Capítulo 9

Pela Vida, em Nome da Morte

Dia 20 de maio.

Não tive um sonho, não houve tempo para sonhar.

Foi apenas uma visão, uma em que lembrei o que tinha de fazer.

“Ritte! Eu vou te achar!”

Então, como se compartilhasse meus sentidos com outra pessoa, me vi por um instante olhando para algo absolutamente reconhecível. Um monumento histórico. A Torre Eiffel no pôr do sol, então...

—Ah!

E acordei na mesma hora.

Numa sala fria, o cheiro de metal sendo ofuscado pelo cheiro de café forte, quente e espalhado por todo o ambiente.

“Que lugar é esse? Eu tenho que…”

Me movendo, jogando pernas e braços para todos os lados, sem entender onde estava, mas já buscando uma saída, me vi descendo repentinamente, uma queda de sequer um metro, então...

—Doutora?

Só havia uma pessoa que chamava assim.

Era a doutora Kutt, não com o jaleco de sempre, mas roupas bem… normais talvez não fosse apropriado, porém era menos estranho do que qualquer coisa que já vi usando. Parecia um pijama na verdade, calças e camisa listradas, as duas com o mesmo padrão, sim, quando minha visão clareou, eu tive certeza.

—Hum…

Ela sentou na cadeira onde sempre ficava durante minhas consultas, eu percebi que por minha vez, tinha acabado de cair da cama que ficava durante as consultas.

—Você usou duas pílulas de uma vez, não foi?

—O que…? Por que eu estou aqui? Cadê…

Tentei me levantar logo, devia conseguir, mas... meus braços estavam fracos demais, pareciam prestes a se quebrarem, então cai outra vez ao chão e...

—Me responda primeiro e ouça o que tenho a dizer, depois me faça as perguntas, ok, ok? Bastante coisa aconteceu, mas minha prioridade é a sua saúde.

—…

—Vamos, você usou duas de uma vez?

Isso não era uma consulta, ainda assim... as únicas perguntas feitas eram sobre o que eu havia feito sobre aquelas pílulas e...

—Eu não sei… talvez?

—Foi como imaginei, observe.

Ela se virou para a mesa onde vários papeis, muito mais do que da última vez, estavam.

—Sim, sim, obrigado pelos dados que isso me proveu, porém uma dose dupla é suficiente para te colocar num estado… bem ruim, ainda mais com todos esses cortes e hematomas… foi o suficiente para te colocar em um estado semelhante a um coma, porém foi um curto, você já levantou.

Olhando para meus braços, pernas e passando a mão no meu pescoço, eu tinha realmente me machucado muito na última noite.

“E não percebi… de onde vieram esses? Eu nem cheguei a lutar de verdade com ninguém... provavelmente”

—Sim, é possível que seu senso de dor tenha sido inibido, não é algo impossível, há pessoas que nascem assim, sem sequer poderem sentir dor.

Finalmente, eu pus um dos meus joelhos no chão, eu enxerguei a doutora, eu olhei para mim mesmo e...

—Mas eu sentia dor, meus ouvidos pareciam sangrar quando ouvi um… barulho alto…

“Será que falar dos disparos seria uma boa ideia?”

—Imagino, então talvez não tenha sido exatamente algo que inibisse a dor… nesse caso, caso, caso… pode ter sido apenas um estado de foco maior, um tato levemente perdido e audição seriamente aumentada fez algo que perturbasse esse sentido muito mais notável que qualquer outra coisa, entende?

—Não preciso entender, só quero saber o que fazer.

—E você não precisa saber o que fazer, eu terminei de produzir mais daquelas pilulas, usando os dados coletados, talvez, talvez elas tenham menos efeitos colaterais.

“Talvez?”

Ela continuo ao tirar algo de uma gaveta e me entregar.

Uma cartela, uma com apenas uma pílula.

—Demora tanto assim para fazer só uma dessas?

—Não, eu fiz bem, bem mais, é uma questão de segurança.

—O que?…

Não gostava para onde ela parecia querer chegar, nem a forma que a doutora parecia pronta para sair. Botando a mão no rosto e tomando mais café, até derramando um pouco pela própria roupa.

—Ai… eu tive que ficar a noite inteira conduzindo exames para ver o resultado de consumo duplo e não é nada bom, considerando que eu dei instruções precisas e você não as seguiu… achei melhor lhe restringir de forma mais direta, é como um castigo.

—Doutora! Por favor! Eu vou precisar de mais que isso!

—Então espere, espere e talvez depois de um tempo e alguns favores, eu possa reconsiderar. Por agora nada vai me fazer mudar de ideia, isso é sobre a sua saúde, você pode ser bem resiliente, mas não é imortal e agora que sabe que tomar mais dessas pode aumentar os efeitos, eu consigo imaginar que você tente engolir três de uma vez, ou, ou pior. A consulta acabou… o que você ia perguntar…?

Ela falou algumas coisas que não esperava daquela doutora suspeita, ela realmente não parecia ela mesma naquele dia, talvez... tivesse algo que me passou despercebido? É o que penso por agora.

—Arg…

Pareceu melhor desistir dessa vez e perguntar logo o que aconteceu.

—Doutora, como eu vim parar aqui?

—O Nacrit lhe trouxe, pediu para que eu olhasse você… era muito tarde da noite, eu tive de vir assim para a clínica pela pressa dele, mas… não importa, vá falar com ele e veja o que houve.

—Você conhece aquele homem? O Nacrit?

