Os Poderes Perdidos
5 Capítulo 5: Vencemos um jogo
SAÍMOS para o campo e todos estavam lá, o menino da nossa cabana veio correndo na nossa direção sorrindo com armadura de couro, arco e aljava pendurado nas costas.
– Gente olha só, vocês tem que ver, eu sempre fui bom de mira mas nunca tinha usado um arco-e-flecha antes. Eu acertei todos, achei alguma coisa em que sou bom de verdade.
– Que bom cara – eu disse – hã, qual é o seu nome?
– Pedro, você é Erick não é? E você Selina?
– Sim, mas como sabe? – Selina perguntou
– Ah o Aron falou de vocês, que vocês lutavam bem e que você era... como ele falou? Estratégica e lutava mais ou menos e o Erick era... um ótimo gladiador mas burro, sem ofensas cara, Aron que disse.
– Olha, eu e Aron concordamos em alguma coisa. – Selina disse
Pedro e Bruno tentaram não sorrir, mas riram igual. Estava pensando em alguma coisa boa para dizer, mas não achava nada, não era bom com palavras.
– Eu sou o forte, bom gladiador – comecei – poderoso, consegui a espada e você é inteligente e o que mesmo?
Eles riram novamente, parecia aqueles colegas de escola que ficam falando briga, briga, briga antes de uma discussão. Aquele argumento parecia ter me dado a vitoria, mas ela sempre tinha uma resposta na ponta da língua.
– Inteligente e experiente, mas não importa, foi o suficiente para te vencer não foi?
Depois de dizer isso ela saiu. Bruno colocou a mão no meu ombro.
– Um dia você consegue. – Depois saiu rindo. Pedro estava rindo ao meu lado, ele me olhou, me estudou e depois disse:
– Vocês se conhecem não é? Você e Selina.
– Não, você é a segunda pessoa a me dizer isso. Conheci ela agora.
– Para mim parece que vocês dois se conhecem e que não são amigos.
– Silencio – Aron pediu, ou melhor, ordenou – Vamos jogar um jogo comum. Vocês tem que capturar a bandeira do inimigo e levar até a sua cabana. Quem conseguir mais bandeiras ganha um premio, não é uma coroa de louros, mas é algo que vai ajudar vocês nas batalhas.
– O que é? – Bruno perguntou – Qual é o premio?
– Surpresa, mas é um bom premio. Acreditem vale a pena ganhar. Eu não sei quem vai ganhar – ele encarou a mim, Pedro e Selina que estávamos juntos em um canto – mas boa sorte a todos. Ah, uma coisa, vocês vão ser separados por cores, a um é azul, dois vermelho, três verde e quatro amarelo. Tem camisetas para vocês ali, coloquem vai ficar melhor de identificar os parceiros e os inimigos. Lembrem-se: cada cabana é uma equipe e as equipes devem ser unidas – ele deu uma ultima encarada em nós e se virou para pegar as bandeiras – Aqui, cada uma com a cor correspondente, peguem e escondam. Vão!
Eu, Selina e Pedro colocamos as camisetas vermelhas, as armaduras de couro, pegamos as espadas (arcos), escudos (aljava) e a bandeira e fomos floresta adentro como as outras equipes fizeram.
– Então sabe-tudo, – eu disse – qual o plano?
– Pedro: vá para alto da arvore e deixe a bandeira aqui no chão. Tomadinha: fica aqui e cuida da nossa bandeira e eu vou pegar as outras bandeiras.
– O que? – eu reclamei – Você acha que eu vou ficar aqui parado?
– Eu sei onde estão as outras bandeiras, Tomadinha!
– Ah é? Como você sabe onde elas estão?
Não entendi a reação dela, ela encostou em uma arvore e segurou minha mão. Tive uma visão como aquelas que tive quando Aron tocava a flauta, só que mais lenta e com cor amarela por causa do sol. Vi Bruno correndo com a bandeira verde no meio da mata e colocando ela no centro de um riacho, ele deu ordens para seus amigos protegerem ela. Selina soltou minha mão e quase desmaiei. Não estava acostumado com isso e como ela conseguia fazer isso? Pedro me segurou e a encarou com cara de o que você fez com ele?
– Como você... – eu disse tomando fôlego e tentando me endireitar, tentei ficar de pé mas ia cair de novo se ela não tivesse me segurado – faz isso?
– O que as arvores veem, viram, escutam ou escutaram eu consigo saber.
– Por que?
– Ai, uma longa historia. Você se acostuma com o tempo, eu ficava assim no inicio mas agora já acostumei. Só não sei como achar o rio.
O vento soprando na minha direção, comecei a melhorar instantaneamente e me situei completamente. Sabia para onde era o rio, as cabanas, os campos de flores....
– O rio é ali, para o leste – eu disse – não sei como sei, mas só sei que sei
Depois de dizer isso vi que era muito idiota, mas era tarde demais.
– Você tem certeza? – ela perguntou, o que me surpreendeu pois achei que ela ia zombar da quantidade de sei que eu disse
– Sim, eu tenho certeza. Não sei porque mas eu sei que é para lá.
Ela olhou para Pedro, ele sorriu e assentiu.
– Tudo bem Pedro? – ela perguntou – Não tem problema se formos nós dois?
– Não tem problema, quero um presente então... – ele deu de ombros – Vou tentar defender a bandeira. Boa sorte e não morram.
– Não vou dar esse gostinho para ela – eu disse e eles riram.
Deu um barulho de um berrante e a gente soube que era para começar. Eu e Selina resolvemos ir atrás da bandeira do time três, já que foi a que vimos antes e não sabíamos se teríamos tempo para ter outra visão. Eu a levei até o rio, ela bolou uma coisa de ela distrair o guarda enquanto eu pegava a bandeira que funcionou. Levamos a bandeira verde até a nossa cabana com facilidade e Selina teve uma ideia que era melhor do que eu achava.
