Os Vinte Magos

2 II. Levianamente enganador


Era uma sensação semelhante a cair, mas muito mais sutil. Talvez fosse como voar, porém sabia que não ia para cima; Ainda assim, o que seria acima e abaixo? Tanto o céu quanto a terra — se é que podia chamar desta forma — eram ondulações avermelhadas e densas, como areia do deserto que dança com o vento. O calor envolvia o corpo de Seyna, que gradativamente sabia estar adentrando o báratro, aproximando-se do indescritível.

Soube que finalmente havia parado quando sentiu o avermelhado envolver seus pés. Equilibrou-se, e não tomou fôlego, pois ali era incapaz de respirar. Sentiu a ponta de seus dedos queimarem, e quis chorar. As lágrimas não saiam como deveriam, mas um caminho ardente era formado em sua face. Chorava fogo.

— Este é seu potencial. — Uma voz lhe disse de lugar algum. — Lhe é natural, mas se não aprender a controlá-lo, irá sucumbir com ele.

Seyna abriu a boca para responder, contudo, tudo o que saiu ao mover os lábios foi fumaça. Olhou ao redor, buscando seu locutor, e o que viu foi uma ambientação vermelha e líquida, que se movia sem nenhum sentido ou padrão, e muito, muito quente.

— Vá. — A voz voltou a repetir, como se fosse um crepitar, breve e simples. — Vá, vá, vá.

Observou todo o ambiente se desmanchar ao seu redor, como areia escorrendo por entre os dedos. Seyna acordou em um pulo, mas não pode sobressaltar-se. Ao levantar o corpo sua boca foi tapada e seus ombros segurados por algo bem posicionado em cima de seu tronco. Pensou em se debater, sentindo a adrenalina ser liberada, mas uma voz familiar se manifestou antes de sua ação.

— Apostadora. — Leviano chamou, sussurrando. — É melhor não gritar.

O coração batia acelerado. Estudou o goblin que estava em cima de seu corpo, com um semblante que, se não fosse a escuridão atrapalhando, diria que mostrava medo. Todos os outros passageiros ainda dormiam, uns profundamente e outros levemente prontos para acordarem a qualquer ruído diferenciado. Seon era um destes.

Com o canto do olho procurou a espada na parede onde a havia escorado, não estava tão distante, se conseguisse esticar o braço por um breve segundo poderia tomá-la e livrar-se do indivíduo que lhe imobilizava. Mas o goblin sabia disso, e possivelmente iria realizar uma manobra evasiva. Leviano voltou a dizer:

— Eu vou te libertar, e você vai ficar quieta até eu explicar tudo. — Observou a espada dela. — Eu sei que você vai tentar me matar, mas me dê uma chance, tá? Se fizer muito barulho acordará todos ao seu redor. E eu me preparei pra isso, você não.

Seyna assentiu com a cabeça. Lentamente, o goblin se afastou, deixando Seyna livre para falar e se mover. No mesmo segundo a apostadora jogou-se da rede em que dormia, rolou no chão e pegou a espada, com movimentos sutis que não provocaram barulho o bastante para acordar os outros. O goblin não escondeu a admiração pela furtividade.

— Te dou dois minutos para explicar. — Disse Seyna.

— Preciso de três.

— Um e meio. — Desembainhou a espada.

— Certo, dois.

O goblin estremeceu, colocando os pensamentos em ordem. Parecia estar com pressa. Um ronco distante o fez se assustar por um breve momento.

— O tempo está correndo. — Avisou Seyna, controlando a respiração para não se mostrar ofegante. Leviano juntou as mãos em um gesto preparatório.

— A verdade é que existe um dinheiro enorme para minha captura e sou jurado de morte em duas cidades diferentes. — Ele sorriu de nervosismo. Seyna não deu a mínima, o que o fez engolir em seco. — E estamos indo para uma delas.

— O que eu tenho com isso?

— Espere, já vou chegar em você. — Pediu Leviano. — Sabe os três ex escravos que estão nesse navio? Eles precisam de dinheiro. Bem, que ex escravo não precisa, não é?

— E daí? — Se lembrava de os ter visto horas antes no convés, conversando.

