PRÍNCIPE DAS TREVAS
4 Revelações - Parte 1
Notas iniciais
Assoviei e meu corcel rapidamente veio até mim. Montei-o e cavalguei até alcançá-la. De repente, a mesma serpente se enrolou em meu braço sem explicação alguma.
–Deixe ajudá-lo?
–Já disse para ir se ferrar – joguei a serpente a frente do cavalo de Luna sem intenção, o cavalo se assustou e empinou derrubando Luna, mas antes que se chocasse contra o chão, desço do corcel e a seguro firmemente em meus braços, abraçando-a.
–Você está bem? Não vou mais te deixar sozinha com ela, eu prometo.
–Eu te amo!
–O-o que disse? – gaguejei? Eu havia gaguejado? É claro que eu ouvi claramente o que ela disse.
–Eu... Te amo Ryan – repetiu ela sem gaguejar e sem me parecer estar sendo forçada a dizer aquilo. Suas palavras doces e gentis soavam em minha mente como uma leve brisa. Aquelas palavras me fizeram navegar pelo oceano de memórias de meu subconsciente, me levando para o passado no tempo em que eu a conheci, em que ela se aventurou em uma cruzada perigosa até encontrar um portal mágico. Ela se atreveu a adentrá-lo e lá conheceu o barqueiro, conhecido como Caronte e foi trazida ao Submundo ainda uma criança. Sem moedas para pagá-lo, ela ficou presa aqui como escrava humana, para toda vida. Era um guerreiro há muito tempo antes dela, e sempre a menosprezei, mas fui encarregado de cuidá-la até que tivesse idade para me servir. Não sabemos quem deixou o portal aberto, mas agora ele está seguro, fechado e só quem tem permissão pode abri-lo, no entanto, seus pais já devem estar mortos agora e isso faz de mim a única “família” que ela tem. Eu poderia ter pagado o barqueiro mais do que ele receberia em dez anos de serviço, mas porque decidi ficar com aquela criança chorona e irritante que sempre resmungava “eu quero a minha mamãe”, “eu quero o meu papai”? Por qual motivo eu havia acolhido ela mesmo?
Caminhamos pela floresta até o por do sol conversamos um pouco sobre nossos momentos juntos desde então, e os motivos de eu não chamar Copérnicus de “pai”, na verdade eu sempre me senti diferente ali, nunca me via como filho deles e quanto mais tempo passava fora do palácio me distanciando deles, mais mimado eu era. Eu queria paz, mas o mimo também era algo vantajoso. Não tinha que fazer muita coisa, apenas estalar os dedos e tudo o que eu queria e desejava era conseguido sem esforço algum.
Na margem do rio, limpei suas feridas provocadas pelo ciúme de Kattarine. Tomei cuidado para limpar seu rosto delicado pensando no quanto àquela moça havia sofrido em minhas mãos. Desde pequena ela me temia, mas nunca tentou fugir. Por quê? Ela sempre ficava na janela de seu quarto vendo a lua iluminando o céu negro das muitas noites sem estrelas e eu sempre a observava do telhado fazendo suas orações pedindo proteção e o mais estranho de tudo é que ela agradecia por ter encontrado uma pessoa como eu. O que ela estava querendo dizer? Eu sempre a machuquei e isso estava a fazendo feliz? Em pensar que a torturava até agora a pouco, disse coisas horríveis e critiquei sua fidelidade a mim, e o pior...
–Eu quase a matei.
–Morreria por você, meu senhor.
–Chame-me de Ryan, não sou mais o seu senhor. Você está livre.
–Não faz diferença alguma se estou livre ou não. Eu o amo.
Paro de andar e a puxo contra meu peito a olhando em seus olhos castanhos procurando entender o que aquilo significava. Ela me fitou assustada com a minha reação.
–Sabe que ama um maldito desgraçado que lhe torturou desde que chegou aqui?
–Sim – ela corou desviando o olhar – Mas eu não procuro a perfeição em você Ryan, o que realmente importa no amor são os defeitos.
Deitei no gramado olhando as raras estrelas que começavam a surgir sobre o céu onde as cores dançavam se misturando entre o vermelho, alaranjado, o amarelo e o cor-de-rosa, podia ver algumas faixas azuladas riscarem entre essas cores quentes que formavam o céu do Inferno, era bonito, algo raríssimo. Eu não conhecia completamente aquele lugar onde os pecadores são punidos eternamente, mas talvez aquela floresta fosse a única parte ali a ter belas paisagens que me deixavam... Em paz. Ou fosse apenas o cansaço e a sede que me obrigaram a descansar.
