Ar.

Eu precisava de ar, não conseguia respirar, eu praticamente sentia a vida saindo de mim a medida que o ar ia acabando.

Mas estava em dúvida, era um sonho ou eu estava morrendo?

Quando eu achei que não fosse mais aguentar o avião deu uma parada brusca e ar voltou; entrou em meus pulmões como água gelada entra em uma garganta seca. E então eu abri os olhos. Havíamos chegado. Ainda estava no avião dolorosamente apertado, mas seria por pouco tempo; Anna estava acordando, com os cabelos desarrumados e cara de sono.

–-Anna? — Sussurrei ainda meio sem fôlego.

–-Ahn? — Disse ela bocejando

–-Também teve a sensação de falta de ar?

–-Sim, eu tive mas achei que estivesse sonhando.

Eu devo ter feito uma cara assustada pois ela logo veio me tranquilizar.

–-Relaxa, nós devemos ter sonhado isso porque o avião estava muito rápido.

Minha avó acordou

–-Bem meninas...Prontas? —Meu Deus, ela não tinha um pingo de sono na voz.

–-Prontíssimas—Disse Anna

–-Tenho escolha?

–-Não muita—Disse minha avó sorridente.

–-Então vamos.

Na hora que saímos do avião eu juro que quase fiquei cega com o brilho do aeroporto, milhares de aviões prateados semelhantes ao nosso iluminavam o local e havia uma grama de um verde muito belo que parecia ter a intenção de deixar o local ainda mais bonito.

Mas nada poderia me preparar para a visão da cidade. Eu não sabia em que lugar ou país estávamos mas era o lugar mais iluminado que eu já havia visto. Prédios com paredes externas de vidro, casas somente brancas, até as pessoas pareciam brilhar naquele lugar. A grama era mais verde, o céu era mais azul, o ar parecia mais puro. Não haviam nem traços de poluição.

–-Anna?

–-Sim?

–-Eu morri?

Ela riu, mas quem respondeu foi minha avó. — Não. Ainda não, mas admito que seria muito bom se a morte nos trouxesse aqui.

Ela começou a andar e eu entendi que era para a seguirmos, era impressionante; mesmo depois de horas dentro de avião minúsculo as roupas dela continuavam impecáveis.

Eu continuava admirando o local e seu “brilho”; as pessoas pareciam muito felizes por lá. Notei também a ausência de carros ao invés deles as pessoas andavam a cavalo, de charrete, bicicleta, skate, patins ou mesmo a pé.

Paramos em frente a uma charrete branca e prateada guiada por um cocheiro de aparência amistosa e nariz alongado.

–-Meninas eu vou na frente, por favor fiquem à vontade.

Sentamo-nos de modo que ficávamos de costas para o cocheiro, acho que nós duas queríamos ter a visão da cidade pelo maior tempo possível, mesmo que isso significasse demorar mais para ver o colégio.

–-Nossa—Eu devia estar de boca aberta.

–-Nossa mesmo, é o lugar mais lindo que eu já vi em toda minha vida. —Anna estava tão impressionada quanto eu.

–-Se as pessoas do colégio forem tão bonitas quanto esse lugar, eu espero que alguma goste de mim rapidamente. Vou aceitar até mulheres.

Anna riu, mas pareceu desconfortável com o assunto.

No caminho nós conversamos sobre o lugar, sobre quanto tempo demoraríamos para chegar, fizemos suposições sobre como seria o colégio, e até encaramos algumas pessoas; o que me causou algum espanto pois em nenhum momento recebemos expressões rudes em resposta, eles apenas ignoravam, alguns até sorriam ou acenavam de volta.

Ainda avistávamos a cidade ao longe quando a charrete parou, quando nós nos viramos para olhar o lugar, eu tive certeza de que era apenas para alimentar os cavalos já que o lugar era praticamente uma fazenda. Uma estrada de terra serpenteava o lugar como um labirinto e levava a vários chalés que pareciam ser feitos de madeira e palha, mas não víamos ninguém. Haviam muitos cavalos e algumas vacas no local também. No centro de tudo havia uma cerca com formato circular cheia de areia, onde, eu supus que eles realizassem provas com os animais. Se virássemos a cabeça um pouco mais ao sul podíamos ver uma densa e extensa mata.

