Pássaros
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Pássaros
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Escrito por Amanur e Noel Blue
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Capítulo 18
Aquele bilhete ficou preso no porta-retrato, cobrindo o rosto do seu marido. Sakura ficou três dias deitada, encarando aquelas palavras, sem saber o que pensar sobre aquilo. Ela se sentia confusa a respeito do que queria fazer dali pra frente. Num estante, ela esperava pela morte, chegando lentamente através do álcool injetado no sangue, ou a nicotina se alastrando pelos pulmões. E de repente, ela queria voltar do fundo do poço para a superfície.
Depois daqueles dias de dúvida, na manhã seguinte ela resolveu algo inesperado. Tomou uma decisão que nem mesmo havia se imaginado fazê-la. Depois de um longo banho para tirar todos aqueles cheiros impregnados na pele — cheiro de tristeza, depressão e amargura — vestiu-se apropriadamente, para tentar reconstruir a amizade de longa data que ela havia simplesmente jogado no lixo. Ela lembrou, finalmente, que não havia nada melhor para momentos como aquele, que consultar suas amigas.
Ela sabia, no entanto, que deveria enfrentar uma enxurrada de perguntas e sermões a respeito do que fizera, mas estava preparada para aquilo, por que sabia que seria por uma boa causa. Sakura, no entanto, só estava com medo de não ser perdoada. Mas, pensando bem, se até mesmo Naruto, a quem mais havia magoado, parecia ainda se importar consigo, porque suas amigas não haveriam de fazer o mesmo?
Com os ânimos renovados, ela pegou sua bolsa e as chaves.
Contudo, ao abrir a porta, se deparou com um senhor parado em sua porta, prestes a apertar sua campainha.
— Oh, me desculpe... A senhora é Sakura Haruno? — ele perguntou.
Ela estreitou os olhos, desconfiada.
— Isso depende de quem o senhor for.
Ele sorriu.
— Poderia fazer a gentileza de me acompanhar até a rua? Há uma pessoa que não pode subir essas escadas lhe aguardando na calçada.
Sem motivo aparente, seu coração acelerou contra o peito, e ela sorriu sem acreditar naquilo.
Mas sem dizer nada, ela acatou com aquela ordem, e seguiu aquele senhor bem vestido escada abaixo, até a rua.
Ao lado de um sedã prata, Sasuke a aguardava sentado em uma cadeira de rodas eletrônica, e ela abriu o sorriso.
— Eu ia atender o telefone...Você não precisava ter vindo aqui. — ela disse.
— E é assim que você recebe alguém que não vê há algum tempo? Não recebo nem um beijo no rosto? — ele comentou, sarcástico.
Ela revirou os olhos, mas se aproximou dele para beijá-lo no rosto. Sasuke sorriu triunfante, satisfeito com aquela primeira aproximação. Entretanto, lhe preocupava vê-la naquele estado. Mais magra do que nunca e com olheiras profundas, apesar do doce perfume que seu cabelo recém lavado exalava.
Ela desviou o olhar, se sentindo meio constrangida com os olhares analíticos dele e, percebendo, ele pigarreou.
— Bom, o plano é o seguinte. Você vai almoçar comigo, e vamos discutir as condições, ok?
Ainda sem saber o que pensar sobre aquilo, ela mordiscou o lábio, mas concordou com os termos dele. E, em seguida, foi convidada a entrar no carro, depois de colocarem Sasuke de volta ao banco traseiro. Sakura se assustou, no entanto, ao ver uma mulher bem vestida no banco da frente, ao lado do motorista. Uma loura robusta e séria, que nem olhou para trás. Ela estava toda vestida de branco, em trajes levemente sociais. Sasuke também não se deu ao trabalho de explicar quem ela era, e deixaram as coisas assim. Então, seguiram por um bom caminho em silencio; ela constrangida com aquela situação, e ele nervoso por estar ali, ao lado dela.
Os quatro desceram num estacionamento enorme. A loura auxiliou o senhor a colocar Sasuke na cadeira... Ou talvez tivesse sido o contrario. Seja como fosse, Sakura se dispersou um pouco, olhando em volta porque ele simplesmente a levou num dos restaurantes mais bem freqüentados da cidade.
O local estava razoavelmente cheio, e sentaram-se numa mesa quadrada aos fundos — Sakura bem de frente para Sasuke, e os outros dois nas laterais. Em seguida, um garçom chegou com os cardápios, deixando Sakura impressionada com os preços exorbitantes que cobravam na tabela. Mas não apenas por isso, mas porque não sentia apetite, ela pediu o que tinha de mais barato.
— Vou ficar apenas com a salada Kani. — que vinha numa pequena porção, numa taça, com agrião, acelga, alface, cenoura e um molho especial de limão com creme de leite.