–Se me ama, porque nunca se deitou comigo?
Ela se deitou ao meu lado olhando as estrelas procurando as palavras certas para responder aquela pergunta.
–Eu não estava pronta.
–E agora... – apoiei-me sobre os braços a olhado melhor esperando uma reação positiva – Você está?
–Amor não é apenas sexo Ryan, se me permite expressão minha opinião, não me admira que não entenda isso.
–Aonde quer chegar?
–Bem... – fez uma pausa – Eu sou uma humana que foi criada entre o conforto e a proteção de meus pais, a preocupação deles e o afeto que eles tinham por mim, é um laço amoroso, mas não é igual ao que eu sinto por você.
Permaneci calado enquanto ouvia suas explicações. É claro que aquilo era confuso, porém eu tinha certeza que algum dia iria entendê-la.
–Você é um príncipe do Submundo, criado entre milhares de mortes e de muitas guerras onde até seus próprios pais lhe incentivaram a brigar contra seus irmãos, mas por alguma razão seu coração amoleceu, está mais preocupado com seus companheiros, por quê?
–Não sei dizer, só estou deixando as coisas acontecerem naturalmente.
Realmente eu não sabia o que dizer, pois não sabia o que havia me tornado mais sentimental. O que estava acontecendo?
Ela se sentou ao meu lado abaixando lentamente as alças do vestido e segurando seu cabelo deixando a mostra seu pescoço, emanando um delicioso aroma que me impulsionou a derrubá-la na grama por cima dela fitando seu temor o qual me deu forças para controlar a sede.
–Beba – ofereceu-a o seu sangue.
–Prometi que não a machucaria, eu posso sobreviver a isto.
Minhas mãos passaram por trás de seu corpo de encontro o fecho do seu vestido o retirando com cuidado até que ela estava completamente nua. Belas curvas emolduravam seu corpo jovem e prazeroso. Via o desejo em seu olhar um pouco tímido sentindo suas mãos deslizarem suavemente pelo meu peitoral. Aproximo nossos lábios selado um beijo incessante e caloroso enquanto retirava minhas vestes e massageava seus seios lhe provocando arrepios. Em seguida beijava seu pescoço e meus lábios iam de encontro a sua barriga fazendo-a se contorcer de prazer e a se excitar. Encaixava-me nela de modo que não a machucasse e devagar me movimentava fazendo-a gemer aproveitando aquele momento íntimo. Eu queria deixá-la à vontade para fazer aquilo comigo e não me ver como um torturador mais tarde, e por isso estava dando o máximo de mim para dar a ela uma noite inesquecível. Ela me abraçava fortemente arranhando minhas costas o que me provocava mais. Novamente a beijo sentindo sua língua brincar com a minha e finalizando com seus gemidos altos sentindo seu orgasmo. Nossos corpos suados e ofegantes agora estavam cansados e relaxados sobre o gramado.
A madrugada se aproximou rápido e Luna estava em um sono profundo deitada em cima de mim. Resolvi dar um passeio pela floresta até que o sol nascesse, além do mais a noite estava ótima para isso.
Em meio às altas árvores que dançavam conforme o vento soprava, porém ele trouxe consigo um canto, uma voz feminina e atraente me seduzindo com aquela melodia suave. Senti-me enfeitiçado por aquela voz e decidi segui-la e fui levado para um rio o qual suas águas brilhavam incandescentemente, no entanto não havia ninguém e pensei em ir embora quando ouço as águas se movimentarem e viro-me para encarar qualquer tipo de ataque e me deparo com uma bela morena de olhos aparentemente semelhantes à cor das águas daquele rio, tinha longos cabelos escuros e reparei que estava nua.
–Olá Ryan, finalmente pude conhecê-lo – dizia ela me olhando provocantemente – E que encontro mais... Excitante, percebo que é bem dotado. Adoro homens “grandinhos”.
–Quem é você? E como sabe meu nome?
–Sou Vianna e você tem uma grande fama em meu reino, mas eu o que acha de entrar aqui e me dar um pouco de felicidade?
–Reino é?
Aproximava-me dela e logo notei que ela possuía uma cauda de peixe que estava tentando escondê-la de mim. Era um monstro marinho, conhecido como sereia. Maldição!
