Os Vinte Magos
3 III. A revanche
As gaivotas de Véu da Noiva eram animais mais rápidos do que aparentavam. Suas penas eram da cor da espuma do mar, e sempre voavam aos montes para cima dos desavisados. Seon foi um destes que, esquadrinhando a avenida, não se deu conta de que um grupo de gaivotas bicavam sua capa. Ao perceber tirou a própria luva de ferro e golpeou o ar, por sorte não levando um animal a cada balançar. Leviano divertiu-se com a cena, já afastando a pouca simpatia que o mercenário tinha com o goblin.
No último ataque uma ave foi atingida e caiu no chão, com uma asa quebrada. Um cachorro que por ali procurava por comida avançou sobre a gaivota ainda viva, abocanhando seu corpo com voracidade, e a levou para longe, esguichando gotas de sangue e saliva.
— Você será o próximo. — Avisou Seon vestindo novamente sua luva, encarando Leviano com a mesma expressão austera de um guarda. O goblin deu um sorriso traiçoeiro.
— O próximo a ser ferido ou o próximo a alimentar-se?
— Torça para não descobrir.
E o resto do caminho fizeram em silêncio. O sol de meio-dia estava alto no céu, o porto no horizonte, e os algozes de Leviano distantes. Seyna sentia-se estranhamente inquieta, como se algo desagradável e inesperado estivesse em seu encalço. Seon parou em frente a um estábulo, e um rapaz foi atendê-lo. Mandou que chamasse o cavalariço. O rapaz adentrou o lugar e voltou segundos depois ao lado de uma mulher grande como um touro, que fumava um cachimbo cujo fumaça tinha o cheiro de uma erva que Seyna reconheceu como a crescente lilás. Amenizava dores crônicas.
— Precisa de um cavalo? — Foi direto ao ponto. Tinha uma voz mais delicada do que sua aparência proporcionava, mas ainda assim firme.
— Não exatamente. — Seon cruzou os braços. — Mas tenho certeza que muitas pessoas vêm aqui a procura de um. — Constatou, passando a mão na barba castanha. — Ou em busca de cuidados para os próprios.
A fumaça saiu da boca seca da mulher e espalhou-se como finos tentáculos. Leviano esfregava as mãos como quem maquinava um plano.
— Vá direto ao ponto, senhor. — Pediu a cavalariça.
— Algum responsável por uma comitiva passou aqui em busca de cavalos?
— Depende.
Tudo sempre dependia, pensou Seyna. Seon entregou à mulher uma moeda pesada e brilhante. Ela guardou no bolso.
— Passou, sim, hoje mais cedo. O líder de uma trupe de circo. Parece-me que enfrentaram alguns bandidos no caminho e perderam alguns itens e montarias. Os vendi bons jumentos e um potro. — Mais fumaça. — O que mais quer saber?
— Ainda estão por aqui? — Seyna indagou, e os grandes e pesados olhos da mulher quase fizeram sombra sobre a jovem. Ela parecia, de fato, um touro.
— Eu não saberia dizer. — Soou honesta. — Mas planejam seguir para norte. Pontamarga, sabe?
Seon tinha um olhar carregado de incerteza.
— Agradeço. — E retirou-se, como quem tinha pressa. A bem da verdade, o mercenário vivia contra o tempo, mesmo que não tivesse hora e lugar para chegar. Leviano e Seyna o acompanharam alguns passos depois.
— Um momento! — Chamou a mulher, e todos os três olharam por cima do ombro. — Eu menti. Eles estarão aqui até o fim da terceira lua. No centro.
— Obrigado. — Disse novamente Seon, a entregando uma nova moeda por sua honestidade, e aliviou sua expressão. Voltaram a caminhar, desta vez indo para o centro de Véu da Noiva.
O centro, diferente do porto, não dava a aparência de uma superlotação, apesar de ainda assim cheio, sendo uma grande área de pavimento pedregoso que sediava três estalagens, uma forja, um banco e duas praças, com uma igreja de diferentes religiões em cada. Dentre as centenas que por ali passavam, em sentido ao porto ou a periferia da cidade, alguns reuniam-se ao redor de algo que chamava determinada atenção perto da primeira praça por suas cores e música. Logo que avistou, a inquietação de Seyna retornou.
— Ora, ora, se não é o circo. — Leviano cantarolou.
— Algo não me parece bom. — Alertou Seyna, ao lado de Seon. O mercenário tocou no ombro da apostadora e a dirigiu um olhar protetor.