—Sim… não é nada especial, não fomos para a guerra juntos nem nada… agora vá, vá, eu daqui a pouco preciso voltar para casa e… dormir…

A doutora pareceu ter perdido a consciência por um momento, lembrei que tinha muito para fazer e pouco tempo para ajudá-la.

Sai de lá as pressas, segundo ela, só havia um homem para responder minhas perguntas, Imen Nacrit e...

Pensei que teria que andar muito, mas logo do lado de fora da sala de consulta.

—Ei, você dormiu bem?

O Nacrit já estava lá.

—O que houve ontem? Aqueles eram os corsários?

—Não conheço nenhum grupo com esse nome. Porém talvez possa os chamar assim a partir de agora…

—Cadê o Ritte?

O sorriso dele sumiu, ele parou de balançar as pernas e seu olhar ficou mais focado.

Imen se levantou...

—Me perdoe, eu estraguei tudo.

—Nacrit?! Onde ele está?!

Minhas mãos alcançaram a gola dele.

—Ele foi levado. Eu posicionei o necessário para defender a cidade de um possível ataque, mas não esperava que eles estivessem atrás de um garoto qualquer.

—Ah…

E o soltei, não havia motivo para continuar lá.

Me afastei e fui em direção a saída.

—Para onde você vai?

“Aquela visão… eu vi, eu sei onde o Ritte está…”

Algo bloqueou a minha passagem, o Nacrit tinha ficado na frente da saída.

—Me deixe ir.

—Você vai tentar achar o seu amigo?

—Eu sei onde ele está! Me deixe…

—E você espera resgatar ele sozinho? Acho que tanta coragem é admirável, mas seria ruim desperdiça-la numa coisa dessas.

—Não adianta tentar planejar nada, eu não faço isso. Vou usar tudo que tenho para fazer um resgate! Eu só preciso bater nos corsários que aparecerem até achar ele!

—Hum… não é uma má ideia, mas tenho certeza que poderia haver um plano que não envolvesse você morrer entre o meio e o fim.

—Já disse, eu não faço isso. Minha única força é que eu vou fazer isso e farei sem pensar.

Imen deu passos para trás, a porta se abriu para ele e indo embora, deu sua fala.

—Não espero que mude isso, você é do tipo que apenas faz coisas, mas seria bom arranjar alguém para pensar por você. Siga as placas e você pode chegar onde quiser.

Ele não iria dizer para não ir, porém não deixaria que fosse para minha morte, esse era o tipo de pessoa que protegeria uma cidade, alguém que preserva o equilíbrio, mas que pensa além disso.

Interferir e não interferir era o conflito que ele encarava. Mas um que Nacrit já havia decidido como enfrentaria anos atrás.

Dia 21 de maio.

Paris, a capital da França. Foi onde cheguei na manhã daquele dia.

“Esse carro realmente foi uma boa ajuda, ainda mais que pude trazer minha bicicleta na mala”

Devia ser algo como uma da tarde, nas últimas horas eu dormi no carro autônomo enquanto ele me levava para Paris.

“Ainda não é de noite, porém não posso esperar a noite chegar, vou atacar em meio ao dia, não sou um covarde”

Pensava isso enquanto os meus arredores mudavam rapidamente, pedalando pelas ruas de pedra e circundando o cenário homogêneo, de construções milenares as quais pareciam circundar-se de outras iguais, até as ruas pareciam mais difíceis de atravessar por pedras mal colocadas por lá, então havia ruas lisas como vidro e construídas próximas de prédios enormes com arquitetura futurística.

Quando cheguei perto da Torre Eiffel, a única referência que tinha, percebi algo claramente.

“Na minha visão ela estava muito longe daqui… vou precisar me afastar do centro”

Enquanto dormia tive outra visão da Torre Eiffel, tinha certeza que o Ritte estava em Paris, porém aquela visão parecia muito vaga.

Me virei em uma direção.

“Espero que essa seja a certa”

E comecei a pedalar mais uma vez teria que achar ele o mais rápido possível e executar o resgate imediatamente. Foi o que decidi.

Pedalei por mais uma hora, dando algumas viradas quando sentia ou ouvia algo estranho, porém elas não eram tão produtivas, na verdade, não consegui nada delas.

Até quando já estava na distância perfeita, a torre parecia estar igual as minhas visões.

Enquanto passava por uma rua, já quase as quatro da tarde, eu senti meus pés pararem de pedalar e minha visão escurecer, os prédios voarem enquanto meus braços soltavam o guidão da bicicleta.

“Já estava na hora disso acontecer…”

Cai da bicicleta e rolei algumas vezes no chão.

Pensei que não era hora de perder tempo caindo, que o Ritte precisava de ajuda, por isso recobrei os sentidos em um segundo.

Mas notei algo estranho, tinha caído junto comigo, logo abaixo de mim havia algo que não era o chão, era como... um pano.

—O que…?

Levantei metade do meu corpo e tentei alcançar aquilo, quando o segurei o trouxe para minha visão e o reconheci imediatamente.

Um cachecol azul-claro com dois furos perto da ponta.

—…!

Olhei ao redor, tinha um prédio de dois andares logo ao lado, mas parecia abandonado por alguns anos. Havia janelas quebradas e barricadas com tabuas, a pintura tinha perdido cor também e algumas plantas de cor muito escura pareciam crescer, especialmente perto da porta.