Dei meia volta e corri pelo outro lado da floresta o mais rápido que eu pude, porém minha velocidade se igualava a de um humano qualquer. Um grande redemoinho de água se formou em minha frente sendo controlado pela sereia que agora tinha pernas no lugar de sua cauda.
–Aonde vai meu amor?
Ela sorriu e gritou tão alto e agudo que me fez tapar os ouvidos que pareciam que iriam explodir, mas não foi o suficiente para que eles não sangrassem.
–RYAN – ouvi a voz de Luna me chamando.
–FIQUE LONGE LUNA – gritei o mais alto que pude para que ela pudesse ouvir meu aviso entre os gritos da sereia que viu Luna um pouco atrás de onde ela estava sorrindo mostrando seus dentes pontudos e afiados. A sereia fez um movimento de mãos e o redemoinho se transformou em lanças cristalinas e foram jogadas contra Luna que tenta fugir para a floresta. Em alguns minutos de silêncio e muita tensão sinto o cheiro provocante de seu sangue e meu ódio tomou conta de mim e aquela fúria obscura que eu havia sentido antes ressurge. Sinto meus olhos sangrarem, mas minha visão se tornava mais nítida, enquanto minha língua se bifurcava e meus músculos cresciam me trazendo uma insuportável dor que me fazia gritar como um monstro infernal. Era um poder esmagador que parecia estar ligado ao meu ódio e cada vez mais se apoderava de mim. Um corte, uma fina reta se abria em minha testa e depois outra se cortava na horizontal da mesma. Era uma cruz invertida, um símbolo poderoso o qual não fazia ideia de como surgiu em mim. Aquilo me surpreendeu, porém a terrível dor que eu estava sentindo se aliviou em segundos e só agora observei detalhadamente o fogo negro que me rodeava.
Os olhos assustados da sereia me encaravam enquanto eu sorria como um demônio me divertindo com o cheiro do seu temor.
Minha pele estava totalmente pálida, mais do que o normal. Minhas unhas agora eram garras afiadas e negras. Podia sentir uma pressão esmagadora fluindo de mim.
Meu sorriso se transformou em uma risada maléfica, porém logo se perdeu e torno a encará-la.
–Vamos brincar – percebi a confiança sombria que meu tom de voz emanou neste momento.
Eu já não me reconhecia como um guerreiro. Aquele corpo pertencia a um monstro. Eu era aquele monstro, mas de alguma maneira aquela transformação me deixava confiante e eu gostava daquilo. O poder. A aparência. A reação das pessoas que me veriam daquele jeito. A diversão que eu teria ao ver meus inimigos despencados aos meus pés.
Notei seus olhos ficarem completamente brancos e seus cabelos se transformaram em água. Uma armadura de prata surge da água e envolve seu corpo nu juntamente com uma espada decorada com algas e corais, algo típico de um monstro marinho. Logo o redemoinho se desmancha e um tsunami nos circula em forma de uma imensa e grande muralha impedindo minha fuga. Em segundos ela desapareceu, mas consegui prever seus movimentos a tempo de desviar de sua lâmina que tinha a intenção de me dividir ao meio. Ela faz uma pausa para rir.
–Que interessante! – alegrou-se ela – Previu meus movimentos...
Estendi o braço para o lado da floresta em que estávamos, e como um imã minha espada se encaixou perfeitamente em minha mão. Uma força poderosa queria explodir daquela espada, parecia ter vida própria e desejava lutar. Isso era muito estranho, pois nunca aconteceu antes. Quando eu a olhei, vi que seu diamante tinha se tornado um sólido negro e seus detalhes de prata haviam se transformado em uma espécie de metal vermelho. Iria exigir muitas respostas para Otávio depois desta luta.
–Quem brinca com espadas sempre acaba se machucando – provocou ela.
Minha velocidade havia aumentado de forma descomunal, e antes mesmo que eu percebesse, minha espada estava sendo girada em sua barriga. Ela soltou uma gargalhada escandalosa e retirou a espada de seu corpo o qual não saía uma gota de sangue, e a jogou para longe de nós desferindo um golpe com sua espada acertando meus braços, paralisando-os. Em seguida atirou uma grande esfera de gelo explosivo que ao me atingir me lançou para dentro da muralha que congelou as paredes do lado de fora para que eu não pudesse fugir. A água entrava em minha boca como se estivesse viva e ainda estava paralisado para me defender. Aquela sereia estava sugando minha pressão espiritual rapidamente e com isso estava ficando mais forte. Fechei meus olhos para pensar em alguma maneira de escapar, porém a escuridão fria e angustiante me tomou o controle e vejo apenas um espelho o qual eu me aproximo. Vejo um monstro, de olhos completamente negros e pele assustadoramente pálida. Era apenas o meu reflexo. O que eu sou?
