Os homens do futuro
17 As damas do futuro
Notas iniciais
Aqui na Terra, no ano de 2.850 do nosso futuro, Fabiana corria apressadamente pelas ruas de sua cidade. Ela necessitava chegar antes da 9 horas ao Hospital da Maternidade, pois sua fecundação havia sido marcada com um ano de antecedência, e ela havia esperado esse momento com ansiedade dia após dia.
Finalmente, a sós numa sala hospitalar com seu médico, ele examinou-a com um vidro vermelho, e sorriu. Seu ovário esquerdo estava lançando sua célula para fecundação. Esperou que ela entrasse nas trompas para dar inicio ao processo. Uma enfermeira lhe colocou uma máscara de fantasia no rosto, vestiu-a numa bata azul aberta na frente, e a recostou numa cama muito macia. Em seguida deixou-a só, fechando portas e janelas.
Um homem, que também vestia uma bata aberta na frente, e com máscara no rosto que nem ela entrou nessa sala no semiescuro, cobriu-a com seu corpo, acariciou-a docemente, beijou-a no pescoço com ânsia e se sentaram numa cadeira de balanço que os chacoalhou com movimentos firmes, pois ele deveria colocar bastante sêmen nesse útero.
Fabiana adormeceu feliz, pois seu amante havia sido ardente e fora de série. Ficou em repouso por 10 horas sem se mexer, com as pernas para cima enquanto os médicos examinavam seu útero com o vidro vermelho a cada 30 minutos. Quando uma luz apareceu no vidro, brilhando como uma estrela, a equipe médica se abraçou feliz, dando os parabéns para a futura mamãe. Encaminharam-na para uma sala especial, onde ficou vendo televisão e comendo uma bandeja com frutas, esperando pelo dia de sua alta. Ficaria durante uns 15 dias, para garantir essa gravidez.
Depois saiu dessa clínica feliz. Durante nove meses, Fabiana só iria cuidar dela mesma e de sua barriga. Poderia fazer amor, se divertir, mas nada de trabalho e muito menos de preocupações. Ser mãe por aqueles anos era a coisa principal e a mais importante da humanidade. Uma mulher grávida era tratada com todas as mordomias de uma sociedade evoluída. Ela era algo assim como uma heroína. Afinal, de cada oitocentas mulheres da terra, havia apenas uma que entrava na maternidade.
Fabiana estava tão feliz, que uma semana depois convidou todos os colegas do escritório para uma festa na sua casa. Eles chegaram fazendo barulho, tocando apitos e todos queriam passar a mão na barriga da futura mamãe. Beberam, comeram, contaram piadas, principalmente de homens mascarados que eram papais anônimos e ganhavam uma pequena fortuna por causa disso. Mas como Fabiana estava feliz, riu com eles até o amanhecer.
Quando ficou a sós, ela abriu alguns presentes que não tivera tempo de ver. Eram roupinhas miúdas, vestidos para grávidas, livros e filmes para ver em casa. Ela ligou seu projetor de parede, e colocou um filme de época, com a história de uma mulher em meados do século XX. Afinal, Fabiana era apaixonada por tudo que se falava do século XX. Em sua pesquisa de doutorado havia abordado a natalidade do século XX, quando as mulheres pariam até vinte filhos durante uma vida de no máximo setenta anos.
O nome do filme daquele dia era “Sete dias e sete noites”, a história de um casal que se conhecia numa ilha maravilhosa e namorava nas areias quentes do lugar enquanto passavam por vários problemas. Mas como sempre acontecia nessas histórias, o amor era mais forte do que tudo, e eles ficavam juntos na última cena. Era tão lindo esse romance que Fabiana chorou e soluçou. Esses filmes do século XX sempre a emocionavam.
Sem nada para fazer, Fabiana decidiu dar uma olhada na biblioteca pública. Procurou uma enciclopédia histórica, abriu-a no século XX e leu de tudo um pouco. Admirou fotografias de mulheres magníficas, de homens formosos, com relacionamentos que eram para a vida toda. E se perguntou para ela mesma: Como é que as coisas desandaram? No século XX, os homens ficavam felizes quando iam ser papais. Carregavam os filhos no colo, ajudavam a trocar roupinhas, brincavam com a meninada, enquanto na sociedade de Fabiana os homens fugiam da paternidade como gato foge da água. Todos seus amigos eram estéreis. Todos os namorados que tivera eram estéreis. Só pagando caro, ela conseguiu engravidar, e ainda por cima, de um homem que jamais saberia quem era, e que nunca, jamais, bateria na sua porta de casa perguntando-lhe se o filho estava bem.
