Os homens do futuro
16 A biografia de Juan Aburto
Notas iniciais
Juan, pai de meus filhos Luis, Natália a Ana Gabriela, sempre teve um grande desejo na vida, escrever sua própria história, deixar seu legado, contar sobre suas aventuras e andanças pela vida, pois ele foi um homem de abrir caminhos, trilhar sendas, e ir além à busca do desconhecido. E eu acredito que foi por esse espirito aventureiro que me casei com ele. Juntos, nós cruzamos o deserto de Atacama num carro popular, com Juan ao volante totalmente nu! Pois, o calor durante o dia no deserto chileno é abrasador e, nós o cruzamos desde Arica até Santiago, de ida e de volta, numa Citroneta. Para se ter uma ideia, o Fusca ao lado da Citroneta é carro de luxo! E Juan tirou camisa, calças, cueca, rindo, sem medo de nada, nem que nos faltasse gasolina, ou água, ou de sermos assaltados por bandidos. E por ousadia ainda maior, nosso filho Luis só tinha uns 3 aninhos e dormia na parte traseira da Citroneta num colchão, também totalmente nu.
Juan nasceu em Osorno, no Chile, de uma família de muitos filhos. Meu sogro era militar, enfermeiro de profissão e trabalhava atendendo o pelotão durante suas campanhas. Cada vez que o quartel organizava viagens para as fronteiras com Argentina, lá ia meu sogro marchando como qualquer soldado. E cada vez que regressava encontrava um recém-nascido em casa. E antes da próxima campanha, minha sogra estava grávida de mais um. Juan era o segundo filho, e ajudou minha sogra a carregar muito recém-nascido. Foram ao todo doze irmãos. O filho mais velho era Manuel, o preferido de minha sogra. Manuel e Juan foram tão mimados, que foram os únicos a estudar em escola particular. Nessa altura meus sogros já viviam em Puerto Mont, uma cidade encantadora, num sítio na periferia da cidade.
Minha sogra gostava de cultivar a terra e meu sogro de levantar casebres para os bichos e passear com as vacas. Minha sogra vestia Juan e Manuel como pequenos príncipes, e os enviava para cidade a estudar. Só que os irmãozinhos eram dois capetas vestidos de gente. Regressavam correndo, chacoteando, entrando nas poças de águas da chuva, com os sapatos amarrados na cintura para não ganhar uma surra de meu sogro. Já em casa saiam pelos morros, com uma dúzia de guris a brincar com tudo, facão, pedras, e estilingue para caçar passarinhos. Juan também aprendeu a disparar espingarda e matava os bichos sem dó.
Esse comportamento de índio, numa escola particular, não era bem admitido. Então, um dia Juan foi expulso, sem dó nem piedade. Não me lembro o que é que ele aprontou. Só sei que meu sogro deu-lhe uma baita surra e o enviou a viver com sua mãe em Valdívia, a cidade natal de meu sogro. E na casa da vovó Juan aprontou tanto, que ela colocou-o a trabalhar em tenra idade, e para que continuasse estudando enviou- a uma escola noturna. Nunca soube até que ano Juan estudou. Ele jurava que prestara Vestibular, mas, isso nunca aconteceu. Só sei que na escola noturna ele começou sua maratona de namoradas. Pois uma das qualidades de Juan era sua beleza máscula, ele era moreno, sorriso sedutor, com olhos negros profundos com cílios longos e curvos. Ele era realmente encantador. Fazia-se querer por quem chegasse perto.
O terremoto dos anos 60 que assolou o Chile com grau 9,5, teve o epicentro em Valdívia. As ondas do mar saíram com fúria e avançaram sobre a cidade, enquanto o terremoto derrubava tudo e abria crateras no chão. Foi o mais violento sismo em todos os tempos, no mundo todo. Ficou como lembrança uma lagoa de água salgada no meio da cidade que eu conheci muitos nos mais tarde. E Juan, com uns 18 anos mais ou menos, encontrava-se trabalhando numa madeireira ao lado de uma vila de pescadores, junto do mar. Quer dizer, no lugar onde as águas arrasaram tudo.
Muita gente da praia salvou-se correndo a cavalo em direção aos morros, com a água no calcanhar. No maior desespero do “salve-se quem puder”. E Juan, enquanto corria em direção a esses morros, pulou na garupa de um cavaleiro, que fez de tudo para empurrá-lo do cavalo. Juan me contava que o cara começou a dar-lhe socos, mas que terminou entendendo que, ou se salvavam juntos, ou caiam ambos do cavalo e morriam afogados. Chegando acima dos morros, mata fechadíssima, eles viram a vila dos pecadores desaparecer, e a madeireira ser arrasada sem piedade. Quem se salvou ficou isolado e sem atinar a nada, sem comida, nem água, numa selva com pumas e algumas cobras peçonhentas.
Em Puerto Mont meus sogros ficavam desesperados. As noticias do radio só falavam do número de mortos, e afirmavam que o mar não deixara ninguém vivo nas vilas costeiras. Manuel, sério pela primeira vez na vida, saiu com destino a Valdívia em busca do irmão.
Juan ficou perambulando nos morros em busca de um caminho para a cidade, faminto, quase desmaiando, junto a um grupo de homens. Parecia um zumbi. Um morto vivo. Assim que uma patrulha de busca os achou, ela os deitou, alimentou, e carregou-os para suas famílias. Juan foi socorrido por um amigo. Ele deu-lhe estadia, cama, conforto, pois os caminhos até o centro da cidade estavam totalmente interrompidos. Ou havia neles muita água, ou eram buracos enormes no chão, num desastre generalizado. E Manuel o encontrou finalmente. Os irmãos choraram, e Manuel se comunicou com meus sogros através de raio amador para dar notícias. Ninguém da família em Valdivia falecera. Estavam todos bem, tanto as irmãs como a mãe de meu sogro.
Mas uma desgraça como aquela deixa ferida profunda. Juan tinha pesadelos, cara de zumbi, pálido e acordava suando, cheio de tremores. Ele estava tão abatido, que meu sogro tomou uma decisão, enviou-o a Santiago para passar um tempo em casa de um compadre, o velho Pedro. Era assim que Juan o chamava com carinho, pois o velho Pedro acolheu-o como mais um filho. E durante os anos seguintes, Juan recobrou a sanidade e a alegria de viver.
Juan tinha uma tia em Santiago, irmã de meu sogro, e primas muito lindas. E tanto essa família quanto o velho Pedro o incentivaram a estudar e trabalhar. Foi assim que ele começou sua carreira de caixeiro viajante e seu aprendizado no violão. Ele vendia instrumentos musicais, e para maior sucesso nas vendas tocava música, cantava e abusava de seu charme e simpatia. Em menos de um ano ele vivia sozinho numa pensão, pagava suas contas e acumulava namoradas. Muitas, pois sempre gostou de ter muitas amantes. Ele se gabava em disser: — mulher, não é problema! Elas correm atrás de mim!
