Os homens do futuro
15 Amor em preto e branco
Notas iniciais
Numa outra Galáxia, uma nave pousava sobre a Lua de um planeta gigante, num grande aeródromo espacial. A figura de um homem caminhou com firmeza pela entrada principal dessa Base, subiu numa nave de passeio e rumou para o Mundo de Iarata, um planeta selvagem, com uma cidade de repouso no meio do mato, para astronautas cansados como ele.
Na verdade, o homem estava mais do que fatigado, ele se encontrava irritado, extenuado, depois de percorrer toda essa Galáxia em busca de mudas de árvores para povoar seu planeta, que se encontrava na beira da extinção. Além de encontrar bichos no seu percurso, não vira nenhum ser humano. Viajara entre esses astros, recolhendo mudas de plantas pré-históricas, dormira congelado numa urna de cristal, perdido em sonhos eróticos. Apenas seu robô feminino o servia como consolo, e ele não sabia o que era uma fêmea fazia muitos anos estelares.
Chegando à cidade de Iarata desse mundo recreativo, o homem entrou num corredor iluminado com um raio que desintegrou seus germes e todas suas roupas. Depois, tomou uma chuva de água azul desinfetante, e por último uma luz vermelha secou seu corpo. Vestiu uma bata leve, e saiu em busca de gente como ele. Um comitê de recepção, composto de duas mulheres lindíssimas e de quatro machos de cabelos arrepiados, lhe ofereceram hospitalidade de graça. Poderia passear e usufruir todas as mordomias desse mundo em troca de nada. Também podia ficar o tempo que desejasse. Ele sorriu agradecido e os abraçou comovido.
Logo depois, subiu num carrinho que o levou para as dependências de um hotel luxuoso, onde vestiu roupas diferentes, próprias daquela civilização. Uma túnica branca, uma capa vermelha e sandálias macias. Bebeu alguns drinques deliciosos e viu televisão. Depois saiu a dar um passeio. Visitou um parque onde caminhavam casais acompanhados dos filhos e em seguida foi numa casa de danças onde havia pessoas solteiras.
Entrou na danceteria dando abraços e beijos em todos que cruzava seu caminho, fazendo amizade com entusiasmo. Os homens eram na maioria sujeitos altos como ele, elegantes e em trajes distintos. Havia mulheres de todas as formas, baixinhas, magras, altas, gordinhas, verdadeiras rainhas universais com corpos perfeitos e cabelos penteados com arte. Na verdade, era até difícil escolher uma delas, pois todas eram maravilhosas, a maioria sem noivo, nem sequer paquera.
Mas, foi uma Rainha solitária que chamou sua atenção. Ela estava num canto dessa casa de festas tão quieta, que mais parecia um robô desativado. Loira de cabelos soltos, olhos felinos, busto exuberante, vestida como uma princesa, com roupas finas, cheia de joias reluzentes. Afinal, de que castelo ela teria fugido?
Quando a mulher viu o homem caminhando na sua direção, respirou fundo com resignação. Era o sujeito mais feio que ela vira em toda sua vida, na certa era da Via Láctea onde os homens eram descendentes de gorilas. Teria que ser gentil, obedecendo às leis de convivência entre mundos evoluídos. Sorriu educadamente, e depois bebeu sua cerveja sem olhar para ele.
O homem se ajoelhou ao lado dela com delicadeza e ficou contemplando-a fixamente, hipnotizado por sua beleza. Depois, pegou sua mão e falou:
— Princesa de todas as Galáxias, eu posso ficar aqui admirando você?
Ela olhou para ele e levou um susto. A pele dele era tão negra que mal dava para vê-lo no semiescuro. Somente seus dentes brancos reluziam num sorriso amplo. E falou com firmeza:
—Desculpe-me, mas gostaria de continuar sozinha, pois já estou de partida.
Depois pensou em si mesma e sobre o motivo que a trouxeram até esse mundo perdido. Uma falha mecânica na sua nave tinha-na obrigado a descer nesse planeta em busca de manutenção, e só havia encontrado gente feia. Pior ainda, nesse planeta era proibido brigar por causa de assédio sexual. Ou de estupro. Ou, seja lá o que for. Quem chegava ali era precisamente à procura do amor e de namoros com ou sem compromissos. E os homens não perdiam tempo, avançavam sobre as mulheres como hipnotizado. E esse gorila evoluído estava esticando o pescoço em direção dela para beijá-la. O melhor a fazer era se levantar e sair dali rapidamente. Nos corredores, podia finalmente correr e entrar na sua suíte do hotel, longe do galanteador.
