Os homens do futuro
13 Quando o amor mata a alma...
Notas iniciais
Existiu certa vez, um homem que tivera um passado cheio de glórias. Ele fora rico, famoso, de uma inteligência privilegiada e cheio de amigos ao redor. Mas, uma calamidade terminou com sua felicidade do dia para a noite. Um acidente de carro deixou-o cheio de feridas e seu lindo rosto transformou-se numa miragem patética, difícil de encarar. A primeira pessoa amada que o abandonou foi sua noiva. Depois, suas amantes maravilhosas, suas amigas íntimas, e restou apenas uma dúzia de amigos sinceros, que ficaram perto dele, dando-lhe coragem para enfrentar seu destino.
Depois do acidente, vieram as cirurgias plásticas. De tempos em tempos, ele era internado, seu rosto esticado, cortado e costurado. Depois das operações ele ia para Casas de repouso onde tentavam recuperá-lo de suas dores. Quando a dor do corpo lhe dava uma trégua, voltava para casa e a solidão passava a ser sua eterna companheira. Lia ótimos livros, escutava música, conversava com os amigos via Internet, e às vezes frequentava alguma festa com seus amigos mais íntimos.
E o tempo rolou sempre igual.
Quando realizou sua última cirurgia plástica, ele ficou com um rosto mais ou menos normal. Voltou ao trabalho e tomou como rotina viajar para a beira do mar onde nadava e corria na praia.
E foi correndo, num fim de tarde, que reconheceu uma bela mulher. A mais linda que conhecera. E era famosa, recém-chegada da Europa após anos de estudos e pesquisas. Já havia lido sobre ela nas colunas sociais, e vê-la de perto o emocionou. Ela falava alemão, francês, italiano, inglês e espanhol, e foi falando em três línguas que ambos iniciaram uma longa conversa. Sentaram no calçadão e riram longo tempo lembrando-se de lugares da Europa que ambos conheciam. Beberam água de coco, comeram milho cozido e trocaram telefone para encontrar-se novamente. O homem até esqueceu que era um homem feio. Ele só voltou à realidade em casa, depois de sair do chuveiro e encarar o espelho.
Nos dias seguintes, evitou os encontros com ela.
De sua janela a olhava caminhando na praia, e quando ia numa festa, ele olhava ao redor com emoção. Ficava a admirá-la de longe e em seguida saía de fininho sem dar explicação para o anfitrião.
Mas, num fim de semana, olhando na sua varanda para o pôr do Sol, sentiu uma batida forte no corredor. Abriu a porta, e a encontrou parada na sua frente, com um bolo na mão, fazendo-lhe uma visita surpresa. Ele abriu os braços naturalmente, e ela correu ao abraço. Depois vieram os beijos, as palavras de amor ardente, e passaram o fim da semana namorando e conversando de mil coisas, enquanto preparavam banquetes de comidas, pois ambos eram cozinheiros excelentes. Desfrutaram de jantares com velas acesas, música clássica e declarações de amor eterno.
O homem, envolvido nos seus sentimentos, sentia-se flutuar no ar com o encantamento daquele amor. Com certeza, Deus lá no alto havia-lhe enviado a felicidade no fim da vida, como prêmio a tanto sofrimento vivido. Afinal, ele estava amando essa mulher como se ama as estátuas sagradas dentro de um templo.
Durante seis meses o homem viveu embriagado pela felicidade completa. Passou a trabalhar na empresa até sexta ao meio dia e depois do almoço perdiam-se no apartamento, fechados para o amor, sem sequer atender ao telefone. Durante a semana eles se encontravam regularmente, em festas com amigos, teatro, cinema, enfim.
Mas um dia ele acordou dessa viagem ao mundo da fantasia. Ele entrou numa joalheria para comprar o anel de noivado mais lindo dessa loja. Girou a cabeça para um homem que estava olhando-o com cara de ciúme. Estranho! Ele nunca havia visto esse homem em lugar algum. Mas, pouco a pouco, lembrou que vira esse mesmo olhar na cara de vários amigos nos últimos meses. E de repente percebeu tudo como um raio. A cidade estava cheia de homens com ciúme dele, todos querendo sua morte para ficar com ela. Para cúmulo, havia até milionários, gentes finas, cheias de dinheiro, artistas de renome e políticos importantes.
E foi com a alma tumultuada que ele enfrentou o espelho mais uma vez. Seu olho esquerdo tinha uma mancha horripilante. Metade de seu nariz era de silicone. Sua boca tinha marcas de cinco cortes. Na verdade, todo seu rosto era patético. Ele era o próprio Corcunda de Notre Dame. E lembrou-se do homem que encontrara na joalheria, um príncipe no meio do mundo, belo, loiro, rico, cópia fiel do homem que ele próprio fora um dia. Se ele desaparecesse, com certeza ela casaria com ele, ou com outro homem parecido para ter filhos bonitos e cheios de saúde.
Afinal, onde estava sua cabeça? Ele perdera um testículo nesse acidente e ficou estéril. Seu coração passara por duas cirurgias, no máximo ele ia viver uns dez anos a mais. E sua riqueza desaparecera nas clínicas, nas casas de repouso e nas cirurgias plásticas. A melhor coisa a se fazer era: — desaparecer!
Quando a mulher chegou à casa de seu amor nessa noite, encontrou uma carta estranha. Seu namorado falava que havia viajado para longe para esquecê-la, e que nunca mais se encontrariam. Pedia para compreender que o amor havia chegado tarde demais para ele, e que não tentasse analisar sua atitude. Com mãos trêmulas ela chamou os amigos para tentar crer nesse desatino. Depois chorou como choram as viúvas que ficam sozinhas no meio da solidão.
E nunca mais se soube dele. Sequer quando ele morreu. Sozinho, num quarto de hotel, de parada cardíaca fulminante.
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