Mas, a partida do irmão Manuel para Colômbia e os desejos de aventuras o tiraram dessa vida mansa. A grande aspiração de Juan era chegar um dia aos EUA numa turnê internacional. Ir de mochileiro, se fosse possível. E enquanto sonhava, conheceu um amigo que trabalhava no porto de Valparaíso, como carregador de navios mercantes. E pouco a pouco, entre conversas e vinho, Juan foi idealizando um plano maluco. Com a ajuda desse amigo ele podia se esconder num barco e chegar um dia a um paraíso estrangeiro. Era necessário apenas não chamar atenção. Durante o dia se podia misturar com a tripulação, usar os banheiros, e durante a noite dormir em algum depósito de bananas, ou algo similar.
E sem contar nada para a família, sequer para o velho Pedro, fez uma mochila e partiu. Levou com ele comidas enlatadas, muitas barras de chocolates e algumas bolachas. E se salvou da morte, novamente, assim que colocou o pé no barco e entrou num esconderijo, seu amigo apareceu correndo e o tirou do “depósito de bananas” minutos antes de Juan ser congelado vivo. Procuraram outro refúgio, e Juan ficou ali, quietinho, esperando o navio zarpar.
E foi assim que sua aventura começou. Durante o dia fazia a barba, caminhava no convés, e se escondia em lugares diferentes. Só que a comida foi acabando, e começou a se alimentar só com os chocolates. Começou a passar mal, emagreceu, e mais parecia um zumbi de novo perambulando pelo convés, pálido como múmia.
Depois de esse barco descarregar as bananas no Porto de Iquique, Juan finalmente foi encontrado por causa de sua aparência de morto-vivo. O capitão ficou realmente apavorado, pois iam a caminho de águas internacionais. Desviou-se da rota, e se encaminharam para Arica, última cidade chilena que faz fronteira com o Peru. Juan foi colocado num bote e abandonado no porto sem nenhuma cerimônia.
A cidade de Arica era uma urbe encantadora e um centro de livre comercio por aqueles anos. Um mundaréu de gente chegava todos os dias de avião, de ônibus, ou de barco em busca de objetos. Havia um comércio formiga nas ruas com gente que chegava desde Santiago em busca de perfume importado, ou eletrônicos, como, rádios, toca-discos, telefones ou garrafas térmicas. As mulheres levavam dúzias delas para Santiago, pois era a novidade por esses anos. Mas o maior encanto dessa cidade era o “Cassino”, que alegrava a vida noturna. Havia nele roleta, ponto de banca, salão de festa, e um jardim maravilhoso. Era o lugar onde plantas do Brasil havia se adaptado por causa do clima. O “pé de borracha” era novidade para qualquer turista, tanto chileno quanto peruano. No Chile ele é chamado de gomero, e em Santiago cresce como planta de interiores e ele é bem baixinho. Além do cassino havia também uma boate no centro de Arica, com espetáculos de canto e de música, strip-tease e onde o Blu ballet, um grupo de travestis era a atração principal. E, além disso, havia também o Hipódromo com corridas de cavalos que empolgavam os turistas, principalmente peruanos aos fins de semana. Eles invadiam a cidade em busca de diversão tanto com os cavalos como na roleta do cassino. Ou seja, Arica era uma cidade cosmopolita cheia de vida, negócios, e de diversão.
E foi pelas ruas dessa cidade que Juan, terno amarrotado, magro, cara de morto-vivo, perambulou olhando mostruários maravilhosos que vendiam entre a balbúrdia das pessoas. Um lojista olhou para ele através das vitrines e falou para esposa: — olha esse pobre jovem, deve estar passando fome, vai dar um dinheiro para ele! Mas Juan, astutamente, se negou a receber dinheiro e lhe pediu emprego. Contou-lhes sobre sua experiência como caixeiro viajante, sobre suas vendas de instrumentos musicais e de sua viagem pelo mar como clandestino. Acho que até contou tudo sobre o terremoto de Valdívia. Pronto! Ganhou o emprego e dinheiro adiantado para pagar uma pensão.
Depois de dois anos Juan era o rei da cidade. Namoradas, amigos e uma vida feliz. O amigo mais chegado era Manuel Ventura, um espanhol casado com uma cubana. Eles eram um casal sem filhos, mas, em compensação tinham uns nove cachorros gigantes e peludos que tratavam como filhos. Manuel Ventura tinha um restaurante de autosserviço na estrada que unia Arica com Tacna, a cidade fronteiriça peruana. Era o Pura Gula! Lindo, enorme, que funcionava de dia e de noite, pois os carros não paravam de chegar. E Juan, ajudava atender, sem ganhar nada, apenas amizade e comidas, quando dava.
O Pepe Salim era seu compadre, um bancário inteligente, bonito, que ria tempo todo. Pepe era casado e tinha uma filha, a Jasmin, da qual Juan foi o padrinho. Juan namorou durante muito tempo com a irmã da esposa do Pepe. Acho que Juan e Pepe conquistaram as duas irmãs ao mesmo tempo.
Mas o amigo mais legal de todos era o Nano Donoso, que tinha uma família enorme. Nano nunca conhecera seu pai, pois sua mãe fora mãe solteira e se casou com outro homem quando Nano era bem pequeninho. Depois da viuvez, a mãe do Nano casou novamente e, ao todo, ela teve cinco filhos, três homens e duas mulheres. O Nano era casado com a Gilda e tinham 2 filhos adolescentes, o Nanito e o Marquito. Garotos fortes, morenos, lindos, que eram o orgulho do Nano. Gilda era a melhor cozinheira que eu já conheci. Fazia uma delícia de jantar com qualquer coisa. Os bolos eram sua preferência, as cucas de maçãs então, todos as compravam por causa de sua qualidade. Nano Donoso era também um caixeiro viajante. E ele vendia de tudo. O que estava na mão. Ia até de porta em porta, pois possuía uma simpatia fora do comum e a mulherada comprava tudo. Quando os patrões de Juan foram morar numa outra cidade, Juan começou a fazer parceria com Nano nos negócios. Os dois percorriam Arica vendendo o que estava na moda. Por aqueles dias eram as fotografias coloridas. Eles mandavam fazer a arte em Santiago, por cima de pratos de porcelana, e ganhavam um bom dinheiro com isso tudo.
Quando Pepe Salim foi transferido para Santiago pelo Banco, Juan decidiu ir junto para visitar ao velho Pedro que ele adorava, sua tia e suas primas. Acredito que ele namorou uma delas, mas nunca tive certeza. A tia teria lhe dado uma surra, ou, meu sogro teria dado. Juan ficou algum tempo em Santiago ajudando Pepe a se instalar e depois viajou a Puerto Montt para visitar os pais. E foi nesses dias, que nossos caminhos se cruzaram.
Naquele verão eu fui a Puerto Montt numa viagem de férias com colegas da faculdade. Tínhamos poupado durante anos para ir até Punta Arenas fazer exposição, mas faltou-nos dinheiro. Para compensar chegamos nessa cidade com a alegria plena da juventude. E olhávamos para tudo, principalmente para os homens. E Juan fazia parte dessa paisagem masculina, com uma turma de amigos que estavam sempre na praça da cidade catando turistas.
