Os homens do futuro
12 Éramos felizes. Autobiografia
Notas iniciais
A maioria das pessoas pensa que a pobreza é sinônima de sofrimento, tristeza e depressão. Depende. Nem sempre é assim.
Durante dez anos convivi aqui no Brasil com nativos (através de um projeto da Universidade Regional de Blumenau, na qual eu trabalhava). As crianças indígenas ao entrar nas escolinhas estavam sempre rindo com suas carinhas iluminadas. Embora, muitas ainda não tivessem tomado a primeira refeição do dia e após ter caminhado longos trajetos em ruas enlameadas. Quando chegava o recreio era uma festa. O professor servia a merenda, macarrão com molho, ou sopas, bolachas, enfim... Depois eles jogavam bola, ou subiam numa árvore atrás de uma fruta. Sempre na maior felicidade. Quando eu subia no meu carro para regressar, lá iam eles, gritando, gargalhando, se pendurando em meu carro por todo o lugar. Era uma bagunça.
Eu diria que durante minha infância eu fui como eles. Pobre e feliz.
Eu nasci na periferia de Santiago do Chile, num bairro popular. Meu pai nessa altura de sua vida era pedreiro de construção. Ele já fora marinheiro na sua juventude, vivera em Nova Iorque, onde aprendeu inglês. Anos mais tarde casou com uma prima, a mãe de meu irmão Joni. Mas, depois da viuvez meu pai entrou na depressão, na bebida, e minha mãe foi quem lhe deu um novo motivo de viver: — EU!
Minha mãe era operaria numa fábrica de cerâmica. Anos mais tarde minha mãe foi trabalhar com cordas para violão, numa pequena empresa familiar, pois, o pó da cerâmica lhe causava uma doença perigosa, a Silicose. Quem cuidou de mim foi minha irmã Olivia. Ela saiu da Escola Técnica Nº2, e passou a estudar numa escola noturna para cuidar da casa e das irmãs menores, pois, quatro nos mais tarde nascera a Ana, dando mais trabalho para Olivia.
Minha mãe também era viúva, e desse primeiro casamento ela tinha 3 filhas, Olivia, Maria e Irmita. Irmita já era casada quando eu nasci, e ela pedia para minha mãe todos os dias: — Dá ela para mim, que eu vou cuidar como minha filha! Já Maria vivia sozinha, e trabalhava na fábrica de cerâmica junto com minha mãe.
A casa na qual eu nasci era de meu tio Lucho, irmão caçula de minha mãe. Mas, nós não morávamos na casa, pois, ele a alugava. Nós tínhamos 2 quartos bem pequenos, bem no fundo, onde nos amontoávamos. Tínhamos 3 camas, num dos quartos, e no outro, uma mesa e um fogão. Ao lado de nossa cozinha estava o quarto dos meus primos Ovídio e Mayito, órfãos de pai e de mãe, que só tinham um colchão para cada um. E durante algum tempo, meu irmão Joni se amontoava com eles nesses colchões. Ao lado desse dormitório ficava o quarto do meu tio, sempre lotado de amigos que chegavam à casa para fazer festa. Afinal, meu tio era gay. E essa casa era o centro de encontro dos gays desse bairro. A maioria artistas como meu tio. Afinal, meu tio era ator, músico, e poeta. Tinha uma bateria em casa, violão, os quais eram sempre usados. A qualquer momento. Era gente demais. Mas, éramos felizes.
Quando chegava o domingo, meu pai preparava os comes e bebes. Geralmente chancho em pedra, uma carne assada. O vinho chegava com as visitas. Minha mãe tocava o violão, meus primos a bateria do meu tio Lucho, e eu e meu irmão Joni recitávamos poemas. Meu irmão também tocava música com um lápis nos dentes. Era um arraso, todos os amigos de meu pai nos davam dinheiro!
Também chegavam a casa outros irmãos de minha mãe. Ao todo eles eram seis mulheres e três homens. Um falecido, o pai de Ovídio e Mayito. O tio Segundo era divertidíssimo. Minha mãe ria até sair lágrimas com suas histórias. Tio Segundo era viúvo, com os filhos já casados. Ele namorava as velhas mais feias do bairro. Eram horrorosas. Quase mendigas. Mas tio Segundo lhes dava nome de artistas de cinema. Eram: — a Shirley Temple, a Rita Hayword, Marilyn Monroe, enfim. Meu tio Segundo vivia num quarto dos fundos, em casa da tia Maclovia. E cada vez que minha tia encontrava uma namorava do tio perambulando pela casa ela ficava furiosa e as colocava fora com bassoura na mão.
