Our Endless Curse
2 Born to be a Templar

Castela, Península Ibérica.
21 de fevereiro de 1506.
O sol raiava insistente no céu, deixando o chão do lado de fora da carruagem mais quente do que os últimos dias. Mas nada que desagradasse Filippo. O rei de Castela mantinha seu queixo apoiado na mão, enquanto observava a paisagem pela janela. O olhar perdido no meio das árvores do outro lado do penhasco. Sua mente pensava em tudo e em nada ao mesmo tempo.
Voltava de uma longa viagem a Toledo, na Espanha, onde encontrara o Grão-Mestre Templário. Quando seu cardeal o entregou a carta do Grão-Mestre, o rei ficara incerto sobre suas intenções, mas o que o homem havia lhe pedido não era nada absurdo. Tudo o que ele tinha a fazer era descobrir a sede dos Assassinos em seu reino e destruí-los. Uma execução pública passava por sua cabeça, porém, não fazia ideia de como encontrá-los.
Seus pensamentos foram interrompidos quando viu seu cocheiro cair para fora da carruagem e a velocidade da mesma começou a diminuir. Confuso, ele aguardou que o veículo parasse. Quando o fez, desceu e olhou ao redor. Seu olhar parou em uma mulher de roupas brancas manchadas de sangue à sua frente. Devido ao capuz abaixado, os cabelos castanhos balançavam ao vento, lhe dando uma visão clara de seu rosto. Sentiu seu coração palpitar nervosamente. Não imaginava que fosse vê-la novamente, ainda mais naquelas circunstâncias. De certa forma, estava feliz, porém, sabia que não era um bom sinal.
— Caterina? – Passou a mão nos cumpridos cabelos castanhos, tirando os fios teimosos de seu rosto para confirmar que seus olhos não lhe enganavam. – Você fez isso? – questionou ao ver o corpo do cocheiro estirado ao chão alguns metros atrás e a carroça sem os cavalos.
— Você já fez o bastante pelos Templários, Filippo, está na hora de parar. – O tom firme de sua voz chegou a assustá-lo. O homem não esperava por uma abordagem bruta como aquela, muito menos que viesse de sua velha amiga. Aquela mulher não parecia ser a mesma moça frágil que conhecera na Itália aos dez anos.
— Se sabe o que fiz, sabe que não vou abaixar a cabeça só porque me pediu gentilmente. – Forçou um sorriso sarcástico e deu um passo em direção a ela.
— Não estou pedindo. – Ela acionou sua lâmina oculta. O olhar dele subiu da faca de volta para os olhos verdes da mulher. – Se eu não fizer, outro fará.
— Quer que eu diga que será melhor se for você? – gargalhou. – Eu não tenho a mínima intenção de morrer. Não hoje, pelo menos. – Desembainhou sua espada, fazendo a mulher recolher a lâmina e também puxar a sua.
— Então, torça para que me acerte primeiro – ela entrou em guarda a tempo de vê-lo avançar em sua direção. Ela desviou de seus primeiros golpes, lhe fazendo um corte no braço esquerdo. – Vai ter que se esforçar mais do que isso se quiser me matar, caro— provocou.
Trincou o maxilar e avançou novamente até ela. Ela recuou alguns passos e acertou um soco na nuca dele quando passou por ela. Apertou fortemente o cabo da espada em sua mão. O sangue em suas veias chegava a ferver. As veias começavam a saltar por sua pele pálida, deixando sua irritação evidente. Para piorar seus nervos, a mulher soltou uma bomba de fumaça, o fazendo perdê-la de vista. Ele olhou em volta, mas não conseguia enxergar nada. Sentiu algo prender em sua capa e puxá-lo para trás. Ele logo caiu de costas ao chão, resmungando pela dor do impacto.
Filippo se levantou e tentou manter sua atenção em tudo o que acontecia em sua volta. Observou mudanças de luz dentro da nuvem, tentando descobrir por onde ela se movia. Enquanto a fumaça finalmente começava a abaixar, ele viu algo deslizar no chão até bater em seu pé. Era sua arma.
— Você tem um tiro, acho bom que não desperdice – Caterina aconselhou. Ele pegou o objeto e ergueu a mira, ainda sem vê-la. – Porque, honestamente – fez uma pequena pausa, ele soube que ela estava se movendo. – Eu não quero matar você – completou, atrás dele.
