Os Sobreviventes
13 Capturado
Notas iniciais
POV Daniel.
Atravessei a rodovia meio agachado, mas ainda assim, correndo. Não passavam carros no momento, mas eu precisava chegar logo, os outros estavam cansados, assim como eu. Olhei para trás, Jake devia estar querendo matar todos nós. O imbecil sacudia a lanterna para todos os lados enquanto Heather corria em minha direção, ela também não ficou nada orgulhosa de ver o que o primo idiota estava fazendo.
- Jake! – disse Heather – o que está fazendo?
Ele pareceu cair na real, veio tropeçando pelo caminho, até que chegou em nós e olhou para trás.
- estava tentando fazer essa coisa funcionar – falou – esqueci que deveríamos esperar até estarmos no casebre.
Revirei os olhos e tomei a lanterna dele, sinceramente, o que a Bonnie viu nesse cara? Ele agia como um estúpido desde quando ela sumiu, e tivemos que fugir, escapando por pouco dos buscadores. Talvez esse fosse seu modo de dizer que estava preocupado com ela, ou, seu modo de ser um idiota. Ele era um pouco inteligente, mas agia de forma irracional as vezes, como se quisesse ser capturado.
- vamos sair daqui – falei
Dei ás costas aos dois e segui meu caminho, estávamos quase lá, apenas duas horas, só isso. Meus pés doíam, eu arfava de cansaço, mas minhas lembranças com Bonnie me fizeram andar mais depressa, era a minha irmãzinha, a única família que eu tinha.
Sempre cuidei muito dela, ajudava nas coisas da escola, ajudava á entender astrologia e ciências, ajudava á pescar quando estávamos em uma viagem idiota em família. Bonnie era tudo que eu tinha, sempre foi.
Costumávamos brigar muito, como cães e gatos, como todos diziam. Mas, ela era apenas uma boba, e eu, o mais velho. É super natural irmãos brigarem, sempre fazíamos as pazes assim mesmo. Eu sei que ela nunca vai admitir, mas, ela me ama, assim como eu a amo.
- Daniel, acho que estamos ferrados – disse Jake
Virei para ele e vi o motivo.
Carros e carros prateados nos cercaram, pessoas vestidas de branco saíram de dentro delas, desarmadas, mas, em maior numero. Corrigindo, não eram pessoas, tinham aquela esfera prateada nos olhos. Buscadores.
É, estamos ferrados.
- não tenham medo, vai ficar tudo bem – disse uma buscadora de cabelos negros e lisos, marca de família.
Meu coração deu uma fraquejada, era a minha prima.
- Anna? – chamei – Anna, é você?
A buscadora estancou ao ouvir o nome, mas logo voltou á sorrir calmamente.
- você tomou o corpo da minha prima! – rosnei – sua parasita nojenta!
Avancei nela, o corpo que não pertencia mais á minha prima caiu ao chocar-se com o meu. Mais buscadores avançaram, não liguei, apenas forçava o parasita á olhar para mim.
- sua vadia, cadê a minha prima? – gritei – você a matou?
- sua prima sucumbiu – respondeu – achei você nas memórias dela.
A raiva me tomou, coloquei a mão no pescoço dela. Mas algo me fez hesitar, algo no rosto familiar que eu tanto adorara um dia. Ela parecia com a Bonnie, a mesma cor nos olhos, ainda que desfigurados pela esfera prateada.
- solte-a – disse outro buscador.
Ele me tirou de cima dela, soquei seu rosto e tratei de correr.
- corram! – gritei
Heather e Jake correram comigo, olhei para trás e vi os buscadores tentando nos alcançar, mas os deixamos para trás. Corri muito junto com Heather e Jake, todos nós estávamos ofegantes e cansados, mas tínhamos que correr.
- acho que despistamos – ofegou Heather
A garota se segurava no primo para ficar em pé, respirei fundo e olhei para trás. Os carros não estavam mais visíveis, nem os buscadores, golpe de sorte ou estratégia. Peguei o mapa da mochila, estávamos bem adiantados, ser perseguidos foi o gás que faltava.
- como estamos? – perguntou Jake
Passei os olhos no mapa, olhei em volta.
- perto agora – respondi – é só seguir em frente, correndo ou seremos vistos.
Eles assentiram, guardei o mapa na mochila outra vez e desatei á correr. A silhueta do casebre apareceu no horizonte, respirei fundo de alivio e parei no rochedo perto da casa, os dois também pararam, aguardando minhas ações.
- fiquem aqui – falei puxando a faca – vou passar o pano.
Eles assentiram, saquei a faca em postura de caçador e fui á passos largos e decididos até dentro do casebre. Tudo estava silencioso e calmo, fiquei alerta, mas foi em vão. Dentro de cinco minutos, vasculhei o local inteiro, sem ameaças. Assoviei, chamando os outros, que vieram correndo. Heather desabou em uma das cadeiras, Jake respirava fundo, amparado na pia da cozinha. Eu andava em círculos, o sentimento de alerta ainda na mente.
Eu nunca senti tanto ódio pelas almas, mas, ver minha prima morta vagando por aí com aquela praga controlando-a, isso foi a gota.
