Eu estava parado, olhando para a sala. Ela estava suja de sangue, fedia a podre. Fui em direção a porta, mas ela estava trancada. Bati na porta, tentando arrombá-la, mas foi em vão.
Olhei em volta e vi que, em cima da mesa, tinha um pé-de-cabra. Eu o peguei e voltei à porta, então coloquei o pé-de-cabra entre a maçaneta e o canto da porta e tentei arrombar. Consegui.
Do lado de fora da sala, um corredor longo se entendia para os dois lados da escola. Do lado direito – o lado em que à porta principal da escola estava –, tinha um monte de destroços e cinzas amontoada, impedindo a passagem. Fui então para o lado esquerdo. Eu checava todas as portas, mas elas estavam trancadas.
Então eu vi uma porta aberta, entre tantas trancadas. Entrei, era uma sala de aula, apesar das paredes sujas, dava para notar quadros de avisos, enfeites e baboseiras espalhadas por todos os lados.
Entrei na sala e procurei por algo. Não vi nada que me chamasse a atenção. Então ouvi um barulho irritante, parecido com o de uma mão arranhando o quadro-negro. Virei-me rapidamente para o quadro negro e o barulho cessou, mas no quadro havia algo escrito: — 2º andar. Então sai da sala. E procurei por uma escada.

Entrei em uma espécie de salão, na parede, do lado da porta, uma planta da escola. Eu o visualizei e memorizei. Eu já sabia onde achar uma escada, e estava perto.

Subi as escadas apressadamente. Cheguei ao segundo andar e algo me surpreendeu de tal forma que falei um palavrão alto:
— Caralho!
O lado direito da escola estava ao ar livre, como se uma explosão – ou um grande incêndio – tivesse tomado conta daquela parte da escola. Como eu ao havia reparado isso quando vi a escola lá fora? Então ouvi gargalhadas vindo de um dos corredores – por sorte, do outro lado de onde estava o buraco no teto da escola.
Corri em direção a gargalhadas e vi um machado caído no chão. Lembrei-me que no meio da confusão lá atrás, eu perdera o ferro que usava de arma.
— Merda! – o ferro não foi à única coisa que eu perdi. A pedra verde da chave estava no bolso do casaco que eu deixara para trás.
Virei-me para voltar lá e pegar a pedra – ela me parecia importante. Mas uma grade desceu do teto do corredor e me impediu de passar. A grade era velha, cheia de ferrugem, cheirava a sangue. Tinha também várias lâminas pontudas saindo dela.
Então as gargalhadas ficaram fortes – não era mais somente uma gargalhada, eram varias vozes. Olhei na direção contraria a grade que descera – onde o corredor ainda me permitia acesso – e comecei a andar, segurando o machado preparado para golpear qualquer coisa.
Então vi vultos pequenos correrem em minha direção. Segurei o machado mais forte e levantei-o, para golpeá-los seja lá quem – ou o que – fossem. Então eu os vi e minhas pernas começaram a tremer como vara verde.
Não eram humanos, tinham o corpo grotesco, cinza, brasas saindo por todas as partes. Mediam a altura de uma criança de sete anos e as mãos eram grandes, e pegavam fogo. Os olhos vermelhos olhavam para mim e eu me assustei mais ainda, agora meus braços também tremiam.
Eles eram muitos, chegavam cada vez mais. Não adiantava matá-los. Eles morriam, se transformando em somente pó, mas cada vez mais surgiam. Eu gritava, enquanto golpeava cada um deles.

Eles encostavam-se a mim, queimando meus braços a mostra e sujando minha camiseta, deixando-a cinza. Vi uma porta se abrir, então corri até ela, para fugir desses malditos.
Entrei na sala de aula, fechando a porta e impedindo a passagem deles. Olhei em volta e vi onde estava. Era uma sala pequena, as carteiras amontoadas em um canto, do lado do quadro negro. No centro da sala, um grande círculo desenhado a giz de cera vermelho. Dentro desse circulo havia mais círculos, e mais alguns desenhos estranhos.
Andei para mais perto do circulo e ouvi um barulho. Ele vinha de outra porta, ao fundo da sala, segurei o machado mais forte e fui em direção a porta, preparado para lutar. Coloquei a mão na maçaneta e respirei fundo para abri-la.
Então abri a porta – era como um mini-armário, onde os alunos deviam guardar alguns objetos. Mas dentro dele não havia objetos, mas sim um homem.
O homem era alto, os cabelos louros caiam no pescoço. O rosto com traços finos, sem barba, parecia ser muito jovem. Era forte, musculoso, mostrava-se exausto e amedrontado.

