Ostium: Diamond
13 Capítulo 8: Continuação
Dia 19 de maio.
Acordei, algo acertou o meu rosto e interrompeu a minha respiração.
“Que sonho estranho…”
—Ritte… que horas são?
—Antes, bonjour, sobre as horas... nós temos trinta minutos para chegar na escola.
—Ah, isso dá tempo ainda de fazer um café da manhã, nós temos alguma coisa aqui?
—Fiz um sanduiche. O que acha?
Peguei aquele prato na minha frente sem pensar e dei várias mordidas, uma em seguida da outra, triturando o pão e a carne enquanto tirava mais pedaços.
Comi tudo um pouco rápido demais, o Ritte parecia surpreso até.
—Aquela briga me deixou com fome, devia ter comido antes de dormir.
—Sim, aliás, ezis* dentes não atrapalham na hora de escovar os dentes? Digo… ficando no meio e…
Talvez a minha forma selvagem de comer tenha o feito pensar nisso, talvez o fez lembrar de algum animal de presas afiadas...?
—Ninguém nunca perguntou isso em… e sim, é horrível, eu lembro que eles só ficaram nesse formato quando eu tinha uns 10 anos, eles também nunca caíram, não sei se é como se eu tivesse nascido com permanentes ou se eles ainda são de leite. E é… antes disso era mais fácil escovar os dentes, mas agora que eles são tão visíveis preciso ao menos garantir que ele vai estar branco na maior parte do tempo.
—Era só isso… me espere terminar de comer. Prefiro apreciar, fiz este com muito cuidado.
Passei o tempo olhando o esconderijo, pensando em trazer algumas coisas legais para ele, poderia perguntar se a Une conseguiria fazer uma fonte de eletricidade para fazer uma televisão e um videogame funcionarem. Normalmente só conseguimos jogar jogos de tabuleiro por aqui.
“Alguma iluminação seria uma boa também, essas lâmpadas as vezes falham, depender de velas é pior ainda”
Minhas ideias pararam de vir depois disso, porém logo Ritte me chamou para subirmos nas bicicletas e irmos para a escola.
—Quer apostar uma corrida até lá?
—C'est pas vrai! Você quer morrer?!
—Ah… ok, vamos só descer igual pessoas normais então.
—Outro dia, Jack, outro dia.
—Melhor assim mesmo, vamos.
Soltamos as bicicletas e elas desceram sozinhas pela inclinação próxima a montanha, poderia pedalar, porém isso deixaria difícil de controlar e poderia acabar batendo em uma arvore ou coisa pior.
Nós chegamos com bastante antecedência até, bem, acho que para o meu padrão isso era bastante, em torno de 10 minutos antes.
—Jack… agora que percebi… les blessures, você não melhorou rápido demais? Antes estávamos no escuro daquela caverna, mas em plena luz…
—Deixa eu ver.
Corri para uma janela do lado esquerdo da escola, elas eram tão polidas que era possível ver seu reflexo nela.
—Eu ainda estou com cara de quem brigou na última noite, a cor do meu rosto normalmente não é assim, eles também acertaram mais o meu torso do que o rosto, acho que isso não é estranho.
—Ainda assim... estranho. Isso é bom pelo menos, não vai precisar de maquiagem para disfarçar.
—Sim, hoje vai ser o encontro, eu posso te dar meus planos depois da aula e você cuida do resto?
—Pode deixar.
Três daqueles arruaceiros que tinha encontrado na ultima noite passaram por nós, eles foram para as salas por perto.
—Espero que eles mantenham o trato, senão…
—Não é a melhor hora para ficar com raiva, você não precisa ficar com outro corte no lábio.
Percebi a pressão que estava fazendo na minha própria pele e a soltei.
—É Ritte, você é realmente alguém que sabe ajudar… e tudo.
Nós fomos para nossa própria sala, sentamos um segundo depois da aula começar.
—Jack! Você está técnicamente atrasado.
Era o professor Louis, fazia um tempo desde que encontrei ele.
—Não podia ser diferente!
Assisti todas as aulas do dia com metade da minha atenção em planejar o encontro, a outra estava em ver se o Ritte estava copiando para que eu pudesse pegar o que ele anotou mais tarde.
—Ritte, aqui ó, peguei algo geral, eu não confio tanto em mim mesmo, mude ao seu bel prazer.
Ele pegou o papel que tinha escrito tudo.
—Poderia ter sido ruim, mas esse plano está ao menos… mediano.
—Mediano? Ok, parece bom suficiente, eu vou… vou ver se não esqueci de nada que preciso fazer hoje, vou chegar na sua casa as sete da noite, você vai estar lá alias?
—Talvez… a depender do que decidir fazer até lá.
—Sem problema. Agora é melhor que eu vá, até mais tarde, Ritte.
—Au revoir...
Ritte respondeu enquanto encarava o meu papel, amassando um pouco as bordas com os dedos.
“Estou dando muito trabalho para ele, preciso ao menos fazer esse esforço render algo”
Assim que saia da escola, quando ia subir na bicicleta.
Ouvi passos muito rápidos, um som quase de metal.
Uma figura estranha havia então aparecido, alguém que nunca quis por perto da escola, porém que estava lá.
Imen Nacrit.
—Jack! Isso não faz o meu estilo, mas preciso que você me ajude, rápido! Não há tempo de explicar!
—Nacrit?! Por que você está aqui!?
—Sem tempo, sem tempo! Corra para aquele lugar, depois eu chego.
Após dar essa mensagem, ele sequer esperou uma resposta, continuou a correr e me passou sem dar chance de ser seguido.
“Droga, é bom que termine isso antes das sete!”
Pôs um pé pelo outro, jogando os pedais para cima e para baixo o quão rápido conseguia, levando os pneus comigo até a casa suspeita que não tinha duvida de ser o local que o Nacrit se referia.
Ainda assim... ele nem estava lá quando eu cheguei, talvez o “depois eu chego” dito teria sido sobre isso.
Vendo que ele não ia chegar tão cedo, fui um problema por vez, fiz uma ligação para o Ritte:
—Ritte, não tenho muito tempo para explicar, mas acabei me envolvendo em algo meio estranho, talvez eu não dê noticia até as sete, mas eu prometo que chego lá.