—Que sorte… então foi aqui que resolveram parar…

Enquanto ia até a porta, coloquei a mão no meu bolso e chequei onde meu telefone estava, confirmei, bem onde deveria.

Cheguei na frente da porta, ela parecia estar sendo devorada pelas plantas verde-escuro, como as pessoas que lá agora residiam, senti algum nojo, raiva também.

Tomei aquela pílula que a doutora havia me dado ainda naquele dia e respirei profundamente. Meu corpo se encheu de força, qualquer hesitação de um instante atrás tinha sumido.

—RITTE!! Eu vim te salvar!

Disse isso e chutei a porta, as trancas já deterioradas pelo tempo e por aquelas plantas escuras se soltaram num instante e a porta voou para dentro da construção.

Um corsário estava bem a frente e ele foi derrubado na mesma hora.

Da entrada consegui observar uma escada, algo em avisava que o Ritte ficaria no último andar, por isso a escada foi a única coisa que prestei atenção.

Corri até a escada sem dar atenção alguma aos meus arredores, ouvi algumas vozes, porém nada mais.

Enquanto subia a escada, um outro corsário estava no meio do caminho, mas para minha sorte, ele não carregava arma alguma.

Pulei por baixo de um dos braços dele e passei sem dar tempo de ser atacado pelas costas. Eu continuei procurando a próxima escada.

Tinha três portas naquela sala, mas imediatamente não consegui a visão da escada.

E assim que notei a janela a minha frente aberta e um corsário entrando na sala, dessa vez armado com um revolver.

“Vai ter que ser”

Partir junto, o costume de me machucar não me deixou temer pular da janela, mesmo sem saber como não iria cair.

Com o vento parti e pulei pela janela, no ar, teria visão de toda a rua, mas sem tempo, voltei meus olhos para o prédio e...

—Isso!

Agarrei na primeira coisa que minhas mãos alcançaram, uma planta que parecia ter estabelecido aquela parede como seu habitat natural.

“Que sorte! Essa deve ser muito forte para me aguentar!”

Comecei a escalar para o próximo andar, notei como havia outra janela logo acima, agarrei de vinha em vinha, elas pareciam fixas como parte do prédio, até alcançar a janela.

“Droga!”

O quão estupido podia ser? As janelas do último andar estava barricadas, não havia como atravessar.

Agarrei a estrutura da janela e apenas pensando em acabar com aquele obstáculo, tentei derrubar aquelas tabuas apenas jogando meu braço contra ela várias vezes.

Ele ia, toda a minha força se voltava contra mim, meu braço fraquejava e a tabua sequer se movia.

—Saia da minha frente!

Segurei do outro lado da estrutura com aquela mão, ela tremia, meus dedos quase se soltaram.

Pôs os dois pés se apoiando dentre as vinhas, quase escorreguei por o quão umidas que eram aquelas plantas, mas antes.

Avancei diretamente contra a janela, levei minha cabeça até ela e usei todo meu impulso para aumentar a força do golpe.

Minha visão estava turva e ao mesmo tempo aumentada, mal conseguia focar na janela, mas percebi que ela não tinha quebrado.

—Mais uma!

Outra vez, fui de cabeça contra aquelas tabuas.

Teve o som de madeira quebrando em pedaços e algo pesado caindo ao chão.

—Eu não vou parar!…

Me levantei, aquele golpe bruto tinha também perfurado minha testa de forma que metade da minha visão estava em um escuro avermelhado, graças a todo o sangue que havia descido pelo meu rosto.

Contudo, ainda pude me levantar, só havia um corredor, uma entrada e a escada na minha frente, meu caminho era óbvio.

Lentamente, passo por passo, cheguei lá, dentro da sala.

—Ritte!

A sala era totalmente coberta e não tinha fonte de luz alguma no interior.

Porém meus olhos o acharam, em meio ao sangue e a escuridão.

Então quase fui cegado, naquela sala havia uma lareira, ela se acendeu repentinamente e por cima dela, sem se encostada pela luz, identifiquei aquela silhueta de chapéu e o sobretudo.

—Você de novo…

Disse isso e notei que o sangue já estava na minha boca, escorrendo até o meu queixo.

—Não consigo acreditar, em menos de um dia você conseguiu me achar… isso é uma especialidade sua?

As chamas pareciam se coordenar com as palavras dela, o fogo obedecia a aquela silhueta, que dessa vez dizia tudo num tom claro, brusco e afiado, porém absolutamente compreensível, mesmo não passando de um sussurro.

—Isso não importa. Como cheguei aqui não importa. Apenas o porquê…

Engoli o pouco de líquido que estava na minha boca no começo da operação, ele lentamente estava fazendo efeito, estranhamente, a dor parecia ficar menos aguda conforme o tempo passava.

Lentamente andei em frente, Ritte estava a alguns metros da lareira.

—Pare ai mesmo!

Me virei para ver outro corsário, dessa vez com um fuzil em mãos, ele estava prestes a atirar, ia desviar da melhor forma que podia, porém antes disso.

—…!

Uma lâmina com um brilho próprio atravessou a sala e em um instante, tão rapidamente quanto uma bala, se fincou no peito daquele homem.

Ele ficou paralisado, com a sua arma ainda em mão, mas sem falar ou se mover, parecia ter morrido daquela forma, em pé, fingindo ainda viver.

Ouvi passos leves, mas que ecoavam inúmeras vezes pela sala fechada.

—Você… ele morreu? Ele não era seu capanga?…

Dei passos para trás quando ela atravessou a sala para alcançar o corsário, certamente não queria chegar tão perto assim, mas por isso não pude ver seu rosto por mais de um instante.