Numa tarde, eu com minha melhor amiga fomos comprar coisas. E ela comprou um abajur enorme, que não pesava nada, mas que era gigante. E, além disso, outras porcarias. E carregadas, cruzamos a praça passando perto da turma de Juan. Alguém o empurrou para fora e eu pude escutar: — fala com ela! E Juan me disse ao passar: — se me deixa ir junto, eu carrego esse pacotinho para você! E eu falei na hora: — ótimo, podes vir! E demos para Juan tudo que havia de mais pesado, rindo sem parar. E depois, caminhamos rumo a nossa hospedaria na subida de um morro, perto do quartel militar. No fim desse passeio, já estávamos convidadas para uma festa, todas nós. Comida e bebida de graça. Eu agradeci e respondi que teria que perguntar para minha turma.
Como todas aprovaram, fomos para essa festa. Nossa! O lugar era mágico! Um amigo de Juan, casado, vivia com a esposa e os filhos na cima de um morro com vista para toda a cidade. Olhamos boca aberta para o mar, as ilhas abaixo de uma noite cheia de estrelas. A casa possuía vidraças enormes e a vista era encantadora. Linda. Os homens, faziam de tudo para nos agradar. Juan pegou o violão para cantar la bamba, e lá fomos nós, mexendo quadris, rindo, festejando, foi realmente uma noite deliciosa. Nunca nos divertimos tanto durante essa viagem. Para completar, um dos homens estudava engenharia em Santiago, na mesma universidade que todas nós, e ficamos amigos para sempre. E esses rapazes nunca mais nos deixaram sozinhas, nos acompanhavam durante o dia visitar as ilhas, conhecer os vulcões, os lagos, e fizeram muitas festas para nós. Foram dias felizes.
Nesses dias eu namorava Mariano em Santiago, um homem mais do que perfeito. Já era formado em engenharia Agrônoma, gostava de música clássica, ópera e me acompanhava em todas as paradas da universidade, festas, passeios, era o namorado ideal. Então quando Juan começou seu galanteio, junto a todos seus amigos que tentavam conquistar as outras amigas, eu entrei na onda, para me divertir. Bailamos la bamba muitas vezes, demos beijos a caminho de casa, passeamos de mãos dadas, foi um lindo chamego de verão. Mas eu tinha certeza que isso não ia dar em nada. Quando regressei a Santiago eu continuei namorando Mariano, e Juan ficou como uma linda lembrança de umas férias perfeitas.
Até o dia que tocou o telefone de meu trabalho. Eu fazia bico numa empresa de metais onde minha irmã Olivia era chefe de produção, e dera o telefone para Juan antes de regressar. E Juan agora estava em Santiago na casa de sua tia, e desejava me encontrar.
O que fazer? Eu já era bígama de uma vida toda! Desde os 14 anos eu namorava Tito em Valparaíso, cada vez que eu visitava meu irmão Joni e meus primos. E Tito sabia de tudo que eu fazia, pois, a gente se escrevia o ano inteiro. Quando chegavam as férias eu viajava para Valparaíso, onde Tito me esperava como um noivo. Depois que eu regressava para Santiago, ele namorava todas. Eu sabia disso, embora ele jamais falasse de suas outras mulheres. E Tito era sacana, convencia-me sempre a terminar meus namoros, seja lá com quem fosse, pois eu contava tudo para ele. Foi assim que ele me fez a cabeça para terminar com Mário, com Pedro, e só desta vez ele não sabia de nada.
O que é que eu ia fazer? Eu já estava com 21 anos, no último ano da faculdade, era hora de ficar adulta e parar de brincar de namoro. Tinha que escolher um, para ser o único. UM! Mas quem, Tito? Mariano? Juan? E sabe-se por que motivo, eu escolhi Juan. Terminei meu namoro com Mariano, e escrevi uma carta para Tito contando que ia me casar, pois tinha encontrado finalmente o amor verdadeiro. Tito me respondeu com frieza, sem acreditar em nada disso e tentou me convencer para ir a Valparaiso para conversar.
Mas, Juan não me dava trégua! Começamos a fazer festas em Santiago com Nano Donoso, que viajara a comprar “coisas”, com Pepe Salim que ia para as noitadas como se fosse solteiro, e com outras pessoas. Um casal de caixeiros viajantes com duas filhas e mais dois colombianos estagiários da Escola de Medicina da Universidade de Chile. Era um grupo bagunceiro, festeiro e divertido. O nosso lugar preferido era um restaurante onde havia música para dançar, o famoso Tarapacá! Juan adorava dançar. Depois íamos para um clube de jazz, pois, tanto Nano como Juan adorava jazz, e eu amava mais ainda. Era uma casa grande, com vários instrumentos a disposição para o público. Alguns tocavam trombeta, bateria, e ficávamos por lá, até altas horas. Mas o que mais gostavam esses sem-vergonhas era ver mulher pelada. Havia uma boate em Santiago com 2 shows, a uma da madrugada e mais outro as três. As mulheres faziam strip-tease, e ficavam totalmente nuas, rebolando entre os homens. Eu levava na brincadeira, é claro, igual às outras amigas que acompanhavam o grupo festeiro. E antes de regressar para casa, já todos bêbados, íamos tomar café no Il’Bosco, uma cafeteria na Alameda Bernardo O’higgins para quem curtia a noite, e o lugar que jamais fechava. Chegavam ali escritores, boêmios, e eu de vez em quando encontrava algum amigo das artes.
Mas, como Juan não parava de falar em casamento eu comecei a entrar em pânico. Até fui a Valparaiso para falar com Tito e pedir conselhos. Afinal, eu não era virgem fazia anos. Tito sabia disso, e já tinha me dito que para ele isso não tinha nenhuma importância.
Por aqueles anos 60, as mulheres chilenas faziam de tudo para chegar virgens na noite de núpcias, principalmente trapaça. Tinha as que faziam mini cirurgia na vagina, para sangrar, ou davam o cu! Tinha amigas que faziam sexo anal com todos os homens, na maior naturalidade. E um dia casavam virgens! Os maridos enchiam a boca contando aos amigos que tinham sido “os primeiros”. E eu, anarquista e revolucionária, era contra toda essa hipocrisia. Detestava homem machão que podia namorar todas, mas só casava com virgens. Ricas de preferência. Pacote completo. Virtude e riqueza. E depois de me aconselhar com Tito regressei a Santiago e contei de tudo para Juan. Como perdera minha santidade, e pedi para repensar, pois eu nunca ia aceitar recriminações.