—Vou confiar nisso, é bom não deixar ela esperando, ou eu nunca mais vou te ajudar com isso.
—Sim…
Desliguei.
“Quando minhas apostas aumentaram tanto?! Nunca mais!? Não vou ter chance se perder a hora!”
Nacrit enfim chegou, correndo com aqueles passos de metal e um rosto muito preocupado.
Quando me viu, ele abaixou o rosto, passou a mão na testa e levantou com um olhar bem mais relaxado, porém não sabia se era verdadeiro.
—Você está me devendo algumas, mas se você me ajudar nisso, eu vou ficar te devendo. É muito, muito importante.
“Ele não está dizendo que eu devo algo por eu não pagar pelo suco de uva ruim dele... né?”
—É tão sério assim? Nunca te vi com um rosto preocupado.
—Nada assim, só estava exagerando um pouco para garantir que você viria. É algo simples, muito simples.
Com essa forma de falar sobre algo “muito simples” só consegui me reajustar, tentar mudar minha posição conforme os meus hematomas pareciam começar a doer de novo.
—Só por favor, me diga que posso terminar isso antes das sete de hoje, eu…
—Não precisa me contar, você tem um encontro hoje, não é? Queria deixar isso para outro dia, porém houve certa insistência de outra parte.
—O que exatamente está acontecendo? Você devia dizer logo, de forma breve e simples, por favor.
—Não uma, mas duas coisas estão acontecendo. Acho que você preferiria resolver uma de cada vez, não é? Então farei assim, primeiro, me siga, vamos para dentro.
—Certo…
Não tinha como imaginar o que o faria chamar a minha ajuda, porém desde que chegasse a tempo do encontro, fazê-lo me dever um favor podia ser, ao menos, interessante.
Nacrit entrou na casa, desci da minha bicicleta e o segui.
Por dentro, nada havia mudado, ainda era um amontoado de lixo do chão até o teto e pelas paredes, com coisas das mais variadas, uma loja feita para afastar a maioria das pessoas.
Atravessamos o balcão e passamos pela cortina e entramos no bar escondido, onde pessoas ruins vinham para negociar, não sabia dizer se pertencia ali.
—Bem ali, ele te chamou em especifico, não sei o que você fez, mas ele disse que você o reconheceria na hora que chegasse aqui.
Nacrit apontou para uma pessoa no meio daquele bar e...
O olhei, o reconheci, o quis arremessar pela janela assim que o vi naquele lugar.
—Sim, Nacrit, vou conversar com ele. Em 10 minutos eu faço a outra coisa que você precisa.
—Perfeito para mim, só não comece uma briga aqui, só aceito conflitos sendo resolvidos fora dos limites da cidade.
Apesar dele claramente não ter a história completa consigo, ele estava sorrindo ao ver a situação, se afastou para sentar em outro canto, enquanto isso... fui em frente.
Sentei naquela cadeira, quase mordi meus lábios novamente, porém não podia fazer isso naquele momento.
—O que foi, Amun? Como chegou até aqui?
—Nós falhamos em pedir seu endereço, infelizmente tivemos de requisitar para que 05 fizesse uma busca, 02 se encarregou de entrar em contato com o senhor Nacrit, então eu vim para lhe atualizar da situação.
—Esses métodos, o que vocês querem provar com eles? Por que precisam da nossa ajuda? Resolvam o problema sozinhos. Não tragam outros para isso. Isso não é algo nosso!
—…Jack, nós não tamanho poder, fazer tudo é impossível para nós, agora nosso 01 ainda está no hospital e não fazemos ideia quando ele vai se recuperar…
Seu rosto agora era um pouco sombrio, ainda assim, eu não via isso como motivo para voltar atrás no que dizia, bati uma vez na mesa e continuei:
—Vocês querem um substituto então?! Agora que um de vocês quase morreu, não basta que fomos nós que salvamos ele, você vai ignorar ele e esperar que eu sirva?!
Ele ficou em silêncio por um momento, segurou com força uma caneca que estava na mesa, a mão dele estava tremendo um pouco.
—Nós não esperamos um substituto. Vós tem de ajudar a si mesmos, o perigo virá quando menos espera, mas serei breve. Vá até esse endereço na mesa. Tem alguém lá que pode ajudar vocês. Vou voltar à minha posição.
Ele se levantou abruptamente e foi embora, deixando a caneca cair sobre a mesa... vendo bem, a asa dela estava quebrada...
O papel com endereço, por sua parte, quase deslizou sozinho até minha mão com o vento, coloquei ele no meu bolso sem tanto apreço, iria decidir o que fazer depois.
—Nacrit. O que você precisava?
Me dirigi até ele logo, foi bem menos do que 10 minutos, porém tinha que resolver tudo o mais rápido possível.
—Perfeito, é isso aqui.
Nacrit pegou uma caixa preta, ela era bem pequena, mais ou menos como uma caixa onde alguém guardaria joias preciosas, um colar, ou um anel bonito.
—Você precisa cuidar dessa caixa. Não pode queima-la, nem a jogar no oceano, ela precisa ficar com você, escondida no melhor lugar que tiver em mente, onde possa ser acessada caso seja necessário.
Eu a segurei em minhas mãos enquanto ele continuava a falar.
—É algo muito importante. Ela não está segura comigo, porém se você a tiver, duvido que eles possam me ligar a uma pessoa comum como você, ainda mais quando faz parte da minha conduta nunca envolver ninguém da cidade, muito menos o filho de um policial.
—Alguém está atrás disso, entendo, mas e se me ligarem? Não tenho como defender essa caixa como você.
O encarei com intensidade, eu queria ver se ele tinha certeza daquela decisão.
—Já disse, você é o filho de um policial, você é a pessoa mais segura para a ter, caso ainda ache muito perigoso, me devolva, não vou lhe forçar a isso.
Parecia bem certo daquilo, sua preocupação era genuína, concordava que eu era totalmente inábil para defender a caixa da ameaça que ele temia, ao mesmo tempo, sua confiança de que eu sequer precisaria disso era real também.
