Notas iniciais
O objetivo desta história era só desenferrujar os dedos para a escrita, até porque considero que já escrevi bem melhor, mas me tramaram. Obrigada a Megan Lily,Zumbi Vegetariano e MrsSong por terem favoritado, mas me colocaram sob pressão! :) ;) E agora, o que faço? Seguimos com a grande Dona Margot.

Mãe não desiste nunca. Aquela tinha passado por mais provações do que a maioria.

De cada vez que via o filho fazendo burrada, em cada ocasião em que o tinha ido buscar na delegacia, em cada situação em que tinha que se desfazer do pouco que ainda lhe restava para o livrar de mais uma encrenca, Margot o fazia sem esperar nada em troca, porque era essa a sua natureza.

No silêncio da sala de espera quase vazia da clínica, Fabinho abria os olhos, tentando espantar as lágrimas teimosas usando dentes apertados por maxilares tensos. O garoto não queria dar parte de fraco em público.

A mãe nunca tinha desistido do filho, nem mesmo nos momentos mais negros em que todos os outros tinham renunciado a ter esperança nele. Ele não poderia desistir de acreditar num milagre. Margot merecia uma nova oportunidade da vida.

Fabinho tinha negado Margot como mãe muito mais vezes do que Pedro tinha negado Jesus Cristo, mas isso nunca tinha feito com que ela perdesse a fé no seu Deus.

Quando, um dia no banho, ela reparou no caroço mascarado num seio, inimigo oculto que a invadia enquanto se desenvolvia, gelou, mas não lhe ocorreu pedir a alguém que acompanhasse na consulta marcada às pressas.

Era típico de dona Margot tentar preservar os outros de sofrimento. Completa incongruência no mundo atual, a mãe adotiva de Fábio Campana provava que a absoluta abnegação e altruísmo sem limites ainda existiam.

Numa hora triste, ela desceu do ponto de ónibus mal sentindo as pernas que a levavam de forma mecânica na direção da clínica, entrou, esperou o que lhe pareceram séculos sentada só e foi conduzida para o consultório estéril onde a examinaram sem palavras e depois para a seção de imagiologia para fazer exames complementares que comprovassem pensamentos tristes.

Dias depois, voltou sozinha à clínica, depois de inventar uma desculpa esfarrapada para Silvério, e se sentou muito direita diante do médico, apertando a bolsa depositada vagarosamente no colo, enquanto o clínico lhe confirmava os piores receios enterrados numa alma habituada a aguentar sofrimento, em termos que ela mal pode entender, mas onde soube ver o que a aguardava.

Não lhe ocorreu chorar. Aconteceu que Margot se viu caminhando ao acaso, acabando instintivamente por entrar numa igreja onde agradeceu intimamente a Deus ter-lhe permitido viver até poder ver Fabinho com a vida bem encaminhada.

De uma forma simplista, a senhora via a sua missão na Terra cumprida.

Fabinho tinha medo de ter perdido a oportunidade de finalmente retribuir todo o amor que não tinha sido capaz de enxergar anos antes.

O dinheiro não comprava tudo. Ele teria entregado, sem hesitar, toda a herança de Plínio Campana só para conseguir salvar Margot, mas apenas tinha a certeza de a conseguir fazer mais confortável.

Giane tinha sido a primeira a saber do câncer, a confidente escolhida na hora de preparar o marido e o filho da enferma para as más notícias.

A fotógrafa via na boadrasta uma mãe emprestada. Se a vida lhe tinha pregado uma rasteira logo no seu início, lhe retirando bruscamente e sem piedade a mãe biológica, Giane de Souza era grata pelas oportunidades que lhe foram surgindo, ao longo do caminho familiar da existência humana, de escolher a sua própria família.

Uma parentela de sangue se aceita como um fato incontornável e irrecusável, podendo gerar afeto sincero ou resignação aos fatos estabelecidos na mesma proporção. Família de coração se ama de braços abertos e sem restrições, porque nasce da liberdade de escolha, do livre arbítrio que nos torna verdadeiramente humanos.

Em silêncio, sentada entre Fabinho e o pai enquanto aguardavam notícias do médico, Giane rodava o anel do dedo anelar, enquanto contava o tempo decrescente da cirurgia. A mão dela guardava a mesma pedra verde que Plínio tinha dado a Irene anos antes e que continuava sendo símbolo de esperança.

