Outlaws Of Love
1 It's My Job
Notas iniciais
Em uma noite chuvosa de novembro, no pequeno hospital da cidade de Ohio, Cassandra passava pela maior provação de sua vida. Tudo que poderia testar-lhe a fé estava acontecendo e se antes ela rezava todas as noites fervorosamente para que sua filha se curasse, nos dias atuais chegava a duvidar da existência de Deus.
– Mamãe? Eu vou morrer, não vou? – A garotinha em seu leito perguntou à sua mãe que estava ao seu lado, segurando-lhe a pequena mão.
– N-não meu amor, papai foi buscar o médico. Você vai ficar boa. – A mulher tentava a todo o custo não se desesperar, mas ela sabia do inevitável assim como a criança.
– Ok... – Katy silenciou olhando para a parede. Em segundos a garotinha começou a sorrir. – Mamãe, meu amigo. Ele voltou. – A menina apontava para a parede vazia.
Sua mãe precisou controlar-se para não chorar. Sempre que Katy piorava, ela via esse tal “amigo” que brilhava em uma luz branca e sempre sorria para ela.
– Como ele se parece querida? – Só ela sabia o quão doloroso era ver que sua filha estava partindo. Por mais horrível que possa parecer ela sentia isso. Ela sabia que a filha realmente estava vendo o ser iluminado que a levaria daquele sofrimento que o câncer havia lhe impingido durante três de seus curtos oito anos de vida.
– Ele é baixinho, seus olhos são dourados e ele tem cachinhos negros. Sua roupa é uma calça e uma camiseta preta com um longo e fino casaco branco por cima. Ele é muito bonito e ele está sorrindo para mim. – A menina soltou uma pequena gargalhada. – Ele disse para eu não chama-lo de baixinho. Ah, Ele não é como nos desenhos mamãe, ele não tem aquele arco redondo e dourado na cabeça e eu não vejo asas por enquanto... – Katy ficou séria por um momento. – E-ele disse... Que veio me buscar.
A mulher a muito custo conseguiu segurar as lágrimas ao olhar pelo pequeno quarto de hospital a procura do tal “amigo” que se atrevia a tentar levar sua filha. Mas então ela se deteve a um detalhe: o desenho que estava na parede atrás da cama da garota enferma. Ali estava desenhado tudo o que ela havia acabado de descrever, e ao lado, com letras infantis estava escrito: “Meu anjo”.
– Não, por favor, não a leve. – A senhora não conseguiu se controlar diante do relato de sua filha e se desesperando, jogando-se sobre a cama abraçando a criança.
– Está tudo bem, não chore. Eu vou ficar bem. Ele disse que vai cuidar de mim mamãe, que um amigo dele estará sempre com a senhora e com o papai. – Katy afagava os cabelos de sua mãe com sua pequena mãozinha. – E agora... E-eu preciso ir. – A criança esticou sua mão. – Ele está esperando que eu pegue a mão dele.
– Não! – Cassandra gritou abaixando a mão da filha.
– Eu te amo mamãe. – Katy sorriu, beijou o topo da cabeça da mãe e fechou os olhos, seguido de um suspiro lento, calmo e profundo demais para alguém que acordaria novamente. Logo o barulho da maquina que a ajudava a respirar fazia aquele típico barulho contínuo indicando que seu coração não batia mais.
Enquanto assistia a cena da mulher debruçada aos prantos sobre o corpo inerte, o anjo com uma luz branca brilhando em volta de todo o seu ser aguardava no pé da cama pacientemente esperando que o espirito de Katy se desligasse por completamente de seu corpo. Não, aquilo não acontecia imediatamente e ele sabia disso. Existia um fio prateado que ligava todos os espíritos encarnados aos seus corpos e ele teria que sumir por completamente até a garotinha estar pronta para ser levada. Poderia levar horas ou até segundos, cada um era diferente, mas o anjo moreno tinha todo o tempo do mundo para esperar.
Mesmo não sendo correto fazer aquilo, o moreno caminhou até a mãe da menina e a abraçou com carinho. Imediatamente a mulher sentiu uma leve brisa em seu rosto e um calor preenchendo o seu peito fazendo-a sentir-se estranhamente acolhida e protegida.
– Eu não sei se você realmente existe, mas se existir... Cuide dela. Por favor. – A mulher sussurrou para o nada.
– Eu irei. – O anjo respondeu, como se Cassandra pudesse ouvir. Beijando-lhe a testa ele se afastou e voltou a sua atenção para o pequeno espirito esbranquiçado descalço que além de já ter se desligado completamente do corpo esperava-o com um grande sorriso ao lado da cama.
– Oi Katy. – O moreno sorriu abrindo os braços enquanto a garotinha se jogava neles abraçando-o apertado.
– Agora você pode me dizer o seu nome? – Katy perguntou com seu jeito infantil. O anjo nunca havia lhe revelado o seu nome, sempre dizia que quando chegasse a hora certa, ela saberia.
– Blaine. Eu me chamo Blaine. – O moreno já se encaminhava para fora do quarto com a menina no colo quando parou.
– Eu não queria ver minha mãe sofrendo. – A menina estava cabisbaixa olhando ora para o seu corpo, ora para a sua mãe. Embora fosse estranho, a garotinha não tinha medo, pois seu amigo já havia explicado a ela tudo aquilo. O que e como aconteceria.