E Juan aceitou numa boa! Depois de seis messes casamos, e eu subi no avião com destino Arica, meu novo lar. E eu amei essa cidade! Embora começamos nossa vida em comum com um colchão, um fogão e mais nada, eu adorei tudo, as praias, o clima, e principalmente meus novos amigos. A Gilda tornou-se com o tempo minha grande amiga que me ensinou a cozinhar. E com as cunhadas da Gilda e as esposas dos cunhados formamos um grupo de eterna amizade. Havia uma enfermeira, sem filhos, uma professora chinesa com dois filhos, aos quais chamávamos de Chinitos, e a Negra, a única irmã de Nano dessa cor. Ela era mãe da Negrita que junto com os Chinitos formavam o grupo barulhento das crianças menores. Também estavam os filhos da outra irmã do Nano, a Porota e o Poroto. Quando meu filho Luis nasceu ele foi apelidado de Monito. E Luis cresceu entre esse grupo de meninos.
Manuel Ventura, um dia inventou de vender o restaurante e viajar para Lima. E convidou Juan para ir junto. Manuel Ventura comprou um trailer, um jipe, um carro fechado para os cachorros, e lá fomos os quatro atravessando fronteiras. Ficamos em Tacna na espera dos documentos de migração por alguns messes, mas eu engravidei e comecei a passar mal. Regressamos com Juan para Arica, enquanto Manuel Ventura continuava para Lima com sua mulher e seus cachorros. Eles regressariam muitos anos depois, com Manuel Ventura muito doente, para morrer em Arica e deixar a mulher entre amigos. Foi um momento de grande tristeza para todos nós.
Nosso primeiro lar em Arica foi à casa da Rosina. E foi nessa casa que Luis nasceu. Ela era bailarina da boate e alugava quartos para artistas e copetineiras (não era puta, só acompanhante). Até o Blu ballet vivia naquele lugar. No Brasil isso se chamaria cortiço. Mas, ficava no centro da cidade, perto de tudo, e para mim era ótimo. Depois que Luis nasceu eu me locomovia com ele de táxi para todo lado em viagens curtas e baratas. E Juan, junto com Nano se perdiam nos bairros, Escolas e Universidades vendendo livros, desta vez. Eles foram tão bem, que em pouco tempo ambos compraram o primeiro carrinho, a citroneta. A citroneta de Nano era pequena, a nossa era como um pequeno furgão, onde colocavam os livros para venda. Desta vez, íamos passear com a citroneta pelo deserto com Juan, para fazermos piquenique no Valle de Azapa. Um lugar maravilhoso, pois tudo que se consumia em Arica crescia nas duas margens daquele rio fininho, que descia desde a Cordilheira dos Andes através das areias. Eu imaginava o Egito antigo, ou algo similar. O rio regava os legumes, e nós nos beneficiávamos o ano todo, pois com o calor do deserto tudo florescia em forma continua.
Mas a melhor época para mim era quando acampávamos na praia com Nano e família.
La Lisera é o único balneário chileno que possui palmeiras, como aqui no Brasil. Ele fica em frente ao Morro de Arica, morro famosíssimo, pois foi na cima daquele penhasco gigante que os soldados chilenos ganharam a batalha contra os peruanos para tirar deles todo aquele território. Quer disser, a cidade de Arica sempre fora do Perú, como o deserto de Atacama da Bolívia. Mas, depois dessa guerra do ano 78, o Chile ficou com tudo. E diga-se entre aspas, Arica tinha que ser devolvida aos peruanos, conforme o tratado de rendição, acho que no ano 1990, mas isso nunca aconteceu.
Ao lado da Lisera estava a Praia Brava, onde fazíamos o acampamento. Ondas gigantes, rochas mais gigantes ainda, onde Juan e Nanito mergulhavam cedo pela manhã. Juan conseguia chegar a 6 metros de profundidade e Nanito a 8. Com arpão pegavam peixes, ou, puxavam das rochas todo o tipo de marisco que encontravam. Certa vez, Juan pegou uma lula enorme, que eu não soube como cozinhar. Ao entardecer, era chegada a hora da fogueira. Era quando gente da cidade também aparecia com alguma carne, para se juntar ao grupo. Eu ajudava Gilda nas panelas, e Luis ficava no colo de todo mundo. E Juan, é claro, pegava o violão, e então se revessava com Nanito que também gostava de arranhar as cordas. Aliás, Nanito me ajudou na compra desse violão. Eu dei para Juan de presente de aniversario. Nanito experimentou muitos, até achar aquele que era perfeito, bom, bonito e barato. Quando minha mãe foi para Arica conhecer o neto Luis, nós estávamos acampados e ela ficou em nossa casa. Ela também tocou o violão, cantou algumas coisas, enquanto o Nano gritava para Juan:— Esta sim que é uma sogra, cara!
De vez em quando, Pepe Salim chegava à cidade para visitar sua mãe. Era quando os amigos se perdiam na farra como antigamente e chegavam a casa cheirando a alho. Nano contava que havia um puteiro fora da cidade onde eram conhecidos de longa data. Nano jurava que jamais eles transavam com as putas, era só para se divertir, pois ali dentro acontecia tudo, brigas, cenas engraçadas, e as putas os adoravam. Depois do puteiro, eles iam comer o “sanduíche de alho” num outro lugar, onde havia jogatina. A Gilda fazia o Nano lavar a boca, indignada, dava bronca, mas eu sempre levei na brincadeira. Afinal, meu pai fazia o chancho em piedra com muito alho, pimenta, e eu devo ter tido um bafo de onça quando pequenina.
Quando chegavam as "fiesta pátrias", Nano e Juan organizavam tudo. Geralmente escolhiam a casa da Negra por causa do espaço. Além da casa grande, ela tinha uma garagem vazia, onde se enfileiravam os colchões para os guris dormirem, todos juntos e amontoados, Luis no meio. E o resto era árvores e jardins onde Juan se encarregava de assar o cordeiro. Porque algo que ele sempre fizera na casa de meus sogros era matar o cordeiro. Sabia fazê-lo sangrar, sabia puxar a pele, limpar e assar o bicho banhado com bastante cerveja e farinha. E minha sogra se encarregava de outras tarefas, como, fazer o ñiachi. Isso é algo assim: prepara-se uma bacia com alhos, temperos, salsa, e o sangue do cordeiro caem dentro de tudo isso. Imediatamente, os homens pegam uma colher e comem enquanto o sangue está quente. Juan ficava todo ensanguentado, mais parecia vampiro. O pior é que fazia questão de me morder o pescoço.
Mas, em Arica, o máximo que os homens conseguiam era encomendar um cordeiro com antecedência, já morto. Comprava-se uns quinze litros de vinho, e se fazia tortas e cucas para a criançada. Depois, bailávamos, cantávamos, virando a noite na farra.
Mas a melhor de todas as festas aconteceu quando a irmã do Nano, mãe da Porota, conseguiu anular o primeiro casamento para casar-se com Juanito, seu namorado. Eles já viviam juntos e tinham um filho da idade do Luis, que também se chamava Juanito, como o pai. Eles casaram-se no civil, numa cerimonia simples e marcaram uma festa com os amigos para um fim de semana na casa da mãe do Nano, desta vez. E foi ali que Nano inventou de fazer o casamento religioso, onde o padre seria Juan, e Nano o coroinha. Conseguiram até um incensário para dar mais emoção. E eu me encarreguei de fazer a roupa do Juan, com um boné de bispo, de cartolina.