Não lhe teria ocorrido apressar aquele noivado que, apesar de sempre lhe ter parecido incontornável no futuro, lhe continuava parecendo coisa de mulherzinha, não fosse a urgência em fazer o milagre da multiplicação de um tempo que podia se revelar demasiado curto. Nunca iria negar uma última alegria à sogra. Jamais permitiria que, nas fotos de família, faltasse a presença de Margot em momentos importantes. Giane não era uma desistente.

Sob pressão da família que lhe exigia um desfecho positivo, não aceitando um não como resposta, uma mão carregando um bisturi de tecnologia de ponta cortava fundo a carne de uma mãe em paz consigo mesma.

Giane sentiu a mão gelada do pai procurando a sua. Estava casado há poucos meses e Silvério já se arriscava a reviver o passado ao perder outra esposa para uma doença maldosa. Ela sabia que o pai não considerava Margot a sua segunda oportunidade, mas sim a sua última e definitiva. Silvério tinha feito a escolha consciente de uma única companheira para o resto da sua vida.

A mão aquecida e suada de Fabinho fez companhia a Giane, tentando se esconder nela. Agitado, impaciente, o sangue quente lhe fervia nos dedos, por não poder intervir diretamente, por não ter um diploma de médico e poder colocar umas luvas, entrar marchando naquela sala de operações e extirpar com as próprias mãos o monstro de células malignas que ameaçava lhe roubar uma mãe.

Pô, custava assim tanto ter a oportunidade de tentar corrigir a antiga burrada? Seria preciso barganhar continuamente com a vida para ganhar o tempo necessário para emendar o já transcorrido?

Várias mãos treinadas manuseavam clipadores, pinças, afastadores e tesouras de disseção, lutando, sem cessar, sem parar, enquanto outros olhos controlavam telas negras, fazendo ajustes para controlar mudanças milimétricas nos gráficos da paciente. Fabinho tinha feito questão de escolher os melhores cirurgiões, os melhores equipamentos, os melhores meios, a melhor clínica privada. A mãe não merecia menos do que isso.

Giane olhava para o passado, para o início. Parecia já tão longínqua, aquela fase de descobrimentos, de primeiras vezes, de escolhas, de aceitações e de pensamentos envergonhados.

Para ela, antes de Margot se ter tornado apenas na sua Margot, era a mãe do namorado e a namorada do pai, alguém com o direito de a julgar digna ou indigna do filho, alguém com quem dividir Silvério, um dos poucos alguéns a quem tinha vontade de impressionar pela positiva.

Giane recordava o dia claro em que Fabinho acordou, rodou na cama e a viu saindo do quarto dele pelo caminho pouco prático de uma janela semiaberta.

Gargalhando, o bad boy regenerado foi calado pelo desespero de uma moça de boas famílias:

— Pô! Tenho vergonha que a sua mãe me veja saindo do seu quarto a essa hora e com a roupa de ontem!

— E o que é que você pensa que a dona Margot acha que a gente fica fazendo trancados nesse quarto? Jogando canasta ou fazendo crochê?

Um ponto. Dois. Três. Uma sutura completa feita por mãos habilidosas com agulhas fechava a ferida e Margot via arrancados um pedaço de si e um pedaço que não o era, mas se mantinha preenchida pela sua fé inabalável.

Giane contava com a sua intuição. Esperava uma das suas premonições antigas, mas foi um abençoado pressentimento novo que lhe aqueceu o peito, ao qual levou a mão, e a fez sorrir.

Notas finais
Dona Margot entrou, desde o primeiro capítulo de SB, para a minha galeria de personagens a quem dá vontade de dar colo. Se já me conhecem, sabem que não gosto de escrever nada remotamente parecido com algo que já tenha sido feito antes. Existirão, com certeza, capítulos leves e mais cor de rosa, mas nada demasiado melado. O objetivo é revisitar várias personagens ligadas a Fabine e imaginar o futuro delas. Na próxima semana não vou conseguir postar, a não ser que não durma hahaha. Obrigada a quem tem paciência para se manter por aqui. Beijo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.