—E o que tem dentro dessa caixa?
—Seria melhor não perguntar.
—Isso é um pedido muito grande para mim. Não sei se é realmente certo guardar o que está aí dentro, não posso te ajudar sem saber disso.
—Um suborno provavelmente não vai funcionar também… acho que posso lhe dizer. Só me prometa que não vai contar isso a ninguém, nem aos seus amigos, nem vai deixar isso escrito em lugar nenhum. Isso é um segredo que o ideal seria você levar para a cova com você.
Nacrit disse tudo aquilo sem deixar o tom nada sério dele, nem mudando sua postura, porém o disse como se soubesse desse caderno, eu resolvi o que faria:
—Está certo. O que está nessa caixa? Seja o que for, eu vou levar comigo.
Bem, como dito por Imen Nacrit, era algo realmente importante, prometi também que não iria nem mesmo pôr em outro lugar desse mundo senão a minha mente o que ele havia me confiado. Não poderei escrevê-lo nem aqui.
Levei a caixa comigo, passei em algumas lojas para fazer compras, com elas fiz o melhor esconderijo que consegui pensar, se pudesse teria pedido para outra pessoa planejar o esconderijo, mas isso era um segredo, então tal ideia não era uma opção.
Enfim, pôs a caixa preta no local mais escondido da minha casa, o que havia dentro dela deveria ser protegido a todo custo... pelo menos o Nacrit dizia isso.
Tendo tudo resolvido finalmente, a real missão daquele dia ia começar.
Fiz a minha ligação, disse ao Ritte que eu chegaria bem a tempo.
Me arrumei da melhor forma que podia, passei um perfume que tinha ganho de presente, lavei o cabelo também.
“Isso é demais! Isso é demais!”
—Perfume? Jack, você está indo para um encontro?
—Pai… como você soube? A notícia já se espalhou tanto?
—Não. Mas não consigo imaginar outro motivo para você estar usando isso, espere ai. Se vai usar um terno, tenho algo para já.
Ele voltou com uma caixa envolta de plástico, o plástico em si estava muito empoeirado, mas a caixa parecia bem.
—Não o usei nos últimos 20 anos. Acho que temos o mesmo gosto para roupas, fique com ele.
—Um terno é...? E vinte anos? Você usou ele numa festa só, ou...
A expressão dele mudou um pouco, ele mordeu o lábio também, então disse:
—Foi no meu primeiro encontro com sua mãe. Mas não se preoucupe, o terno não é nada feio…
Ele soltou uma risada fraca, mas sincera e olhou nos meus olhos.
—Bem, ele é seu de qualquer maneira, se você o usar ou não… desde que o aceite, não vejo problema.
Pensei um pouco, lembrei das palavras que o Amun me disse, elas eram parecidas, mas…
—Obrigado…
Tirei o plástico, abri a caixa de papelão e dentro…
—É realmente algo que eu gostaria, azul? Realmente estava querendo um nessa cor.
—Lhe disse que temos o mesmo gosto.
Com um terno azul agora, eu fiz somente um ajuste:
“Acho que meu pai vai discordar… mas usar gravata não combina comigo, espero que fique bem num terno sem gravata”
Já estava bem escuro quando sai, pensei que a época do ano em que escurecia nesse horário viria depois apenas, porém parecia já ter chegado.
A lua estava coberta por nuvens, as ruas estavam engolidas de penumbra e em algumas partes parecia que estava andando em nada, era tão escuro que o chão parecia não estar lá.
Mas de tempos em tempos uma grande bola de luz iluminava o caminho, andava mais um pouco e achava outra, os postes da cidade não me deixaram andar por tanto tempo em breu.
Senti que estava lentamente me adaptando a falta de luz, o breu se tornou uma penumbra apenas, as menores evidências de luz, refletidas da luz parcialmente coberta, já era suficiente para me guiar até a casa da Franziska.
Acabei chegando na frente da casa uma hora mais cedo, chequei algumas coisas por precaução.
—Flor, aqui… temperatura de hoje… tão frio assim? Estamos no inverno…?
Achei que bater na porta antes da hora podia ser errado, então liguei para o Ritte.
“Vamos… atende”
Estava passando as unhas na palma da mão enquanto esperava, elas pareciam crescer rápido demais.
—Alô? Jack, algo aconteceu?
—Tudo sob controle, já estou na frente da porta da casa, como está por aí? Você está aí?
—Oui, não se preocupe, ela já colocou o vestido e tudo. Mas deixe para tocar a campainha exatamente as sete, ok?
—Como eu poderia desconfiar de você? Depois de tudo isso?
—Até mais tarde, bonne chance.
Conforme a hora se aproximava, era difícil manter minha postura, meus pés perdiam a força e mal podia me manter, essa ajuda do Ritte ainda, ela realmente me inspirou também.
“Como eu sou sortudo! Não acredito que ela aceitou ir para um jantar e tudo! Isso é igual um filme de romance!”
Os minutos passaram, depois de ficar parado tanto tempo acabei sentindo como a noite estava fria.
“Ainda bem que aquele restaurante parece ter como manter o clima interno bem ameno, eu poderia até dar meu paletó para ela… isso seria muito legal!”
Imaginando dezenas de situações e ficando cheio de energia para torna-las realidade, os minutos passaram.
Vi no meu relógio de prata no meu pulso, exatamente sete.
Toquei a campainha.
“Está na hora”
Menos de meio-minuto depois, a porta abriu.
Franziska me recebeu, ela estava com um vestido verde e branco, parecia enorme e com tantos adornos que não tinha certeza do que o separava de um vestido de noiva.
“Deve ser a cor, nunca tem verde”
—Jack, pode entrar.
“Entrar?… Droga!… Eu tenho que falar com os pais dela antes disso!? Eu nunca falei com eles!”
—Certo…
Senti algo acontecer quando meu pé tocou a fundação da casa, como se meu corpo tivesse mudado de temperatura por um instante, apenas um pouco, no entanto...
Apesar de ser tão importante...
Não me distraiu.
Em vez disso, foi a casa o que me distraiu, parecia um castelo, as paredes pareciam brilhar mesmo sendo velhas, enquanto todas as decorações pareciam bem caras.
