Jacques decidira se vestir de Papai Noel este ano. Ele ficou engraçado com aquela barba branca falsa e com enchimentos ao redor do corpo para parecer gordo. Lucy exultou quando viu o Bom Velhinho na nossa sala de estar. Jacques se sentou em sua poltrona e Lucy tratou de sentar em seu colo. Ela disse que queria um pônei de presente de natal. Jacques perguntou se poderia ser um cavalinho de pelúcia, e Lucy disse que ele não era o Papai Noel de verdade, já que não conseguiria lhe dar um pônei de verdade. Eu gargalhei após a fala da minha menininha.

Aos três anos, Lucy se mostrava uma garotinha esperta. Mesmo acreditando em Papai Noel, Fada do Dente e outras criaturas fantásticas, é muito pé no chão e madura para sua idade. Além disso tudo, tem um coração de ouro.

Este ano, fomos convidados para passar a véspera de natal na casa de uma das mães que conheci no meu trabalho. Teriam crianças da mesma idade de Lucy na festa, o que seria uma boa ocasião para ela socializar com outros além de Jacques e eu. Optamos por não coloca-la em uma pré-escola ainda por acharmos que ela ainda é muito nova. Devido a isso, ela não tem muito contato com outras crianças.

Estava me preparando para ir à festa, com Lucy já devidamente arrumadinha, e de olho no tempo lá fora. Esses dois últimos anos tivemos tempestades que atrapalharam um pouco os natais. Mas me parecia que estava um tempo firme e que não ocorreriam problemas neste natal.

Fomos os três de taxi até a casa da minha colega de trabalho. Jacques estava um fofo, e Lucy não parava de encará-lo com uma expressão descontente. Aparentemente ela não sabia que era seu pai quem estava atrás daquela barba falsa. Quando chegamos, começou a nevar. Torci para ser só uma pequena precipitação e que acabasse logo.

A casa em que minha colega morava estava completamente adornada de luzes de natal e com um Papai Noel gigante na frente do jardim saudando quem chegava com uma risada eletrônica e com os dizeres “Feliz natal!”. Estava tudo muito bonito e iluminado, bem convidativo para uma festa.

Toquei a campainha da porta e esperei alguns segundos. Logo a porta se abriu. Fomos recepcionados por Atalaia, a minha colega de trabalho, dona da casa. Ela nos conduziu até a sala de estar, o centro da festa.

Quando entramos no cômodo, Lucy ficou extasiada com tantas crianças. Sua expressão de admiração revelava sua inocência em relação à outras crianças. Ela olhou para mim e, sem dizer palavra, eu sabia o que ela queria. Assenti e ela saiu correndo em direção à diversão.

Jacques e eu ficamos observando nossa garotinha brincando com outras crianças. Fomos servidos com taças de vinho por um homem que julguei ser o marido de Atalaia. Brindei com meu marido e bebericamos do conteúdo das taças.

A noite seguiu com os comes e bebes costumeiros da época natalina. Próximo da meia-noite, o banquete mais requintado foi servido. Nos fartamos e, algumas horas depois, estávamos nos despedindo, pois logo cedo aquele dia, iriamos visitar a mãe de Peter na casa de repouso. Iriamos nosso vizinho, Lucy e eu.

No café da manhã daquele dia vinte e cinco, Lucy estava ansiosa para abrir os presentes. Pelo o que ela me contara, já havia escrito a cartinha para o Papai Noel há muito tempo aquele ano, e tinha a esperança de receber o pônei pedido a Jacques na véspera. O pônei não viria, mas havia uma surpresa dentre os presentes.

— Vou abrir esse grandão primeiro. – Declarou Lucy.

— Deixe esse por último. – Pedi. – Abra os outros.

— Tudo bem.

Ela abrira os outros e, entre brinquedos e roupas, chegara a vez do que ela tentara abrir antes.

— Por que ele tem buraquinhos?

— Você verá, Lucy.

Ela desembrulhou o presente e abriu a caixa em sequência. Dela saltou um filhotinho de Pug.

— Esse é o cachorrinho mais bonito que existe no mundo! – Exultou a menininha.

— Vamos, dê um nome a ele. – Desafiou Jacques.

— Elk!

