Notas iniciais
Seguindo o conselho de Lara Keller, quando acusada do atentado contra Giane, adianto que só presto declarações na presença do meu advogado. Qualquer coincidência com a vida real é...

Plínio nunca teve hipótese de defender o canhão disparado de pé direito, que passou voando dentro do retângulo metafórico delimitado de improviso por um par de sapatos de grife.

A goleadora soltou um grito auto congratulatório, ao mesmo tempo que era agarrada pelo centro-avante, que rodopiou com ela pelo ar e gerou um protesto sonoro pela parte dos dois times, que não admitiam aquele tipo de confraternização entre adversários antes que Margot fizesse soar o apito final.

Mais de sete contra um fizeram com que Fabinho se lembrasse de que fazia parte de uma família de cabeças duras, liderada pela sua mais que tudo, e que nenhum deles iria desistir de vencer aquela partida de futebol, por motivos muito mais profundos do que os meramente clubísticos.

Que louco, isso. Ele; durante tantos anos um menino acompanhado apenas por uma raiva perpétua, pelo sentimento ruim que o corrompia e o impedia de ver mais além; não saberia prever o que seria ser rodeado por um campo de gente que parecia brotar do chão feito milho que nunca seria pipoca.

Que estranho o presente não antecipado de uma casa cheia pelo Natal. A segurança de uma mesa repleta de família e agregados para uma ceia em comum, evitando por pouco um overbooking das cadeiras existentes. Travessas fumegantes carregadas com abundância de comida passando de mão em mão. Risos e conversas partilhadas, ainda que, no meio de tanto barulho, nem se entendessem metade das palavras sobrepostas entre os convivas, mesmo que eles acenassem a cabeça em sinal contrário.

Uma tertúlia comprida apenas suspensa em som e movimento quando Maurício achou oportuno partilhar a sua opinião sobre as eleições que se avizinhavam, se esquecendo que naquela mesma mesa se congregavam apreciações contrárias, possibilitadas apenas por uma democracia de pé firme.

Viver com a liberdade de poder abrir a boca para deixar sair qualquer verbo implicava a não existência de temas interditos, mas aquele ameaçou fragmentar a união natalina, de réveillon, de carnaval, de páscoa e de todos os outros feriados que ainda sobrevivessem ao conflito.

Uma opinião não-refletida da direita da mesa, um duro pensamento verbalizado da esquerda do móvel de madeira e estalou uma guerra de palavras no centro, resistência capaz de fazer recuar com medo as tropas governamentais de um país fascista.

Ao constatar que o mauricinho tentava converter Giane a uma causa que, mais do que perdida, conduzia a perda, a impulsividade e o deboche de Fabinho fizeram as honras da casa o que levou a que, em meio-tempo, já tivesse indicado ao cunhado um local pouco iluminado onde enfiar as suas opiniões políticas, o que levou ao aplauso de avó Madá, secundada pelos netos postiços.

Vasquez pai, convidado por cortesia pela família Campana, saiu em defesa do filho, atacando a descendência dos seus anfitriões, ao que Luz atirou o cabelo para trás e interjeições para a frente, tentando clarear a consciência de Natan sobre o impacto negativo, facilmente previsto, de um plano de governação nascido de ódios antigos sobre a maioria das minorias.

Entrando na sala, Emília quase deixou cair a bandeja de cappuccinos ao se ver confrontada com mais de vinte e duas pessoas de pé, esbravejando, quase espetando os indicadores nos olhos uns dos outros, e uma gritaria que já chegava na Casa Verde e fazia eco de retorno.

Tanto barulho acordou a gigante. Do berço colocado no canto da sala se elevou o brado agudo de um bebé concebido por Plínio e Irene em absoluta democracia, clamando o fim do tiranismo de uma discussão daquelas em plena véspera de Natal.

De um livro antigo de família tinham tirado o seu nome. Do latim tinham retirado um sinónimo para a alegria, a sua Letícia, enviada para trazer felicidade e, naquele momento específico, para permitir também uma pausa suficiente, um intervalo para que os seus parentes caíssem em si e percebessem que deveria existir uma alternativa mais cristã do que a teimosia em ideias pré-concebidas e a falta de tolerância em credos políticos díspares já que, no final, estavam todos debaixo do mesmo teto e do mesmo céu.