—Minhas ordens foram muito claras.

Ela falava, com os olhos no corsário morto, bem mais alto, suficiente para ecoar por toda a casa.

—Falei com todas as palavras, ninguém pode pôr os pés no terceiro andar sem minha permissão, não importa o que aconteceu e independente da circunstância. E a punição para quem não pode cumprir ordens é a morte.

Então pôs a mão no cabo da espada e a puxou de volta para si.

O corsário finalmente caiu ao chão, como se tivesse finalmente recebido a permissão para sair daquele posto.

—Você… é algum tipo de líder deles…?

—Sim. Dentre todas as organizações criminosas da Ásia e Europa, sou eu que detém o poder de controlar todas elas.

—O que…? Todas? Isso não faz sentido! Isso é quase um terço do mundo…!

—Sim.

Ela se virou para mim, ainda não podia distinguir quem era, estava olhando para os meus arredores, dois elementos.

Ritte, amarrado, sem conseguir falar.

E as janelas, também barricadas com tabuas de madeira, ainda mais delas que não deixavam luz alguma passar.

—Mas diga, você conseguiu me achar? Sozinho? Se sim… eu tenho uma proposta, me ajude a achar um ‘certo grupo’ e eu vou deixar você livre, sua cidade nunca mais será atacada e seu amigo voltara sem mais um arranhão. Hahaha…

Ela deixou esse riso passar, era algo sincero, uma expressão genuína do que ela sentia naquele momento, não era remorso nem ansiedade, matar aquele homem e negociar daquela maneira era agradável para ela, foi isso que aquela risada lenta me dizia.

“Certo grupo…? Só consigo pensar em uma pessoa que ela poderia se referir…”

—O instituto? É esse o grupo?

—Já os conhece? Isso ajuda bastante… eles são um grande problema, você viu como me esforcei para matar o líder deles, não é? Naquele dia você viu que é inútil resistir, agora ele está morto. Por que não me ajuda a acabar com os outros?

—O que? Morto…?

—Aquele foi um golpe fatal, ele devia estar morto quando caiu nos seus braços, não havia nada que você pudesse ter feito.

—O que…? Mas ele estava vivo. Ele se levantou e conversou com os outros antes de voltar a dormir…

As chamas foram cobertas de escuridão e perderam força, até sumirem por completo, quando então ouvi a voz dela fazer seu próprio fogo pela sala, a escuridão que ela criou parecia queimar o metal do meu relógio e o couro nas minhas roupas.

IMPOSSIVEL! Ele está morto!

—…!

Assim que notei, ela já havia se aproximado, em menos de um segundo ela cortou a distância e me alcançou.

“Não foi só isso”

Percebi então, havia sido atacado.

Olhei para baixo e percebi, aquela mesma lâmina que matou o corsário tinha se fincado no meu corpo também.

“Mas não sinto nada… acho que é melhor usar isso…”

Caminhei até o Ritte. Meus passos eram lentos, mas não sentia dor nenhuma.

Vi a lareira acender novamente, boa parte da escuridão se dissipou.

A líder dos corsários me observava de longe, não podia ler sua expressão, sequer olhei para trás, porém senti a presença dela se afastar até o outro lado da sala.

Me aproximei do Ritte e removi a espada, não senti o corte pela minha pele, porém notei o sangue pingando, claro, sangue não era exatamente algo que me preocupasse em perder.

Com aquela lâmina, eu cortei as cordas que amarravam o Ritte e lhe disse:

—Pule pela janela. Minha bicicleta está do lado de fora.

Então me virei para a sombra que estava na sala, a pessoa que tinha dado a lâmina que libertou o Ritte.

—Como você está vivo?

—Não tenho certeza… mas você me atacou num impulso, eu nunca consegui ser tão efetivo quando atacava alguém desse jeito, talvez tenha acertado algo que não importava…

Ritte se levantou e ficou ao meu lado.

Segurei aquela espada, ela brilhava como a lua, parecia que o sangue nela era lentamente absorvido pelo aço exterior, se tornando parte da lâmina.

Apontei ela para a sombra, como se tentasse usar aquela luz contra ela, mas percebi então, era inútil.

—Ei! Devolva isso, essa é a minha espada, alguém como você nunca conseguiria usa-la direito!

—Se for… então a recupere, você me atacou primeiro. Faça-o novamente.

Ela puxou duas lâminas menores, duas que não brilhavam, então se preparou para atacar.

—Ritte… você sabe o que fazer. Tenho certeza.

Deixei aquela espada cair.

“Eu não gosto de armas. Não diria que vejo problema exatamente em ferir gravemente os outros, mas prefiro usar minhas próprias mãos”

—Certo. As duas mãos são a sua forma de lutar, que assim seja, usarei essas duas adagas de qualquer maneira.

—Tenho certeza disso.

Sabia bem o que era aquilo, era uma batalha que não seria decidido em um segundo, na verdade, o contrário disso.

Ela se movia pelas sombras e vinha de todas as direções, porém meus olhos e meu corpo a seguiam na mesma velocidade, como se pudesse a sentir magicamente, com meus braços, bloqueava quantos ataques podia.

Mas era só isso, eventualmente achei uma brecha e conectei um único golpe, mas estava definitivamente em desvantagem ainda.

Lentamente os cortes aumentaram, a cada poucos segundos mais um arranhão surgia no meu corpo, a dor não era sentida, porém não sabia o quão válido seria tentar cansa-la.