Caímos na gargalhada. Um nome natalino, apropriado para o presente. Lucy se enchera de orgulho com a escolha e o nome pegou rápido. Logo ela estava chamando-o por todos os cantos da casa. Tive que ser uma vilã ao anunciar que estava na hora de sair. Lucy queria ficar brincando com o pequeno Elk, mas logo aceitou em deixa-lo e seguirmos para a visita.

Peter esperava por nós do lado de fora. Entramos em seu carro e rumamos ao asilo em que sua mãe residia agora. Foi uma longa viagem, com direito a brincadeiras de estrada entre Lucy e eu.

Paramos próximos a uma construção antiga, com um muro em torno de uma grande propriedade. Tinha muito espaço para circular do lado de fora, o que me fez imaginar que os idosos passeavam por ali com frequência.

Uma enfermeira nos levou até o quarto em que a mãe de Peter dormia. Ela estava lá, sentada confortavelmente e, fiquei pasma ao ver, conversando com o enfeite de canário que Lucy a entregara no dia que ela foi levada embora. Me questionei se era algo que ela sempre fazia.

Ao nos avistar, ela parou de conversar com a ave decorativa e encarou Lucy. Um sorriso como daquela primeira vez em que a viu surgiu em seu rosto.

— Olá de novo, Greta. Como você cresceu!

— Já disse que meu nome é Lucy! – Zangou-se minha filha.

— Não se enraiveça à toa, Lucy. E tenha modos com a senhora...

— O que você faz com essa adorável dama, Greta?

— Ela é minha mãe.

— Sua mãe? Eu sou sua mãe.

— Mamãe...

— Não diga nenhuma palavra, Peter. Tenho que ter uma conversinha com essa jovem agora. Deixem-nos a sós.

Contrariada, acatei a vontade da idosa e saí junto com Peter. Não fui muito longe, pois queria ouvir o que ela tinha a dizer para minha filha.

— Então, menina. Quer dizer que você quer se passar por minha filhinha, Greta?

— Não, senhora.

— Foi você quem me deu esse lindo pássaro, não foi?

— Sim, senhora. E ele não é de verdade. É só um enfeite.

— Foi um gesto muito bonito de sua parte. Eu lhe agradeço muito pelo presente.

— Você conversa com ele, como se ele fosse de verdade.

— Ele é meu companheiro. Se não fosse por ele, eu já teria enlouquecido neste lugar.

— E por que você não vai para casa?

— É complicado. Aqui eu sou tratada bem, tenho médicos a minha disposição. Em casa não teria isso. Mas preferia estar em casa.

— Eu ganhei um cachorrinho hoje. O nome dele é Elk.

— Um bonito nome. Aquele meu canário, eu o chamo apenas de “diabinho”. Deveria ter lhe batizado.

— Eu posso chamar minha mãe agora?

— Pode sim.

Lucy veio ao meu encontro, ela parecia aflita. Fomos até a mãe de Peter e lhe fizemos companhia por um bom tempo. Logo entardecera e era hora de ir embora. Nos despedimos da idosa e, antes de partimos, ela puxou minha garotinha pelo braço.

— Você pode leva-lo de volta. Eu não vou precisar mais dele.

Lucy recebeu o enfeite de canário das mãos da senhora. Fomos embora do asilo e, ao chegarmos em casa, Lucy estava triste. Parecia pressentir algo. O tipo de coisa que uma garotinha daquela idade ainda não entendia. Naquela noite a mãe de Peter piorara. Ela acabara entrando em coma, devido a demência avançada. Tentei, depois, explicar a Lucy o que tinha acontecido, de um modo que ela pudesse entender. De tudo, acho que o máximo que ela compreendeu foi que ela dormiria por muito tempo, e que talvez nunca mais acordasse.

O natal fora um tanto quanto mórbido este ano. Mas, não perdi a fé em minha garotinha. No final da noite, peguei ela escrevendo uma carta. A princípio achei que fosse para o Papai Noel. Mas, ao ir se deitar, dei uma espiada no destinatário da carta. Estava escrito “para: Mãe da Greta”. E assim foi durante todo o ano. Todo dia ela escreveria uma carta para a senhora adormecida. Minha menina, se apoiou em uma senhora doente. E não deixou que ela fosse esquecida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.