Mas, ela nem teve tempo de agir.
Assim que ficou em pé, o troglodita a abraçou, enquanto sua boca foi atacada de língua, com ânsia. Ela mal podia respirar, enquanto uma tontura gostosa a fazia sentir flutuar. Um calor começou a queimá-la por dentro, e sua língua e a dele se tocaram e esfregaram enquanto a respiração se fazia forte e rápida. Para piorar sua situação o preto feioso estava de túnica.
Uma luz verde, que entrava em ação quando um casal ficava escandaloso, os rodeou e fê-los flutuar para longe dali. Viajaram dentro de uma tubulação gigante, onde suas roupas foram desintegradas, e seus corpos foram apertados por um mecanismo de movimentos ondulantes, batendo contra paredes macias e gostosas que os chacoalhou até ambos desmaiarem.
Foram descarregados sobre uma cama gigante, numa suíte paradisíaca, com jardins internos e uma piscina térmica borbulhante. Assim que acordaram, uma câmara na parede se abriu e apareceu uma bandeja com sucos naturais, comidas e capsulas com vitaminas. O homem bebeu e comeu de tudo, enquanto sua beldade bebia água como um moribundo no deserto. Ele deu-lhe comida na boca e depois a carregou nos braços para o banheiro.
Esperou por ela na piscina, estendido, sorriso na boca, pois ela estava finalmente olhando-o de outra maneira. Ela saiu enrolada numa toalha macia e entrou na piscina junto com ele, por vontade própria. Ele abriu os braços para recebê-la enquanto as bocas encostavam uma na outra docemente e iniciavam mais um encontro de amor.
E namoraram naquele lugar durante meses, pois naquele mundo não havia pressa para nada e os amantes jamais eram incomodados. Quando a nave da mulher ficou pronta para continuar sua viagem ela nem foi avisada do assunto. Esperaram que ela tomasse a iniciativa do fim de estadia por si só e sua decolagem ficou para o futuro sem dia definitivo para acontecer.
Mas o homem sabia que esse chamego não tinha futuro. Ele não chegara ali em busca de namoro. Isso foi inesperado para ele. Insólito. Teriam que se separar, pois ele devia continuar a viagem com sua carga milagrosa com destino ao seu planeta. Viveria o resto da existência lembrando-se dela e morreria um dia chamando-a entre delírios. E a tristeza tomou conta dele sem piedade. Estava apaixonado até a alma e sem esperança alguma. Seu planeta Vendarta aguardava as mudas de árvores como um moribundo espera pela cura. Os sobreviventes da última guerra mal podiam respirar pela falta de oxigênio e plantar essas mudas era a única salvação de seu povo. Nem sequer podia sonhar em partir atrás dela, e muito menos de levá-la junto para Vendarta a vivenciar tanto horror. As cidades eram ruínas asquerosas, os sobreviventes viviam como índios nas beiras dos rios pescando peixes e tentando continuar com a civilização humana.
Quando ela falou tirando-o de seu devaneio, levou até um susto, pois, mal dava para acreditar no que estava ouvindo.
— Sabia que esse mato que está carregando não vai salvar seu planeta Vendarta?
— Por quê?
— Necessita da ajuda de um especialista em solos contaminados com radiação, e de vários remédios para devolver a fertilidade ao chão. Também é necessário semente de capoeirão selvagem, e que eu saiba, só há capoeirão no meu planeta, que fica a dois anos estelares de distância de Vendarta. Se desejar pode ir comigo até meu mundo, e eu lhe dou todas as sementes que almejar.
— E você poderia conseguir um Ecologista para mim?
— Está olhando para ela. Sou esperta em ressuscitar todo tipo de chão...
— E você me acompanharia? O seu pai vai deixá-la ir comigo?
— Se a gente se casar antes de partir, ele vai deixar, podes crer...
E ela não falou mais nada. Braços fortes a apertaram com firmeza e uma boca gulosa a beijou com ânsia, como no primeiro dia que se conheceram. Ela imaginou a viagem que os esperava. Acoplariam as duas naves, formando uma só. Partiriam na velocidade máxima, e viajariam três anos estelares até chegar ao seu planeta. Fariam amor numa suíte que só tinha uma cama e uma piscina para refrescar o corpo. Como trabalho, ela teria que preparar as comidas para ambos e ajudar seu homem a pilotar as naves. Estaria sempre presa entre esses braços fortes, pois ele nunca a soltaria. E respirou fundo. Na verdade o futuro lhe pareceu cheio de felicidade.
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