Quem vestiu a noiva foram às amigas. Vestido branco, véu na cabeça, flores, com a Porota como dama de honra. Também demos muitos conselhos à noiva sobre a “primeira noite”. O noivo esperou no altar, ao lado do padre e do coroinha. E os convidados abriram espaço para a noiva passar. Nano já havia espalhado incenso, e quem não era da família achou que era tudo de verdade. E no latim mais caricato, com uma bíblia na mão, Juan fez a cerimonia, falou alguns conselhos aos noivos, e os casou. Depois, começou a festa. Comida já pronta, bebidas a vontade e baile até doer os pés. Já sentados, bêbados e cansados, foi à vez de cantar em japonês. Nano e seus irmãos cantavam sempre para a cunhada chinesa, umas canções em japonês, em sua homenagem. Trouxeram tampas de panelas, colher de pau, uns ferros para dar o som, e começaram a cantar: — Nhaaaa oummmm, iiiiii, haaaaa, oooouuummmm, e por ali ia, enquanto davam passos ridículos que nem samurais.
Foram dias inesquecíveis, de puro encantamento.
Mas, foi nesse tempo também, que a política entrou em nossas vidas. De mansinho. Por puro acaso do destino.
O Nano tinha um amigo chamado Luis Blanco, era de nosso bairro e membro do Partido Comunista Chileno. E Luis Blanco chegou à casa do Nano pedindo ajuda para se escolher vereador. Quer dizer, percorrer ruas pedindo votos para ele e o acompanhar nos comícios, pois o que Nano mais tinha eram amigos. E Nano aceitou na hora. Invitou Juan para organizar um jantar para Luis Blanco, no qual Nano faria uma macarronada e Juan ajudaria a cortar cebolas. As esposas foram indicadas para servir os pratos. Nanito e Marquito serviriam o vinho e venderiam os ingressos, bem baratinho, só para pagar as compras. O violão iria junto, para alegrar o jantar. E toda a família começou a se empolgar. Numa casa desconhecida, com um pátio enorme, se alinharam mesas, bancos, e o ambiente lotou. A macarronada ficou deliciosa, e Nanito e Juan se revezaram cantando e alegrando a noite. Luis Blanco fez seu discurso, agradeceu ajuda dos amigos e conseguimos muitos votos para ele naquela noite. Depois aconteceram outros eventos como aquele, e Luis Blanco ganhou essa eleição.
Só que depois disso, Luis Blanco estava no governo do município e o partido comunista necessitava desta vez votos para eleger Salvador Allende para Presidente do Chile. Necessitava de homens como Nano e Juan. Dois caixeiros viajantes que vendiam qualquer coisa. Juan sempre falava que vender Luis Blanco era a mesma coisa que vender sapatos ou livros e Nano pensava o mesmo. E como eu fui revolucionária de uma vida toda, apoiei a ideia com fervor. Lembrei-me do Pedro, tão longe de tudo isso, e de como ele ficaria feliz se Salvador se elegesse presidente.
Nanito entrou na juventude socialista, e começou a campanha com a juventude de Arica. Juan e Nano fizeram a distribuição de propaganda, com o “boca a boca” enquanto trabalhavam, e fomos a muitos comícios no estádio onde se ouvia líderes que vinham desde Santiago, e se escutava boa música. Havia artistas ligados a campanha de Salvador Allende de excelente qualidade. Os irmãos Parra, Victor Jara, os Quilapayun e muitos outros. Depois desfilávamos pela rua com bandeiras e cartazes.
Quando Salvador Allende ganhou a eleição, estávamos todos reunidos em casa do Nano, bebendo vinho e com nervos a flor de pele. Em Santiago a expectativa era tensa, pois a direita chilena não se conformava com a derrota e fez de tudo para virar a mesa. Mas, altas horas da madrugada, o radio finalmente deu a noticia para o Chile e para o mundo. Eu chorei! Adorava Salvador Allende! Era minha paixão do momento. E saímos na citroneta fazer festa nas ruas, até o amanhecer. Luis dormindo atrás no colchão, como sempre que fazíamos farra.
E foi depois disso tudo, que Nano, Juan, a Gilda e eu, entramos para o Partido Comunista Chileno. Mas, durante esse tempo todo ocorreram outras coisas que abalaram nossas vidas. A morte de minha mãe foi a mais terrível de todas. Ela teve um câncer galopante, e minhas irmãs fizeram um velório de 48 horas, para que eu conseguisse chegar a Santiago e vê-la pela última vez. Ela estava completamente deformada nesse caixão e em nada se parecia à mulher forte a alegre que sempre fora. Eu nem conseguia chorar olhando para essa mulher enrugada, seca, desfigurada por essa doença terrível. Mas, algo estranho aconteceu. Senti o espírito dela ao meu lado, e escutei dentro de minha cabeça: — termine a faculdade, filha! E eu respondi mentalmente: — vou fazer isso mãe, em sua homenagem, por você. E depois cai nas lágrimas.
Depois do funeral de minha mãe viajei a Puerto Montt para conhecer a família de Juan.
Meus sogros tinham uma casa de madeira de dois andares num sitio gigante, pois ele se estendia até metade do morro no final. Era nesse morro que meus cunhados faziam a roça que alimentava a família, eles cultivavam batatas, legumes frescos, e ao lado da casa minha sogra tinha mais uma horta onde plantava se salsa, cebolinhas, enfim.
Havia currais para muitas galinhas, patos, alguns carneiros e uma vaca. Um rancho para defumar carne e guardar milho. O sitio era cruzado por um pequeno rio, e tinha uma vertente natural onde brotava uma água geladíssima. Minhas cunhadas pegavam água para cozinhar dessa vertente, e no rio se fazia de tudo um pouco, natação, banho, e Luis, muito rápido, era empurrado pelo rio por cima de uma bateia de lavar roupas. Meus cunhados também o amarravam num carrinho de mão, e corriam com ele pelo sítio quais índios, sempre gritando e fazendo festa.
Minha sogra e eu nos amamos desde um começo. Ela me acolheu como uma filha, e eu passei a chama-la de mami imediatamente. Também eu amei meus cunhados, eram nove ao todo, uma cunhada casada, com todos dentro de casa. Meu sogro já estava aposentado do quartel, e eu fiz um retrato dele de uniforme militar com todas suas medalhas, quadro que hoje está com um bisneto. Meu sogro era um homem sério e de poucas palavras, mandava nessa casa como um sargento. Cedo pela manhã repartia as ordens para meus cunhados, e ninguém se atrevia a se negar a nada, alguns a lavar, outros a varrer, outros a plantar, cuidar da bicharada, ou cortar lenha, ou tirar leite da vaca, recolher ovos... Não faltava serviço! Já minha sogra me ensinou amassar pão, acender o fogão a lenha e fazer geleias de frutas silvestres. Tomávamos chimarrão, num banquinho ao lado desse fogão e eu ajudava também fazer o almoço. Minha filha Natália nasceu nessa casa, rodeada dessa grande família.