Giane de Souza se decidiu pela partilha do seu remédio pessoal para libertar vapor e espaço dentro da cabeça, convidando todo o mundo para uma partida de futebol, ao que Malu foi a primeira a apoiar aquela forma muito Campana de evitar uma batalha campal.

A maloqueira tinha formado os times em dois tempos e um campo operável em metade desse tempo.

A louca apenas tinha poupado o pai por conta dos problemas cardíacos do seu Silvério, que lhe valeram o descanso na hora de assistir à partida improvisada sentado do outro lado do campinho inventado para uma virada em cima da hora.

O sogrão podia ser pai de Giane, mas tinha o jeito cara-de-santo-subtilmente-safado de Fabinho e foi mesmo o genro o único a notar o momento em que o antigo faxineiro se eclipsou para um encontro à meia-luz com o maravilhoso pudim de Margot.

Em cima dos quarenta e cinco do segundo tempo, o empate já era visto como injusto por cinquenta e cinco porcento dos jogadores, mas os restantes quarenta e quatro percebiam que a vitória já estava do seu lado, porque estavam lado a lado uns com os outros, ombro a ombro com quem amavam e mão sempre à distância de outra mão que não a soltaria numa hora de aperto.

O fraldinha ajudou Maurício a se levantar quando o príncipe deu um tombo pelo gramado molhado, estendendo a mão em tom de conciliação familiar, enquanto a mãe dele passava correndo com a bola colada aos pés ligeiros.

Não era que Irene até levava jeito para a coisa? Fabinho suspirou e riu, sabendo que Giane não o perdoaria e zoaria com ele pela eternidade pelo fato de que até a mãe jogava futebol com mais desenvoltura do que ele.

Antes que se desse qualquer gol, Fabinho foi surpreso ao ser placado por Bolívar, e o publicitário sentiu ossos, ossinhos e ossículos estalando antes de se estatelar ao comprido no chão, mas com a ausência prematura da árbitra, não restava ninguém para marcar falta.

Contudo, não faltou gente em volta do marqueteiro, preocupada em saber se ele iria sobreviver àquele ataque estrangeiro. Fabinho antecipou o momento em que Giane declararia em voz alta que vaso ruim não quebra, mas era um fato que permanecia inteiro e fiel a si mesmo.

Ele abriu os olhos com um esgar de dor e a lua o sobrevoava, mas também Giane pairava sobre ele, estendendo a mão para o levantar, enquanto chavecava o oponente, que continuava ruim de bola:

— Mas continua o maior pé torto…

Ele riu enquanto todos os outros esqueciam o resto da partida e o carregavam em ombros de volta para o interior da mansão. A quem realmente importava o saldo de goles quando já se sentia vitorioso?

Numa confusão de pernas sobrepostas no sofá, Fabinho se inclinou sobre o berço da irmã. A sua torcida, literalmente, dormia.

Ele nunca deixava de se espantar em como Letícia mudava a cada dia, aumentando em peso e comprimento, deixando antecipar as feições que tomaria um dia, e aprendendo novas habilidades na interação com o mundo em redor. Todas as possibilidades, esperanças e receios pelo futuro estavam condensadas na mais nova dos Campana.

Espantoso como, filhos da mesma mãe e do mesmo pai, teriam experiências de vida tão distintas, já que Fabinho sabia que, mais do que situações económicas diferentes, os irmãos cresceriam em mundos muito diferentes, em que qualquer certeza seria atacada por dúvidas implantadas e em que muito do conquistado se arriscava a desaparecer debaixo de uma cortina de fumo negro.

O melhor presente de Natal que o antigo bad boy poderia ter dado a Letícia foi aquela promessa sussurrada à meia-noite, de que lutaria até ao fim dos tempos pela sua liberdade, e de que não seria o único a fazê-lo.

Seriam muitos, um mar de gente, multidões para encher muitos estádios, massas que não seriam hordas e concentrações de times de unidade e de fé na humanidade.

Notas finais
Como pode ser facilmente percebido, "cuspi" este capítulo para exorcizar algo que trazia no interior. Voltando ao ritmo de escrever 20 palavras por dia, não posso garantir datas da próxima postagem, mas que isto vai sair mais barato do que psicanálise, isso vai hahaha. Beijo!