Sasuke a olhou em desaprovação, e encarou o garçom que anotava o pedido.
— Ela vai querer também um Boeuf Bourguignon para acompanhar o capim... — ele resmungou. Esse era um prato regrado de carne vermelha, e bastante proteína.
— Sasuke, eu sou vegetariana...
— Ah... — desanimado, ele não insistiu mais, e fez o seu pedido, porque ele também não queria constrangê-la.
Assim que o rapaz se foi com as anotações, mais um momento de silêncio constrangedor sucedeu. E Jiraya observava tudo aquilo com um sorriso percebendo de cara que os dois se estimavam mais do que diziam, enquanto a outra mulher, sem dizer um único piu, apenas olhava a sua volta completamente distraída.
Os dois ficaram em um silêncio constrangedor, e não se olhavam nos olhos também. Tsunade e Jiraya estavam sentados em outra mesa, só iriam se aproximar quando a refeição chegasse, para a enfermeira o ajudar a comer.
De repente, Sakura levantou o olhar e o fixou em Sasuke. Ela analisou o homem, percebendo que tinha um novo corte de cabelo, agora mais curto. Além disso, sua pele clara parecia mais macia, recém-barbeada. Ele tinha o olhar perdido no trânsito que se via pela janela nas laterais do restaurante, pensando em como começar aquela conversa. Ela suspirou, chamando atenção do Sasuke que forçou um sorriso.
— Eu estava pensando em deixar essa conversa para depois da refeição, mas acho que estou entediando você... — ele comentou. E não parecia aborrecido ou chateado; pelo contrario, parecia se divertir às custas dela.
— Por mim tanto faz...
— Não pude deixar de reparar como você está bem vestida, o que me leva a crer que ou estava de saída, ou sua bola de cristal lhe avisou para me esperar...?
— A não ser que esteja me chamando de bruxa, e então eu teria de lhe repreender por tal insinuação, sinto em lhe informar que eu tenho, sim, mais o que fazer...
— Não, você é bonita demais para ser uma bruxa. Teria que ser uma fada, ou uma sereia encantada...
Sakura o repreendeu com o olhar, constrangida com a falta de vergonha na cara por estar jogando uma cantada em cima dela na frente daquelas duas pessoas estranhas — que talvez não fossem para ele, mas para ela, certamente, eram. Mas Sasuke apenas deu de ombros, com aquele sorriso atrevido torto.
— Eles não estão ouvindo... — resmungou.
Desconfiada, ela olhou de canto para os dois que, pelo contrário, eram todos ouvidos a eles. Mas ao olhar dela, rapidamente desviaram o olhar — o que a deixou ainda mais nervosa...
— À propósito, espero que você não tenha jogado fora aquele vestido... A festa de aniversário será no fim de semana que vem.
— Continua empacotado no armário.
— Ótimo.
O garçom voltou com um carrinho, trazendo os pedidos em bandejas prateadas e louças de porcelana.
Sakura se segurou para não sair correndo dali, porque além de intimidante, aquilo tudo não parecia combinar com seu jeito simples de ser.
Sasuke percebeu que ela parecia pouco à vontade, mas não comentou nada. Todos comeram sua refeição em silencio ao som de um piano suave que tocava nas caixas de som espalhadas pelo recinto.
Quando voltaram para retirar os pratos vazios, Jiraya convidou a mulher a acompanhá-lo até o bar para um café preto, mas isso era apenas um pretexto que ele arrumou para deixar os dois discutir sobre negócios as sós.
— Ok, então vamos direto ao ponto... — Sasuke começou — Na verdade eu a trouxe aqui por que quero cobrar a promessa que você me fez, lembra? Você disse que não iria desistir de mim. Sei que as coisas fugiram um pouco do seu controle, mas estou lhe devolvendo o que sempre foi seu... E puta merda, como eu gosto do jeito que isso soa. — ele sorriu novamente, cheio de atrevimento, fazendo com que ela revirasse os olhos para aquela insinuação.
— Nunca trabalhei com consultas a domicilio, Sasuke. Não sei bem como isso funciona.
— Para tudo há uma primeira vez, não é mesmo? Eu quero tratamento intensivo. Quero poder recuperar meus movimentos o mais rápido possível. E estou falando de exercícios vinte e quatro horas por dia, se possível.
— Não é possível. — ela o cortou — Seu corpo precisa de descanso...
— Então faremos isso se tornar possível! — ele sabia do que ela estava falando; era ela quem não estava compreendendo as intenções dele — Você tem duas opções: ficar num dos quartos que mandei arrumar para que você passe uma temporada lá, enquanto estivermos trabalhando, ou dar carta branca para que o Jiraya vá lhe buscar e trazer na hora em que eu estipular os exercícios. Você contará com o auxilio da Tsunade, aquela peituda loira sentada ao nosso lado. Ela é uma enfermeira muito capacitada, e tem cuidado muito bem de mim.