O homem se virou com o revólver mirado em direção à cabeça dela. Atirou, mas errou. Ela acertou um soco no nariz dele, o fazendo soltar a arma e recuar alguns passos, procurando pelo objeto. Ao encontrar, se jogou ao chão, porém, ela foi mais rápida, pegando o revólver e passando por cima das costas dele.
— Eu disse que só teria um tiro. – Ele olhou para trás a tempo de vê-la entortar o cano da arma e jogar no penhasco atrás de si. – Você ainda não ouve as pessoas, não é?
— Por que não me mata de uma vez? – bradou. – Não foi por isso que te enviaram? Por que simplesmente não termina seu trabalho e me mata? – aumentou seu tom. – Seja la porca puttana que foi treinada para ser! – rosnou e se levantou. Recebeu um olhar incompreensível em resposta.
Nos últimos dez anos, ela sempre imaginou como seria reencontrá-lo. Nos últimos dez dias, era a coisa que menos queria. Os cabelos bagunçados do homem a fizeram se lembrar do porquê não conseguia simplesmente matá-lo. O que estava fazendo poderia ser considerado algo como “brincar com a comida”, porém, a realidade era um pouco controversa. Estava tentando tomar coragem. Estava lhe dando a chance de matá-la e sobreviver, mesmo que por pouco tempo, pois sabia que o Credo enviaria alguém para terminar seu serviço.
Por mais que quisesse acabar com tudo aquilo, Filippo não podia simplesmente acolhê-la. Seus superiores talvez aceitassem a ajuda de uma ex-Assassina, porém, ainda teria de se explicar para sua esposa. Mas o que diria? A mulher que amou quando moço voltou e tentou matá-lo, mas ele lhe ofereceu ajuda para que sobrevivessem. Além do trono, perderia sua mulher e, muito provavelmente, seus filhos. Seus filhos. Precisava voltar para casa, para eles. Ele olhou rapidamente para o chão, mas ela atraiu sua atenção ao soltar as amarras da luva com sua lâmina oculta e jogar em algum canto.
— Eu não vou te matar – Caterina anunciou, finalmente. – Mas você terá que me matar se quiser continuar a levar a vida que tem, porque eu não quero viver para te ver se afundar mais. Por favor, invente alguma história boa o suficiente para explicar como matou a Assassina que dizimou metade do seu exército quando perguntarem – pediu e puxou a adaga em sua bainha, o entregando.
Ele pareceu receoso, mas ela esticou mais a mão em sua direção, para que pegasse de uma vez. Seus passos pesavam mais a cada centímetro que se aproximava. Não queria fazer aquilo, mas não queria morrer. Queria ver sua esposa e filhos uma vez mais. Sua filha a quem o jeito tanto lembrava a mulher destemida parada à sua frente, cuja a única coisa que temia era machucar aqueles que amava. Levou sua mão até a da mulher e pegou a adaga. A olhou de forma a perguntar se ela estava certa sobre aquilo.
— Apenas faça – murmurou.
Quando ela baixou seu olhar, ele pôde notar. O sentimento que sentira por ela anos antes, ela também sentida por ele. Para piorar, ainda sentia. Ela estava abrindo mão de sua vida pela dele, mesmo sabendo que não era muito. Para ele, era o suficiente. Levou a mão ao rosto dela e acariciou, a vendo fechar os olhos. Ele aproximou seus lábios dos dela e os selou, sentindo o gosto de seu beijo pela primeira vez em muito tempo. Antes que perdesse a coragem, ele enfiou a faca em seu peito. O último suspiro escapou pelos lábios da mulher, que caiu em seus braços. Não queria fazer aquilo. Havia sido egoísta. Era errado.
Sem forças, seus joelhos foram de encontro ao chão, agarrado ao corpo sem vida de Caterina. Ele a abraçou fortemente, não negando às lágrimas que escorressem por seu rosto. Quando jovem, a prometera que ninguém jamais encostaria nela. Quinze anos depois, ele foi quem tirou sua vida por ter feitos as escolhas erradas. Ele só não sabia que ela havia se prometido o mesmo. E, naquela tarde, debaixo daquele sol, à beira daquele penhasco, ela havia se proibido de fazê-lo.
Em setembro de 1506, Filippo faleceu repentinamente por “febre tifoide”. Na verdade, sua morte fora por envenenamento. Uma punição do Credo pelo que fizera à sua Assassina. A esposa de Filippo, Joanna, assumiu o trono em seu lugar e, a seu pedido, pôs o nome de sua filha póstuma, nascida em janeiro de 1507, de Caterina. Uma pequena e oculta homenagem àquela que, um dia, havia sido o amor de sua vida.
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