— Acalme-se! — O goblin elevou o tom de voz, e tapou a boca ao notar que poderia ter acordado alguém. Olhou em volta e, só depois de averiguar que todos ainda dormiam, suspirou. — Sou refém deles. Pretendem me levar pra cidade e pegar a recompensa. E eu gosto de viver, tanto quanto gosto de dinheiro.

— Se é refém por que não está preso? — A esta altura, havia abaixado a espada. Ele não parecia ser o mesmo goblin de tom ameaçador de antes, apenas uma criatura mendigando a própria vida.

— Cordas não funcionam em mim. — Se gabou. — Tenho mãos ágeis, sabe? E isto levantaria muita suspeita, o que poderia fazer com que mais gente tentasse me capturar, e eles estão realmente com vontade de ter toda a recompensa para si. Não que ser um goblin já não seja chamativo o suficiente. E eu não sei nadar, então sem risco de eu sair nadando por aí. — Seyna rolou os olhos. — Mas a questão é que... Eu sei o que você é.

Leviano, de um instante a outro, voltou a soar tão astuto quanto no momento em que se encontraram pela primeira vez, causando calafrios na garota. A apostadora apontou a espada para o goblin, assumindo um semblante sério e uma posição defensiva.

— E o que sou? — Forçou uma intimidação.

— Não finja que não sabe. Eu sou amigo íntimo de um mago, eu sei reconhecer um quando eu vejo. — Admitiu, fazendo a curiosidade de Seyna aumentar. — E eu tentei te oferecer para os meus caçadores de recompensa ex escravos, torcendo para que eles desistissem de mim, mas eles não acreditaram em mim... A princípio.

Ninguém acreditaria com facilidade. A magia estava morta e proibida em todo o continente. Seyna aproximou-se um passo, e sua lâmina quase tocou a garganta de Leviano.

— Está começando a me deixar irritada. — Avisou, quase cuspindo.

— Desculpe, senhorita. Juro que esta é minha última intenção. — Leviano levantou os braços verdes e esguios. — Mas assim como você, eu também não quero morrer. Então vim pedir sua ajuda!

— Não vou te ajudar.

— É me ajudar ou contarei para todos o seu segredo. — Passeou os indicadores no ar, como quem comemora. Seyna deu seu costumeiro sorriso ácido.

— Ninguém acreditará em você.

— Ah, vão sim, porque eu tenho isso. — Em movimentos delicados para não apresentar hostilidade, levou a mão ao pescoço, de onde tirou um cordão de couro envelhecido. A apostadora semicerrou os olhos para compreender melhor, e assim que o cristal azulado usado de pingente emitiu um brilho, soube do que se tratava.

A magia não estava simplesmente extinta, como também havia se tornado uma lenda mística, quase religiosa. Dentre uma das lendas havia um cristal que, devido a suas propriedades antigas e misteriosas, era capaz de identificar origens mágicas. Seyna sabia que isto era parcialmente verdade. Cristais podem ser runas. Runas intensificam magia. O que Leviano portava era, possivelmente, uma runa.

Todo cuidado era pouco. Embainhou a espada.

—... Certo. Como quer minha ajuda?

— Ah, me livre do encalço dos escravos. — Leviano tirou o cordão do pescoço e o balançou como se fosse um pêndulo, sorridente. — Então morrerei com seu segredo.

— Como quer que eu me livre de ex escravos de batalha? — Indagou, sentindo uma gota de suor escorrer ao longo de sua testa.

— Não precisa se livrar, pode apenas incomodá-los ou distai-los enquanto eu tomo o fora daqui. — Voltou a usar o colar, escondendo o cristal nas roupas. — Temos um trato?

Seyna cruzou os braços, pensativa. Como Seon reagiria? Ele absolutamente não ficaria satisfeito em ter de lidar com homens livres, tampouco em ajudar um fugitivo e jurado de morte em duas cidades diferentes. Precisava arranjar um jeito de tirar vantagem da situação, antes que o prejuízo fosse irreparável. Resfolegou.

— Tenho algo a pedir.

— Você não está em posição para isto. — Debochou Leviano.

— Irei te garantir uma passagem ainda mais segura ao longo da cidade. — Ofereceu.

Leviano pareceu levemente interessado, erguendo uma sobrancelha.

— Oh... — Passou suas longas unhas no queixo. — Continue, apostadora.

