Os descendentes

4 Despedidas, canções e avós


Dois dias se passaram sem que eu descobrisse nada.

Apesar das notícias ruins tudo continuou absolutamente igual, tanto em casa quanto na escola. Minha mãe continua estressada e meu pai meio distante.

Anna acabou podendo ir também o que me tranquilizou muito, ela disse que os pais dela também estavam estranhos, mas que ela não estava preocupada com a mudança de colégio já que nós duas estaríamos lá e ela não teria problemas de falta de amigos.

E eu pensei que fosse ficar completamente obcecada para descobrir o real motivo da minha mudança de colégio, mas acabei não dando tanta importância quanto queria já que eu não sou uma pessoa tão determinada quanto desejo ser (na verdade meu nível de determinação é quase zero) então a única coisa que eu descobri é que a minha avó trabalhava no colégio em algum cargo da direção. O que, de verdade, era bem ruim.

E para me distrair ainda mais o aniversário do Bernardo estava se aproximando e apesar de ele não estar mais comigo eu realmente queria fazer alguma coisa, mas eu não sei o que mortos podem querer.

Na hora da despedida minha mãe e meu pai começaram a chorar loucamente (eu nunca tinha visto meu pai chorar) o que me deixou um pouco sem jeito já que eu não me emociono muito com despedidas.

–-Vai ficar tudo bem filha você vai ver—Ela disse sorrindo enquanto chorava.

–-Eu sei mãe, eu já fiz viagens sozinha, não pode ser tão diferente.

–-Nós confiamos em você, lembre-se que você é linda e especial e se alguém não gostar de você e pegar no seu pé não mande ele para “aquele lugar” perto da sua avó. — “Mães”.

Meu pai me entregou minha gata e me olhou com seus olhos acinzentados por trás de seus óculos de aro grosso.

–-Filha se acontecer qualquer coisa, qualquer coisa mesmo me ligue, e se você conhecer algum garoto, tenha certeza de que ele não é como o seu primo ok? —Ele disse e me deu um beijo na testa e eu corei. —E nada de pedir dinheiro para mim, o colégio paga tudo que você precisa e qualquer coisa você pode dar um jeitinho com a sua avó.—Ele e minha mãe me puxaram para um abraço de urso que durou uns 3 minutos.

Eu entrei em um táxi junto com a Anna que nos levar ao aeroporto; aparentemente o colégio era fora do país. Anna já havia passado pela despedida de sua família, o que era visível pelas leves marcas de lágrimas no seu rosto.

–-Sua insensível, desalmada e sem coração. Não chora nem na despedida da própria família. —Recebi uma um travesseiro que ela levava para as viagens na cabeça.

–-Anna! Acorda! Eles estão largando a gente para estudar, nós seremos torturadas e comidas pelos estudos; imagina 24h de estudo. É o terror do internato. —Foi a vez dela de receber um travesseiro, o que eu recebi foi uma cara feia de volta, mas ela sabia que eu estava brincando.

Passada meia hora eu resolvi quebrar o silencio.

Passados meia hora eu resolvi quebrar o silencio

–-Anna, o que você acha que alguém morto possa querer?

–-Sei lá, se eu morresse eu ia querer que alguém me desse um pouco do que eu mais gostei na minha vida.

Música, ele gostava de música. Ótimo eu iria fazer uma para ele.

–-Anna você às vezes é genial. Muito obrigada.

–-As vezes?

–-Não se empolga.

Ficamos caladas resto o trajeto inteiro, ela parecia estar muito nervosa com o fato de viver sozinha e não ver seus pais por mais ou menos um ano e eu tinha que pensar em uma música.

Quando chegamos ao aeroporto tivemos que lidar com todos aqueles papeis, já que éramos de menor e ainda estávamos levando um animal.

–-Tchau minha Marie bebê.--Eu estava tão preocupada com ela que só queria que ela pudesse vir comigo.--Se cuide a gente vai se ver de novo em pouco tempo ok?

Ela miou em resposta e eu passei os dedos por entre as grades da casinha.

Quando finalmente fomos para a fila de entrada do avião eu infelizmente reconheci uma figura de cabelos brancos, olhos azuis congelantes, nariz fino e empinado, vestida impecavelmente me olhando com olhos famintos por críticas.

–-Querida –Disse minha avó abrindo os braços para um abraço.

–-Oi vó—Retribui o abraço sem o menor animo—O que você está fazendo aqui?

–-Ora eu vi acompanhar a minha Sophie favorita não? Afinal a diretora do colégio deve ter o direito de acompanhar a própria neta. —Ela disse sorrindo e olhando para Anna que estava ligeiramente confusa, enquanto eu entrava em estado de pânico.

–-Diretora? Que ótimo! —Não perceba a ironia, não perceba a ironia.

–-E não é? Fui promovida a um ano—Ela disse orgulhosa—E você deve ser a Anna—Disse ela estendendo a mão. —Nervosa?

–-Sim, mas eu também estou bem empolgada. —Ela estava visivelmente sem graça.

Eu já previa que essa viagem ia ser muito longa, pelo menos talvez ela não sentasse perto da gente.

–-Seus pais não avisaram que vocês iam de avião particular junto comigo?

Maravilha.

–-Não na verdade, eles não falaram nada.

–-Bom... Agora já sabem. Vamos.--Minha avó parecia empolgada como se estivesse se divertindo com alguma coisa que eu não entendia.

Olhei para Anna na esperança de que ela estivesse entendendo

Anna parecia mais confusa do que eu e nem um pouco disposta a discordar da minha avó. Então nós a seguimos. O caminho até o avião era cheio de curvas e corredores como se fosse uma área de acesso especial.

–-Porque você não gosta da sua avó? Ela não parece tão terrível—Anna sussurrou.

–-Espere e verá.

Nós descemos as escadas que levavam ao avião e demos de cara com uma porta, onde uma mulher de aparência importante nos esperava, minha avó e ela conversaram um pouco e ela começou a olhar para mim e para Anna como se fossemos uma espécie de ser intocável.

Quando a mulher finalmente liberou a porta o vento quase me derrubou.A área aonde o avião estava era enorme caberiam facilmente 30 aviões a mais porém apenas um estava lá. Com esforço caminhamos em direção ao avião que tinha uma aparência diferente dos outros aviões que eu já tinha visto. Ele era prata ao invés de branco, sem nenhum desenho e era muito estreito e pequeno, como se quisesse atingir o triplo de velocidade de qualquer outro avião, e, eu pelo menos, não vi turbinas, também não haviam janelas. Por dentro ele era bem sem graça todo cinza e com apenas três cadeiras uma atrás da outra não haviam nem mesinhas o que me fez perguntar como nós iriamos comer.

–-Preparem-se. Vocês estão a caminho da vida real.--Disse minha avó com uma voz aguda.

Nos sentamos e na hora de decolar senti uma leve pressão na cabeça e adormeci.