– Ei Tomadinha, eu tive ideia. – ela disse – Vou te mostrar mais uma bandeira, você vai atrás enquanto eu fico aqui e tomo a de quem passar, está bem?
– Ah, ta, eu acho que consigo achar mais uma.
Ela encostou em outra arvore e segurou minha mão novamente. Vi umas pessoas tentando pegar a nossa bandeira, mas Pedro se saiu muito bem. Ele atirava flechas nos braços das pessoas prendendo-as nas arvores e protegendo a bandeira. Depois a visão mudou e vi uma bandeira azul pendurada em uma arvore grande que eu sabia que ficava ao centro da floresta. Selina tirou a mão da arvore e me segurou. Quase desmaiei umas duas vezes enquanto ela me segurava e reclamava que eu era pesado com armadura. Depois que me recuperei fui atrás da bandeira na arvore.
Estava fácil para falar a verdade, nenhuma pessoa guardando a bandeira apenas um oponente. Um garoto alto de uns dezesseis anos, seu rosto estava encoberto por um elmo, sua camiseta verde por baixo da armadura de couro, calça jeans e botas.
– E aí Erick, infelizmente teremos que nos enfrentar.
Era Bruno, ele saiu correndo e eu também até a arvore. Ele começou a escalar e eu também, ele estava na frente até eu puxar seu pé e ele quase cair, então eu peguei a bandeira. Pulei da arvore e rolei pro lado a tempo de não ser atingido por Bruno que pulou atrás de mim. Corri desesperadamente com ele atrás em direção as cabanas, quando estava passando por uma poça de lama Bruno pulou em cima de mim e eu caí na lama. Ele desembainhou a espada. Era uma espada semelhante a de esgrima, cabo redondo e ponta fina, mas mesmo assim não parecia nem um pouco agradável ser atingido por uma daquelas em qualquer parte do corpo que seja. Ele veio pra cima de mim, eu estava sem escudo porque segurava na mão direita a espada e na esquerda a bandeira.
– Ei, não pode deixar essa passar? – eu disse enquanto defendia seu golpe com minha espada.
– Desculpe Erick, mas quero esse presente.
Ele lutava muito bem, diria que era profissional. Consegui defender muitos dos seus golpes mas levei um corte na bochecha. Corri de novo e estava vendo a minha cabana quando fui atingido por um escudo voador nas costas.
– Foi mal Erick – ele disse pegando a bandeira – não leve para o lado pessoal.
Ele se virou e a bandeira voou longe. Selina estava com duas espadas nas mãos, idênticas.
– Estamos empatados, Erick pega a bandeira, se pegarmos ganhamos.
Ela atacou Bruno, os dois lutavam bem, mas acho que Selina perdia essa, ia ser legal assistir, mas não tinha tempo. Me levantei e fui em direção a bandeira mas estava longe, Bruno empurrou Selina e correu na direção do objeto que definiria a equipe vencedora. Estiquei a mão e a bandeira veio até mim, corri em direção a cabana, mas lá me esperavam alguns guerreiros amarelos e verdes.
Todos vieram para cima de mim, não tinha como proteger a bandeira de todos eles, nem como abrir caminho. Alguém atrás de mim gritou joga pra cá e eu joguei, Selina vinha correndo empurrando a maioria das pessoas. Ela pegou a bandeira e o foco da metade das pessoas foram nela. Eu lutava contra a outra metade que ainda me atormentava.
– Pega – Selina gritou e agarrei a bandeira ainda no ar.
Estávamos a uns dois metros da entrada da nossa cabana, ficávamos jogando a bandeira de um para o outro para despistar os outros quando a coisa apertava e lutávamos em sinfonia como se lutássemos juntos a anos. Talvez estivesse entendendo o que Aron queria dizer que não podia nos separar, eu sabia quando ela ia precisar de ajuda, quando me abaixar para ela golpear alguém que tentava me bater pelas costas. Eu estava com a bandeira a uns trinta centímetros da entrada da cabana, a trinta centímetros da vitoria, quando alguém me derrubou, era um dos azuis, a pessoa estava pegando a bandeira quando uma flecha passou de raspão no braço dela e ela soltou a espada. Pedro havia chegado sujo de lama e estava com o arco em mãos.
Passei a bandeira para Selina, mas Bruno ficou entre ela e a porta. Ela me olhou com o canto do olho e murmurou desculpe. De primeira não entendi, até ela me puxar e me empurrar por cima Bruno, ele caiu, mas eu consegui ficar de pé tempo suficiente para ser puxado para dentro da cabana. Os outros guerreiros fizeram cara de raiva, decepção, frustração, menos Bruno. Ele sorria para nós, eu e Selina atirados no chão da cabana, ela com a bandeira nas mãos.
– Me deixem passar. – Aron dizia – Olha, o que temos aqui? Uma equipe vencedora? Quantas bandeiras?
– Duas – eu disse – verde e azul.
Me levantei e estendi a mão para Selina levantar. Ela levantou com dificuldade e então percebi um grande corte em seu braço direito. O pior é que estava roxo na volta.
– O que houve com seu braço? – eu perguntei
– Não sei. Está doendo. Alguém me acertou pelas costas quando estávamos perto de ganhar, senti isso.
– Deixa eu ver – Quíron disse se aproximando – espada envenenada, alguém aqui está com espada envenenada. É proibido usar veneno na espada aqui, quem usou errou o corte, ninguém usa espada envenenada para acertar o braço de alguém. Quem usou estava em busca de morte.
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