“Hum... eu sempre tive a impressão que pessoas com dinheiro demais acabam ficando gananciosas, parece que estava errado, que sorte a minha!”
Foi o que tinha imaginado, ela me levou até os pais dela, eles estavam na sala de jantar, sentados na mesa enorme, um do lado do outro.
“Ritte! Me ajuda!”
Ele também estava lá, sentado em um dos cantos.
A Franziska pediu que me sentasse, o fiz...
Ela então andou até o canto da mesa, foi uma caminhada muito longa para ir até lá, então ela andou ainda mais para chegar aonde os pais dela estavam, bem em frente a mim.
—É ele, pai, mãe, conversem um pouco enquanto eu procuro minha bolsa.
—Claro filha.
Ela teve que andar ainda mais para sair da sala.
Aquela mesa e aquela sala eram enormes, por que isso? Não faz sentido…
Quando Franziska saiu da sala, só tinha os dois pais dela na minha frente. Adultos sérios e calmos, com boa postura e usando roupas tão boas quanto aquele terno, mesmo dentro de casa.
O pai dela era parecido com o Ritte, porém muito mais velho e bem alto, além do olhar afiado e expressão indecifrável.
“Ele vai ficar assim no futuro?... que esquisito”
E a mãe tinha os mesmos cabelos da Franziska, porém a expressão não era tão agradável como a da filha, certamente.
—Pai, mãe, esse é o Jack.
Ritte me introduziu, depois daquela eternidade ter passado.
—É um prazer conhecer os senhores e… tudo.
—Ambrose, esse é o seu amigo? Aquele que fez a banda?
—Sim, mãe.
—Ambrose, esse é o seu amigo? Ele que quer levar a Franziska para um encontro?
—Sim, pai.
Meu estômago se revirou um pouco, mas falei.
—É verdade. Fui eu que a pedi para sairmos juntos hoje. Estava esperando por bastante tempo…
—O que você quer com ela, garoto?
—Bem… ela… err… eu estou apaixonado. É melhor dizer isso logo, e eu garanto que vou fazer de tudo por ela, sem medo!
—Hum, Ambrose, ele é corajoso de verdade?
—Bastante, mãe, tenho certeza que o Jack poderia defender ela também.
—Hum, Ambrose, mas ele não parece com um delinquente?
—Pai, eu já falei que ele pode parecer um pouco mal, mas ele é o filho do chefe da polícia.
“Como eles falam assim?... Eu mal consigo acompanhar essa conversa...”
Mesmo que eu estivesse claramente pulando com os olhos para todos os lados, assim que olhei para o Ritte, ele olhou de volta, abriu a boca de forma esquisita, parecia esperar que dissesse algo.
“Ah! Entendi!”
—Sim, senhor, perdão se isso é muito estranho… esses dentes não são enfeites, foi algum tipo de…
—Você tem alguma doença hereditária então?
“O que… o que ele quer dizer?!”
—Não, meus dois… pais, eles não tiveram isso, parece que houve alguma complicação ainda antes do meu nascimento.
Ele parecia preparado para fazer outra pergunta, porém Franziska finalmente chegou, dessa vez ela atravessou a sala muito mais rápido, como se ela tivesse encolhido.
—Pai, vamos!
—Jack, entre no carro, eu vou levar vocês dois.
—Jack, não saia do lado da Franziska, seja um cavalheiro.
—Certo!...
Assim que percebi, já tinha atravessado a cozinha outra vez.
O pai da Franziska entrou no carro, nós dois fomos para os bancos de trás.
A porta da garagem abriu sozinha, senti o motor fazer o carro vibrar.
—Coloquem os cintos.
“Rápido demais! Eu nem consigo pensar...!”
—O que…? Como eu faço isso?
—É assim ó…
A Franziska teve que me mostrar, essa devia ser a segunda vez que entrei num carro, sendo que a primeira foi uma ambulância.
—Jack, há algum tempo esses carros eram normais… agora são basicamente inúteis, não precisei reabastecer a gasolina deste em 5 anos.
Eu conseguia ver só uma parte do rosto do pai dela, por um espelho no teto do carro, era ele que tinha comentado, eu corri e respondi:
—Sim, apesar que eles são legais, aparecem sempre em filmes um pouco antigos, da a impressão que a maior mudança do mundo foi a falta de carros na rua.
O carro então começou a se mover, era como uma bicicleta, porém sem que eu pedalasse, o mundo só passava pela janela sem que fizesse nada, essa separação me trazia um sentimento único, um de admiração também.
“Melhor não ficar calado, parece que esse restaurante é na verdade bem longe daqui, eu não sei a velocidade que um carro normalmente alcança, mas deve ser pelo menos tão rápido quanto uma bicicleta… isso seria então algo como 20 minutos”
—Queen… você anda muito de carro?
—Jack, que nome você usou? De quem está falando?
—Pai, esse foi o apelido que ele me deu quando nos encontramos, soa bem, não acha?
—…Sim… Jack, você tem um bom gosto para nomes.
“Seu rosto não parece sincero, mesmo que eu só esteja vendo uma parte dele...”
—Obrigado, eu escolhi sem pensar tanto, foi sorte minha que ele combinou.
—Jack, você vai para qual faculdade? Já pensou nisso?
“Não. Nem de longe, mas não posso fazer parecer que não tenho um futuro”
—Eu acho que vou fazer… engenharia, gostaria de também ir na mesma que a Franziska decidisse ir…
—Jack, por que a chamou assim agora? Você não tem um apelido para ela?
“Ele não gostou disso!”
—Ah… sim… a Queen… aliás, o que você acha? Queen, que curso você queria fazer mesmo?
—Medicina, eu queria trabalhar em um hospital grande e atender o maior número de pacientes que pudesse todos os dias.
—Realmente gosto disso em você, sempre pensa nos outros, acho que a minha maior sorte, dentre todas elas, foi ter te conhecido.
E uma ainda maior, foi que com aquelas palavras, eu a fiz sorrir.
“Sim!!! Um sorrisso que cria 1.21 gigawatts!”