— Deixe que eu comandarei a conversa. Fique atrás de mim. — A menor assentiu com a cabeça, e Seon voltou a caminhar em direção à trupe de circo que se instalou na primeira praça com suas bandeiras coloridas, trajes extravagantes e música alta. Leviano acompanhava-o quase saltitando.
À primeira vista, nada de anormal havia. As cores marcantes do circo variavam do roxo ao verde, havendo em torno de vinte funcionários que nada faziam além de montar equipamentos, e quinze membros do circo, que se maquiavam, equilibravam-se sobre dois paus, faziam malabarismos com adagas, tocavam músicas com instrumentos vindos do mais extremo leste e realizavam manobras elásticas com o próprio corpo. Havia o que parecia ser um domador de animais, um homem de pele pálida, olhos grandes e um cavanhaque ruivo, cercado de cachorros típicos de Talel, de pelagem acaju e com a metade do tamanho de um homem adulto. Ele gritava ordens para seus animais e anotava seus desempenhos em um papel, enquanto ao mesmo tempo parecia lidar com a organização de toda a trupe.
Seon ajeitou a capa nos ombros e parou próximo ao homem, que o olhou com educação e o desejou bom dia, fazendo os cães sentarem-se em uma fileira com um gesto e alguns petiscos.
— Você é o administrador daqui? — Perguntou Seon, observando os animais. Dali era possível ver, sob uma lona dourada, algumas jaulas prendendo exóticas criaturas. Seyna semicerrou o olhar para ver melhor.
— Sou sim, meu bom senhor. — O domador abriu um sorriso cheio de dentes, entrando na frente do campo visual de Seyna. — Se quiser um ingresso, posso te arranjar uma boa área onde não haverá incômodos para caber você e sua armadura. — Apontou para a maior das cabanas, onde o evento ocorreria. — Mas só aceitamos moedas talelianas, ou o valor equivalente.
— Fazem anos que não desfruto de uma boa apresentação. — Disse o mercenário, igualmente educado. — Mas não possuo mais tempo. Vim apenas pedir que disponibilizasse espaço para este goblin em sua próxima viagem. — Apontou para Leviano, que lambeu os lábios. — Podemos pagar.
— Sinto muito, mas não damos espaço para desconhecidos em nossas viagens. — Comentou, antes de um rapaz com um alaúde se aproximasse tocando uma melodia tranquilizadora e se intrometesse.
— Mas pai, talvez ele possa ser útil. Veja como é pequeno e verde. — Seus dedos eram ágeis com as cordas. A inquietação de Seyna tornou-se insuportável ao vê-lo, segurando no antebraço de Seon por puro reflexo. — Enquanto estiver conosco pode ser uma excelente participação na apresentação de horrores.
— Eu não eduquei-lhe assim, observe suas palavras, Miklel. — Repreendeu o domador de animais, fechando o sorriso. — Você sempre afasta espectadores.
— Oh, por favor, eu adoraria ser um de seus horrores. — Leviano ergueu ambas as sobrancelhas. — Sei que, com essa trilha sonora, seu filho deve ser o líder dos horrendos.
— Gosto de você. — Admitiu Miklel, com a típica face de quem é atraído por confusões. — Qual é seu nome?
— Você não saberia pronunciar meu nome, rapaz, mas pode me chamar de Leviano... Ou Levado. — Reverenciou. — A seu dispor.
Trocaram olhares, simpatizando-se.
— Ele não lhe será um incômodo desde que o mantenha sob vigilância. — Comentou Seon, mentindo. Leviano sempre seria um incômodo. — E pagaremos uma boa quantia. Em moedas de Talel, se quiser.
— A moçinha é sempre quieta? — Perguntou o filho do domador, parando de olhar para Leviano. Seyna observava os dedos dele com curiosidade.
— Não há necessidade de falas minhas.
— Ácida. — Sorriu. — É bem-vinda na trupe, se desejar. Precisamos desse tipo de lábia para os teatros.
— Miklel, cale-se por um instante. — Ordenou o pai, e seu filho fechou o sorriso por um instante. Começou a tocar uma nova melodia em silêncio, enquanto um sorriso sem dentes voltava para sua face. Seyna viu as cordas brilharem. Sua inquietação era, na verdade, um aviso.
Os cachorros do domador se afastaram com a música. O homem perdeu as palavras e ficou confuso de um momento ao outro, quase em transe. Leviano sorriu de orelha a orelha, notando o feito do rapaz.