–Você sou eu, e eu sou você – respondeu o reflexo ao meu pensamento.
–Se você sou eu, então... O que sou?
Reparei naquele reflexo buscado entender o que havia acontecido comigo, e o motivo de eu estar naquele lugar com aqueles poderes obscuros.
–Como você disse: eu sou um deus, porém deve tomar consciência de que nada é o que parece ser... Lembre-se disso.
Após seu sorriso perturbador tudo voltou ao normal, eu ainda estava naquela muralha, mas desta vez sabia o que fazer. Procurei chamar a espada como eu chamava minhas serpentes e estico a mão para o lugar aonde ela foi lançada. Tão radiante estava ela quando veio de encontro á palma de minha mão em um movimento sensual e poderoso que emanava poder o qual se libertou e provocou uma grande explosão destruindo aquela muralha como se estivesse chovendo. Meu olhar foi de encontro ao dela que tentou esconder o espanto.
–Minha vez.
Confiante de minha palavra, minha velocidade impressionante a paralisa de espanto e com isso, torna-se um alvo fácil quando minha espada retalhou seu braço direito, em seguida rasgando-lhe o ombro em uma terrível e profunda ferida lhe causando dores ardentes e gritos agonizantes. Logo tudo se silenciou quando sua cabeça rolava no chão, separada de seu corpo, manchando o gramado com sangue roxo.
Eu me diverti ao ver seu corpo destroçado no chão, até o momento em que fortes dores me atingiram derrubando-me de joelhos ao chão. Senti meus músculos diminuírem e minha visão queimar me cegando. Aquela transformação estava se desfazendo custando-me minhas forças. Não contive os gritos até que fui interrompido por uma forte náusea me obrigando a regurgitar sangue, muito sangue. Por fim, levanto meus olhos para Luna. Minha visão totalmente embaçada conseguiu definir a silhueta da jovem vindo em minha direção me ajudando a levantar.
–Ryan, você está bem?
–Como você está? Sinto o cheiro do seu sangue.
–Eu estou bem, é apenas um arranhão.
Ao recuperar minha visão aos poucos, observo o que sobrou da floresta. Fico impressionado com tamanha destruição do local.
“Que poder era aquele?” – penso notando grandes queimaduras em minhas mãos percebendo que estas faziam os contornos dos detalhes do cabo da espada de diamante que, por falar estava como antes.
Voltamos para a margem do rio onde avistamos Kattarine e Otávio, ambos nus, se beijando como se nada tivesse acontecido. Parece que a sereia havia lançado uma barreira para que o barulho não chamasse a atenção de outras criaturas para o local.
–Otávio – ainda podia sentir o sangue em minha boca.
Eles se afastaram assustados procurando se explicarem gaguejando e se enrolando com as palavras.
–Esquece isso, vamos embora. Aqui não é seguro.
Respirei fundo e cavalguei entre a floresta procurando a serpente que havia me comunicado, e em um galho lá estava ela. Exigiria respostas.
–Ei serpente, que lugar é este?
–É um dos portais para o Reino Marinho, meu senhor.
–Droga. Você sabe o que houve agora a pouco?
–Não, meu senhor. O que houve?
Luna pareceu confusa a me ver conversar com uma serpente. Fazia sentido. Apenas domadores conseguem falar com seus subordinados.
O dia estava quente, abafado, cansativo. O sol ardente se misturava com o vermelho do céu do Inferno com o solo de terras vermelhas e rachadas o que nos deixava totalmente desconfortáveis e sedentos, mas apesar disso, todos estavam quietos. Uma dúvida se formou em minha mente.
–Como ficou preso no calabouço da Luz?
–Bem... Isso é algo que você irá descobrir muito em breve, Ryan.
Uma pergunta idiota para uma resposta mais idiota ainda. Mereci isso.