O rosto dela parecia ter nascido pronto para usar aquela expressão, parecia que os arredores dela brilhavam com aquilo, como se estrelas estivessem ao seu redor.
—Eu queria tirar uma foto disso! Por que não trouxe uma câmera!?
Alguns minutos passaram até minha euforia de ver aquele sorriso passar.
—Queen, você conhece aquele restaurante? Nunca fui nele de verdade, mas parece muito bonito.
—Também não fui, mas parece bem caro, au fait, digo, falando nisso, como nós vamos pagar?
O pai dela ajustou o retrovisor, os olhos dele me encaravam indiretamente assim.
—Ah… eu pago claro! É assim nos filmes antigos, o homem sempre paga a conta.
—Está bem, se você diz.
O retrovisor foi ajustado de novo, escapei pelo menos dessa.
“Eu não planejava fazer diferente, mas ainda assim deu medo que fosse dizer a coisa errada...”
—Aliás, Queen… talvez essa não seja uma boa hora, mas por que você aceitou o meu convite mesmo?
—Eu gostei do que você fez no navio, acho que desde lá você poderia ter me pedido, desde lá iria aceitar.
—É? O que eu fiz mesmo? Acho que minha memória é bem ruim…
—Você mostrou que não importa o que aconteça comigo, você vai ter a coragem de ir para a frente do perigo e me salvar, isso me surpreendeu. Você me surpreendeu com isso.
—O que… ah, sim… agora lembrei…
—E também porque você mostrou que no final, sua maior prioridade é conosco, não com mais ninguém, essa determinação e confiança me conquistaram um pouco.
—Obrigado, eu só estava cuidando dos meus amigos, isso é natural, não é?
O carro continuo andando, o cenário se movia mais rápido doque as rodas, não compreendia exatamente como aquele veículo funcionava.
Era como uma bicicleta? Tinha algo como pedais? Ou talvez fosse como um foguete…?
Durante um pensamento, ele parou bruscamente e senti que tinha saído do assento por um instante.
—Ah!
—Pai, vou olhar uma coisa, converse um pouco com o Jack.
“O que?”
—Certo.
“Hum?”
Pisquei uma vez e a Franziska já tinha saído, não sei o que ela podia estar fazendo.
Lembrei que tinha visto um desses cintos de segurança num filme e consegui me soltar, mas ela pediu para conversar com o pai dela.
Ele não ajustou o retrovisor para me olhar nos olhos, só podia ver a testa dele, o cabelo da mesma cor que o Ritte tinha, mas já dando sinais de perca da cor.
“O que eu digo?… Nunca perguntei nada sobre ele, mais, ele certamente não gostou de mim…”
—Jack… ah… como posso falar isso?…
A voz dele estava cansada, nem consegui me assustar quando chamou o meu nome.
—O que? Falar o que?
—Jack, vou confiar em você. Apesar de você ser um delinquente que arranja brigas a noite e rouba lojas de conveniência…
—O que?! Como… você sabe disso…?
“Quem foi o desgraçado!? Eu vou matar ele!”
—Jack, você não tentou ser discreto, mas isso me diz uma coisa, você está pronto para sofrer as consequências do que fez. Isso é bom. E mais que isso, o Ambrose e a Franziska falaram muito de você, não tenho dúvida que seja verdade, você prioriza sua família e amigos acima de tudo.
—Err... eu acho que sim, é natural para mim, eu acho.
“Isso é natural de um humano, não é...?”
—Jack, o que aprendi no meu trabalho é que se você será punido por não fazer algo, se o fizer, deverá ser recompensado, não recuse sua recompensa. Eu vou confiar em você com a Franziska, porque ela me disse que eu poderia o fazer, porque o Ambrose disse que eu poderia o fazer e porque você me mostrou que poderia o fazer.
No fim, ele só estava me assustando como uma espécie de teste, ou algo assim…
—Obrigado… eu vou entrar no restaurante, vou voltar com ela antes das 10, isso está bom?
Ele acenou com a cabeça e um barulho soou de todos os lados.
Não sabia o que era, porém um sinal dele me informou que as portas estavam abertas agora.
—Jack, agora irei para um compromisso que tenho do trabalho, o Ambrose me disse que você tem uma carona pronta para quando saírem, isso é verdade?
“Ambrose!? Ritte!? O que você preparou?!”
—Sim. Ele inclusive me ajudou com isso.
—Jack, uma última coisa, valorize todos os seus amigos e as pessoas que te ajudaram, um humano não é nada quando ele está sozinho.
Ele falou quando eu já havia saído do carro, logo depois ouvi o motor e vi que já havia partido para longe.
Algumas palavras dele repetiram-se na minha mente, como se ressoassem com outras que já ouvi.
“Amun… aquele desgraçado, estou lembrando dele logo agora, ainda bem que o mandei cair fora, se não provavelmente nem teria tempo de vir para esse encontro”
Fui para dentro do restaurante, no caminho fiz uma ligação muito necessária:
—Ritte! Você conseguiu mesmo uma carona para a gente? Eu não pensei em nada disso!
—É claro que sim, você vai gostar quando ver.
—Valeu, estou te devendo muito depois dessa.
Desliguei e passei pela porta.
—Uau! Isso é demais!
A porta parecia levar a outra dimensão, de uma parede para outra deviam ser quilômetros, as mesas também eram esparsas, dentre as grandes distâncias cobertas do branco do chão e o brilho dos candelabros pelo teto, aqueles panos da cor de neve adornando as mesas era o que me levava a elas.
Tinha reservado uma mesa, claro, olhei para onde ela deveria estar e corri.
De alguma maneira, a Franziska havia achado o lugar antes de mim.
Mesmo sendo uma distância enorme até a mesa, senti ter percorrido aquele terço de quilometro em menos de um minuto.
“Deve ser alguma ilusão de ótica.
—Foi mal a demora, eu perdi tempo demais… nem deu tempo de puxar a cadeira para você e tudo…
—Não precisa de tudo isso, você já indo bem nesse papel de cavalheiro.
“Mesmo em algo tão abstrato… como aplicar esse conceito de 80%?”