Ela ficou maravilhada ao descobrir que não morreria de verdade, que apenas o seu corpo de carne morreria e o seu espirito iria com o anjo.
– Isso já vai passar querida. Eu irei te levar para um lugar que você vai adorar. Há outras crianças, brinquedos, histórias e um grande jardim. – Blaine resolveu afastar a menina daquela realidade que já não lhe pertencia mais. Quanto mais tempo ela ficasse ali, mais difícil seria dizer adeus.
Enquanto caminhava com a garota no colo pelo corredor do hospital, ele atravessava portas e pessoas calmamente fazendo com que Katy sorrisse. Eram poucos os pacientes que o viam e quando o olhavam sorriam, fazendo com que o moreno retribuísse.
– Eu vou ficar com o Papai do Céu agora? – Katy perguntou pouco tempo depois enquanto via-se flutuando por cima do hospital e maravilhada com a vista, olhava para baixo vendo a cidade de Ohio totalmente iluminada por suas luzes. Mudando seu olhar de local, ela olhou também para a parte de trás das costas do novo amigo onde, belas asas brancas e brilhantes batiam contra o vento graciosamente dando o impulso necessário. De tão extasiada com aquela visão, ela não percebeu estar entrando um pouco nas nuvens e depois estar cada vez mais próxima de um grande buraco colorido no meio do céu como ela mesma descreveria. Aquilo era magnifico.
– Quase isso. Quem fez esse local para onde eu estou te levando, foi Ele. – O moreno caminhava por cima das nuvens e Katy que desceu dos braços dele, tomou-lhe a mão e caminhou ao seu lado.
– E você vai ficar lá comigo, certo? Eu gosto de você. Você é meu amigo. – A garotinha agarrou-se um pouco mais ao braço de Blaine que sorriu.
– Eu não posso meu amor. Eu preciso ajudar as outras pessoas assim como eu ajudei você. – O anjo beijou-lhe os cabelos.
– Esse é o seu trabalho?
O moreno sorriu entrando naquela bela onda giratória colorida, permitindo à Katy dar uma ultima olhada para a terra abaixo de si.
– Esse é o meu trabalho.
OL
Blaine encontrava-se sentado em uma guarita de salva-vidas na praia observando o por do sol. Ele recebia algum “tempo de folga” quando terminava de transportar um espirito da terra para o mundo espiritual.
Não que ele ficasse cansado, mas assim poderia refletir sobre o que tinha acabado de fazer. Ele realmente gostava de ajudar as pessoas, mas nem sempre elas eram calmas e tranquilas como Katy. Algumas praticamente ficavam sem voz de tanto gritar assim que ele aparecia pela primeira vez.
Outras se agarravam ao seu corpo material não querendo deixar a vida, então o moreno era obrigado a pedir ajuda de outros anjos que serviam de enfermeiros apenas nessas horas.
Mas também existiam os outros casos, assim que esses espíritos deixavam o corpo, eram carregados por espíritos escuros e tudo o que Blaine podia fazer era, com lágrimas nos olhos, orar silenciosamente para que aquela pessoa se arrependesse dos erros que cometeu em vida. Só assim o moreno poderia ajuda-la.
Um era diferente do outro e mesmo assim, Blaine lembrava-se de cada espirito que resgatou.
– Você realmente gosta daqui não é? – Uma voz conhecida apareceu ao seu lado.
– Seb... Eu adoro esse lugar. Mesmo que eu não possa sentir de fato o vento batendo no meu rosto ou o calor de um raio de sol, o por do sol visto daqui é lindo. – Blaine se emocionava ao falar. Tudo era diferente na visão dos anjos. Tudo era mais bonito, mais colorido, mais cheio de vida, e se humanos já acham o por do sol bonito, ficariam maravilhados vendo através dos olhos de um anjo.
Sebastian era o seu melhor amigo. Era também o arcanjo responsável por ensinar e preparar anjos a fazerem seus “trabalhos” como, por exemplo, os intermediários da vida terrena para a vida espiritual, como Blaine, mas claro, existiam outras funções.
– Sabe, eu fui comunicado que, apesar de você ser um ótimo intermediário, o seu tempo nessa função terminou. Você foi designado para outra coisa. – A voz do arcanjo era calma como o mar, naquele momento.
– Sério? E o que eu farei então? – O moreno não continha a sua curiosidade. Será que ele conheceria outros lugares? Como ele era intermediário, ele praticamente vivia em hospitais e quando tinha uma folga, era para a praia que ele ia.
– Você foi designado para acompanhar e inspirar sentimentos e pensamentos bons para um garoto que precisa de nossa ajuda. Foi a mãe dele, que já está conosco há algum tempo, que pediu para ser você.
– E por que eu? – Blaine não entendia.
– Eu não sei, ela não me disse. Mas a permissão foi concedida, e no momento certo você irá conhecer o seu protegido. – Sebastian agora se encontrava em pé e seu belo par de asas douradas balançavam com o vento.
– Então eu serei...? – O moreno deixou o resto da pergunta no ar.
– Sim, Blaine. Você será um anjo da guarda.
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