A tia Maclovia era casada com um músico de verdade. Ele era membro da filarmônica de Santiago, eu acho. Pois, eu o vi apenas uma vez na vida. Afinal, a casa da tia Maclovia era fechada para nós. Minha mãe ficava apenas na porta quando ia visita-la. Eu só comecei a frequentar essa casa depois que fui destaque nos estudos. A tia deu-me o nome: — minha sobrinha inteligente! E quem abriu as portas para mim foi meu tio Lucho, com um quadro que pintei com guache, e deu a tia Maclovia como presente. Mas, o infortúnio da tia Maclovia era que seus filhos adoravam minha mãe. Só os homens. Todos eles músicos bons de farra. Lalo tocava piano, os demais cantavam, contavam piadas, bebiam com meu pai, e faziam a festa em nossa casa.
Tínhamos como vizinhos Juanito, casado com minha prima Eliana, irmã de Mayito e Ovídio. Juanito e Eliana tinham duas filhas, Gladys, e Silvita. Gladys e eu nascemos com um mês de diferença, e desde sempre fomos às queridinhas do tio Lucho. Ele nos adorava. Tio Lucho fazia teatro conosco, e nos ensinou matemática antes de entrarmos na escola. Juanito era membro do “Clube esportivo Raul Dennis”, junto ao meu tio e meus primos. Todos eles jogavam futebol, ou faziam torcidas aos domingos. E quando o Raul Dennis ganhava um campeonato havia festa na casa da Eliana. Mayito e Ovídio colocavam ternos, camisas impecáveis, e lá iam eles dançar junto aos meus outros primos e amigos do bairro. Como só tínhamos uma cerca de arame entre as duas casas, eu e minha irmã Ana, a caçula, ficávamos sentadas no chão olhando para a festa, esperando que a Gladys nos passasse um prato com tortas e guloseimas através da cerca de arame.
O infortúnio desses esportistas chegou no dia que o Município de Quinta Normal vendeu todas as quadras de futebol, de todos os bairros, para as construtoras. Os políticos do meu país acabaram com o esporte e com o Circo, da noite para o dia. Sobreviveram apenas as quadras do bairro alto, em cujos lugares as pessoas ricas compraram os terrenos. Acredito, sinceramente, que o Brasil possui o melhor futebol das Américas porque ainda hoje há uma quadra a céu aberto em todos os bairros das periferias. Agora, lá no Chile, o esporte ficou com a elite nos tempos de minha adolescência.
Mas, antes disso acontecer, porém, minha irmã Olivia nos levou a viver em outro bairro. Ela estava trabalhando numa fábrica familiar de insígnias (placas de metal) e nessa manufatura se alugavam quartos nos fundos, maiores. Ficaríamos mais folgados. Meu irmão Joni estava nessa altura ingressando na Marinha e vivia em Valparaíso com os sobrinhos de meu pai. Homens já casados, e filhos de uma irmã já falecida. E foi depois dessa mudança de domicilio que eu encontrei outro grupo familiar: — os Capot!
Os Capot eram filhos de um imigrante francês que morrera deixando uma viúva, cinco filhos, um irmão, o tio Pepe, e uma indústria de joias e insígnias. Os Capot estão catalogados, até hoje, como uns dos melhores joalheiros que Santiago já conheceu. Artistas do metal.
Infelizmente, foi nessa nova casa que meu pai começou adoecer. Eu levava-o ao hospital a fazer lavados da uretra, e ele teve que deixar o emprego. De vez em quando eu fazia almoço, e durante as tardes tive que aprender a preparar café. Também, eu lavava roupas, limpava a casa, pois, minha mãe e Olivia trabalhavam o dia todo. Depois de um tempo Olivia foi trabalhar numa outra empresa, com um ordenado maior, ela mal ficava em casa desta vez.