—Você pensa muito em viver, mas não em matar.

Isso estava correto, não pensava em atacar, não achava que podia vencer legitimamente, esperava a cansar até que tudo acabasse, porém parecia que isso não estava funcionando, não até o momento.

—Eu vou viver! Isso sim!

No momento que disse isso, ela deu outra brecha.

—IAH!

E a chutei na perna, o golpe conectou certamente e a vi cambalear para o lado um pouco.

—Você é bom. Hahaha…

Aquela luta continuou, quem cansasse de lutar seria o derrotado, o conflito se minha insistência poderia me levar a algum lugar, ou se havia algo que ela jamais poderia me tirar.

Depois de um longo combate, não tenho nem certeza de quanto tempo passou, não via o sol dali, mas pareceu que tínhamos ficado por dias naquela sala escura, meus ferimentos se curando lentamente em meio ao combate enquanto novos surgiam a cada segundo, mas… não deve ter sido tanto tempo.

E o resultado final, depois de que senti uma tontura, possivelmente pelos vários cortes se acumulando, eu dei inúmeros passos para trás e…

E…

Mais nada, cai de joelhos para minha adversária.

—Isso demorou bem mais do que imaginei. Você realmente tem algo de especial… talvez eu deva mostrar algo quando você acordar…

Ela pegou sua espada do chão, mas ela não foi direcionada para acabar comigo, havia outros planos dessa vez.

Dia 21 de maio.

Bastante tempo passou desde aquela luta, mas bem menos do que imaginei.

Estava com muita dor, reconhecia essa dor em especifica, eu devia ter dormido no chão por um bom tempo, mas… por que?

Me levantei, a sala estava num escuro denso, mas não um breu completo, podia notar os limites que me cobriam.

Era uma sala enorme, lembrei da Une falando outra vez…

“20 metros quadrados? Mas nesse caso seriam cúbicos?… Isso não importa”

—Parece que tive um sonho bem longo… pelo menos parece que o encontro foi de verdade.

Fui me levantar, ia usar minhas mãos para ganhar apoio, então percebi.

—O que…? Isso são algemas. Com certeza.

Claro, já tinha visto várias dessas, do meu ponto de vista era um simbolo da policia, o sucesso de uma ação deles. Algemar criminosos e os jogarem na prisão.

“Afinal, há pessoas que nunca serão convencidas por palavras, não é? Então prender suas mãos é a única forma de o impedir de verdade… então por que estou preso agora?”

Tentei afastar minhas mãos uma da outra e ouvi as correntes se colidindo e por um segundo fazendo o som de arrasto metálico entre meus pulsos.

—Desculpe pelas algemas. Talvez não lembre disso, mas a algumas horas você acordou enquanto estava apenas com cordas nas mãos e pés. Você as cortou com força bruta e de imediato tentou fugir. Tive que usar algo que não fosse tão fácil assim. Hahaha…

Me virei, mas já sabia quem estava atrás de mim.

—Você de novo…! Isso tudo não foi um sonho…

—Achou que poderia escapar tão fácil assim? Não é isso que espero de você, não agora, em especial.

—Esperar de mim? O que você espera? Outra luta como aquela? Eu certamente posso…

—Por favor, não… já seria a terceira vez, você não parecia se importar com todos esses cortes e lutou tanto quanto na primeira vez, me deixe falar agora.

Tentei focar no meu corpo e sentir se ainda havia algo estranho.

Podia sentir ainda, inúmeros cortes pelos meus braços, pernas e rosto, todos bem superficiais, exceto o ferimento de quando ela usou aquela espada brilhante em mim, esse definitivamente não se recuperaria tão rápido.

—Fale então…

Aquela mulher podia me matar facilmente, não tinha como lutar nem me defender com aquelas algemas. Lembrei logo do corte em diagonal que ela fez quando a encontrei pela primeira vez, no navio.

“Um desses agora… eu mal sobreviveria, não, poderia até morrer de imediato”

—Agora… quero que você veja o porquê de se aliar a mim. Hahaha…

Um brilho branco iluminou a sala quando a lareira se acendeu, pela primeira vez tive a visão do inimigo.

A líder dos corsários era uma mulher, ela tinha olhos verdes e afiados, o físico dela era difícil de discernir por causa do sobretudo preto e vermelho, dessa vez o chapéu havia sumido, então percebi os cabelos negros, que por vezes se fundiam a escuridão que parecia a seguir para onde fosse.

Pela primeira vez vi seu rosto, mas ela ainda era uma figura rodeada pelas sombras, uma camada de escuridão a seguia a todo momento como uma aura.

—Isso é um privilégio, apenas alguns aliados e os meus maiores inimigos podem ver minha real identidade, decida com cuidado qual deles você deseja se tornar.

—Não sei qual o valor que vocês colocam em tudo isso… nomes são só nomes, rostos também não passam disso.

—Para alguém que luta entre as sombras do oculto, é tudo. Agora…

Ouvi um bater metálico, outro que reconheci de imediato, da minha experiência do filho de um policial.

Ela puxou um revolver, ele saiu do bolso do sobretudo e o cano foi para a cabeça dela num instante.

“O que…?”

—Não gosto de armas de fogo. Elas são instrumentos de quem não pode olhar nos olhos quando mata alguém. Odeio pessoas assim. Mas… não posso negar o quão efetiva elas são, se isso disparasse agora, até eu morreria.