Finalmente podíamos ver a última cidade, cheia de ceifadores de almas. Conhecida como Colletora, e aqueles eram os soldados de Hades. O que me deixou intrigado foi vê-los com Dolls acorrentados, como se fossem seus animais de estimação. Essas coisas nos atacaram e agora podemos vê-los como cãezinhos dos ceifadores.
Caminhamos pela rua principal onde todos nos encaravam. Cobri a espada com meu sobretudo e coloquei meu capuz. Pude sentir o medo de Luna ao me abraçar forte.
Muitos ceifadores ainda eram almas humanas, almas selecionadas entre os condenados. Almas fortes que eram muito úteis para Hades. Suas foices eram carregadas de energia negativa presas com correntes prateadas — conhecidas como correntes do destino — presas ao pulso e por dentro de seu braço se ligavam ao seu coração, mas os ceifadores espirituais, cujo aqueles que já não eram mais almas humanas tinham suas correntes quebradas, e eram apenas espíritos negros, servos eternamente de Hades.
–Onde pensam que vão? – um ceifador se manifestou parando em nossa frente impedindo que prosseguíssemos posicionando sua foice sob meu pescoço. Ele não passava de uma alma humana ridícula querendo a atenção de todos para si.
–Dê-me passagem, inseto. Você é apenas um humano e não lhe devo satisfações.
Ele ousou a me cortar, mas o medo tomou-lhe o controle quando o olhei com olhos reptilianos. Fiz sua corrente se desintegrar e ele gritou de dor como se aquilo o consumisse mil vezes mais severamente o transformando em... Um monstro. Todo o seu sangue se lançou de seu corpo explodindo pelo chão. Minha sede aumentou ao ver todos aqueles cinco ou seis litros de sangue espalhados por toda a sua volta. A cor vermelha de seu sangue me seduzia, parecia me chamar pelo nome. Tão convidativo que meus caninos surgiram automaticamente.
–Mate a todos! –sussurrou a voz dos meus pensamentos.
Eu me vi enfeitiçado pelo sangue no chão e ignorei o desespero daquele ceifador que havia se transformado de uma alma humana para um espírito demoníaco. Desmonto do cavalo para enfrentá-lo, mas sou surpreendido por um Doll — liberto pelo seu dono — que corre furiosamente em minha direção sedenta do meu corpo. Pego a espada no exato momento em que aquela criatura salta e perfuro seu estômago sentindo seu sangue podre escorrer pela espada. Um rugido monstruosamente demoníaco soou do recém-transformado assustando o corcel fazendo-o empinar e Luna se segurou firme para não cair.
–Se afaste! – assim que ordenei, outros ceifadores se aproximaram com foices de diferentes formas e tamanhos. Os Dolls também não ficaram de fora.
Os olhos de fogo do recém-transformado me encaravam com um ódio devorador. Eu estava pronto para a luta e no instante em que posicionei a espada de diamante em um movimento ofensivo, um fogo negro e carregado de magia negra e de uma energia espiritual avassaladora emerge do chão como névoa transformando-se em um grande tornado causando ventos fortes e poderosos capazes de levarem todos para dentro do tonado. No começo eu pensei ser um fenômeno maligno natural, ou apenas o poder de alguém, mas logo vejo o tornado se dissipar e revela a imagem divina de um homem de longos cabelos brancos trajado com roupas burguesas de cores vermelhas e pretas carregado de muito ouro. A energia que ele emanava era perigosa e sufocantemente pesada. Todos eram obrigados a se deitar sobre tal poder espiritual, até mesmo eu estava no chão próximo a ele. Com algum esforço consegui ver melhor sua feição: ele possuía olhos de tonalidade violeta como os meus, e dono de uma aparência assustadoramente parecida como a minha. Era jovem e poderoso. Olhava-me sem expressão.
–Que diabo é você, moleque? — perguntou ele.
–DEIXE-O EM PAZ! – gritou Kattarine se esforçando para encará-lo sem sucesso.
O homem a encarou pelo canto dos olhos, mas antes que pudesse fazer qualquer ação violenta contra ela, peguei minha espada com as duas mãos me apoiando sobre ela para me levantar ainda sobre a pesada pressão espiritual esmagadora dele. Pude notar o espanto nos olhos dos ceifadores e principalmente no olhar daquele ser.
–Onde arrumou este brinquedo? – perguntou ele sem disfarçar a surpresa em sua voz.
–M-mestre – chamou a reconhecível voz de Otávio – Por favor, pare!
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