Me sentei, estava agora na mesma mesa que a Franziska, o pano brilhante como neve nos separando, ao redor as outras mesas se afastavam por quilômetros e quilômetros de nós, as paredes nem pareciam mais alcançáveis, a luz dos candelabros também dava a impressão de estar fraca, como se aquele pano por cima da mesa que estivesse nos iluminando.
Da enorme distância, um homem de terno veio e a atravessou em muito menos tempo do que parecia possível e nos entregou dois cardápios.
Normalmente o que olho primeiro no cardápio é as fotos das comidas, porém dessa vez, algo me saltou muito mais, os preços.
“Isso é permitido? Como eles cobram tanto pela comida…? Será que é boa assim?…”
—Queen… peça o que quiser, acho que posso pagar.
—Você não gastou aquele dinheiro em nada idiota, não é?
—Claro que não…
“Tirando subornar um atendente do restaurante, além de qualquer coisa extra que o Ritte tenha planejado”
A Franziska falou alguns nomes em outras línguas, a pronuncia foi boa suficiente que não tive certeza do que ela falou.
Então ela entregou o cardápio.
—E você, jovem rapaz?
—A mesma coisa que ela pediu.
Eu ri com minha própria fala enquanto entregava o cardápio para ele.
O garçom me olhou um pouco torto, por alguns momentos enquanto arrumava os cardápios entre as mãos. Então falou:
—Poderia retirar essas presas postiças? Não é essa a atmosfera que desejamos ter aqui.
E essa frase, ela também ressoou como algo que já tinha ouvido, as provocações dos arruaceiros que tinha dado uma surra naquela noite.
—O que? Você quer que eu tire isso? Por que você não vem e tira então?! Tenta arrancar eles para ver se você consegue!
—Ah… com licença…
Ele se virou com pressa e foi para longe em passos rápidos.
—Aí Queen… droga, eu acabei indo contra aquele garçom… isso vai ser um problema e…
Meu telefone começou a tocar.
—Quem vai te ligar agora?
—Boa pergunta…
Saquei o telefone e o coloquei no meu ouvido, então atendi.
—Jack, sim, eu vi você gritando com aquele garçom e eu já entendi o motivo, não se preocupa que eu vou resolver o problema para você, continue na mesa com ela.
Ele desligou antes que pudesse falar algo.
Guardei o telefone, me ajeitei de novo na cadeira e pensei mais uma vez.
“Uau... até parece que ele previu o que ia acontecer...”
—Quem era?
—Foi só a carona, um aviso qualquer… espero que a comida saia logo.
—Hum…? Aquilo do garçom...
—Pensando bem, não é problema, ele não deve fazer nada mesmo.
—...Já que você vai esperar calmo, posso fazer o mesmo... eu acho.
Me inclinei para trás, imaginando se o Ritte tinha noção de o quão importante seu papel era.
—Mas Jack… você sempre fica irritado quando falam dos seus dentes, não devia… espero que não se sinta mal, mas não deveria se acostumar com isso?
—Ah… sim, com certeza. Eu não ficaria ofendido com algo que você me dissesse, mesmo que fosse uma crítica, mas bem… talvez justamente por sempre ter sido assim que eu sinto tanta raiva.
—Fale mais, normalmente você não fala muito de você fora o filme ou livro que você leu no fim de semana e tudo…
—É mesmo? Eu sou esse tipo de pessoa…? Devia ter prestado atenção. E err… foi a muito tempo, não foi? Parece que ninguém lembra exatamente do que houve, mas consigo lembrar do que dizem…
Uma memória muito distante, quando eu era bem mais novo, porém já tinha essas presas, foram elas que fizeram tudo estar como está.
Lembro de um sentimento, um de raiva, essa é uma memória chave para mim, uma impossível de esquecer, por mais que eu queira.
—Parece que arrumei encrenca com outro garoto muitos anos atrás, acho que isso não é bem verdade, porém todos disseram que tinha usado esses dois dentes para arrancar um pedaço da pele dele, que o garoto tinha ido ao hospital.
—Hum…?!
—Não que seja totalmente verdade, eu percebi que esses dois dentes não são mais fortes que dentes normais e sendo uma criança ainda… me soa estranho eu consegui fazer um feito desses…
Olhei para o lado, tentei lembrar de mais alguma coisa daquele dia, porém a data, o ano exato, tudo havia se perdido a muito tempo, esqueci tudo, menos o que realmente desejava esquecer.
—Independente da verdade, as pessoas falaram que eu era um monstro, com esses dentes e tudo, foi fácil de dizer que era como um vampiro.
Não era bom lembrar, porém até agora isso era importante, para onde fosse, esses nomes iriam me perseguir, assim seria.
—Acho que foi por isso que estou no círculo externo, mas… não é um problema, estando no último ano, não deve haver mais problemas para mim.
Meus olhos deslizaram para longe do olhar da Franziska, pela mesa, suas mãos e...
—Ei, você não lembra mesmo de mais nada dessa história? Tem certeza?
De volta para seus olhos:
—Sim, desculpa… nem foi a tantos anos assim pensando bem, mas ainda assim não consigo lembrar de mais nada.
—Ah… pas de problème, digo... não tem problema.
Os olhos dela deixaram de me encarar.
—Ei não deixe de… ah! A comida.
Outro homem de terno veio, dessa vez com fatias de bolo e algum tipo de carne branca com plantas em cima, era um nome estrangeiro, não tenho como lembrar.
—Jovem rapaz, perdão pelo o quão rude meu empregado foi.
“Ritte… como você fez isso?”
—Não… ele não tinha como saber que eu nasci assim, é normal achar que era um enfeite.
—Agradeço pela compreensão.
Ele pôs os pratos na mesa, os talheres eram de prata, mas pareciam brilhar tanto que faltava apenas um tom levemente distinto para que parecesse feitos de diamante.
—É bem chique mesmo… acha que combina comigo?
—Você ficou bom nesse terno.
Ouvi aquilo, ouvi mais uma vez na minha mente, ouvi muitas outras vezes.
“Ela finalmente elogiou o meu estilo! Sim! Nunca vou esquecer esse dia!”