De regresso dessa viagem, fui até a Universidade Santiago para me inscrever como “aluna livre”. Só faria as provas desse último semestre e os trabalhos. Também deveria terminar a segunda parte do Estágio e escrever minha tese. Escolhi como tema para essa tese a cultura andina. E graças aos antropólogos de Arica, que me deram manuscritos maravilhosos, eu escrevi sobre os índios atacameños, e sobre a cultura Pré-incaica. Para desenhar as peças, Juan me levava até o "Museu de arqueologia de Arica", fora da cidade, onde havia múmias, cerâmicas e todo tipo de vestígios pré-hispânicos. Luis ficava por ali, correndo, pois o Museu era rodeado de lindos jardins.
Por esses anos também Manuel, o irmão mais velho de Juan, regressara da Colômbia, trocara de esposa, e convencera Juan a ir para o Sul vender perfumes. A nova esposa Maria Fernanda, colombiana, viu aNatália nascer na casa de meus sogros. Ela praticamente a carregava no colo tempo todo. Ficamos amigas para sempre. Tomávamos banho no rio de maiô, enquanto ela me contava tudo sobre sua vida. Anos mais tarde eles tiveram dois filhos, Veronica, e Juan Manuel.
Enquanto eu tirava meu título de professora em Santiago e Juan tentava fazer dinheiro com o irmão em Puerto Montt, em Arica Nano conhecia Nicolás, membro do Partido Socialista e um agitador político. Nicolás havia descoberto dois edifícios abandonados, pois os donos fugiram do Chile assim que Salvador Allende ganhou a eleição. Alias, muitos homens ricos fizeram isso com medo do novo governo. Os edifícios possuíam quatro andares, e só faltava o acabamento, quer dizer, colocar azulejos, pintar paredes, e cobrir as escadas com patamares de madeira, pois a ferragem estava concluída. A parte elétrica estava pronta, as caixas da água instaladas, os vidros colocados, banheiros completos, ou seja, qualquer trabalhador da classe média podia pagar o acabamento de seu apartamento. E foi assim, que uma noite, um grupo de famílias pulou a cerca, abriu um buraco, entrou, e tomou posse com a bandeira. Entre eles Nano e sua família, e a irmã mais nova, mãe do Poroto e da Porota.
No dia que Juan brigou com Manuel e me deixou em Santiago sozinha com Luis e Natália, eu o vi partir para Arica com felicidade. Quando me enviou uma carta com dinheiro para passagem, eu viajei de avião com os meninos de regresso para onde nunca deveríamos ter saído. Eu amava essa cidade. Agora eu estava formada como professora, podia dar aulas, e tocar a vida para frente. Mas foi com surpresa que descobri que minha nova casa era um apartamento naquele edifício tomado e que não era de ninguém.
E uma nova etapa se iniciou. Comecei a dar aulas, coloquei Luis numa Escolinha e Natália num berçário. Esse berçário ficava ali, na mesma escola, o Liceo Nº 1. Eu podia ver minha filha nos recreios, e Juan ia buscá-la, de tarde. Comecei a pagar empregada para me ajudar com a casa, e fiz novas amizades, pois as mulheres desse edifício eram maravilhosas. Fazíamos café, inventávamos jantares, organizávamos teatro com as crianças e nos ajudávamos em tudo. Mas, havia uns dez líderes de esquerda entre meus vizinhos, de partidos diferentes, que se juntavam a discutir política. E foi naquele edifício, quando Nano organizou a célula Julián Grimau do Partido Comunista. Eu entrei nela junto com a Gilda e outras pessoas desconhecidas. E Juan, ele foi nomeado “Secretario de Organização” pelo partido.
Para quem nada sabe como funciona o partido, eu explico: O Partido Comunista é uma agremiação filosófica, que funciona como uma pirâmide invertida. No topo de cima estão às centenas de células, espalhadas em todo o país. São pequenas, mais ou menos 15 pessoas. Gente que se reúne em casa de alguém. E em cada célula há um tesoureiro, que cobra uma mensalidade fictícia, pois quem pode, dá, quem não pode não dá nada. Além dele uma secretaria que escreve as resoluções do dia, e um secretário geral. E nessas reuniões se discutia o tema do momento, como por exemplo, o que fazer com medidas econômicas, ou se a gente é a favor ou não da naturalização do cobre, ou, se Cuba deve ser apoiado, enfim. Uma vez votado, a maioria ganhava. A secretária escrevia, todos assinavam, e o secretario geral da célula levava isso para outra reunião, com líderes do município. Nessa outra reunião se compararam as resoluções de todas as células, somava-se quem tinha mais votos, e se escrevia de novo uma carta, que ficava em poder do secretário geral do município. E finalmente esse secretário viajava para Santiago, quando tudo era discutido, conforme as decisões prescritas. E finalmente, tudo era entregue ao Secretário Geral do Partido, que era Raul Corvalan, que pela sua vez levava para o Presidente da República. E ele só dizia: — o partido decidiu por isso! Mais nada. Quer disser, numa sociedade comunista correta, quem está no topo do governo só deve fazer o que a maioria das células manda fazer.
Agora, “secretário de organização” era outra coisa. Ele é um membro que não carrega identidade e nada que o ligue com o partido. Ele é uma sombra. Fora dos amigos, ninguém pode saber que ele é um comunista. Juan um dia me disse: — daqui em diante nunca vamos falar de politica entre nós, não me pergunta nada, não me conta sobre nada e, só posso-te dizer que vou chegar tarde porque vou fazer exercícios de guerrilha. Ou seja, cada vez que acontece uma perseguição, quem vai para a tortura das prisões é gente da mídia, gente que faz barulho. E quem assume o partido na clandestinidade são todos os “secretários de organização”. É por isso que o comunismo nunca morre. E ele é muito mais eficiente na clandestinidade do que na vida pública.
Foi assim que Juan se tornou guerrilheiro. Com Nanito e outros líderes de partidos diferentes, eles se perdiam no deserto a fazer práticas de luta corpo a corpo e aprendiam a como matar uma pessoa colocando os dedos na garganta. Juan também comprou uma arma, depois que assumiu um cargo numa distribuidora nacional de alimentos. Ele viajava através do deserto com camiões de mercadorias, e os assaltos eram rotineiros. Eu, pela minha vez, entrei num centro de mães com a Gilda, para organizar a comunidade. Organizamos uma “JAP”, e distribuíamos entre as mulheres do bairro um carnê de abastecimento. Pois foi ali que o governo de Allende fracassou. O boicote das distribuidoras de provisões para supermercados, a greve dos caminhoneiros e a greve dos médicos, levaram o povo chileno à fome, à doença e abriu as portas para os militares.
