Os Quatro Reinos E O Que Não Era Pra Ser
4 Sobre cabelos de algodão doce e desabafos
Notas iniciais
Como ele estava lá? As nossas salas são bem distantes. Ele não simplesmente “passou pela minha sala pra ir pra dele”. Uma pessoa tinha que estar muito perdida pra fazer esse percurso. Esses pensamentos giravam em minha cabeça, e eu me senti tonta. Levantei do sofá, tropeçando em nada e me segurando nos móveis, completamente zonza e desorientada, ouvindo o eco dos gritos dos meus sonhos, que apenas pioravam a minha situação. Minha cabeça parecia que ia explodir. Sentei-me no chão, no meio do corredor, e fiquei lá, balançando para frente e para trás, tentando expulsar esse barulho da minha mente.
Cinco minutos depois e não funcionou. Levantei do corredor e desajeitadamente peguei as chaves de casa, saí correndo do apartamento, trancando a porta atrás de mim com o pouco de força que me restava, e saí do prédio.
Andei pelas duas ruas com o máximo de firmeza que pude, não pensando nem no que os vizinhos podiam achar de mim, cambaleando pela rua como uma doida que saiu do hospício ainda drogada, nem que eram duas da manhã na parte “ruim” da cidade. As vozes ficavam cada vez mais altas e quando toquei o interfone do prédio elas começaram a gritar. Como se eu não soubesse o meu nome.
Minha impaciência me fez socar o botão várias vezes, provavelmente acordando metade do prédio. Finalmente uma voz, acordada até de mais para o horário, respondeu:
—- Júlia é você? Por que, se for, eu juro que como seu fígado. Você sabe que a vizinha já me odeia sem motivo, não precisa dar um.
Respondi para ela abrir logo, eu estava congelando aqui em baixo. Estranho. De manhã estava quente.
A porta destravando me distraiu. Andei cegamente pelo hall de entrada até chegar ao elevador, que já estava lá, e soquei o botão do andar. Eu conhecia esse lugar de memória. Quando ele chegou, a porta do apartamento já estava aberta, mas a dona não estava em nenhum lugar que pudesse ser visto desse ângulo.
Todas as luzes estavam acesas, e eu acho que tinha uma música tocando no fundo. Provavelmente Lago dos Cisnes. Entrei e fechei a porta, e as vozes pararam quando eu a vi. Não leve isso para o lado romântico, eu também não entendi. Vai ver elas ficaram com medo dela. Eu ficaria.
—Ei, Lisa. – disse fracamente. Ela percebeu que tinha algo errado (Ah, jura?) e veio até mim, me desencostou da porta e me abraçou. Ela sempre foi tão quentinha e mãezona, uma das poucas pessoas que eu deixava me abraçar sem achar ruim.
Ficamos assim por um tempo, sem vozes nem chefes, só o calor humano dela.
—Você está gelada. E eu sei que não é do vento lá embaixo. – Me desvencilhei dela, resmunguei e me joguei no sofá, e adivinha? Quentinho.
—Não vai falar comigo? Por que eu tenho que dormir e to desperdiçando meu tempo com você.
Não respondi. Eu sabia que amanhã era o dia de folga dela e ela nunca dormia no primeiro dia de folga. Senti um tufo de pelos subir nas minhas costas, e uma cabeça apareceu no meu ombro. Luna, um dos filhotes de husky e lobo que ela tinha resgatado em uma de suas caminhadas nas bordas da floresta. Quando me sentei ela escorregou até meu colo e se enrolou para dormir, efetivamente me prendendo no sofá. Sua irmã Selene deitou encostada em minha coxa e dormiu também.
Elisa chegou com duas canecas de chocolate quente e me deu uma. Sentou na poltrona em frente ao sofá e cruzou as pernas embaixo de si, me olhando o tempo todo. Seu cabelo ruivo escapava do coque bagunçado e caía em sua testa e eu me lembrei do dia em que pintei o cabelo juntamente com ela e Rafa.
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Era o último dia de aula do terceiro ano, e as três amigas estavam nervosas ao invés de felizes. Tinham feito planos sem contar uma para a outra e não queriam se separar, mas talvez fosse a última chance que tinham de dizer.
—Então, a gente precisa conversar. – Júlia quebrou o silêncio. – Eu raramente começo essas conversas pesadas, mas alguém tem que começar. Então, já que ninguém sabe ser poético e rodear o assunto, só a Lisa, mas ela não conta, eu vou direto ao ponto: vou me mudar pro Canadá para fazer faculdade lá. Consegui uma bolsa de estudos em Design de Games me mudo pra lá no começo de janeiro pra trabalhar antes de estudar. Pronto. A vez de vocês agora.
—Ah, então... – Rafa começou – Eu consegui uma bolsa de arquitetura também, e tenho um tipo de estágio lá. Conhecer os diferentes tipos de construção e fazer um resumo sobre os principais com fotos de cada um. Eu vou em janeiro também.
As duas olharam para Elisa, que estava tentando não rir.
—Consegui uma bolsa em Direito e vou em janeiro para prestar trabalho voluntário em abrigos de animais. E toda essa tensão pra nada.