—Sim, você também está muito bonita nesse vestido, eu talvez devesse tirar uma foto para não esquecer… droga, eu realmente devia ter trazido uma câmera…
—Ainda bem, eu o comprei só para esse encontro.
—Você o que...?
Tirei os olhos dos talheres, quase deixei eles caírem no chão...
—O Ambrose disse que você iria me levar para esse restaurante, usar terno e tudo, então… escolhi esse porque imaginei que você iria gostar, o Ambrose falou que ele fazia o seu estilo.
“De novo ele, acho que o Ritte foi quem mais teve trabalho para fazer esse encontro funcionar… ele sempre foi tão prestativo assim? Não, não é isso, acho que ele realmente se importa comigo, com a irmã dele isso é ainda mais óbvio”
—E aliás, o que você achou do terno sem gravata? Achei que era o que mais ia combinar.
—Hum… realmente, a cor ficou boa também.
—Sim, meu pai disse que… usou ele uns 20 anos atrás, eu gostei também…
Para não continuar falando, fiz um corte rápido na carne e pôs um pedaço na minha boca.
—Não coma rápido demais.
Ela se juntou a mim, ela esqueceu do que estava falando quando tínhamos passado para a torta.
—Queen, você não parece aguentar comer muito, eu apesar de querer… essas porções não são grande coisa, é realmente bom, mas não é único como esses preços me sugeriam.
—Vamos pedir a conta?
—Sim… um segundo, eu vou até lá fazer isso.
Me levantei da mesa.
—Volto assim que possível.
Atravessei aquele restaurante mais uma vez, a distância foi cortada num espaço de tempo anormal, deveria ter sido bem mais, porém reclamar seria má fé da minha parte.
E durante a travessia, encontrei alguém entre minha mesa e o destino.
—Ritte!
—Jack, como está indo?
Ele se juntou e começou a andar comigo, no meio de todas aquelas mesas brilhantes, algumas ocupadas e outras não, nós não chamávamos atenção.
—Muito bem! Você arrasou nesse planejamento.
—Eu sei. Já está indo pagar a conta?
—Sim, você preparou uma carona para nós mesmo?
—Claro, aluguei um carro autônomo para vocês dois, aliás, aqui a chave dele, já ajeitei os controles, você vai entender quando vê, é igual aquele fliperama... presque...
Era como a chave do carro do pai deles, acho que aquele não era autônomo, então… não devia ser tão complicado.
“Autônomo significa que ele vai fazer tudo sozinho, não é? Deve ser fácil”
—E Ritte, o que você fez com aquele garçom para ele calar a boca depois que eu xinguei ele?
—Nada demais, só agir como se você fosse rico e acostumado a passar ordens para os outros e dá para resolver esse tipo de coisa.
“Isso não foi muito claro…”
—Valeu, Ritte, deixa o resto comigo.
Cheguei a um balcão onde um homem de terno que cobria o rosto esperava alguém para atender.
—Traga a conta para a minha mesa. Por favor.
Ele afirmou que faria como pedido.
Assim que voltei já estava acostumado com a longa caminhada que fazia por aquele restaurante, ela pareceu sequer durar um minuto.
Me sentei novamente.
—Queen, você sabe como um carro autônomo funciona?
—Bien sur, claro! Eu já os usei várias vezes, é um pouco infeliz que a criação deles estava em seu pico logo quando os ostium vieram, mas por que? Você vai comprar um?
—Claro que não, eu tenho minha bicicleta, mas nós vamos voltar para casa em um desses, olha.
Mostrei a chave para ela.
—C'est chouette, hein?... Você alugou só para hoje?! Por quantos dias?!?
“Ele não me disse…”
—Só por hoje, por quê…?
—Coûteux. Esse é bem caro, eu ouvi que ele tem uma inteligência artificial e vários mecanismos que o permitiriam correr à duzentos quilômetros por hora mesmo em um terreno acidentado.
—Hum… isso pode ser divertido… vamos pagar a conta e ir brincar com ele um pouco.
Apesar do garçom ter me oferecido um cartão, eu não o tinha feito ainda e tive de pagar em dinheiro, me sentir inapropriado fazendo isso, talvez por ter puxado muitas notas da carteira.
Quando levantei, um pensamento me ocorreu ainda.
—Ei, Queen… só por enquanto estivermos indo até o carro… podemos ir de mãos dadas?
Levantei a minha mão para ela, minha garganta se moveu como se ainda tivesse comida presa nela.
A Franziska fez um rosto branco por uns instantes, então uma expressão pensativa.
Mas por fim:
—Não se acostume com isso, vou esperar ainda mais de você a partir de agora.
Então ela pôs a própria mão sobre a minha, a senti outra vez e era um pouco quente, um calor que me cobria e dava sentido aquele momento, me lembrava porque estava vivo.
A Franziska fez um aperto, eu a segui e o fiz também.
—Jack, por que você está tão frio? Quer ir para enfermaria amanhã?
—Não sei… acho que meu corpo é um pouco gelado naturalmente… desculpa por isso.
—Está tudo bem, é confortável, mas vamos logo, eu sei que você quer se mostrar, mas não tem ninguém da escola aqui.
—Poderia ter, essa é uma cidade pequena…
Olhei ao redor, mas realmente não encontrei nenhum rosto muito familiar, claro, quase todos reconhecia vagamente, mas era apenas isso.
—Bem, isso não muda que tenho uma flor do meu lado, vamos para o carro.
Assim, o dia que iria ter de lembrar para sempre terminou, ela me reconheceu e aceitou que segurasse sua mão até o carro, nós andamos como um casal até lá.
“Por que minha vida tem que mudar? Eu queria viver ela inteira assim”
Cantar e tocar guitarra com a banda, me envolver em problemas com o Nacrit, fazer palhaçadas com o Ritte, ajudar nas invenções da Une, tentar entender a Roi, ser feito de cobaia pela doutora Kutt, assistir as aulas do professor Forscher, até arrumar briga na escola e claro, viver meu romance lento com a Franziska.
“Por que isso tem que mudar? Não está bom assim?”
Pensei nisso enquanto a Franziska configurava o carro para nos levar de volta para casa.