— Tem certeza de que não quer um acordo? — Retomou Seon.
— Eu estou com um pouco de dor de cabeça. Converse sobre isso com meu filho, por favor. — Pediu, dando as costas e se afastando. Miklel tomou a frente, abaixando o alaúde.
— Ele é um pouco velho, muitas vezes cansado. — Começou a dizer. — Vocês estão dispostos a pagar quanto?
— Dez moedas comuns. — Respondeu Seon, fingindo não ter notado a estranheza do ocorrido. — Ou cinco talelianas.
— Gosto da ideia de cinco talelianas e cinco comuns.
— Duas talelianas e quatro comuns, se assim quiser, e ele trabalhará para você no tempo em que estiver viajando contigo.
— Acordo feito. — Miklel sorriu e pegou as moedas oferecidas. — Será ótimo ter sua companhia até a próxima cidade, Leviano.
— Igualmente, mas se eu fosse você, não me colocaria para trabalhar com nada muito valioso, a menos que você não dê falta de um ou dois objetos.
— Não se preocupe, você é meu hóspede.
Seyna respirou profundamente, finalmente desvencilhou-se de Seon e estendeu a mão para Leviano, aproximando-se do goblin sorridente.
— Nosso acordo.
— Nosso acordo, claro. — O goblin tirou do bolso um papel amassado e a entregou. — As coordenadas estão aí.
Seyna não agradeceu, apenas acenou para os dois que ficariam para trás e distanciou-se da praça junto de Seon. À medida com que se afastava, sua inquietação ia diminuindo, e sentia-se cada vez mais segura. Segurou o papel entre os dedos e o abriu. Se fosse religiosa, teria rezado para todos os deuses para que as coordenadas no papel levassem até algum lugar.
— Você sabe que estou decepcionado com você. — Seon disse assim que se encontravam longe o suficiente, pegando o papel de sua mão sem delicadeza. — Eu havia pedido que você não fizesse nada de errado no navio, e você o fez.
— Foi... Inevitável. — Tentou justificar-se.
— Inevitável ajudá-lo a fugir, oferecer ajuda para se locomover de uma cidade a outra foi opção sua. — Cruzou os braços. — E se você tivesse me alertado quando ele te ameaçou, eu teria contornado a situação de alguma forma.
— Mas ele nos deu a localização do...
— O que te garante que é a localização certa? — Balançou a cabeça negativamente, interrompendo-a. — Você é malandra, mas não sábia. É equivocada também. Não consegue compreender que isso um dia poderá destruir você? Precisa ser mais cautelosa. Me escutar.
Seyna calou-se. Seon nunca estava satisfeito com seus feitos, mesmo que estes trouxessem algum tipo de vantagem.
— O rapaz filho do domador usava magia. — Afirmou. — Eu vi.
— Agora o problema não é mais nosso. — Respondeu, austero. Anos atrás, Seon retornaria e evitaria que Leviano destruísse a vida da trupe do circo, mantendo sua honra e bondade, mas isto não valeria a pena ali. Suas prioridades eram outras, e por mais que seu coração desejasse ajudar, sua razão lhe dizia o exato oposto. — Temos que nos apressar e chegar até estas coordenadas. — Novamente, por mais que não estivesse atrasado, corria contra o tempo.
— Mas ele não nos pode ser útil? — Questionou, nada surpresa pela frieza do mercenário. — Ele parecia saber usá-la. Parecia ser... Natural.
— Magos como ele já encontramos antes. — Começou a ler o papel. — Usam a magia naturalmente, mas esta não é necessariamente forte ou útil. E precisamos de magos, não herdeiros. De que adianta carregarmos um fardo? Ele não será útil a menos que domine sua magia... E é capaz que seja preso ou morto antes de aprender a usá-la.
— Mas eu também não domino a minha, Seon. — Implicou Seyna, desviando o olhar para baixo. Só então percebeu que seu corpo estava cansado.
— Você é um caso especial. — Respondeu, tocando em seu ombro. Este era um dos poucos gestos afetivos do mercenário.
— Por quê? — Franziu o cenho, e o encarou.
— Porque é filha de alguém que me importo muito. — Guardou o papel no bolso. — Vamos indo, as coordenadas não são tão distantes daqui.
— Você sempre guarda segredo e age como se eu fosse realmente especial e tivesse um grande poder.