—Ei!… O que você quer fazer?! Isso é algum truque de mágica agora!?

—Observe com atenção. Você é um estudante, não é? Se tiver uma bala e eu puxar o gatilho, qual a probabilidade da arma disparar?

Não podia dizer isso por mim mesmo, mas lembrei de ter ouvido num filme.

—Algo como 16%, não é nada impressionante não disparar.

O clique da arma foi ouvido pela, sala, ela apertou o gatilho uma vez e fez outro movimento com o polegar para engatilhar a próxima bala.

—E agora? Qual vai ser a chance?

A expressão dela não demonstrava o medo de morrer, mostrava um sinal, uma consideração insigficante pela possibilidade, só podia acreditar que ela era insana.

—20%…

—Então vamos logo, é melhor acelerar. Preste atenção no porque é inútil lutar contra mim.

Ela apertou o gatilho outra vez e o clique, dando o sinal de uma capsula vazia soou.

—25%.

Ela continuou a engatilhar e apertar o gatilho.

—33%, 50%.

Depois disso ela ainda engatilhou o revolver mais uma vez.

—100%.

E apertou o gatilho.

Quando o fez, nada aconteceu.

—As regras desse mundo não se aplicam a mim. Tudo vai ocorrer de forma que funcione ao meu favor.

Então o cano foi direcionado alguns graus para o lado, para uma parede.

Novamente, ela apertou o gatilho, mas dessa vez…

O som de um disparo soou e ressoou várias vezes pela sala e com o fogo da arma pude ver a bala voando até a parede, a bala ricocheteou em minha direção.

Me arrastei para trás, mas era tarde para fugir, ela errou por conta própria, o som de metal se quebrando soou e logo depois a bala alcançou o chão próximo a mim e fez um buraco.

—É disso que estou falando! O mundo para sempre vai conspirar para que todos os resultados se virem ao meu favor. Lutar contra mim é inútil. Então… você quer se juntar? Me ajudar então a matar todos os membros do instituto? Hahahahahahhahaha…

A líder dos corsários jogou o revolver para longe e me estendeu a chave das minhas algemas.

“Se as aceitar, serei livre como ela, assim como eram os piratas, estou preso pelo meu passado e pelo meu nome, é por isso que ela não tem nada disso, não um nome nem um passado”

Ainda estava no chão. Ela parecia realmente imponente com aquele salto alto e a lâmina brilhante na cintura, porém…

—Eu quero continuar preso ao meu nome e não vou abandonar meu passado! Eu não preciso disso!

Usando as mãos de apoio, fiz um arco com meus pés, chutei a chave da mão dela e me pôs de pés novamente.

—Como… suas algemas…? Você as quebrou também?

—Não. Aquele tiro seu o fez, parece que eu tenho sorte também.

“Espero que eles já tenham chegado… ela disse que eu já perdi duas lutas, portanto… só posso fazer uma coisa”

Correr!

Me virei para a grande porta que encontrei no meio da escuridão e disparei.

—Nem tente fugir!

Ouvi o zumbir de algo cortando o ar, uma lâmina, era como quando ela matou aquele corsário, um aliado dela.

E por ouvir isso, eu pulei o mais alto que pude, iria ter de abrir a porta a força.

Por um triz a lâmina não me atingiu, não só isso como também se fincou numa abertura que a porta tinha, não pude deduzir como por causa da escuridão, mas em seguida ela foi destrancada, com uma pequena brecha confirmando aquilo.

Com o meu impulso no ar, eu a atravessei de uma vez, ela se fechou enquanto ainda estava no chão.

—Bem na hora, vamos.

Cai aos pés de uma mulher alta e que carregava duas armas de fogo, uma em cada mão, usava um sobretudo cinza e…

—Obrigado!

Ela estendeu o braço para mim e eu o usei para me levantar.

O instituto veio para me auxiliar, afinal, eu mesmo os chamei.

De volta ao dia 20.

Decidi que se havia um lugar que poderia achar alguém para fazer um plano, era com o instituto, iria então checar o endereço que o Amun me deu, era uma rua em Florença, Itália. Dava num café.

“O que esse lugar pode ter de especial? Parece só um café comum”

Abri a porta, havia um sino que anuncia a chegada de mais alguém. Lá dentro era bonito, a cor da madeira parecia um tom mais claro de chocolate. Brilhava bastante também.

O dono da loja era um homem velho, de óculos, cabelo jogado para trás e uma camisa em um rosa muito próximo do branco. Parecia bem pacato e do tipo de pessoa que preferia uma vida calma.

Quando me viu, ele se levantou e foi para o balcão.

Fui a frente dele, esperava que fosse falar algo, porém o homem só continuou me analisando, parecia tentar chegar a alguma conclusão.

Até ele piscar uma vez, então fechar os olhos por alguns poucos segundo e falar:

—É você o tal de Jack? Meu nome é Luca Contiello, seja bem-vindos à Tazza d’oro. Quer um café? É por conta da casa.

—Sou eu o Jack, mas… quem exatamente é você?

—Não responda uma pergunta com outra pergunta. Você vai querer um café? Posso fazer spagheti também.

Senti que não poderia convencer ele de fazer as coisas de outra maneira, tinha entrado no café dele, ia ter de seguir qualquer regra que ele emposse.

—Uma xícara, um cappuccino.

Me sentei em uma cadeira e depois de pouquíssimo tempo ele deixou a xícara na minha mesa.

