Eu estava decorando a árvore de natal este ano, um pouco tarde, pois já era véspera de natal, quando Lucy veio até mim correndo, dizendo que tinha visto algo pela janela. Ela, então com dois anos, ainda tinha na fala aquele jeito desastrado próprio de quem aprendeu a pouco a falar. Acompanhei-a até a janela e olhei para a rua lá embaixo. Ela apontava para cima e gritava:

— Lá vai ele, mamãe! Lá vai ele!

Era um pássaro. Parecia um canário para mim, daqueles bem coloridos. Observei ele alçar voo e desaparecer do meu campo de visão. Lucy pareceu se entristecer por um instante. Então, para animá-la, decidi leva-la para dar uma volta.

Nosso apartamento ficava bem no centro da cidade, então poderíamos olhar algumas lojas ou até mesmo fazer compras ali perto. Descemos e fomos pela rua de nosso apartamento até a esquina e dobramos a direita, chegando na rua das lojas com ofertas especiais de natal. Estava uma mais lotada que a outra. Por um momento, a ideia de fazer compras não me pareceu mais uma boa. Então Lucy correu para uma loja de departamentos e decoração. Corri atrás dela e a alcancei perto do balcão. Havia um stand com enfeites de árvore de natal pendurados próximo ao balcão. Lucy não tirava os olhos de um em especial: um pássaro parecidíssimo com aquele que vimos voando pela janela do apartamento. Não entendi como aquele enfeite poderia ser considerado natalino, mas não julguei. A coincidência era incrível demais para eu pensar em qualquer outra coisa.

— Compra ele para mim?

— Já temos enfeites suficientes para a árvore, Lucy.

— Compra, por favor?

— Não faz essa carinha, que eu não resisto.

— Isso é um sim?

— Está bem, eu compro.

Voltamos para o apartamento com o enfeite embrulhado em um jornal. Lucy saltitava em minha frente. Pelo menos ela estava feliz. Isso era tudo o que importava. Chegamos em casa e tratamos de arranjar um lugarzinho para o enfeite na árvore já abarrotada de decorações. Ele ficou em um lugar bem visível, e destacado por ser algo pouco comum de se ver em uma árvore de natal. A face de Lucy iluminou-se toda e ela me pareceu bastante satisfeita após ver seu enfeite colocado na principal atração de nosso natal.

A propósito, o natal seria em nosso apartamento esse ano, mas receberíamos quase todos os que compareceram no natal passado na casa de meu pai. Tio Earl e Gina, Tia Margot, que graças aos céus terminara com o namorado mais novo que ela, e mais algumas caras novas compareceriam à festa.

Recentemente, eu comecei a trabalhar em uma loja de roupas de grife como vendedora. Eu sempre sonhei em ser estilista, e trabalhar com qualquer coisa que envolvesse moda já era o suficiente para mim. Devido ao meu novo emprego, conheci novas pessoas. Dentre elas, duas eram mães de crianças da idade de Lucy. Por isso, convidei-as, juntamente com os filhos, a virem para o natal.

Faltavam poucas horas para a chegada dos convidados. Jacques terminara os preparativos dos quitutes e eu, responsável por enfeitar o apartamento, concluíra a decoração ao finalizar com a árvore. O ambiente natalino já se estabelecera em nosso lar. Estava tudo bonito demais.

Quando eu estava analisando a sala de estar para ver se faltava algo, a campainha soou pelo cômodo. Olhei pelo olho mágico e vi que era um de nossos vizinhos. Abri a porta, demonstrando um sorriso. Ele parecia apreensivo e nervoso.

— Olá, vizinho! Pois não?

— Eu estou procurando pelo meu pássaro, que fugiu hoje mais cedo. Você viu algum canário hoje?

— Eu vi sim. – Respondi. – Minha filha, Lucy, viu um pássaro pela janela mais cedo. Quando eu fui ver, ele levantou voo e sumiu por cima da janela.

— Esse era o meu receio. Eu não posso perder essa ave. Ela é de minha mãe, que sofre de demência, e é a única coisa nesse mundo que ainda a alegra. Só a vemos conversando com o pássaro. Não sei o que pode ocorrer se não a recuperarmos.

— Talvez seria uma boa tentar os apartamentos mais para cima. Pode ser que o canário tenha entrado em algum deles depois de sumir de vista. Ou, quem sabe, alguém o viu por lá também.

— Obrigado. Farei isso.

— Podemos ajudar a procurar, mamãe?

Olhei para trás e vi Lucy, que estava ouvindo toda a conversa sem que eu a notasse ali perto. Ela me olhava com uma expressão enigmática, mas eu sabia que ela queria muito ajudar.

— Filha. Nós temos uma festa logo mais.

— Por favor. – Ela alongou a frase mais que o necessário.

— Tudo bem. Mas só por pouco tempo. Logo os convidados vão chegar.

— Ótimo. Só vamos até meu apartamento para eu pegar um pouco de alpiste para ver se consigo atrai-lo com a comida.

Nós três fomos até seu apartamento. Ao chegarmos lá, paramos no cômodo principal e logo avistamos a senhora idosa sentada na poltrona ao lado de uma gaiola, provavelmente a mãe de meu vizinho. Ela olhava de maneira catatônica para uma parede. Aconteceu que Lucy se soltou de minha mão e correu em direção da anciã. Parou próximo a ela e ficou olhando em seus olhos, buscando não sei o quê. Então a mulher pousou o olhar em Lucy. De seu rosto surgiu um sorriso jovial e contrastante ao seu estado anterior de catatonia. Ela então cumprimentou minha garotinha:

— Olá, Greta.