— Você disse ser amigo íntimo de um mago. — Afirmou, e Leviano assentiu com a cabeça. — Possivelmente foi de onde conseguiu o cristal. — Ou o roubou. — Se você me contar a localização do mago e como posso me comunicar com ele, posso te escoltar até uma caravana segura, além de te livrar dos seus algozes.

Leviano estendeu a mão.

— Temos um acordo?

Seyna apertou.

— Sim.

O goblin sorriu com todos os dentes pontiagudos e amarelados, saltitando de volta para a escuridão do navio enquanto deixava Seyna para trás, sonolenta e nervosa com o que acabara de firmar. As primeiras pessoas começaram a despertar ao redor, levantando de suas redes e bocejando. Seyna pensou em voltar a dormir, mas sabia que não conseguiria retornar ao sono profundo. Deitou-se em sua rede e colocou-se a pensar no que acabara de acontecer. Pelo menos Seon seria incapaz de recusar o trabalho, afinal, a localização do próximo mago era justamente o que vieram buscar em Véu da Noiva.

Poucas horas depois, ainda quando a alvorada começava a surgir no céu, o Santa Rubra atracou no porto de Véu da Noiva, e todos os marujos começaram a desembarcar as caixas e demais utensílios comerciais. O mar de Véu da Noiva era agitado e cheio de pedras, acalmando-se apenas quando perto do porto, e ainda assim grandes embarcações como Santa Rubra precisavam lançar âncora a vários metros do cais para evitar infortúnios. Pela quantidade de manobras e gritos do capitão, todos acordaram ainda no início da alvorada, tendo de aguardar ansiosos o fim da jornada. Foram longas nove horas de oceano.

Seon não havia colocado a capa naquela manhã em vista do calor. Ainda assim, toda a placa da armadura era indispensável, mantendo-o seguro e confiante de que ainda era o mesmo militar que um dia honrou seu reino. Não demorou muito para encontrar Seyna, que como esperado observava o ritmo das ondas batendo contra o navio. Aproximou-se aos passos curtos, percebendo que havia algo diferente no semblante de sua protegida. O típico nervosismo de quem fez quebrou algo que não pode consertar. Assim que o viu, Seyna forçou um sorriso.

— Você dorme, dorme e dorme, mas suas olheiras nunca saem daí. — Debochou a mais nova.

— Bom dia para você também. — Falou, desviando o olhar para observar o contramestre que caminhava em direção a um dos pequenos botes que transportariam a carga até o porto. Voltou a face para Seyna. — Aconteceu algo?

— Ahm... Sim. — Não mentiu. Abaixou o olhar como uma criança que espera receber bronca.

— Previsível. — Balançou a cabeça em reprovação. — Como pretende vencer um inimigo entregando o seu próximo passo na sua expressão? Você está nervosa. — Cruzou os braços. Mesmo depois de anos como contrabandista, sua postura ainda era de um militar.

— Não sou previsível. — Orgulhosamente negou Seyna. Ela tinha a arrogância de um nobre, apesar de ter vivido como uma plebeia. Seon não conseguiu evitar uma risadinha.

— Esqueceu que fui eu quem lhe ensinou as letras e os números? Posso te ler tão fácil quanto leria um conto infantil. Agora cuspa o que há entalado.

Seyna engoliu em seco. Leviano estava distante, esfregando uma mão na outra enquanto os três ex escravos responsáveis por ele conversavam com um orc marinheiro. Os outros passageiros arrumavam-se para conseguir os primeiros botes para a ida ao cais. Era um momento de distração perfeito para agir.

— Eu sei onde encontrar o próximo mago. — Afirmou, e Seon endureceu o semblante. Após anos de procura, finalmente encontrariam alguém como Seyna.

— O que você pagou em troca dessa informação? O quão verossímil isso é? — Preocupou-se.

— Um goblin chamado Leviano, criminoso procurado. É refém dos três guerreiros deste navio, você deve os ter visto em algum momento. — Resumiu. Seon encarou os ex escravos de soslaio, comprovando que sabia do que se tratava. Não parecia agradado. — Ele possui uma daquelas runas que... Brilham.

— Você não deveria se envolver com esse tipo de gente. Eu te avisei antes de entrarmos aqui. — Repreendeu. — Por que você nunca me escuta? — Seyna suspirou.