Então virou um banco do balcão para minha direção e se sentou, ele fazia questão de não apoiar os pés no chão.

—Não sou alguém importante, porém aqueles cinco gostam de usar esse lugar para falar de besteira e… ocasionalmente algo sério. Quis ajudar e eles tomaram o café como um “esconderijo”

—Entendi… você pode chamar eles? Preciso que diga que um inimigo deles está agora mesmo em Paris. Eu irei lá logo para resgatar um amigo que foi raptado.

A expressão dele mudou, parecia descontente com aquilo, mas por que? Ele não parecia rejeitar minha vontade de salvar um amigo, nem minha ideia de fazê-lo de imediato.

Então… o que ele viu no que disse que o incomodou? Independente disso, depois de alguns segundos em silêncio, murmurando pensamentos para si mesmo, ele me disse o que fazer.

—Me dê seu telefone e vá salvar o seu amigo. Eu cuido do resto.

Luca Contiello disse aquilo transmitindo toda a confiança que tinha, aquele homem velho mostrou que sabia exatamente o que o instituto faria ao saber do que acontecia, então, eu segui para salvar o Ritte.

Até o momento, boa parte do que fiz em Paris foi ideia do Amun, ele disse que deveria apenas garantir que o Ritte fosse libertado e que eles viriam me resgatar mais tarde, usei meu telefone para que me achassem e soubessem quando comecei o resgate.

Agora, lá estava Kiu para me ajudar.

—Vamos logo, nós fizemos os corsários daqui pensarem que receberam uma ordem para agir no outro lado da cidade, os outros foram embora depois de interrogar um deles.

Não soube muito sobre essa operação paralela deles, porém não vejo problema do instituto tomar proveito dessa situação, afinal, eu pedi ajuda.

—Espera!… 05, a líder deles, ela está naquela sala! Você sabe lutar, não sabe? Vamos acabar com ela, eu posso ajudar!

Ela me fitou por um instante, então para onde apontei.

—Irei ver, mas você vá embora, logo.

—Não! Ela é muito rápida, mas se eu conseguir ficar no meio, você pode usar essas armas de fogo ai, não é?

—Hum… talvez funcione, fique preparado. Ao menos devia tentar conseguir uma boa vista do rosto dela.

—Não precisa, eu… eu…

Quando voltei a pensar no que vi na sala, percebi então, minhas memorias estavam se escurecendo, como se outras memorias ocupassem o seu lugar, o rosto dela estava sendo esquecido.

“Não é possível que eu seja tão burro, já estou esquecendo?”

Quando pensei no diabo, ele apareceu, a porta se abriu.

A pouca luz entrando naquele corredor parecia não alcançar aquela sala, talvez pelas portas, ou a lareira estivesse fazendo uma sombra? Isso sequer faz sentido?

A única coisa que via dela agora era seu movimento para alcançar a espada no chão.

Kiu deu um passo para trás, apontou as duas armas na direção dela e começou a analisar o inimigo, assim parecia.

Então estava observando as duas armas, uma pistola semiautomática silenciada e um revólver gigante, quando sua expressão mudou.

—Jack, vamos recuar, não posso lutar agora.

Ela guardou as duas armas assim que alcançou o ponto final daquela sentença.

—O que!? Por que?!

—Tem água no tambor do revólver, não posso arriscar lutar só com uma arma. Temos que correr.

—Água?… Como?…

—Não tem tempo para isso! Corra!

Ela guardou as duas armas e me jogou escada abaixo, eu por pouco consegui pousar com as mãos no chão, ela me alcançou um momento depois e me puxou para que levantasse e corresse com ela.

Diferente da outra casa, aquilo parecia uma mansão, descemos por várias salas enormes e corredores longos, cheios de portas e decorações, tapetes vermelhos e mais alguns candelabros.

—Onde nós estamos?! Isso é uma mansão?!

Ela não respondeu, talvez porque tinha foco demais em correr no mesmo ritmo que eu mantinha, ou só porque não importava.

Passei por outras portas e escadas, até chegarmos numa janela.

Kiu pulou direto por ela, com cuidado e usando as mãos para manter controle de onde ela iria cair.

“Eu não posso fazer isso!”

Por isso apenas pulei nela com os braços cobrindo o corpo, esperando que não fosse tão alto assim.

Kiu tinha acabado de pousar no chão, ao lado do carro autônomo que tinha trazido comigo da minha cidade até Paris.

Enquanto eu…

“Que andar é esse?!”

Comecei a cair sem onde me segurar, era pelo menos tão alto quanto a biblioteca da escola, então não morreria, mas ainda gritei um pouco.

Apenas no tempo antes de cair de peito no carro e rolar para o chão.

—Entre!

Kiu gritou, então alguém alcançou as minhas mãos e me puxou para o carro.

As portas se fecharam, logo o carro partiu.

O som do motor ligando, então dos pneus contra asfalto, meu corpo foi jogado contra a porta durante uma curva, mas logo... havíamos escapado.

Dentro do carro, como imaginei, estava o resto do instituto, quase todos os membros que conhecia.

Vírus e Yui comigo no banco de trás e o Amun e a Kiu na frente.

—Ei (por que o teto desse carro dobrou e logo depois um garoto caiu do céu?)

Vírus fez a pergunta dando um tapa no ombro do Amun.

—Nosso convidado pode não ter tanta técnica… entretanto ele certamente compensa isso de forma… err… sisisisisi… creio que ele mesmo poderia explicar.