Ela não gostou da maneira como ele enfatizou aquele “muito bem”, mas resolveu ignorar o que ele poderia querer insinuar com aquilo também. Nada parecia muito favorável a ela, até então.
— Eu pagarei dez mil por mês. Serão vinte e três com quatorze por hora. Ficando doze horas por dia comigo, você recebe duzentos e setenta e sete com sessenta e oito pratas... Ficando vinte e quatro horas, o valor dobra. O que me diz?
— Por que eu? — ela perguntou, de repente. Pois, certamente, ele sabia que havia no mundo milhares de fisioterapeutas tão ou até mais capacitados do que ela. E vendo o modo com que ele levava sua vida, tinha certeza de que o dinheiro não era problema. Além disso, não podia acreditar naquela desculpa esfarrapada de que tudo isso se tratasse apenas de uma promessa jogada ao ar que ela fizera num momento de raiva e frustração, quando eles ainda não se davam muito bem.
Ele analisou cada sarda que ela tinha naquele rosto perfeito, decorou cada curva do rosto dela, enquanto pensava numa boa resposta a dar.
— Por que talvez você seja a única nesse planeta que realmente queira me ver caminhar. — ele falava sério, lembrando da força de vontade que ela colocara em suas palavras, alguns meses anteriores.
— O que te faz ter tanta certeza?
— O fato de que ninguém resiste ao meu charme. — e agora ele deu de ombros, meio zombeteiro.
Ela revirou os olhos, mas continuou a olhá-lo. Ele não sorria mais, querendo mostrar a ela que tinha plena certeza e confiança nas palavras que dizia. Mas aquilo ainda não era suficiente.
— E se eu falhar? Eu não prometi que o colocaria de pé, Sasuke. Eu disse apenas que não desistiria de você.
— Você não vai falhar.
— Mas e se...
— Você não vai falhar. — ele insistiu. Claro que ele tinha aquele trunfo na manga, dado pelo Dr. Kabuto. Mas ele preferiu não contar a ela sobre aquela cirurgia ainda, vendo que ela não sabia de nada até então.
Ela ainda estava receosa, sem saber o que pensar. Sakura não gostava do fato de ele depositar toda a responsabilidade para cima de si, mas pelo menos ela se conformava por ter avisado a ele de que não era capaz de fazer milagres.
Além disso, havia outra questão que a deixava inquieta. Aquele valor que lhe deu já era o dobro do que ela recebia no hospital. Quadruplicá-lo era algo muito tentador, sem dúvidas, ainda mais agora, estando com dividas financeiras com seu apartamento alugado. Mas ela tinha consciência de que deveria fazer aquilo por que gostava dele; e, diabos!, era ridículo negar. Mas ela também não podia deixar seu lado emocional interferir sua profissão.
Olhando para o lado, ela viu a loira peituda no bar, bebendo seu café. Ela encarava os dois, e Sakura se perguntou que tipo de relação eles tinham. Onde ele a conheceu, quem a indicou, ou se havia algo mais entre os dois que não soubesse...
Então, olhou novamente para o homem a sua frente, que a analisava outra vez com aqueles olhos sagazes. Ela queria lhe fazer todas aquelas perguntas, mas acabou amarelando, mudando de assunto.
— Você parece tão bem... Está diferente, Sasuke. — ela resmungou, agora com um meio sorriso nos lábios. Também não sabia dizer se essa mudança era realmente boa ou não. Porque agora, sem aquele elemento que os unia, ela não sabia o que mais poderia mantê-los juntos.
— Deve ser o charme renovado. — ele sorriu mais abertamente — Além do mais, aquelas roupas ridículas do hospital tiravam o meu brilho. É bom poder voltar a ser eu mesmo. — seu sorriso de lado estava de volta, enquanto olhava os olhos verdes dela. E, então, se perguntou se durante esse tempo ela tivera saído com alguém, e franziu o cenho com o pensamento, desmanchando aquele sorriso que ela apreciava. Ele pensou em perguntar diretamente, e até abriu a boca para esboçar a pergunta, mas logo se calou achando que acabaria parecendo intrometido demais nos assuntos particulares dela. Eles já havia partilhado muitas confissões, mas não o suficiente para aquilo.
E ela notou a mudança de humor, mas não comentou nada a respeito.
— Vou preferir continuar onde estou, no meu apartamento. Conforme você progredir, veremos a carga horária. — apenas disse.
— Nada mais justo. Você começa amanhã, pois já perdemos tempo demais.
— Ok.
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