No dia do golpe, em Arica só havia silencio. O quartel de Arica estava vazio. Todos os militares foram levados a Santiago em surdina. Todas as rádios estavam mudas. A televisão não funcionava. Só através de radioamadores soubemos que algo estranho estava acontecendo em Santiago e que a Moneda estava em chamas. E, com uma antena que captou a “radio Moscou”, soubemos na madrugada que Salvador Allende estava morto. Eu chorei como fazia muito tempo que não fazia. Uma faca estava no peito mexendo com sadismo, pois toda essa paixão havia sido abatida. Para piorar Juan estava repartindo comida em Antofagasta, e como empregado de uma distribuidora nacional, com certeza estava preso, ou fugitivo.
Nessa mesma noite Nano foi preso, Nicolás também, Mario, meu vizinho do terceiro andar, e uma dentista, que havia entrando na célula Julián Grimau fazia só alguns messes, a meu convite. Os militares revistaram os apartamentos em busca de revistas, livros, identidade do partido, e quem as tinham subia no camburão sem interrogatórios. E eu nunca soube do porque eu fui ignorada. Inclusive eu dormi vestida, e tinha falado com uma vizinha para tomar conta dos filhos, e dado endereço de minha família em Santiago se chegasse a ser presa.
Juan chegou um dia são e salvo, com uma carta na mão, que lhe foi dada por um capitão de exército em Antofagasta. Havia sido interrogado, mas só perdera o emprego. Imediatamente os amigos mais chegados começaram a espalhar a suspeita sobre Juan. Nunca se soube quem denunciara os líderes amigos. E Juan, imune da prisão, foi implicado. Até eu levei um susto. Será? E para evitar desgraças, nunca contei ao Juan sobre o “correio”.
"O correio" entrou em ação nos primeiros dias do golpe, e nunca mais parou de funcionar. Em todo o país, os comunistas que eram procurados pelos milicos era escondido em casa de “alguém”. Era alimentado, vestido, mudava cor de cabelos e saia em viagem para a casa de mais “alguém”, indo com destino ao Peru. E, um dia chegavam a Arica onde cruzavam a fronteira a pé, pelo deserto, longe dos guardas de aduana. No Peru havia um centro de recebimento. A pessoa ganhava passagem de avião com destino a Costa Rica, na América Central, e depois para Cuba. Quem era correio em Arica era uma amiga de meu Centro de mães. E todos nós entregávamos dinheiro para ela quando a gente se cruzava nas ruas da cidade. O cumprimento desta vez era: — oi, comadre, como vai?
E foi assim que amigos partiram. O professor chegou uma noite a nos dar um abraço, chorando, pois deixou mulher e filhos em Arica, e cruzou o deserto a pé. Quando chegou a Cuba escreveu que finalmente estava no paraíso. E nos escrevia: — venham para cá!
Quando Juan me falou que tinha que fugir para São José, na América Central, eu não fiz perguntas. Juntamos dinheiro vendendo tudo, e ele partiu na frente, num táxi com destino ao Peru. Em Lima obteve o visto para entrar em Equador, depois pegou visto para Colômbia, onde conheceu a família da cunhada Maria Fernanda.
Na verdade eu nunca soube do porquê fomos viver naquele país São José da Costa Rica. Juan trabalhava pouco e nada, sobrevivíamos vendendo meus desenhos de publicidade, passamos fome, e Juan ia a reuniões misteriosas com outros chilenos. E os fugitivos desde Chile não paravam de chegar. Conhecemos muitos deles, pois os chilenos desejavam saber de tudo que se estava passando. Era gente que saia da tortura, era gente que perdera familiares, era terrível. Até o Nano tentou ir para lá aos nossos cuidados. Mas, Juan o aconselhou tentar Europa. Nanito já estava lá tocando violão pelas ruas e nós estávamos paupérrimos. E foi na Europa que Nano morreu. As torturas lhe deixaram feridas internas, que o levaram a morte em curto tempo.
A única vez que Juan se abriu comigo, foi uma noite que chegou de uma festa, arrasado. Uma chilena recém-chegada contara que as prisioneiras estavam sendo estupradas por cachorros “pastores alemães”. Os militares não estupravam mais, pois isso estava dando muita mulher grávida, o que originava um problema, ou as matavam, ou davam liberdade para ter os filhos em casa. Então, deram o serviço para os cachorros, com direito a mordidas e tudo. Juan estava tão abatido, tão sem rumo na vida, sem saber o que fazer que eu falei-lhe docemente: — Vamos-nos daqui! Vamos começar do zero, de novo. A Gladys está no Brasil, e ela me conta que lá é o paraíso da terra. Vou escrever para ela, eu tenho essa passagem de regresso, e vou na frente com as crianças... Tenho certeza que ela vai nos ajudar.
E a Gladys nos ajudou, e muito. Cheguei a casa dela em Blumenau com duas malas, dois filhos, pesando 48 quilos, de fome, e nossos dentes necessitavam urgente de um dentista. Depois de 5 messes eu estava trabalhando como desenhista na Artex SA, um trabalho que consegui com ajuda de Lindolf Bell, que deu um telefonema para eu fazer um teste. Quando Juan chegou finalmente, eu já tinha alugado nossa primeira casinha de madeira, cheia de cupins, com um sitio com goiabeiras, um lagarto e uma cobra. Mas, eu estava feliz, agradecida, e amei Blumenau desde que a vi desde a beira do rio. Juan também entrou a trabalhar na Artex SA, e em pouco tempo estava vendendo toalhas da Artex SA para América Latina. Viajava para Argentina, Chile, Peru, e Ilha Margarida. Aliás, foi da Ilha Margarida que Juan trouxe o lençol com elástico. Artex SA foi à primeira empresa a fabricá-lo, e ele vendeu que nem pão quente. Minha prima Gladys, por sua vez, viajou com a família para Recife, cidade na qual mora até hoje. Só a vejo através do Facebook.
Depois de 2 anos, Juan era o rei da cidade. Rico, com um carrinho e uma casa em construção. Ficamos membros do Clube Bela Vista, onde Juan aprendeu a jogar tênis. Com o tempo participava de campeonatos com nosso filho Luis, e ganharam alguns em competição em duplas. Todas as quartas feiras Juan e Luis ficavam até tarde da noite, com os quartaferinos. Um grupo de boas vidas que jantavam, bebiam, e quando Juan arranhava o violão. Meus sogros vieram nos visitar em varias ocasiões. Viajamos com eles pelas praias catarinenses onde Juan mergulhava de vez em quando. Quando minha filha Ana Gabriela nasceu, estávamos com a casa terminada. Linda, maravilhosa, e eu trabalhava na Cremer, como desenhista.
Na verdade eu nunca teria me separado do Juan, se os Ets não chegassem a bagunçar meu cérebro.