—O que…? Não estamos mais sendo perseguidos? Vocês…

Ainda estava me ajustando no assento, carros eram muito apertados, me perguntava se as pessoas usavam tanto eles assim mesmo ou se é licença criativa dos filmes.

—Sim (eles vão chegar no esconderijo em mais alguns minutos, esse carro já vai ter chegado até o ostium até lá)

—Ei!… É, acho que eu vou ter de voltar sozinho neste carro mesmo… que horas já são? Eu desapareci por dois dias já.

—Bem, creio que tu podias usar um ostium também e deixas o carro fazer o resto do percurso por si só, ele é autônomo afinal. No momento, fortuitamente, não há segurança na fronteira e ele poderá atravessar sem problemas.

—Ah… boa ideia, 03… eu tenho que devolver ele logo, é alugado…

Realmente, pensar não era bem o meu forte, pensei que deveria voltar da mesma forma que vim, mas isso não era necessário dessa vez.

—Então, Delsteen-san, o que você achou da sua primeira ação?

A Yui me perguntou isso, tinha ouvido eles usarem esse termo bastante, pareciam gostar de falar ele várias e várias vezes.

—Não é algo que planeje fazer outra vez… é muito pior do que roubar lojas e arrumar brigas à noite, mas bem… consegui escapar com vida e… aquela luta não foi tão ruim.

—Uma luta? Isso não era uma parte do plano.

—Bem, eu precisava dar uma chance do Ritte escapar, me disseram que desde que ele escapasse, depois vocês viriam me resgatar, por isso eu lutei com ela para ganhar algum tempo e… consegui esses cortes.

—Oh… (as suas roupas não são rasgadas assim desde sempre?)

—Não sou um arruaceiro desse tipo, eu gosto de usar roupas boas, até fiz questão de ir para essa “ação” sem o terno. Ainda bem… ele teria sido destruído.

“Espera… talvez tenha falado demais”

—Lestat. Houve um prob… algo ruim p… algo ruim aconteceu durante essa ação. Meu revolver está danificado.

—Ah… terrível sim, sabes como reparar?

—Claro, mas preciso de algumas peças…

“Aquele defeito foi esquisito também, tudo que aconteceu desde a noite do dia 19 foi muito estranho”

Tendo tantas coisas me sufocando, problemas complexos e outras coisas, achei tão mais fácil sonhar com o que veria depois.

Deixei aquelas palavras sem sentido, daquela língua inaudível deles flutuar ao meu redor sem nunca entrar em meus ouvidos, então lembrei da minha cidade, da escola, das pessoas que conheci lá.

“Tudo o que eu preciso está lá”

Quando percebi, minha visão se tornou realidade, eu havia voltado.

—Ah… realmente me perdi entre devaneios…

Longe das grandes cidades e das estradas vazias.

Aquilo era a cidade onde pertencia, os prédios de 3 andares ou menos, a escola que era visível de qualquer ponto da cidade, as arvores pelos extremos, por onde poderia alcançar a floresta.

Montanhas por todos os lados que pareciam deixar a cidade como um santuário inacessível, mas também por onde o sol nascia todos os dias, fazendo a mais bela paisagem.

“Eu consegui voltar. Acho que agora vou aproveitar tudo aqui ao máximo, eu farei o meu melhor também para explicar esse desaparecimento, nada precisa mudar, tenho certeza. Tudo está perfeito como está”

Quando cheguei, claro, depois de ficar tanto tempo ocupado, já era noite, na verdade, a lua era quase invisível no céu e todas as ruas já haviam se apagado.

Mas, sozinho e em meio a escuridão, eu segui em frente até minha casa. Não havia nada para temer naquela cidade, jamais poderia ter tanta segurança disso fora daqui.

Porém, não um perigo, mas algo diferente se apresentou para mim.

Enquanto andava, eu me percebi olhando para o ponto mais alto da cidade, na escola onde estudo, sobre o grande sino.

Uma silhueta escura, mas que como uma joia, se destacava do resto da noite, uma com cabelos de platina que voavam ao céu como se tivessem vida própria.

Ela estava dançando pela noite, parecia uma visão de algo além de um humano, um ser na forma de um humano, porém diferente.

Os movimentos foram registrados como uma cicatriz na minha alma, cada um não poderia ser esquecido, eram ágeis, velozes como uma correnteza e suaves como vento, mudando de direção fluidamente, como se aquele corpo não fosse governado pelas mesmas leis que nós, como se tivesse regras próprias.

E ver aquilo, um sentimento que parecia familiar me veio, minhas dúvidas foram resolvidas e eu achei o que estava buscando desde o princípio, o que realmente precisava.

Por alguns minutos aquela dança graciosa continuou, não podia tirar meus olhos dela, nem mesmo piscava, porém, eventualmente, aquela silhueta que se via a uma grande distância se afastou, se afastou até sumir.

Percebi por quanto tempo havia sido mesmerizado por aquele ato, mas não me perguntei o que houve, não parecia estranho. Era como… se não fosse a primeira vez que encontrasse aquela figura e meu coração tivesse sido preenchido pelo sentimento de ter achado tudo que buscava, nem o vazio depois que aquela figura sumiu.

Decidi que estava muito cansado, parecia ter tido um sonho sem sequer fechar os olhos, fui imediatamente para minha casa. Eu era um humano com certeza.

E naquela hora outros como eu já dormiam por tempos.

Por isso, eu joguei fora aquela roupa arruinada e deixei meu corpo e alma descansarem, enfim.