgiu à mente, a única forma de destruir essas criaturas, eram elas mesmas. Provoquei duas criaturas que correram pelas laterais num ataque cominado para me acertarem na altura do coração, mas os surpreendo saltando para as costas do monstro logo atrás de mim milésimos antes de ser atingido, vendo que elas haviam se perfurado e tombado no chão. Provoquei a criatura da frente que correu em minha direção enquanto controlava aquele monstro que estava me sustentando para que não me atacasse, logo vejo que ele perde a cabeça rasgada pelo seu companheiro que tentou me perfurar. Chutei o corpo da criatura para longe enquanto as outras duas sobreviventes tentaram me acertar com vários golpes que foram sucessivamente desviados sem qualquer dificuldade. Dou uma rasteira na criatura atrás de mim enquanto seguro as pernas do monstro em minha frente derrubando de costas no chão e em seguida o lançando contra as garras do que estava caído. Os dois monstros são perfurados entre si. O terrível cheiro de enxofre no local era quase insuportável, no entanto foi divertido ver a reação paralisante do líder o qual segurei pelo pescoço forçando-o a olhar em meus olhos sangrentos e reptilianos.
–Eu sinto o seu medo, e isso me atrai. Sinta-se responsável por todas as vidas perdidas aqui, pois foi você quem pediu que eu lhe mostrasse o meu poder – minha voz soou monstruosamente e eu sorria com aquilo. Sua alma estava em pranto e pedia por misericórdia.
–P-por favor... Não me mate – pedia ele chorando feito uma criança.
–Ah... Eu não vou matá-lo. Você vai voltar e avisar Copérnicus que ele será o próximo, e peça que chame Hares para conversar quando eu voltar.
Lancei-o dentro do portal que se fechou imediatamente. Quando me transformei ao normal, as dores me atingiram poderosamente me fazendo cuspir sangue e perder o equilíbrio, cambaleando para frente, porém me apoiei na espada de diamante a qual estava silenciosa. Um homem de preto se aproximou carregando um livro em suas mãos. Reconheci-o. Era aquele humano que estava gritando naquele templo.
–Que criatura diabólica é você? E porque nos ajudou? – perguntava ele mantendo distância de mim.
–Ele é um soldado – informava Maria me ajudando a levantar juntamente com Abby – Ele está hospedado em minha fazenda, padre.
–Hospedado? Esse demônio está em sua casa? Não foi por causa deles que seu marido morreu na guerra? – insultava o homem.
–Mamãe, o que ele disse sobre o papai? – choramingava a menina. Tudo Fazia sentido agora. Maria nunca havia contado á filha sobre a morte do pai, agora ela não tinha palavras para explicar esta situação.
–Está na hora de entender, criança. Seu pai está morto e sua mãe está abrigando este demônio. Isso é um insulto ao seu marido – provocava o padre fazendo a menina chorar.
–ELE ME SALVOU DE CRIMINOSOS ASSIM COMO ACABOU DE SALVAR VOCÊS – gritava Abby – EU SEI QUE MEU PAI NÃO ESTÁ MORTO.
A criança correu em direção a fazenda sendo seguida por sua mãe. Encarei os olhos do padre que me fitavam odiosos.
–Você está se metendo em lugar errado, demônio – ameaçava o padre.
Direcionei-lhe um soco no rosto forte o suficiente para que ele caísse no chão. Aponto a espada mirando no meio de seus olhos.
–Considere isso como um pagamento pelo o que disse á garota. Ela é apenas uma criança para conviver com o pai morto, o que faz de você o único demônio aqui por ter usado isso para se defender.
–Que Deus lhe mande de volta para o lugar de onde veio, para o Inferno.
Sorri pelo canto da boca mantendo a expressão séria sobre ele. Logo caminhei até a fazenda e encontrei a criança na margem do rio sendo abraçada pela mãe. Aproximei-me com cautela, pois não queria provocar uma tensão maior do que já estava.
–O que foi aquilo? – perguntou Maria assustada. Podia sentir sua alma desesperada temendo o pior.
–Eu... – fiz uma pausa – Eu sou um domador de serpentes. Um meio vampiro, meio demônio, se é assim que nos chamam. Eu sou um antigo príncipe de uma cidade infernal chamada Submundo, é como se fosse a capital e o Inferno seria um país, mas ultimamente algo está fora de controle por lá e coisas muito misteriosas estão acontecendo e eu não sei as respostas para muitas perguntas que me atormentam. Eu peço desculpas pelo o provoquei.
Observei-a paralisada, pálida como um fantasma.
–Eu lutei contra guerreiros, monstros, sereias, ceifadores de almas e demônios para estar aqui e provar minha inocência no Inferno e recuperar minha honra novamente – dizia.
–Sereias? – perguntava Abby interessada.
–Sereias não existem, minha filha – respondeu a mãe.
–Não, não existem sereias realmente, pelo menos do jeito carinhoso e meigo que pensam. Sereias são monstros marinhos que seduzem e devoram suas vítimas e sugam da sua alma para viverem eternamente jovens e atraentes. Tome cuidado com os rios e lagos, pois existem vários portais por onde essas criaturas aparecem.
Fale com o autor