E como Fabiana era uma respeitada escritora de uma Revista Feminina, entrou na pesquisa de cabeça. Coletou alguns filmes, variadas revistas, livros, e se fechou em casa para estudar. Sem nada de pressa, pois o tempo estava todo à sua disposição. Gravou algumas coisas, escreveu outras, e foi empilhando folhas.
Nos dias seguintes, dando um passeio pela cidade, entrou num salão de beleza para mudar o visual, pois seu cabelo azul estilo porco espinho não combinava com uma futura mamãe. Lembrou-se de uma revista com uma reportagem do Japão do século XX. Pediu um implante de cabelo negro e um penteado igual a uma japonesa, e fez colocar duas flores cor de rosa. Depois fez maquiagem definitiva. Pediu linhas negras nos olhos para deixá-los puxados, exóticos, diferentes e implantou vários cílios. Também fez sobrancelhas, lindas. Em seguida, visitou lojas, escolheu telas estampadas bem coloridas e, um robô costurou um quimono para ela.
De volta para casa, pegou sua agenda eletrônica e pesquisou por homens disponíveis para namorar. Localizou um moreno, olhos puxados, forte, e que não cobrava. Ela só teria quer pagar a passagem do avião, pois o homem morava no outro lado do mundo. Ótimo. Fez contato no seu computador, mostrou seu rosto para ele vê-la no vídeo de casa, e marcaram o encontro. Seria na sexta feira, às sete da tarde, enquanto ele traria o vinho, ela faria um jantar no estilo do século XX.
Fabiana recebeu seu convidado vestindo seu quimono, com o cabelo solto, pois não conseguiu fazer o penteado. Só prendeu as flores na roupa e nos cabelos, pois eram artificiais. Também botou seu colar de pérolas branco ao redor do pescoço, brincos de argolas, um anel dourado combinando com a pulseira, perfume afrodisíaco e sandálias com as unhas pintadas cor lilás, para combinar com seu visual. Tudo como havia estudado nas suas pesquisas, ela estava transformada numa dama antiga na perfeição.
O homem ficou parado na porta, com a boca aberta, pois a miragem o pegou de surpresa. Nossa! Que mulher maravilhosa! Depois sentou no chão como um tonto, ao lado de uma mesa que quase se encostava ao chão de tão baixa. Teve que tirar os sapatos e deitar-se em almofadas, e comer coisas que nunca vira. Gostou! Não sabia o que era, parecia peixe cru, mas era bom. Depois tomaram vinho, assistiram um filme e ele, pouco a pouco, começou a seduzi-la. Percorreu seu corpo com mãos delicadas e sábias, enquanto Fabiana puxava as roupas de ambos vagarosamente. Namoraram durante todo o fim de semana, num rodízio de comidas deliciosas, filmes, amor na banheira gigante, fora da água, presos dentro de casa e isolados do mundo. Desligaram todos os telefones, todos os computadores, e até a campainha da porta. Ficaram perdidos dos amigos e da família.
Como o homem ficou enfeitiçado com essa mulher estranha que o incitava a continuar na farra de sexo e amor pela eternidade de sua vida, pediu-a em casamento após 7 dias de convivência divina. E Fabiana sorriu encantada, pois ele também a tinha enfeitiçado com esse grande apetite sexual. Nunca havia conhecido um homem tão viril. Depois falou:
— Adoraria aceitar, mas estou esperando um filho. Vou ser mãe daqui a 8 meses. Engravidei no Hospital da maternidade...
— Não faz mal. Eu adoraria ser o pai de seu menino.
— Mas, se eu casar com você, eu perderia minha licença maternidade... Ficaria sem nadinha de grana... Pobre, pobre, pobre...
— Mas, eu ganho muito bem! Eu alimento você, o menino, e você fica me esperando o resto da vida em casa com essa roupa esquisita.