Usava uma jaqueta jeans preta, uma calça comum e

uma camisa de uma banda punk.
— Quem é você? – perguntamos uns aos outros, ao mesmo tempo.
— Eu sou Alex Nashville. – eu respondi primeiro, então segurei o machado de uma forma, para tentar intimidá-lo – E você?
Ele então tirou um revolver de trás do cinto e sorriu. Andou pela sala e depois de olhar por todos os cantos da sala se virou para mim.
— Eu não me lembro do meu nome! – ele disse – Eu seguia uma garota, ela me fez sofrer um acidente...
— Garota? – eu tentava entender, mas não conseguia.
— Eu acho que era minha namorada. – ele disse sorrindo – Ela é linda.
— Mas o que você faz aqui? – perguntei, mesmo tendo a impressão de que eu saberia a resposta.
— A única coisa que se pode fazer aqui é lutar pra viver. – ele disse, sentando-se no chão – Não há saída.
Ficamos um tempo calado, mas ele quebrou o silencio.
-Ah não! – ele disse, ajeitando a jaqueta jeans – O poder do circulo está quase acabando...

- O que você quer dizer com isso? – eu me levantei do chão.
— Prepare-se para lutar. – ele disse – Pelo barulho lá fora são os Grey Children. O gordão desgraçado deve está com eles.
— Mas que droga! – eu disse – Que gordão? Eu não estou entendendo porra nenhuma.
— Mas não é pra entender... – ele disse, mirando com a arma em direção a porta que eu entrei – É pra lutar pra viver, só isso.
Então a porta caiu no chão, ele deu alguns tiros. Eu coloquei a mão no ouvido, deixando o machado cair.
— Você é uma mariquinha? – ele disse – Eu não tenho munição pra todos eles, e eles não vão parar de aparecer. Foge logo, porra!
Então peguei o machado e corri em direção aos monstrinhos, eu os golpeava com o machado, enquanto o cara loiro usava uma das cadeiras para abrir caminho. Saímos da sala e olhamos para o lado – de onde a grade descera antes – e um homem gordo, sem cabeça andava. Ele era gordo, alto demais, o corpo queimado, deixando a carne à mostra. Não, eu me enganara, ele tinha uma cabeça, mas não em cima do pescoço – onde é o normal – mas enfiada na barriga, onde escorria banha e sangue sem parar.
Senti enjôo, vontade de vomitar sem parar. Mas o cara loiro me segurou pelo braço e me puxou.
— Por aqui! – ele disse, levando-me para o outro lado.
Corríamos pelos corredores da escola, ele me puxava pelo braço. Eu não sabia o que fazer, apenas empurrava os monstros que ele chamou de Grey Children com a mão, queimando-a.
Então ele entrou em outra sala. Não era uma sala de aula, mas uma sala de vídeos. A televisão estava desligada. A primeira coisa que me veio à cabeça foi a voz dizendo – “Aprenda! Veja!”.
Andei em direção a televisão, desviando-me das carteiras jogadas no chão, ele me olhava curioso, meio espantado, com um sorriso bobo na cara. Então bati com o machado no visor ta TV, fazendo-a partir em pedaços.
— O que você ta fazendo? – ele me perguntou.
— Olhe! – eu disse, apontando para algo verde brilhando dentro do aparelho.

Então a porta foi aberta, mas não por aqueles pequenos seres, mas por um diferente. Era o monstro gordo, vi que a cabeça que estava na barriga daquele ser era a cabeça do diretor da escola da visão – supus que o monstro fosse o diretor. Segurei o machado firmemente, esquecendo-me por uns momentos da chave que eu encontrei.
O monstro correu em nossa direção, os tiros que o cara loiro deu não serviram de nada – somente deixou o monstro mais nervoso. Em um único golpe ele arremessou o homem longe – em direção a porta, fechando-a.
Depois foi a minha vez de levar um golpe. Antes de poder acertá-lo com o machado ele me socou e me jogou a três metros de altura. Bati no teto e cai no chão, batendo com o dedão e o dedo indicador da mão esquerda no chão, quebrando-os. Gritei de dor.
Então ele me chutou, voei em direção a porta e parei ao lado do meu mais novo companheiro. Tentei me levantar, mas minha barriga doía muito. Então o monstro gordo veio na nossa direção.
Levantei-me rapidamente e joguei o machado em sua direção. O machado fincou no ombro dele. Ele parou, pegou o machado e o jogou no chão, a cabeça daquele maldito se mostrava alegre, sorridente – um sorriso maligno.
— Tamo fudido! – o cara disse, levantando-se do chão e indo abrir a porta – O jeito é correr brow.
— Beleza! – concordei.
— Porra! – ele disse – A merda da porta não quer abrir.