Estava me preparando para virar de costas novamente quando minha avó nos chamou.

–-Podem descer amores! —Eu nem havia notado que ela havia descido da charrete.

Desci já que precisava muito fazer xixi.

–-Então gostaram? Preparadas para passar o ano aqui?

O que? Nós íamos estudar em uma roça?

–-Ahn? Vó...é aqui mesmo, ou você quis dizer passar o ano no país?

–-Ora querida claro que é aqui! Eu não faria vocês esperarem mais começarem a se preparar para as aulas, se demorasse mais de duas horas eu viria por um meio mais veloz.

Okay era real, meu colégio era uma roça.

–-Ah viemos estudar sobrevivência na selva é isso? Porque é o que está parecendo!—Eu não sei porque fiquei tão irritada, eu sempre gostei de fazenda e minha avó estava até sendo legal. Acho que eu não estava conseguindo absorver todas as mudanças.

–-Não fale assim com a sua avó! Ou vai começar o ano escolar com uma suspenção! —Ela praticamente gritou comigo, para uma idosa até sua voz era potente.

Me calei. Não queria ser suspensa. Pelo menos não no primeiro dia.

–-Calma, pode ser até legal. —Sussurrou Anna.

–-Eu sei. —Tentei soar sincera mas pareceu mais irônico.

Minha avó que estava pagando o cocheiro se virou para nós com uma expressão levemente mais calma. Ela suspirou lentamente e depois falou:

–-Bem, gostando ou não é esse o novo colégio de vocês meninas, espero que aprendam a ama-lo, mas não se apeguem demais. Apego demais nunca é bom

Ela falava como se tivesse certeza de que iriamos ficar lá durante muitos anos. Mas para mim, um ano já era muito tempo.

De repente me lembrei da minha gata.

–-Onde está a Marie? — Falei desesperada, me lembrando de que ela tinha embarcado em outro avião.

–-Está no seu quarto, junto com suas malas e seu violão. Tivemos que dar remédio a ela para que dormisse e não sofresse com os efeitos da viagem, ela deve estar acordando agora. —Ela enfiou a mão no bolso de seu terninho cinza claro e retirou uma chave grande com um número oito como chaveiro. —É só irem reto e contarem até oito. —Ela falou isso de uma forma que deixava bem claro que ninguém nos guiaria até o quarto.

Fomos seguindo a estradinha que ia se enchendo de flores a medida que nos aproximávamos do quarto.

Chegamos ao número oito que tinha uma aparência ligeiramente melhor que os outros chalés. Quando entramos no quarto, para a nossa surpresa as paredes não eram de madeira, eram inegavelmente de concreto o que significava que a madeira por fora era meramente decorativa. As paredes eram cinzas e sem graças, mas com um pouco de esforço e tinta ficariam bem legais. Haviam duas camas sendo que uma era beliche. Havia uma única janela no fundo do quarto com uma grande e estreita mesa de estudos com três cadeiras.

Coloquei meu chaveiro de bússola no chão e a estrutura do quarto era essa.

Cama: Leste

Beliche: Oeste

Porta: Norte

Janela: Sul (o que nos dava uma linda vista da floresta)

Peguei o chaveiro e fui olhar se Marie estava bem. Estava dormindo. Mas respirando normalmente, sem nenhum sinal estranho.

Não encontrei o banheiro assim que entrei pois ele estava meio escondido atrás do beliche. Ele também tinha as paredes cinzas uma pia e privada brancas e um chuveiro prateado com box e uma cortina de plástico.

Depois de usar o banheiro eu o estava olhando para ver o que seria possível fazer para melhorar sua decoração quando Anna me chamou.

–-Sô tem um garoto na porta dizendo que vai nos mostrar o lugar. —Ela parecia estar bem animada para conhecer o “colégio”. —Vamos?

Quantas vezes eu tinha ouvido essa palavra nos últimos dias?

Apesar de estar um pouco cansada resolvi ir com ela. –Vamos, claro. –Respondi com um sorriso.

E ao sair do banheiro me deparei com a coisa mais linda e fascinante que eu poderia ver em toda a minha vida. Nada poderia ter me preparado para aquilo.

–-Sophie? –Ele disse.

Eu desmaiei.