— Meu nome é Lucy. – Respondeu minha menina.

— É tão bom ver você de novo. Faz tanto tempo.

O meu vizinho ficou estupefato. Ele caminhou até sua mãe e falou com ela, mas não obteve resposta da parte dela. Ela ficara hipnotizada por Lucy.

— Onde está sua boneca? – Questionou a senhora à Lucy.

— Na minha casa.

— Então vá busca-la.

Lucy correu até mim novamente. A idosa retornou a sua letargia e seu filho veio até nós.

— Se importa de ficar com ela, enquanto eu procuro o pássaro? Não acho que seja bom deixa-la sozinha agora.

— Sim, nós podemos ficar, mas, que história foi essa de Greta?

— Greta era minha irmã mais velha, que morreu ainda criança. Acho que tinha a idade de Lucy. Nem cheguei a conhece-la. Fiquei assustado também com essa lembrança dela, mas fiquei mais ainda com o fato dela conversar com a garota. Como eu lhe disse, ela só conversava com o canário. Agora eu preciso ir, antes que o perca de vez.

E partiu logo em seguida, deixando nós três no apartamento. Nós duas nos sentamos em um sofá da sala, que ficava ao lado da poltrona da anciã. Esperamos por algum tempo, o que pareceu uma eternidade.

Sem aviso prévio, um canário entrou pela janela e voou até a gaiola, pousando no poleiro que havia ali dentro. A senhora se deu conta da presença do bicho e se virou lentamente em direção a ele.

— Aí está você, seu diabinho. Nada de alpiste para você hoje.

Quando meu vizinho voltou, já estava quase na hora da festa. Nos despedimos e ele agradeceu demasiadamente os nossos préstimos. A sua mãe ficara do mesmo modo que a encontramos quando chegamos ao apartamento.

Chegando ao nosso próprio apartamento, ninguém havia chegado ainda, o que era ao mesmo tempo um alívio e um mau sinal. Tratei de arrumar Lucy rapidamente, me meti no meu melhor vestido e, como Jacques já estava pronto há horas, esperamos pelos convidados.

O inverno fora mais rigoroso ainda este ano. Impediu que nossos convidados comparecessem à festa. A tempestade pegou tio Earl e Gina no meio do caminho, obrigando-os a se abrigarem e a passarem a noite em uma lan house que fica aberta vinte e quatro horas. Os outros convidados nem tiveram chance de sair de casa. Acabamos passando a véspera de natal só nós três, motivo que nos fez ir para cama mais cedo, antes da virada para o dia vinte e cinco.

Quando acordamos na manhã seguinte, com Lucy pulando em nossa cama pedindo para abrir os presentes, já era mais de nove horas da manhã. Fomos até a árvore e abrimos os poucos presentes que haviam embaixo dela: Os de Lucy foram um ursinho de pelúcia dado por Jacques e um par de botinhas com cachecol e gorro da minha parte, um presente perfeito para curtir um dia de neve mais ameno; Jacques recebeu de mim uma caneca de “melhor vendedor do mundo” para ele poder usar no escritório e eu ganhei dele uma gargantilha de ouro com um pingente de coração que poderia colocar uma foto dele e de Lucy em cada lado interno do emblema.

Passamos o restante do dia presos no apartamento. O tempo só piorou durante a madrugada, mas estabilizara assim que amanheceu. Lucy passou o tempo todo arrastando o ursinho de pelúcia que ganhara pela casa. Esta seria a marca registrada dela pelo restante do ano. Foi só no final da tarde que percebemos a comoção lá fora.

Quando abri a porta para ver o que acontecia, vi paramédicos indo em direção ao apartamento do final do corredor. Depois voltaram com a senhora, mãe do meu vizinho, em uma maca. Ela trazia no rosto um respirador e parecia estar inconsciente. Fora levada para o elevador, quando meu vizinho se aproximou de nós, muito aflito. Perguntei o que se passara. Ele me disse que fora um mal súbito, que levariam para o hospital e que talvez ela não voltasse para casa. Ficaria em uma casa de repouso para idosos com estrutura hospitalar.

Ele já ia se virando para voltar para casa, quando o detive, a fim de lhe confortar.

— Vai ficar tudo bem. Ela vai ter companhia de outras pessoas de sua idade e estará em um ambiente mais adequado para ela. A tendência dela é só de melhorar.

— Não sei. Nem mesmo o canário deixaram levar. É proibido qualquer espécie de animal no asilo. Era de se esperar por isso. – Ele então se deteve por um momento antes de prosseguir. – Vocês foram tão prestativas ontem, me ajudaram e tudo mais. Queria muito agradecer de novo. A propósito, nem tive tempo de me apresentar. Meu nome é Peter.

— Mona. E essa aqui é a pequena Lucy.

— Bom, Mona e Lucy, agora eu devo ir. Até mais.

Depois que ele se foi, Lucy correu até a árvore de natal e pegou o passarinho que compramos mais cedo. Voltou a toda velocidade, passou por mim e foi em direção da maca da senhora. Colocou a ave de enfeite na mão semiaberta da idosa e voltou para perto de mim. Então a levaram.

Achei o gesto de Lucy lindíssimo. Nunca imaginaria que ela faria algo do tipo. Nascera ali naquele momento uma grande amizade entre Lucy e a mãe de Peter. Outro natal que não saiu como o planejado, mas um em especial na vida de minha menina.