- O q... – antes de eu terminar de falar levei um soco do monstro, que me arremessou para o outro lado da sala, fazendo-me bater em umas carteiras espalhadas e senti algumas costelas quebrarem.
Levantei do chão e vi que nas costas do monstro maldito havia uma ferida aberta, dentro dela estava o cérebro, a mostra. Era a minha chance.
Enquanto o monstro socava o meu parceiro, eu corri e peguei o machado jogado no meio da sala. Então corri em direção ao monstro gordo, mas ele se virou repentinamente e me segurou pelo pescoço, andando até a parede oposta a que estávamos.
Ele me sufocava, enquanto o meu companheiro de inferno se recuperava dos golpes que lhe foram aplicados. Então, com muito esforço, tentei falar.
— Olha o buraco nas costas... – falei, quase perdendo a voz. E por sorte ele me escutou.
Ele pegou a arma que deixara cair no chão e mirou nas costas do monstro e, antes de eu desmaiar, ouvi o tiro mortal.
Vi o gordo cair no chão, duro como rocha. Morto, e junto com a vida daquele desgraçado, a sujeira e ferrugem que envolvia as paredes da escola desapareceram. Então a sala de aula pareceu voltar ao normal. A sala estava bem pintada, o piso no chão não estava quebrado, não havia nenhuma ferrugem ou sangue no lugar – mas ela ainda estava abandonada.

Então fui rapidamente em direção a televisão, enquanto isso o cara tentava abrir a porta. Peguei a chave dentro da TV e olhei para ele.
— Ainda está trancada! – ele disse – Porra!
— Eu sei como abrir. – eu disse, jogando a chave no chão e quebrando-a, deixando somente a pedra intacta. Peguei a pedra e guardei no bolso da calça – desta vez.
Então a porta se abriu sozinha. Ele então saiu rapidamente, fazendo um sinal de boa sorte e até mais para mim.
— Hei, aonde você vai? – perguntei, mas ele já desaparecera de vista – Filho da puta! – exclamei.
Sai andando, vagarosamente, meu corpo doía muito, muitos ossos haviam sido quebrados – os dos dedos da mão, umas duas costelas e possivelmente algum osso no pé, pois doía muito.
Desci as escadas da escola e sai rapidamente, pela porta da frente, que agora se encontrava aberta. Olhei para o chão, tinha que encontrar a outra pedra que eu havia perdido ao fugir daquelas criaturas, mas não a encontrei. Encontrei somente um monte de cinzas – provavelmente do meu casaco – com uma marca de mão. Ouvi um sussurro baixo e quase inaudível.

Andei um pouco pelas ruas, escorado na parede, eu estava exausto. Xingava o cara da escola por todos os nomes possíveis, como ele pode ter me abandonado aqui. Eu estava começando a confiar nele.
Eu atravessei a ponte em que tinha atravessando antes, tentava voltar ao hospital, para tentar achar alguns itens de primeiro socorros e fazer curativos em minhas feridas.
Eu já não sabia mais onde estava, nem para onde iria, mas eu estava seguro, nenhum daqueles monstros apareceu para mim – por enquanto.
As ruas pareciam intermináveis, e eu me sentia morto, quase sem vida. A névoa que cobria toda a cidade atrapalhava minha visão, e me fazia bater o queixo de frio. Então senti uma mão passar pelo meu ombro.
Olhei para trás, assustado e apunhalando o machado. O vulto, antes que eu pudesse segurá-lo, correu para uma rua ao lado, eu tentei segui-lo.
— Merda! – eu gritei – Espera, cacete!
O vulto soltou uma gargalhada inocente, mas assustadora. Eu tentei acompanhá-lo, mas meu corpo doía muito, então corria, somente para não perdê-lo de vista.
Então o vulto sumira e um pedaço de papel caiu no chão, de uma arvore seca e podre. Peguei o papel e nele tinha os seguintes dizeres: “descanse em paz, e ache a canção”.
Andei mais um pouco pela cidade e encontrei um hotel. Na porta do hotel uma pichação, com os dizeres em vermelho: “descanse”.
— É ali! – eu disse para mim mesmo, entrando no hotel.

Na entrada do hotel um grande hall, segui até o balcão. Do outro lado do balcão, um armário, onde eles provavelmente guardavam as chaves de cada quarto. Pulei o balcão velho de madeira e segui até esse armário. A maioria deles estavam abertos e vazios, somente três estavam fechados.
Peguei um machado e dei uma pancada em cada portinha fechada, para abrir. No primeiro, uma lanterna com os dizeres: “luz”. Na segunda um revolver, com uma caixa cheia de balas – dava para assaltar um banco e matar todas as pessoas sem problema nenhum. Não havia nada escrito. Na terceira duas chaves com os dizeres: “vizinhos inimigos, e o numero da besta no terceiro andar”.