— Está sendo novamente equivocada, e tola. — A observou por um tempo e, notando que suava, ofereceu o cantil d'água que carregava na cintura. — Você é fraca e de poder comum. Na verdade, seria tudo muito mais fácil se você não existisse. Mas você existe, eu amo você, e isso é motivo o suficiente para eu mantê-la comigo e dar minha vida em prol da sua.
— E quem é meu pai? — Ela se aproximou e bebeu do cantil, observando a placa metálica e branca que revestia o braço de Seon.
— Sou eu.
— Meu pai de verdade.
— Existem três tipos de conhecimentos que destroem o homem, Seyna. Não conhecer, conhecer mal o que sabe e querer conhecer o que não pode. — Haviam arranhões na armadura. Marcas de batalha. — Quando você tiver dominado sua magia, eu te contarei.
— Não tenho escolha. — Disse, por fim, decepcionada e devolvendo o objeto. — E aonde é que fica o mago de Leviano?
Seon apontou para leste.
— Onde a maioria dos plebeus ficam. No porto.
Sem Leviano os acompanhando e sem estranhas preocupações no peito de Seyna, a caminhada tornou-se muito mais simples e rápida. Ao crepúsculo chegaram ao porto, cuja movimentação mantinha-se agitada, e o navio que haviam pegado para chegar até a cidade ainda estava atracado. Seon olhou uma última vez para o papel e identificou a moradia descrita por Leviano: Uma casa miúda, de arenito, ao lado de uma falida taverna que servia de moradia para os sem teto em dias chuvosos. Seon guardou o papel e bateu na porta.
— Pode ser uma emboscada. — Explicou, levando uma mão ao cabo da espada. — Tome cuidado.
Seyna assentiu com a cabeça. Bateram novamente na porta, e então a porta foi aberta por um anão calvo e de barba grisalha.
— Já paguei meus impostos. — Avisou o anão, vestido em trajes típicos de Véu da Noiva. — Vão embora. — E fechou a porta.
Antes que esta batesse, Seon colocou o pé entre a porta e o batente. O anão rosnou e voltou a abrir a porta, insatisfeito.
— A menos que queira perder o pé, é bom tirá-lo daí. — Voltou a dizer.
— Não queremos cobrar impostos. — Explicou, afastando a mão da espada. — Viemos em favor de outra coisa.
— Não quero saber! Me deixem em paz! Eu sou um anão comum!
— Temos boa bebida conosco. — Seyna sorriu, intrometendo-se na conversa.
— Entrem. — O anão abriu a porta, alegre e receptivo. — Não reparem na bagunça. Como moro sozinho, só limpo o suficiente para não morrer de podridão.
Seon e Seyna se entreolharam um pouco antes de adentrar. Sentaram-se em uma mesa de madeira simples de quatro lugares.
— Se é o único morando aqui, você deve ser o... — Seon olhou novamente o papel. — Viern? Kiern?
— Tiern. — Corrigiu, no bom e típico rangido linguajar anão. — E ele se mudou faz... Não sei, um bom tempo. Ele era meu irmão. Eu sou Yiern, filho de Uern e Eliar. Onde está a bebida?
Seyna pegou o cantil d'água de Seon, sacudiu algumas vezes e entregou para Yiern, que bebeu com tamanha pressa que mesmo se a apostadora não tivesse usado magia seria imperceptível não ser uma bebida alcoólica.
— Ele se mudou para onde?
— Não sei. Ele só disse um dia para mim que havia se convertido e mudaria de vida. Então ele saiu por essa porta e nunca mais voltou.
— Você não se importou em ir procurá-lo? — Quis saber Seyna.
— Nós anãos só cuidamos do que há embaixo de nosso nariz, donzela. — Riu. — O que muitas vezes é uma bebida ou uma montanha de ouro. Na falta de um, o outro. Tem mais bebida?
— Creio que não. — Cruzou os braços. — E no que ele se converteu?
— Também não sei. Olha, se vocês não têm mais bebida...
Seon atirou uma moeda ao ar. Yiern a pegou com ambas as mãos e, sem muita pressa, a devolveu para o mercenário.
— Não sou uma pessoa comprável com moedas. — Completou. — Mas se quiserem me comprar com metal, me arranjem ferrágua. — Um tipo de bebida que se vendia apenas no norte, lembrou-se Seyna. — Estou em falta.