- acho que podemos descansar agora – disse Heather
Assenti, sem olhar para eles, não conseguia fazer nada alem de encarar o chão.
E se a Bonnie tivesse sido capturada? E se tivesse algo controlando ela? E se vasculhassem a memória dela e nos encontrassem? Ela sucumbiria? Ou lutaria?
Bonnie era forte, não se entregaria fácil. Mesmo assim, aquilo não saia da minha cabeça. Minha irmã estava por ai, longe de mim, eu não podia olhar em seus olhos e ver que ela ainda era a minha Bonnie, minha irmã.
- Daniel, você está bem? – perguntou uma voz fina.
Olhei para cima, Heather tocava meu ombro gentilmente, tinha um pequeno sorriso afetado na boca, seus olhos tinham um certo brilho, mas isso não me alarmava mais, não desde que Bonnie sumiu.
- estou – menti – vão dormir, eu faço a vigia.
Ela pareceu relutante, mas o cansaço venceu. Os primos retiraram-se para o quarto, ouvi o barulho deles deitando na cama, depois, ficou silencio outra vez.
Abri uma garrafa de água e bebi um gole, aliviando a ardência na garganta, mas não livrando-me do gosto metálico e ruim de estar preocupado. Sentei em uma cadeira, vasculhei o cômodo com os olhos. Tudo ali me lembrava a Bonnie, a cadeira que ela deixara debaixo da janela continuava lá, aguardando-a em sua vigia silenciosa.
Meu peito ardeu ao pensar que um mês atrás, estávamos todos bem, minha irmã ainda estava comigo, ao alcance dos meus olhos, para vigia-la, saber se estava bem. Ela devia estar com a Melanie, em algum lugar seguro, olhando o céu, respirando fundo e chorando ao ver as estrelas, como sempre fazia, desde que mamãe foi pega.
Ela nunca se mostrava emotiva, com ninguém. Mas ser irmão tem suas vantagens, era eu quem afagava seus ombros quando ela chorava, era eu quem a protegia, era eu quem segurava sua mão quando escalávamos aquele rochedo, era eu quem sentia sua falta mais do que tudo no mundo. Eu só queria vê-la agora, acariciar sua bochecha, olhar em seus olhos e dizer que tudo ficaria bem, eu a protegeria, eu era seu irmão, e cuidaria dela para sempre.
Olhei pela janela, observando o deserto escuro e vazio, queria mais que tudo que ela aparecesse.
E apareceu, mas não era ela. Eram seis, de alturas diferentes, estaturas diferentes.
Pulei da cadeira, corri para o quarto e sacudi Jake.
- buscadores! – falei
Eles pularam das camas, Heather parecia muito assustada, congelei ao vê-la assim, era como se visse Bonnie aos treze anos, antes de ficarmos sozinhos.
- vão, escondam-se – mandei.
- e você? – perguntou Heather
Empurrei os dois para dentro do alçapão, Heather segurou a gola da minha camiseta, mas consegui fazê-la soltar.
- Daniel, vem – chamou.
Neguei com a cabeça, eles precisavam da minha proteção, não podia proteger minha irmã, mas protegeria os dois.
- vou me certificar que eles não vão nos achar – menti
Jake não se deu por vencido, ele era esperto, sabia o que eu estava fazendo. Encarei-o, fazendo com que ele entendesse o que eu queria dizer.
- Bonnie – sussurrei – ache a minha Bonnie, diga que eu a amo.
Heather começava á chorar, os buscadores estavam muito perto agora, eu os ouvia, quase aqui.
- escondam-se – mandei – não saiam, fiquem seguros.
Heather pulou em meu pescoço e me beijou, afaguei suas costas, seus lábios pequenos e delicados não deixavam os meus. Desvencilhei-me dela, Jake puxou-a para dentro. Joguei a mochila do exercito dentro do alçapão, a garota debatia-se e chorava contra o peito do primo.
- Daniel – chorou
- adeus – falei – eu te amo Heather.
Ela tentou desvencilhar-se de Jake, mas eu fechei o alçapão. Arrastei uma das caixas para cima da porta, os buscadores não achariam eles, assim espero. Engoli meu desespero, os buscadores derrubaram a porta, rendendo-me em minutos. Eu nem tentei lutar, seria mais fácil assim, um ultimo sacrifício pela minha raça. Os buscadores me abordaram, caí de joelhos no chão, pensando em Bonnie.
- estou sozinho – menti – me levem.
Os buscadores revistaram o lugar, não acharam ninguém. Anna, ou a parasita, espirrou algo em meu rosto. Senti meus sentidos adormecendo, minha visão escureceu, escutei um ruído, como se sentisse minha vida se extinguindo.
Jake e Heather ficariam salvos, dois á mais para os humanos.
Não consegui achar minha irmã, mas ela estaria bem, Melanie cuidaria dela.
Um ultimo sacrifício, uma ultima atitude, um ultimo socorro.
Relaxei, não me importava em morrer. Escutei o ruído até não sentir mais nada, tombei de lado, respirei até não estar mais ali.
Notas finais
Bjs e até os próximos acontecimentos.
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