Ao nosso lado vivia a tia Menche com sua família. A Tia Menche era irmã da Menita, a viúva do Capot, e elas tinham mais alguns irmãos que moravam bem pertinho. Tia Menche tinha um marido doente, que sofrera um AVC, e três filhas, Patrícia, Lucy e Cristina, que trabalhavam ali mesmo, na fábrica de insignias. Patrícia, a caçula, já era minha amiga de infância, pois estudamos na Escola básica 183, em graus diferentes. Para que não faltasse comida na mesa a tia Menche tecia panos com tricô, bem engomados. Patrícia e eu saíamos a vender os panos de porta em porta pelo bairro, e antes de regressar com a grana íamos comprar “bolachas quebradas”, bem baratinhas, numa fábrica de bolachas perto da ponte do rio Renca.
Éramos coitadinhas por tudo isso? Sofríamos?
Não!
Os Capot e seus primos eram alegres, divertidos, e na hora do descanso da tarde corriam para a mesa da tia Menche a tomar café e "pão com nada", junto com as primas. No fim do expediente então, jogavam xadrez. Eu aprendi com eles.
Assim que minha mãe chegava do trabalho e tomava conta de meu pai, eu corria a jogar voleibol. Os Capot instalavam a rede em meio do pátio, formávamos duas equipes e pulávamos como loucos. Afinal, além dos primos, os Capot eram cheios de amigos. Essa casa sempre tinha muita gente. Era como a casa de meu tio Lucho. Tinha vezes que jogávamos bola na rua. Rua de barro seco, duro, onde não passava carro na ocasião. Fim de noite, depois do jantar era o momento de se juntar para contar piadas. Na rua, sentados num banco de madeira. Eu ria até sair lágrimas. E fim de semana, era dia de festas.
Menita tinha na sua casa 4 dormitórios, sala de jantar, cozinha, e o “living". O banheiro ficava fora, pois era comum para todos. Para eles, para nós, enfim. Mas o “living”, estava sempre fechado com chave, para não sujar. Mas, no sábado à tarde, Lucy e Cristina abriam o “living”, limpavam, passavam cera, e deixavam-no brilhando para a festa da noite. Os Capot revistavam os discos de vinil, faziam a seleção e, eu ajudava a fazer canapés. Colocávamos o melhor vestido, o melhor sapato e, ficávamos no bailado até a Menita nos mandar embora.
Domingo era dia de futebol, pois todos os Capot e seus primos eram membros do “Clube Esportivo Lo Espinoza”. E Fabian Capot, muitos anos mais tarde, chegou a jogar pela “Seleção chilena de futebol”. E lá íamos nós mulheres a fazer torcida, pois, além do futebol havia competição com ciclismo. Se corria em redor de dois quarteirões, ou, dos dois campos de futebol a céu aberto. Vitor Capot competia pelo clube Lo Espinoza. E quando ele ganhava, era uma festa novamente.
Apaixonar-me pelo Mario Capot então, foi para mim algo natural. Vivíamos na mesma casa, fazíamos as mesmas coisas, e namoramos uns 6 anos, mais ou menos. E brigamos muitas e muitas vezes por um único motivo, ele queria casar e ter uma dúzia de filhos, enquanto eu desejava estudar para ser professora e ir para Universidade. E teve o dia que terminamos de vez.
A última vez que vi Mario Capot foi numa viagem para o Chile, há uns 12 anos, mais ou menos. Afinal, eu sempre fiz questão de visitar a Menita durante essas viagens. Mario estava separado, e muito doente. Cheio de remédios. Magro, pálido, cabelos brancos, e com alguns dentes a menos. Nada que lembrasse aquele belo rapaz de minha adolescência. Saímos a passear, conversamos sobre tudo que a vida nos dera, e trocamos alguns beijos na beira do Rio Mapocho. Quando voltei para o Brasil me perguntei muitas e muitas vezes, o que é que eu ganhei de melhor, por não ter casado com ele e vivido nessa casa até hoje. E, ainda eu não sei, pois nunca encontrei um homem melhor do que ele.
Mario morreu pouco tempo depois. Minha irmã Ana foi à última que o viu, e em meu nome deu-lhe um rosário que dei para ela um dia. Ana disse para Mario que eu tinha-o enviado para ele. Ana disse que ele sorriu, pegou-o com as mãos, colocou no peito e disse: — que bom! E se foi.
Gostaria de encontrar os Capot de novo na próxima reencarnação, com todos seus tios, primos e os amigos do "Clube Esportivo Lo Espinoza". E bem perto, no mesmo bairro, eu gostaria de reencarnar de novo com os mesmos pais, tios, primos, irmãos, e amigos. Porque, no fim das contas, fomos todos felizes enquanto estivemos juntos.
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