Nós chegamos, resolvi deixar o carro na frente da casa para não ocupar a garagem e fazer uma má impressão.
A Franziska, claro, tinha uma chave da casa e abriu.
—Estamos de volta!
Anunciei, esperando que o Ritte me respondesse.
“Espera… cadê ele?”
—Franziska! Um segundo, fique em casa!
Algo estava muito, muito errado, eu havia visto ele quase tanto quanto a Franziska a pouco, ele deveria ao menos ter ligado quando eu saia com o carro, eu podia não ser nada esperto, mas conhecia meu maior aliado, meu melhor amigo. Eu conhecia o Ritte e...
“Tem algo ruim acontecendo...!”
Corri de volta em passos apressados para o carro, puxei a porta e me esgueirei para chegar ao banco da frente.
Liguei o meu celular de novo, deslizei pela minha lista de contatos até…
“Ritte”
Apertei o primeiro botão para ligar para ele.
Normalmente ele responderia antes do segundo toque, mas dessa vez ouvi o terceiro, o quarto, o quinto e todos os que seguiram…
Olhei para o carro, havia um mapa da cidade, como um que ficava perto da fronteira, na placa com o nome dela.
Apertei na parte que parecia ser de onde viemos e o carro começou a andar sozinho.
Antes que pudesse ligar, meu próprio telefone que tocou.
“Ritte… o que houve?”
Com medo do que haveria, com um segundo de hesitação, eu atendi.
—Ritte?! Onde você está!?
—Eles vieram… chame ajud…
Ouvi um impacto do outro lado, instantes depois a ligação foi cortada no meio.
Na mesma hora o carro parou e percebi que lá não tinha mais ninguém.
E dessa vez vindo de longe, do fim da rua, o som de tiros estavam soando, lembrava ainda daquelas armas arcaicas sendo disparadas, era quase igual aquilo.
“Droga! Droga!”
Quando pensei em correr, percebi que já era isso que estava fazendo, então corri ainda mais rápido, não ia cansar e não ia sentir dor, por isso…
“Já sei”
Alcancei o bolso da minha calça, peguei o frasco e o abri, na pressa apenas engoli todas as pílulas e joguei o frasco no chão.
Se pensasse em dar um passo, iria dar mais 5, se pensasse em dois passos, seriam mais 15, era esse o pico de energia que tinha atingido.
Parei, algo tinha me parado.
Havia pessoas a minha frente, caídas no chão e ainda em pé, por um fio ainda.
Algum conflito estava ocorrendo lá, porém não pude ver o motivo, já estava me movendo outra vez.
Enquanto corria, tentava entender o porquê, meu corpo agia antes que pudesse o compreender.
Percebi então, a voz do Ritte vindo da floresta, na direção em que corria.
“Os corsários! Eles vieram até aqui, de alguma forma… não posso deixar o Ritte ser levado também!”
—Ei! Aqui!
Ouvi a voz dele outra vez, vinha do meu lado direito, quando pensei nisso, já havia me virado e corrido naquela direção.
A noite estava densa, meus olhos pareciam ter sido ainda mais adaptados graças ao remédio da doutora, mas mesmo absorvendo toda a luz que entrava pelas falhas das arvores, a luz fraca de uma meia-lua, nem de longe era suficiente para identificar o que estava perseguindo.
Quando me aproximei, o Ritte estava sendo carregado por uma silhueta, alguém de chapéu e sobretudo.
Ela então soltou o Ritte e se virou para mim.
Uma lâmina brilhou na escuridão, parecendo não refletir a lua, mas fazer sua própria luz.
Parei assim que aquela luz atingiu o meu olho, tinha acabado de entrar no alcance daquela lâmina, no mesmo instante recuei um centímetro apenas, minimamente fora do alcance.
Assim que ela sacou a espada, então reconheci quem achei como a mesma pessoa do navio, no meu estado de percepção aumentada, entendi imediatamente.
“Se der mais um passo, eu vou morrer”
Ninguém precisou falar isso, era claro, a técnica e aqueles remédios, seus efeitos colaterais, foi o suficiente para saber.
Quando estava em seu alcance, poderia ter morrido, não podia imaginar o motivo do corte não ter sido feito. Só podia repetir aquele pensamento.
“Quando receber outro golpe como aquele, o choque vai ser suficiente para me matar”
Por um segundo refleti sobre o quão próximo estava de morrer, assim que ia tentar formular algo para salvar o Ritte sem entrar no alcance da lâmina.
Não tão longe, menos de 100 metros dali, um tiro soou.
—AHHHHHHHHHHHHH!!!
Tinha tomado mais do que o necessário, meus sentidos estavam tão sensíveis que o barulho fez com que me recolhesse e caísse ao chão, como se meus ouvidos tivessem sangrando. E meus tímpanos danificados permanentemente.
Olhei para onde o Ritte devia estar.
Ele novamente estava sendo levado para longe, se perdendo em meio à escuridão da floresta.
“Espera…!”
Corri e corri para alcançar a silhueta novamente, fiz a primeira coisa que pensei, sem poder me aproximar mais, eu peguei uma pedra, a primeira que achasse a atirei em direção à sombra.
Foi uma jogada feita com muita força, a pedra se conectou em uma ponta especialmente afiada e cheguei a ver uma gota de sangue cair ao chão, porém isso jamais pararia aquela pessoa.
Corri por muito mais tempo, usei de tudo que tinha, esperava que eventualmente poderia alcançar aquela sombra, quando se cansasse de correr.
Mas enquanto a perseguia. Eu pisquei,
E quando abri meus olhos, ela já havia sumido, não ouvia mais passos, folhas sendo perturbadas, nem o vento indo numa direção estranha.
—VOLTE AQUI!!! RITTEEEE!!
O maior grito que já fiz e não importava o quanto tentasse ouvir, ninguém me respondeu.
Encarando que tinha perdido, que o Ritte foi levado por um inimigo, como no navio, senti muito sono e meus sentidos se foram um por um.
No chão e sem sentidos, ainda fiz uma promessa, uma que cumpriria não importando o custo:
—Ritte… eu vou te achar… eu vou… te salvar…
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