Os descendentes
3 Mudanças são sempre necessárias
Notas iniciais
Quando eram mais ou menos 1h da manhã meus pais chegaram.
Mas tinha uma coisa estranha, minha mãe chorava loucamente e meu pai parecia perdido, sem saber o que fazer diante das lágrimas da minha mãe, mas ele também parecia estar a ponto de chorar.
Eu não sabia se fingia que estava dormindo ou ia falar com ela. No meio de uma disputa mental sobre qual coisa era a melhor a ser feita, minha mãe me viu.
De repente ela e meu pai subiram as escadas correndo e me abraçaram.
Eu não estava entendendo nada mas preferi ficar calada, e ela só ficou lá, parada, me abraçando, meu pai também, eu estava meio perdida, queria saber o que estava acontecendo mas também tinha medo de piorar as coisas, então fiquei quieta enquanto um olho meu encarava a parede branca da sala e o outro encarava o ombro do meu pai, tentando pensar em algo que pudesse ajudar, mas sem o menor sucesso.
Ficamos assim por tanto tempo que minha perna começou a doer, o que me deu coragem para começar a falar.
–-M-Mãe o que aconteceu?—Eu queria parecer mais confiante mas estava muito confusa. Ela me olhou com olhos muito tristes e me pediu para ir para o quarto, ela me seguiu e começou a falar.
–-Filha...você lembra de quando era criança e mudava de colégio quase todo ano?—Eu assenti—Então você vai ter que mudar de novo.
Eu estava meio desorientada—Mas...
Espera!—Ela me olhou como se não falasse tudo agora, jamais fosse conseguir de novo.—É um colégio meio distante; um internato; lá é bem legal você vai poder ter mais independência e vai poder levar os gatos, lá é maravilhoso, você vai adorar.—Mas nem ela mesma parecia acreditar nisso, pelo menos ela tinha parado de chorar um pouco.
–-Então...porque você está chorando?—Eu tive a impressão de que ela ia voltar a chorar.—E porque eu tenho que mudar de colégio?—Eu tinha razão, ela voltou a chorar.
–-Bem...—Ela falava enquanto engolia as próprias lágrimas—Eu e o seu pai...—Só agora eu notei que ele não estava no quarto.—Estamos com...problemas e... a sua avó sugeriu que você fosse a esse colégio, pois vários parentes nossos estudaram nele então eles teriam uma receptividade maior à você.—Ela não parecia nem um pouco sincera, mas felizmente tinha parado de chorar.
Agora era eu quem sentia lágrimas quentes rolarem sobre o meu rosto.
–-Mãe se tem uma coisa que eu sei sobre a nossa família é que nós não gostamos dela.Nossa família sou eu, você e o papai; mais ninguém. Até você fala mal da vovó, e ela é sua mãe. Eu não quero mudar de colégio, eu finalmente tenho uma vida aqui, eu tenho amigos e eu gosto desse lugar. E quais são esse problemas? Você e o papai vão se separar ou o quê? Nós costumávamos contar tudo uma pra outra, eu pelo menos continuo contando.—Eu estava com muita raiva agora, odeio ficar confusa e odeio achar que ela está escondendo coisas de mim.
–-Olha filha—Dessa vez eu pude perceber raiva na voz dela também, ela odiava que eu aumentasse o tom de voz.—Você vai pra esse colégio. Não é como se houvesse outra opção. E pelo que eu fiquei sabendo a Anna talvez possa ir também.—Isso melhorava as coisas pelo menos eu não estaria completamente perdida, mas ainda não me fazia sentir muito melhor.— Os problemas que eu e o seu pai estamos tendo são coisa de gente mais velha você não precisa se envolver. E vamos deixar uma coisa bem clara aqui, só nós sabemos que nós não gostamos muito da nossa família; não deixe ninguém mais ficar sabendo tudo bem?—Ela me dizia como se estivéssemos escondendo um judeu em plena Alemanha nazista.
–-Sim mãe.—Eu disse do jeito mais agressivo que pude, mas ela pareceu feliz; ela adorava ganhar uma discussão, apesar de quê eu provavelmente não tinha muita escolha sobre mudar de colégio, nem ia sair contando pra todo mundo que eu prefiro namorar um cavalo a visitar algum tio.
–-Ótimo sua transferência está marcada pra daqui a dois dias, agora: hora de dormir—Ela tinha parado de chorar, mas pude notar tristeza nos olhos dela; o que é bem compreensivo já que pais odeiam perder os filhos, mas não parecia só isso.
Eu ia mesmo mudar de colégio, não ligava de ser de ser rápido. Uma das coisas que eu aprendi na vida: se tem que acontecer é melhor acontecer rápido. A não ser que seja morrer, porque nesse caso acho que eu posso esperar.
O que me incomodava agora realmente não era a rapidez com a qual eu seria transferida; mas... quais seriam esses problemas?E porque ela parecia tão pouco disposta a contar, sendo que ela sempre me contou tudo.
Eu tinha dois dias para descobrir.
Fale com o autor