Dois anos depois de nosso desquite, Juan passou a conviver com a Helly, mãe do Henrique, o filho loiro de Juan. Helly era uma linda moça de 18 anos que se apaixonou do Juan perdidamente. Ele era algo assim como o homem de seus sonhos, sedutor, charmoso, quarentão, que viajava para Chile a fazer negócios com o irmão Manuel. Nessa altura eles tinham uma empresa de exportação, e Manuel e Juan vendiam em Santiago toalhas de oito empresas brasileiras diferentes. Inclusive Helly viveu no Chile algum tempo, amou Santiago e fez amizade eterna com Maria Fernanda. Foi nesses anos, também, que nasceu nosso primeiro netinho, filho de Luis. Lucas e Henrique nasceram com um mês de diferença, e Juan ficou pai e avô ao mesmo tempo.
Mas, enquanto eu recuperava minha saúde mental, escrevia livros e começava a dar aulas na Universidade, a fatalidade entrou na vida de Juan aos poucos. De mansinho.
A enfermidade do irmão Manuel foi à primeira de todas as desgraças, e a mais terrível. Numa viagem ao Chile eu visitei Maria Fernanda quando Manuel estava convertido num bebê de fraldas, magro, esquelético, com um AVC dos mais bravos. Ele nunca conseguiu se recuperar. Mal conseguia falar, pensava rápido, mas a língua travava, como um deficiente mental. Sem mais poder trabalhar, os negócios para Juan ficaram complicados. Meus filhos Natalia e Luis trabalhavam firme, mas eram dois jovens que mais cumpriam ordens.
Depois veio a separação com a Helly. Eles viveram 8 anos juntos, e um dia a Helly deu fim ao casamento, e eu nunca soube dos porquês. Juan então passou a viajar com mais frequência, se desdobrando, e tentando manter sua fortuna a salvo. Foi quando Manuel morreu. E Juan deve ter sofrido que nem cão sarnento, pois os irmãos sempre se amaram durante uma vida toda. Eu nunca entendi esse laço tão forte. Era como se eles não tivessem mais ninguém. Juan nunca se importou com os irmãos menores, nunca os ajudou em nada, e embora os pequenos os admirassem pela sua vida aventureira, Juan no máximo os visitava, fazia um churrasco com eles, e mais nada. Agora Manuel, era capaz de convencer Juan a fazer as mais loucas aventuras, como aquela vez que nos levou desde Arica até Puerto Montt, e perdemos tudo o que tínhamos, citroneta, moveis novos, enfim.
E, por último, Fernando Collor assumiu a Presidência do Brasil, e as empresas têxteis entraram em colapso em Blumenau. E, junto com elas, muita gente faliu, ou, ficou sem emprego. Juan perdeu 7 representações do dia para noite. Ficou apenas com a Karsten SA, e a falência de sua empresa lhe caiu por cima, deixando também meus filhos desempregados.
Juan decidiu montar uma nova empresa no Chile, com outro nome, e convidou a filha Natália para ir junto. Ela já estava casada com meu genro Paulinho, e ambos migraram para Santiago e ficaram lá durante 15 anos. Lá, nasceram meus netos Giulia e Ítalo, aos quais eu ia ver todo ano. Passávamos natais juntos, e era quando eu também visitava minhas irmãs. Anos depois Natália veio buscar Ana Gabriela para ir junto. E Ana, anos mais tarde, casaria com Pancho e teria 2 filhas, Alicia e Mariana. Ela vive em Santiago até hoje.
Mas, Juan não suportou a vida santiaguense, desta vez. A saudade dos quartafeirinos do Bela Vista em Blumenau eram demais. Não encontrou amigos como aqueles no Chile, e um dia regressou ao Brasil, sozinho. Mas, desta vez ele não tinha nada o esperando, nem trabalho, nem casa, nem mulher. Nada, apenas seus amigos. Tentou conviver com uma namorada que era muito legal, advogada já formada, com casa própria, mas terminaram se desentendo. E, pouco a pouco, ele foi se desinteressando pela vida. Conseguiu trabalho com um amigo, começou a vender com carro da empresa, mas por dentro o câncer foi tomando conta de seu corpo sorrateiramente.
Eu estava no Chile com meus netinhos e minhas duas filhas, quando soubemos por telefone que Juan estava morrendo, e que ele tinha 4 messes de vida. Minhas filhas foram ao desespero, dias depois Ana Gabriela passou mal, desmaiou e com a Natália a levamos num pronto socorro, e eu jurei para ela que ia cuidar de seu pai. Assim que regressei ao Brasil fui vê-lo, e o encontrei com a Helly, um enfermeiro, e alguns amigos ao redor. Amigos que nos socorreram com as despeças, e com o dinheiro para esse enfermeiro. E imediatamente eu me ofereci para ajudar. Fizemos um rodizio entre a Helly e eu, pois eu já estava morando em Balneário Camboriú. Por tanto, eu viajaria para cuidar de Juan metade da semana, pernoitaria na casa da Lu, mãe de meu neto Lucas, e Helly se encarregaria do resto desses dias. Juan não conseguia mais caminhar. Estava realmente num estágio terminal.
Durante 4 messes Helly e eu vimos Juan se apagando aos poucos. Corríamos com ele para o hospital, nesse carro da empresa, preparávamos sucos de frutas, papinhas, que ele tomava de canudinho. E um dia Juan me disse: — eu não sei para onde eu vou, mas que é um lugar melhor que esta merda, disso eu tenho certeza.
E ele partiu. Cheguei um dia cedo, e a enfermeira da noite antes de ir me contou que ele tinha divagado muito, mais que já estava dormindo. Mas, na verdade ele estava partindo. Juan virou a cabeça para mim, e parou de respirar. Eu o vi ficar frio, branco, gelado, e o tampei com o cobertor. Quando a Helly finalmente chegou, ele já estava morto. Rezamos juntas um “pai nosso” e depois começamos a chamar aos amigos. Fizemos o funeral em Blumenau, onde alguns amigos quartaferinos do Bela Vista marcaram presença. Tarde da noite, trouxemos o caixão para Balneário Camboriú para a cerimonia de cremação. Henrique foi o único filho que chorou ao lado do caixão de Juan. Minhas filhas vieram vê-lo enquanto estava doente e regressaram para Santiago, e meu filho Luis não apareceu, por outros motivos. Meu neto Lucas não conseguiu. Ele foi ver o avô muitas vezes enquanto estava encamado, mas vê-lo no caixão ele não conseguiu.
Durante vários messes eu guardei as cinzas de Juan na minha casa, esperando a Helly vir desde Blumenau para lançar juntas as cinzas ao mar. Eu tinha comprado uma urna ecológica em forma de concha, que desmancharia em contato com a água. Eu contava para minhas amigas que eu tinha meu marido no guarda-roupas, e elas riam até sair lágrimas. Aliás, isso virou piada.
Mas, um dia, chegou do Chile minha filha Ana Gabriela. Juntas, carregamos com as cinzas, subimos no barco pirata, de depois de passar junto a Ilha das cabras, Ana lançou essa concha ao mar. Enquanto ela afundava, Ana falou:- ficou no lugar certo, meu pai gostava de mergulhar.
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