— Sem sermão, por favor. Ele ameaçou contar para todos sobre o que eu era.

— É mais fácil fugir de toda essa tripulação vindo atrás de você do que tirá-lo daqueles três. — Descruzou os braços, passando a mão na barba. — Mas agora é inevitável. Quando tudo isso acabar, você será castigada por desobediência.

Seyna sorriu. Ela sempre arranjava uma forma de escapar dos castigos.

— Por mim tudo bem.

— Vou conseguir um bote. Tire-o de lá.

— Sim, senhor. — O cumprimentou de modo militar. Seon pareceu agradar-se.

Dividiram-se. Seon caminhou em direção ao contramestre, enquanto Seyna esgueirou-se por entre as pessoas até ficar na linha de visão de Leviano. O goblin parecia, como sempre, carregado de malícia, e a olhou em tal tom. Seyna sinalizou para que aguardasse. Os três guerreiros acabaram por vê-la também, trocando olhares desconfiantes. Seyna tirou os dados do bolso e se aproximou.

— Uma partida de Doze por Doze? — Convidou. O que tinha mais cicatrizes entre os três a olhou de cima a baixo com desdém. Seyna manteve a pose.

— Não queremos. — Respondeu, carregado de um sotaque que Seyna não identificou. Talvez fosse do extremo norte. — E não temos tempo.

— Não há motivo para timidez. — Sorriu. — Somos todos homens e mulheres livres, podemos apostar quando queremos. É um costume muito comum jogar dados para confraternizar.

Leviano olhava-a hesitante. Perto dos três ex escravos, era nada menos do que uma sombra valiosa. Suas armas deveriam pesar mais que o próprio. Seyna girou os dados na mão e, com a destreza de um ladino, apontou suavemente para Seon. Leviano acompanhou o dedo, encontrando o mercenário com o olhar.

— Não temos nada para apostar. — Respondeu o guerreiro, indomável. — E não queremos.

— Eu poderia ensiná-los. — Se aproximou e ergueu os dados, balançando-os na palma da mão lentamente. — Sou excelente nesse jogo, e vocês tem suas armas para apostar. Ou suas roupas. Ou sua vida. Eu posso apostar minha vida, sei que não vou perder.

O guerreiro segurou o pulso de Seyna com rigidez. A apostadora impressionou-se com sua força e velocidade, capazes de destruir a jugular de uma besta se assim quisesse o guerreiro. Os outros dois, que acompanhavam a conversa, sacaram as armas, prontos para investir e começar uma luta.

— Não. — Tomou os dados de sua mão e atirou ao mar. A soltou com a mesma brutalidade que havia segurado, e disse algo em irmaniense para os outros dois guerreiros que logo abaixaram suas armas. Irmani, um vilarejo que há muito fora a vigésima primeira cidade, e hoje apenas um campo de mineração e escravidão. — Saia. — Ordenou.

Seyna gesticulou e se afastou enquanto pedia desculpas. Leviano já não estava entre os três guerreiros, que sequer notaram o distanciamento do goblin. A apostadora se afastou aos passos ágeis, aproximando-se de Seon que puxava cordas, descendo um dos botes com ajuda de outro marinheiro. O mercenário ofereceu a mão.

— Venha, o seu parceiro de negócios está com pressa. — Leviano estava dentro do bote, preparando os remos com devida ansiedade.

— Temos menos de um minuto até os guerreiros notarem que foi uma armadilha. Eu também estaria. — Aceitou a ajuda e entrou no bote.

Seon adentrou logo em seguida, e o bote foi posto em mar. Leviano entregou o remo que segurava para Seyna. Agora, o goblin estava repleto de malícia e também alívio.

— Você é muito boa nessa coisa de se meter em confusão. — Elogiou o goblin.

— Quem tem a cabeça procurada em duas cidades é você.

— Bem, um mago seria executado em qualquer uma das Vinte Cidades. — Debochou.

— Vigie as palavras, goblin. — Alertou Seon.

— E quem é você mesmo? — Indagou Leviano. Seon rosnou.

Seyna olhou para trás enquanto remava. Três silhuetas acompanhavam seus movimentos ainda no navio. Olhando os três guerreiros, notou: Eles estavam muito mais dispostos a correr atrás de Leviano do que deveriam. Suou frio.