Os natais de Lucy
2 O segundo natal
Com um ano de idade, Lucy já arriscava seus primeiros passos. Como não sabíamos quando a garotinha havia nascido, assumimos que sua data de aniversário seria no dia vinte e quatro de dezembro, o dia em que a encontramos abandonada. E nesse dia em que completou seu primeiro ano de vida, ela tentou andar com as mãos soltas pela primeira vez. O resultado: caiu de bumbum no chão. Só não chorou porque todos a seu redor estavam tão animados com sua quase façanha, que ela acabou sorrindo. Estavam todos reunidos na casa que fora de meu pai para o natal deste ano. Jacques, Lucy e eu; tio Earl e Gina, sua esposa; tia Margot e seu namorado vinte anos mais novo que ela; e o funcionário do mês da Horátio’s Autos, o gerente Gibson.
Toda aquela sensação estranha que tomava conta de meu corpo nesta época do ano desaparecera completamente naquela última véspera de natal. Agora, sentia a alegria inundar-me de uma forma nunca sentida. Aquelas pessoas ali ao redor podiam ver o quanto eu mudara desde as últimas festas. Era uma pessoa completamente diferente. E tudo isso era possível graças a bebezinha risonha sentada no meio da sala. Meu mundo girava em torno dela.
A adoção de Lucy foi um processo difícil e demorado. Levou quase este ano inteiro para ser concluído. Mas agora era oficial. Ela era nossa filha, de Jacques e minha. Nunca imaginei que adotaria uma criança. Sempre me imaginei engravidando e dando à luz um filho sangue de meu sangue. Mas não poderia querer algo diferente. Ela era perfeita. E ela era o que eu queria.
Tio Earl se levantou, ainda sorrindo por causa do tombo de Lucy, e foi buscar um pouco mais de ponche para Gina. Ele passou por mim e meu deu um tapinha nas costas. Acompanhei-o com o olhar até a mesa de guloseimas. O irmão mais velho de meu pai lembrava bastante o caçula dos três filhos de Vovó Dulce. Claro, meu pai quem puxou os traços de Earl. Mas aquela visão dele, servindo o ponche, com um suéter de natal puído e óculos de armações grossas, muito me lembrava de papai nesta época do ano. Uma das que ele mais gostava.
O namorado de titia, enquanto brincava com Lucy, bebericava do vinho que tínhamos disponível para a ceia. Ele já havia tomado várias taças, e se encontrava agora em estado embriagado. Se sentindo solto pelo álcool, passou a contar piadas picantes ao mesmo tempo que fazia caretas para Lucy. Todos riam das besteiras do rapaz, se divertindo de verdade.
Começou a nevar forte, e logo o tempo piorou, formando uma verdadeira tempestade do lado de fora. Acabou que ficamos presos dentro de casa, pois a neve cobriu boa parte da calçada e dos carros. Restava a nós passarmos a noite além do planejado na casa de meu pai, até o tempo melhorar.
Após a meia-noite, passada a festividade e a gulodice da véspera de natal, todos foram para suas camas improvisadas, já que só havia dois quartos na casa para serem divididos com três casais, uma criança e um solteiro. Claro que Jacques e eu ficamos com uma das camas para dormirmos com Lucy. A outra cama ficou para tio Earl e Gina, por serem mais idosos. Tia Margot improvisou sua cama no escritório de papai e Gibson se virou no sofá da sala mesmo.
Bem mais tarde, estava tendo dificuldades para dormir. Me levantei e fui à cozinha a fim de tomar água. Chegando lá, me deparei com o namorado de titia vasculhando a geladeira. Ao notar minha presença, ele fechou a porta da geladeira e vi em sua mão uma garrafa de vinho. Ele estava visivelmente bêbado. Veio cambaleando em minha direção, com um sorriso ébrio, e declarou:
— Estava difícil de dormir com sua tia roncando feito um trator lá no escritório. Vim ver se tinha mais daquele delicioso vinho tinto. Na mosca!
— Você tem certeza que vai continuar bebendo? – Inquiri. – Acho que já passou da conta.
— Que nada! Quanto mais, melhor.
Entre um soluço e outro, ele conseguiu abrir a tampa da garrafa. Serviu em um copo que estava próximo a ele, derramando boa parte do líquido em cima do balcão. Então ele levantou o copo e brindou sozinho:
— Quero propor um brinde a essa bela jovem que tem uma filhinha linda.
— Deixe de ser bobo. – Falei. – Isso não são horas para bebida nem para piadas.
— Não. É sério. Sua filha é uma fofa. E você... – Ele deu um uivo. – Você é um belo par de pernas.
Comecei a ficar zangada. Eu sabia que era só o álcool falando, mas eu era casada. Não poderia aceitar galanteios de outros homens assim.
— Olha aqui...
— E isso é só maneira de dizer. – Continuou ele. – Esse não é o único belo par que seu corpo tem.
Ele começou a se aproximar. Eu percebi a insinuação em seu olhar e me afastei. Cheguei a esbarrar no tampo de granito de um armário andando para trás. Ele aproveitou minha distração e agarrou minha bunda. Rapidamente, desferi um tapa em seu rosto. Ele derrubou o copo no chão, fazendo vinho e estilhaços de vidro se espalhar por todo lado. Ele não se deteve. Com a outra mão agora livre, me envolveu com o braço por trás de mim, puxando-me junto a ele. Lutava para me desvencilhar, ele tentando a todo custo beijar minha boca. Só não gritei pois queria evitar um escândalo. Então, com toda a força que consegui juntar, dei uma joelhada na virilha dele. Ele me soltou imediatamente, arquejando e pressionando a virilha com ambas as mãos. Me virei e voltei para o quarto, deixando-o na cozinha.
Quando amanheceu, todos se levantaram e, para a surpresa geral, menos minha, encontraram o namorado de titia desmaiado na cozinha, ao lado da garrafa de vinho vazia. Evitei que Lucy visse aquela cena deplorável, então sugeri que abríssemos os presentes que estavam sob a árvore de natal.
Começamos com os de Lucy. O primeiro, um brinquedo pedagógico que tio Earl dera, não foi bem aceito, pois Lucy preferiu brincar com a caixa que embalava o presente. O seguinte fora dado por tia Margot. Um vestidinho simplesmente belíssimo. Eu quase chorei quando abri o presente de Jacques: um porta retrato com uma foto do dia em que fomos visitar Lucy quando ela recebeu alta do hospital, quase um ano atrás. Gina também arriscara um brinquedo, um que foi mais aproveitado por ser musical. Lucy adorava música. Gibson presenteara com dinheiro, algo comum hoje em dia. E por fim, o meu presente, uma caixinha de música com uma bailarina que girava ao som do Quebra Nozes, que ela amou. O namorado de titia não trouxera presentes.
Depois foi a vez dos adultos. Não teve tanta atenção quanto a abertura dos presentes de Lucy. Mas foi um bom momento que compartilhamos juntos. Depois que abrimos todos, formamos uma roda em torno da minha bebezinha e observamos ela brincar com o brinquedo musical por um tempo.
Após isso, o namorado de titia apareceu na sala com uma cara de ressaca pesada, liberando a cozinha para que pudéssemos tomar café-da-manhã. Fizemos isso, e logo depois todos se foram. O tempo melhorara lá fora e já era possível caminhar e pegar os carros.
Acabaram perdendo Lucy conseguindo dar mais que dois passos. Ela andou bastante até o final do dia. E esse foi mais um natal, por mais desastroso que possa ter sido em partes, foi quando minha menininha começou a andar.
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