Notas iniciais
Numa tarde ensolarada, uma linda mulher que caminhava perdida, em busca do Paraíso encantado, chegou à beira desse lago. Ela, que havia cruzado montanhas e caatingas, parou a caminhada assim que colocou o pé na lama. Fedia como esterco. Tampou o nariz e analisou o ambiente. Examinou a possibilidade de contornar o lago fazendo uma ponte aérea entre as árvores para encurtar a travessia. E começou a fazer a ponte.

Numa grande floresta havia um lugar maldito por onde os bichos evitavam passar. De longe se sentia o cheiro fétido e, de vez em quando, um alarido forte irrompia o ar, de alguém que afundava no lamaçal. Alguns guerreiros da selva que rumaram naquela direção jamais regressaram para contar sobre o mistério daquela lagoa.

Numa tarde ensolarada, uma linda mulher que caminhava perdida, em busca do Paraíso encantado, chegou à beira desse lago. Ela, que havia cruzado montanhas e caatingas, parou a caminhada assim que colocou o pé na lama. Fedia como esterco. Tampou o nariz e analisou o ambiente. Examinou a possibilidade de contornar o lago fazendo uma ponte aérea entre as árvores para encurtar a travessia. E começou a fazer a ponte. Cortou um cipó com seu facão e em seguida, amarrou uma pedra na ponta e lançou-a no ar. Sorriu. Ficou ótima. Repetiu a ação, e finalmente atravessou o vazio que nem trapezista de circo.

Quando estava na metade do caminho, uma cobra gigante apareceu deslizando ao seu encontro, com olhos brilhando, língua pronta para o bote. O que fazer? Lutar contra ela, ou fugir de pressa? Mas, como é que ia lutar se estava pendurada que nem preguiça? Fez o caminho de volta, cortou o cipó com rapidez e a cobra caiu no lago, afundando na imundície.

Passado o susto, a mulher optou por construir uma jangada.

Cortou cipó novamente, amarrou madeiras com firmeza, e empurrou sua embarcação para a esterqueira. Apoiando-se em um tronco fino começou a remar lentamente, uma vez para direita, outra para esquerda, deslizando sobre a lama fétida. Mas uma lagarta gigante emergiu de surpresa virando a embarcação, empurrando-a pelo ar, dando giros em direção à estrumeira a condenando à morte por afogamento. Enquanto caía, ela viu uma pedra pequena. Tentou cair por sobre ela, equilibrando-se com os pés. Suspirou aliviada dando graças ao alto.

Quando duas mãos seguraram seus tornozelos com firmeza, ela sentiu medo novamente. Que monstro era desta vez? Uma lula gigante talvez? E olhou tentando manter-se firme. Nossa! Era a cabeça e os ombros de um homem! E ele estava segurando-a para não cair. E com surpresa falou-lhe:

— Mas quem é você?

— Um ingênuo igual a ti... Pensei que podia cruzar pela merda sem me sujar, mas eu caí de nariz e estou com ela até o pescoço há muito tempo...

— Credo! Que porcaria, cara! Obrigada por me ajudar, mas podes me soltar que eu vou caminhar ao teu lado...

—Tás brincando! Qual é tua altura?

— Um metro e meio...

— Eu tenho um metro e noventa e cinco e estou quase me afogando. Melhor, segura-te e senta nos meus ombros que vou te carregar...

E foi desta maneira que ambos se conheceram.

A mulher cortou uma manga de sua blusa, molhou-a com água de sua garrafa e limpou o rosto do homem. Depois, deu-lhe um gole de água na boca, e se absteve de beber, pois o herói desta história era ele e ia precisar de energia para cruzar o lodaçal até o outro lado.

