Os Quatro Reinos E O Que Não Era Pra Ser

5 A clareira na floresta que nunca alcancei


Notas iniciais
Eeeeehhh!!! Mais capítulos!! descobri que sou ótima pra escrever a 1:30 da manhã. ~Farm Girl

— Chegou a hora – Elisa disse.

— Como assim? – respondi.

Rafa começou a recolher os papéis em um tique nervoso, e Elisa andou de um lado para o outro no chão agora livre. Finalmente, Rafa respondeu, ajoelhada no chão.

— Ela não está pronta. Não vamos fazer nada. Se ele quiser se revelar, se revele no tempo dele.

— Ele virá. Ele provavelmente sabe que ela falou. Não temos escolha.

— Não vamos fazer nada em quanto não tivermos certeza de nada.

— Rafa...

— Não! Eu falei não e pronto! Eu não quero perde-la de novo!

— E eu não quero vê-la morrer sem tentar!

— Ei! Tentar o quê? Quem é ele? E quem vai se revelar?

— Você não está pronta – respondeu Rafa imediatamente. – Esqueça-se disso.

— Ele tentou fazer isso.

A sala gelou.

— Deu certo?

Silêncio.

— Deu certo, Rafa?

— Não! Não deu certo... – sua voz foi diminuindo – mas não significa que eu goste do que vai acontecer.

— Alguém se importa de me explicar o que está acontecendo?!

As duas olharam para mim como se tivessem acabado de lembrar que estava na sala. Quando Elisa abriu a boca para falar, a janela explodiu, mandando minúsculos diamantes de vidro por todo lado. Elisa pulou em cima de mim, e puxou Rafa para perto. Ela pegou a arma escondida (esse povo gosta de tirar coisa do além, hein?), se ajoelhou, ainda escondida pela parede, e apontou a arma para fora da janela.

— Estranho. Não tem ninguém.

Como se para contrariá-la, uma névoa feita da própria escuridão começou a entrar pela janela e por baixo das portas, lentamente, mas certamente, cobrindo o chão, e teríamos visto cobrir o resto da sala se ficássemos lá por mais tempo. Rafa, como se saísse de um transe, me puxou para a saída de incêndio, e Elisa seguia logo atrás. Corremos até o térreo, e Rafa quebrou a última porta, e continuamos a correr. Neve caía mais forte que nunca, e se parássemos por poucos minutos iríamos senti-la em toda sua força, mas por enquanto a adrenalina nos aquecia. Continuamos por uns 20 minutos, até que não conseguia mais ficar de pé. Parei e me sentei na estrada, ofegante. As duas viraram para mim, ofegantes, com olhares exaustos e desesperados. Não a exaustão da corrida, mas como se já tivessem feito isso vezes demais. Até demais.

— A gente precisa continuar. A gente precisa correr mais, não é seguro. Precisamos correr. Precisamos continuar. – Não sei quem falou, mas alguém me levantou e me puxou, e voltamos a correr, tropeçando mais do que tudo. Por quanto tempo nós continuamos, eu não sei. Mas poderia ter sido por horas, se a dor nas minhas pernas era alguma indicação. Entramos em uma floresta e seguimos uma trilha quase inexistente, mas elas pareciam saber o caminho de cor. Quando finalmente começamos a desacelerar um pouco, a floresta pareceu congelar. Risos sinistros vieram de todos os lados, ecoando pelas folhas.

— Júlia.

Virei-me para a voz, mas nenhuma das meninas parecia ter dito nada. Olhei para os lados, e acabei parando de correr. A escuridão da floresta pareceu crescer em volta de mim, as copas das árvores se fechando e tampando a luz da lua. Sussurros e ecos de vozes estranhas e palavras não distinguidas me rodeavam, tirando o ar de meus pulmões. Caí, tentando me sustentar pelos braços, mas eles apenas afundavam no chão lamacento e sujo. Meu mundo rodopiava e eu fui perdendo meus sentidos aos poucos, a lama cada vez mais próxima de meu rosto. Não podia ouvir mais nada, minha visão embaçada, e pontos pretos tomavam minha visão.

Um homem todo de preto, alto, magro, apareceu em minha frente, e pude ver apenas seus sapatos enlameados. Sua presença fazia um arrepio me estremecer, e senti um frio que não era da neve. Uma força me segurava para baixo, e não tinha força o suficiente para escapar dela.

Ele se aproximava cada vez mais. O medo me dominava por completo agora.

De repente, senti uma força me dominar e me erguer do chão lentamente. Minhas mãos cobertas de lama emitiam um fraco brilho vermelho, meus olhos brilhavam. O homem deu um passo para trás. Meu cabelo caía em meus olhos, mas eu reconheceria aquele verme em qualquer lugar.

O demônio que me atacara.

Esse mesmo poder falou através de mim, palavras que não conhecia, nem imaginava seu poder.

Δεν έχετε δύναμη εδώ. (Você não tem poder aqui.)

Δεν θα με αγγίξεις. (Você não irá me tocar)

Ele deu um passo para trás, como se puxado, mas contorceu sua face horrenda em raiva e deu dois passos para frente. Minha mão se esticou em direção a ele, e o brilho saiu em forma de energia, o envolvendo por completo. Pude ver milhões de pequeninas pedras preciosas rodopiando, cada uma com seu brilho e cor próprios. O joguei em direção as árvores, que agora emanavam um brilho esverdeado, e elas não o receberam bem. Ouvi um barulho doentio de ossos se quebrando. Fiquei o observando por uns momentos, então a força se esvaiu, e minhas pernas não conseguiram mais sustentar meu peso. Mas, ao invés do chão, eu senti braços quentes, e fui envolta por um brilho verde e quente, me deixando levar pela tentação e dormindo quase imediatamente, mas antes senti um espinho entrando em mim, e ouvi gritos abafados.

Quando acordei, eu estava em uma cama. Ela era dura e os lençóis ásperos, então levantei. Pude ouvir risadas do outro lado da porta. Um barulho metálico chamou minha atenção quando tentei me mover. Olhando para baixo, vi uma corrente de metal em meu tornozelo. A tornozeleira estava um pouco suja... Abaixei-me, tocando no líquido. Isso é sangue? Olhando para cima, descobri de onde vinha. Um ferimento aberto havia causado essa bagunça, mas não sangrava mais, apesar de não estar tratado. Pegar uma infecção nunca foi tão fácil.

Levantei, e surpreendentemente ela não doía também.

O quarto era de barro, como um formigueiro gigante, sem janelas ou aberturas com exceção da porta. Andei até onde a corrente permitia, e as pegadas de sangue seco mostravam que eu já tinha feito isso várias vezes. Apesar disso, não me lembro de nada, apenas de acordar aqui.

A porta se abriu.

Um homem alto de preto entrou pela porta, me olhando sinistramente. Ele era bonito, mas sua beleza era mais sinistra do que qualquer outra coisa. Dei alguns passos para trás, mas ele apenas me seguiu com uma risada sarcástica.

— Quem é você? E o que você quer?

— Ah, você me conhece muito bem, doce. Não é? Não se lembra de mim?

— Deveria?

Seus olhos brilharam de raiva por alguns momentos.

— Deveria. Mas acho que não conseguiria. Cleiton me avisou, eu só descartei como uma de suas desilusões.

— Quem é Cleiton?

— Ele conseguiu, então. Ótimo. Agora a minha parte do contrato pode ser completa.

Ele avançou mais ainda para cima de mim e eu tropecei na corrente, caindo no chão. Ele se aproximava cada vez mais, e pareceu nem ouvir meus gritos.

Notas finais
Não esqueçam de comentar o que acharam!