— Precisamos saber onde seu irmão está, Yiern. Mas não posso lhe arranjar bebida, não tenho tempo o suficiente para isso. Espero que compreenda.
O anão ficou pensativo, e depois de dois minutos em silêncio os encarando, respondeu:
— Pois bem. Eu deixo vocês olharem o quarto dele. Quem sabe encontrem alguma coisa que os ajudem a achá-lo. Podemos fazer assim?
— Não pedirá nada em troca? — Questionou Seyna.
— Vocês parecem cansados. Tiern tinha o semblante de vocês no dia em que foi embora. Um pouco de bondade não lhes fará mal. Venham comigo.
Levantaram-se e o seguiram pela casa. Passaram pela sala cheia de entulhos e foram para o corredor empoeirado, onde alguns cacos de vidro espalhavam-se furtivos, possivelmente de alguma garrafa de bebida esquecida ao longo do tempo. Se não fosse pela bota que usava, seria impossível sair dali sem algum tipo de ferimento na sola do pé.
Haviam três quartos ao longo do corredor, e o último era o de Tiern. O anão apontou para a porta.
— Entrem, mas tentem não tirar muita coisa do lugar, por favor.
Seon caminhou até a porta e a abriu, recebendo um golpe no maxilar que o empurrou para trás e o desnorteou por alguns segundos, tempo o suficiente para que os três ex escravos saíssem do cômodo empunhando espadas e adagas. Seyna desembainhou a própria arma, a tempo de defender-se do que seria uma estocada. Era horrível quando Seon tinha razão, era uma emboscada. O anão fugiu.
As lâminas de Seon dançaram no ar, encontrando-se com os golpes dos dois escravos que vieram contra ele. A apostadora saía na desvantagem, recuando enquanto tentava esquivar dos golpes de seu inimigo, afastando-se cada vez mais do mercenário e o perdendo de vista.
— Desista e pouparei sua vida por enquanto, garota! — Bradou com um sotaque tão forte e chamativo quanto sua própria aparência hostil.
Seyna não tinha tempo para respondê-lo. Precisava se concentrar na batalha ou morreria. Ele era mais ágil e mais capaz. Ao longe, o tinir de metal com metal mostrava que Seon também lidava com problemas.
Uma espadada vinda pelo lado a desarmou e, aproveitando-se do momento, seu inimigo atingiu-a no rosto com o punho da própria espada, fazendo-a sangrar, e segurou seu pulso hábil, quebrando-o em um movimento. Frágil, nada pode fazer quando ele a segurou pelo pescoço e jogou-a contra o chão.
Sua batalha durou menos de três minutos, o que era humilhante. Seu treinamento de anos rendeu em um escravo de batalha acima de si, enforcando-a. Apalpou o chão procurando por algo que pudesse usar para atacá-lo e se libertar, e teve sua palma rasgada e perfurada pelos pequeninos cacos de vidro escondidos por ali. Apesar da dor no rosto, pescoço e mãos, torcia para encontrar um vidro grande o suficiente para usar de arma.
— Não hoje. — Seu inimigo perfurou sua mão livre com a espada, prendendo-a no chão e impossibilitando-a de mover o braço. Seyna nunca tinha sentido uma dor tão grande na vida, e lágrimas involuntárias escorreram pela face. — E eu não pretendo matar você agora. Aproveite as dores da vida.
Ergueu o punho, preparando um soco que com certeza a desacordaria. Seyna fechou os olhos, e então sentiu algo pingar em sua face e um baque surdo.
— Seyna? — Seon a chamou. Ao abrir os olhos, viu o corpo de seu adversário estirado ao chão em seu lado, sem cabeça. O mercenário ofegava, com a armadura manchada de sangue. Tinha um corte novo em sua bochecha, mas nada além. Ele largou as espadas que carregava e tirou a que prendia a apostadora no chão. Ajudou Seyna a levantar, e esta o abraçou.
— Como você...
— Eles são ex escravos de batalha, grandes e fortes, mas eu sou... Eu era um cavaleiro, Seyna. E eu uso armadura. Vantagem numérica nem sempre ganha de habilidade e técnica. — A afastou com uma mão. — Vou cuidar de seus ferimentos e vamos embora o mais rápido possível. Se Yiern estava com eles, significa que outros virão atrás de nós.
— Você matou todos eles?
Seon desviou o olhar, passando a encarar os corpos dos três ex escravos. Dois homens e uma mulher, agora cadáveres.
— É o que mercenários fazem.
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