— Mas, eu adoro trabalhar! Não dá! Eu sou pesquisadora, escritora e tenho um cargo muito importante na minha editora... Você já leu a revista: — Você e eu?
— Já, mas eu não vi seu nome em nenhum artigo...
— Hum... E já leu a escritora Samanta?
— Samanta? É você? A mulher vidrada no século XX? Mas, agora entendo o motivo dessa roupa, dessa comida... Você é meio pirada, não é?
— Sou...
— Então Samanta, casa comigo e vamos viver no outro lado do mundo? Só não insiste em trabalhar, pois eu teria que ficar em casa cuidando do menino e não sou muito organizado, não sei cozinhar, sou péssimo como dono de casa... Um desastre... Ou, então, se gosta tanto assim de trabalhar faça uma doação do feto para outra mulher. Nesse caso então ralamos os dois...
— Mas, eu quero TUDO! Ser mãe, ser casada, ser escritora, eu quero tudo!
— Impossível! Vai ter que abrir mão de alguma coisa! Escolha, é a nossa lei. Não se pode ter tudo.
— MEU DEUS! Descobri... Foi isso...
— Foi isso o quê?
— A mudança, meu bem... Agora eu sei por que motivo “uma” em cada mil pessoas entra no casamento... E do porque os homens são estéreis...
— Eu sou fértil, e posso lhe fazer uns 80 filhos se você quiser... Mas, me pode explicar melhor...
— É que eu estou fazendo uma pesquisa para descobrir porque aconteceu a mudança. No início do século XXI, as mulheres se modificaram drasticamente. Só queriam ter tudo como eu, trabalhar, ser mãe, ser esposa, ser famosa, ser linda, e cheia de cirurgias plásticas! Pararam de atender e agradar seus homens. Sequer faziam o jantar. Compravam tudo, e ficaram inúteis. E por isso os homens as deixaram de amar! Sabia que nos anos 60 do século XX, as mulheres ainda casavam virgens? E que foi nesses anos que houve a primeira revolução sexual na história da humanidade?
— Que eu saiba, os homens as matavam de ciúmes... Acho sua pesquisa incompleta... Nenhum homem mata uma mulher hoje em dia...
— Mas não as amam! Não como no século XX...
— Palhaça! Só posso disser que é a primeira vez que eu quero ter uma esposa para o resto da vida... Acho que isso é amor...
— Também acho... E é a primeira vez que eu quero ser apenas mulher... Falou de oito filhos?
— Oitenta! Os que quiser ter, meu amor... Eu já disse que ganho muito bem... Vou até comprar um robô para você! Não vai trabalhar limpando casa, e nada de amantes. Vai fazer amor só comigo! Mas pode pesquisar e escrever em casa, e cuidar dos meninos... O que acha?
— Então eu caso, e vou com você para o outro lado do mundo... Aliás, no século XX os recém-casados diziam: — Onde quer que tu me vás irei, teu povo será meu povo e teu Deus será meu Deus! Sabia?
— Não, não sabia... Também vai querer casar num templo?
— Lógico! Com um vestido branco, rosas no cabelo e um tule arrastando 20 metros no chão...
— Nossa, vou casar com a mulher mais doida dos nossos tempos... Só não coloca terno em mim... Por favor, não... Adoro minha bata de morcego...
— Hum... Essa bata tem as mesmas qualidades do meu quimono. Abre pela frente e você fica nu... Sabia que no século XX se usava cuecas e calcinhas?
— O que é isso, afinal?
— Um artifício sexual. As mulheres puxavam a calcinha para baixo, e os homens tinham uma abertura na frente da cueca para que o membro pulasse para o vazio... Dessa forma faziam xixi em pé...
— Quem fazia xixi em pé? Os homens ou as mulheres?
— Os homens... Num lugar esquisito... Eu posso mostrar nas revistas...
E Fabiana não falou mais nada. A bata de seu amado abriu na frente mostrando o corpo perfeito de seu homem. E ela abriu seu quimono, mostrando toda sua beleza exuberante.
E foram felizes para sempre!
Ou seja, mais ou menos durante uns 650 anos, pois eles morreram de velhice...
Fim
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