Os descendentes
2 Um pouco sobre o passado
Notas iniciais

–-Sophi, Sophi. Sophie? SOPHIE.
–-Ahn? O que foi?
–-A questão número 3, você conseguiu fazer?
–-Claro—Digo sorrindo e passando o caderno para minha melhor amiga, Anna
–-Estava pensando em quê?
–-Hum...Nada
–-A Sophie tá diferente, tá, tá diferente, ela tá apaixonada, tá apaixonada.
–-Com certeza. Por falar nisso não viu o gato do Gustavo (garoto que eu não gosto) que eu to pensando em matar aula e ir dar uns pegas nele.
Ela riu em resposta fazendo com que sua franja negra caísse sobre seus grandes olhos castanhos. Ela era bem fofinha, era pequenininha com cabelos curtos e negros que contrastavam com sua pele clarinha. Era somente por ser muito tímida que não arrumava um namorado, pois ela era linda.
–-Mas falando serio—Ela me perguntou enquanto desenhava—Estava pensando em quê?
–-Nada, só em um sonho que eu tive, era muito legal, eu era uma princesa guerreira e...
BÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉN
O som do sinal interrompeu a minha fala, pois eu e Anna saímos correndo para comprar chocolate.
–-Senhor do Céu—Falei ao sentir o gosto—eu amo chocolate, vou casar e ter filhos com uma barra de chocolate gigante, depois vou comer os meus filhos; e o meu marido.
–-Sophie seu estado de saúde mental não se encontra muito bom—Ela disse com um ar profissional—sugiro que você vá para casa e descanse.
Como o tio dela já havia chegado não haviam mais motivos para eu ficar no colégio.
Voltei para casa bem rápido,rezando para que minha mãe não houvesse chegado, eu não sei o motivo, mas minha ela estava muito brava, estressada e com medo de que eu fosse sequestrada, estuprada, coisas assim.
Cheguei em casa e fui direto pro banho. Meus pais ainda não tinham chegado.
Mexi no computador, li um pouco, brinquei com a minha gata e já eram 23h (eu estudava de tarde) eu comecei a ficar preocupada e comecei a imaginar um monte de coisas ruins, principalmente porque eles não atendiam o celular.
Então eu me deixei perder em pensamentos sobre coisas ruins que já aconteceram comigo.
FLASH BACK ON
5 anos atrás
–-N-Não p-por favor eu não quero.
–-Eu não perguntei meu amor—Ele me olhava com uma expressão de puro desejo e eu tentava parecer forte mas estava com muito medo, nem parecia a pessoa que um dia eu chamei de primo.--Tire as roupas.
–-M-Mas...
–-Eu já disse que não perguntei; agora: TIRE AS ROUPAS
–-T-Tudo bem—Eu disse enquanto começava a tirar o casaco e tentava segurar as lágrimas.
Meus pais haviam saído e nos deixaram (eu e meu melhor amigo) sobre a supervisão dele, eles não poderiam ter tido uma ideia pior.
E de repente a porta abriu e eu pude ver os dois olhinhos verdes do meu melhor amigo, Bernardo. Ele não entendeu nada, mas sabia que tinha alguma coisa errada. Meu primo não o tinha notado, e eu em silêncio pedi a ele para que saísse do quarto porque mesmo nós dois nunca daríamos conta do meu primo, que era bem mais velho (16 anos).
Eu comecei a chorar e meu primo se virou pra mim—Shhh, silencio querida. Nada de barulho ouviu?—Ele já estava nu, e começou a se aproximar de mim.
Eu fechei os olhos com força pra parar as lágrimas.
E depois foi tudo muito rápido. O Bê entrou correndo com uma panela cheia de água jogou no meu primo, depois jogou a panela nele e me puxou; saímos de casa e corremos loucamente, tão rápido que eu quase não podia respirar, paramos só quando chegamos na praça que estava repleta de mães.
Ficamos lá um tempo recuperando o folego até que ele resolveu falar.
–-Porque?—Ele me olhava com uma cara de indignação
–-E-Eu...ahn?
–-Porque você não gritou, pediu ajuda, sei lá.
–-Eu estava com medo.—Eu queria chorar, mas não na frente dele, eu estava com vergonha por não ter feito nada—E-Eu estou com medo—Apesar de sermos muito novos, nós nunca tivemos aquela coisa de menino com menino e menina com menina, sempre fomos só nós dois de amigos e eu gostava disso.
Ele me abraçou—Calma, não fique com medo. Eu estou aqui.E da próxima vez que aquilo acontecer eu vou matar o seu primo com aquela panela entendeu?
Eu ri um pouco mas aquele abraço me fez sentir tão protegida que eu comecei a chorar e nós só ficamos lá, abraçados, e eu chorando.
Nunca denunciei o meu primo, eu não tive coragem, mas também nunca mais tive que ver o rosto dele.
FLASH BACK OFF
Eu sentia falta do Bernardo. Ele morreu de acidente de carro a um ano. Quando eu descobri eu desmaiei, mas depois que eu acordei eu lembro de ter ficado com raiva, muita raiva, como ele podê me deixar sozinha? Mas no fundo eu sentia que ele estava bem e isso me confortava.
Percebi que duas lagrimas haviam caído na minha bochecha. Resolvi deixar elas lá.
E apesar de me esforçar para não dormir, acabei adormecendo antes da chegada dos meus pais.
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