As três se abraçaram rindo, e Simone, coordenadora da escola, passou por elas.
—Final de ano é sempre gostoso não, meninas? Quem sabe vocês não acabam juntas?
—Você não faz ideia- riu Rafa.
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—Minha mãe vai me matar.
—Larga de drama, Elisa. A gente já é grandinha. – Rafa reclamou. — Além do mais, seu cabelo já está descolorido. Nem dá tempo de voltar atrás.
— Eu não quero voltar atrás. Eu não quero morrer. É diferente. Mas acho que ela perdoa. É uma data especial, afinal.
—Exatamente! Agora larga de drama. A gente combinou de pintarmos o cabelo no dia que descobrimos que viríamos todas pra cá.
—Vocês vão parar de reclamar? Eu estou tentando divar aqui, okay?
—Júlia, a última coisa que uma pessoa faz com esse tanto de papel alumínio no cabelo é divar.
—Quieta, Rafaella.
As duas começaram a rir. Elisa ainda estava levemente preocupada. Seus pais nunca a deixaram pintar o cabelo. Não é porque ela estava a 9304 km de distância que ela deixou de temer pela vida. Mas, 5 anos de amizade era uma data especial, além de todas as coisa que elas conseguiram juntas. Faculdade na mesma... bem, faculdade; todas trabalhando, Elisa em uma floricultura, Rafa na biblioteca da faculdade e Júlia em uma escola ensinando arte às crianças. Rafa e Elisa conseguiram morar no mesmo prédio, sorte que Júlia não teve, mas conseguiu um prédio duas ruas abaixo.
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—Meu. Deus. Eu não me arrependo de nada.
—Eu te avisei, Elisa. Você não acreditou em mim.
—Rafa, larga de ser chata, você não me falou nada.
—Larguem de enjoo as duas. Eu nunca fui a voz da razão, nem vou começar agora.
Elas riram um pouco e se olharam no espelho. Cabelos pintados e produzidos.
Cabelos roxos, azuis e rosas as olhavam de volta. Foi um dos momentos mais marcantes na vida das três: o começo de suas vidas adultas, de suas liberdades, de tempos bons.
—Primeira lavagem e essa maravilha vai ficar uma vassoura, mas estamos lindas. Agora só falta a tatuagem.
Rafa e Elisa suspiraram se entreolhando. Essa menina era impossível.
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Mas não éramos mais as mesmas, e Elisa já não pintava mais, assim como Rafa. Eu não, continuava pintando sempre. Suas profissões ainda não permitiam essa liberdade. Faculdades já deixadas para trás, Elisa já era delegada e Rafa já trabalhava como arquiteta em alguns projetos importantes. Eu estava quase lá, nas bordas de lançar um videogame de autoria própria.
—Eu tenho métodos de te fazer falar. A Rafa está acordada.
— Pelo que aconteceu, se você chamá-la eu vou agradecer ao invés de reclamar.
Elisa arregalou os olhos, e seu verdes se encontrou com o meu castanho.
—Júlia, o que aconteceu? – ela se inclinou para mais perto de mim, preocupada. Não a culpo: o estilo de vida que a profissão acompanha sempre a forçava a pensar no pior. As huskys levantaram e me olharam atentamente e pude sentir como se as folhas das plantas estivessem viradas para mim.
— Não foi estupro, se é isso que você está pensando. – Foi uma das piores tentativas de tentar abrandar o clima da minha vida. Eh, fazer o que.
— Ju, você sabe que pode me contar tudo.
— Eu sei. Por isso vim aqui, mas acho que a Rafa também tem que estar.
Elisa levantou e foi até a janela, me olhando de rabo de olho. Subiu na saída de incêndio, poluída de vasos de plantas que ela desviava com uma prática que me fazia pensar que não era a primeira vez que ela fazia isso. Nem a décima.
— Você vem ou vai ficar aí, se deprimindo no sofá?
Levantei pesadamente e a segui, desviando das plantas com muito menos maestria que ela, mas de alguma forma não chutei nenhuma.
Subimos dois andares e Elisa começou a bater loucamente em uma janela.
— Pelo amor de Deus, me fala que esse é o apartamento da Rafa e que você não está tentando se matar. Porque, se não for, eu te jogo daqui.
— Você fala como se nunca tivesse vindo aqui.
— Não desse jeito! Não!
Bem nessa hora, um monte de cabelo loiro apareceu, olhando feio para nós duas. Abriu a janela, e nós entramos, e, supreendentemente, estava mais quente do que o apartamento de Elisa, mas isso deve ser porque ficamos quase cinco minutos congelando do lado de fora. O pijama de Elisa e a minha roupa de trabalho não pareciam boas ideias de roupas de neve. Rafa, em compensação, parecia confortável. Olhamos para o chão, e vimos projetos de prédios e casas espalhados por toda a sala, com exceção de um espaço, curiosamente do mesmo tamanho do corpo da Rafa.
— Me deem um bom motivo do porquê vocês estão na minha sala as três da manhã. De preferencia agora.
Elisa me olhou, e Rafa fez o mesmo.
— Sem desculpas nem enrolação. O que aconteceu?
Respirei fundo e obedeci.
— Fui atacada por um demônio no meu escritório.
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