O dragão de três cabeças, que lançava fogo pela boca e fumaça pelo nariz, lhes cortou o passo no meio do pântano. A besta apareceu surpreendentemente dando uma caudada nas costas da mulher, com toda força. O homem, que percebeu a presença da besta com a rapidez das mentes inteligentes, soltou as pernas dela e a recebeu pela frente, nos seus braços. Ela fechou os olhos, pois a chacoalhada do monstro levantou uma verdadeira chuva de merda por cima deles. Limparam o rosto com as mãos, ela sentou nos ombros do seu amigo mais uma vez, puxou o facão do cinto e se preparou para luta. Ele abriu as pernas para segurar ambos, e em seguida lhe indicou como atacar a besta. Afinal, a vida de ambos dependia dela dessa investida.

Durante duas horas ambos lutaram contra o animal formando um corpo só. No fim da briga, quando o dragão afundou no charco com berros da morte, ambos estavam tão feridos, que não sabiam se sobreviveriam até o fim. A mulher tinha queimaduras nos braços e o homem sangrava com os olhos cegos de dor. Ela rasgou sua roupa e lhe limpou os olhos e depois lhe envolveu a cabeça para deter o sangramento. Também, desceu para nadar ao seu lado. O homem a segurou pela cintura, e pouco a pouco reiniciaram a caminhada. Como ele não enxergava a mulher lhe indicava o caminho e falava sem parar, dando-lhe coragem. O homem começou a sorrir porque ela contava coisas engraçadas. Como é que ela seria? A única coisa que dava para perceber é que pesava cinquenta e cinco quilos e tinha pernas grossas.

Ao cair da noite, enquanto a lua cheia iluminava a lagoa negra, eles alcançaram o fim da travessia. Ele bebeu os últimos goles de água, e empurrou a mulher para cima, enquanto ela se agarrava nas matas subindo uma altura de uns dois metros até o chão firme. Ela saiu da merda, voando como uma pena no ar, ela levantou-se, caminhou entre o mato, cortou um cipó novamente e amarrou uma ponta num tronco firme. Depois, lançou a outra ponta para seu amigo, que o amarrou ao redor da cintura. Em seguida, ele tentou subir pela encosta, mas o cansaço tomou conta dele e desmaiou enterrando a cara na terra. A mulher entrou em pânico. Correu, amarrou outro cipó na cintura dela e se deixou cair até ele. Limpou-lhe o rosto, e segurou sua cabeça contra seu peito. Depois esperou com paciência que ele recuperasse as forças, para saírem juntos daquele lugar.

Ao raiar do Sol, ambos estavam desmaiados sobre a grama, abraçados, longe daquela podridão. Levantaram-se, e caminharam em busca de água para tomar um banho e limpar o esterco grudado no corpo. Quando viram um rio de águas limpas e cristalinas, pularam rindo como duas crianças, nadando entre a correnteza, puxando as roupas e esfregando o corpo com elas. Depois, cataram flores para esfregar na pele e dar aroma à limpeza, sem parar de gargalhar, lembrando-se das peripécias recém-vividas.

Vestindo apenas um calção, ambos sentaram na beira desse rio a comer frutas recolhidas no mato. Contaram piadas, brincaram, e num momento qualquer o homem olhou-a sorrindo e deu-lhe o primeiro beijo na boca. Em seguida, estenderam-se na grama macia, como duas almas que se encontraram no meio da podridão. O homem examinou com olhos bem abertos a beleza dela, seus seios generosos, seu cabelo loiro encaracolado, e seu sorriso fascinante. A mulher olhou para esse homem, que mais parecia um anjo que descera do céu, de tão magnífico que ele era, e entendeu que depois de uns trinta anos de caminhada ela finalmente encontrara esse Paraíso que tanto buscara, através de uma longa travessia através da m...a. E começou a gargalhar. Se contasse, ninguém acreditaria.

Notas finais
Ao raiar do Sol, ambos estavam desmaiados sobre a grama, abraçados, longe daquela podridão. Levantaram-se, e caminharam em busca de água para tomar um banho e limpar o esterco grudado no corpo. Quando viram um rio de águas limpas e cristalinas, pularam rindo como duas crianças, nadando entre a correnteza, puxando as roupas e esfregando o corpo com elas. Depois, cataram flores para esfregar na pele e dar aroma à limpeza, sem parar de gargalhar, lembrando-se das peripécias recém-vividas.