Os Poderes Perdidos

6 Capítulo 6: Marte perde o controle


O ASSUNTO assustou a todos, tiveram sussurros e alvoroços, alguns acharam que era eu quando estávamos perto da porta ou entrando. Quíron trouxe algumas plantas medicinais e colocou no braço dela, a ferida ainda estava bem exposta e “feia”. Estava escurecendo, Pedro e eu estávamos na cabana esperando a inspeção. Aron ia passar de cabana em cabana a procura da espada envenenada enquanto Selina ficava em uma sala ao oeste que eles disseram que era uma ala hospitalar.

– Nossa – Pedro disse quebrando o silencio – alguém aqui quer matar a Selina, por que será?

– Eu não sei, ela é chatinha, mas não chega a esse ponto de matar. Bom, podemos descartar eu, você e Bruno.

– Eu não gosto dele.

– Por que?

– Ah, não sei dizer. Ele é meio exibido e não me parece boa gente. Ele queria tomar meu lugar na equipe

– Como sabe?

– Ele me falou. Quero dizer não com essas palavras, ele disse eu queria ficar na sua equipe – Pedro disse imitando a voz de Bruno de um jeito engraçado que me fez rir – eles são legais, brigam bastante mas são legais.

– Ele me pareceu um cara legal. Acho que ele pode ser nosso amigo, nosso aliado.

– É, talvez sege implicância minha mesmo.

– Com licença – Aron disse abrindo a porta – vou pegar as espadas e flechas de vocês e levar para analisar. É hora do jantar venham, vou levar vocês.

Ele nos conduziu até um tipo de templo. O lugar estava meio destruído, mas ainda dava para ficar debaixo dele. Devia ter sido um lugar bonito, piso brilhoso, paredes bem arquitetadas (as que sobraram) e colunas bem elaboradas. Havia umas quatro mesas ali, o suficiente para nós, cada uma com comidas diferentes.

Tinha carne, refrigerante, arroz, feijão, batata, alface... estava no paraíso pois estava com muita fome. Peguei um prato e me servi, provavelmente uma serra de comida mas já que estava com fome e a pessoa que me prendia estava com a minha mãe, acho que falir o cara não era uma má opção. Foi anunciado que cada cabana devia se posicionar em uma mesa, sem trocas, mas é claro que houve trocas. Bruno veio para nossa mesa, alguns azuis para a amarela e assim foi...

Pouco antes de eu começar a comer Selina veio com o braço enfaixado do ombro ao cotovelo. Ela se serviu e sentou com a gente.

– Como está? – eu perguntei – Ainda dói?

– Não, Quíron é bom com plantas medicinais. E aí, perdi alguma coisa?

– Não – Bruno respondeu – Quíron apenas recolheu as armas de todo o mundo para analisar. Olha se isso não era apavorante o bastante agora ficou.

– Se está para você, – Pedro disse – imagina para ela que foi o alvo.

Selina pensou um pouco enquanto mexia na comida. Ela parecia pensar se me dizia algo ou não porque as vezes ela olhava com o canto do olho para mim.

– Algum palpite – eu disse a Selina – sobre quem fez isso?

– Não tem que ter palpite – Pedro disse – agora que eles vão olhar as laminas vão descobrir na hora.

– É mais complexo do que isso, – Selina disse me olhando com o canto do olho – a pessoa que fez isso é esperta, muito esperta, ela não faria nada assim tão fácil de descobrir e se descobrirem alguém logo aposto que é truque. A pessoa que está fazendo isso é um traidor – ele olhou diretamente para mim – ele pode se esconder de nós.

De alguma maneira ela tinha tido o mesmo sonho que eu e sabia que eu tive. Com esse comentário tudo começou a se encaixar, o traidor era o filho daquele homem que estava comandando tudo, ele tinha um elmo que podia fazer ele ficar invisível. Ele tinha o elmo da escuridão, a terceira arma mais poderosa da mitologia grega, ele tinha o elmo de Hades.

Eu ia dizer alguma coisa inteligente como não deve ser tão difícil achar um filho de Hades por aí, mas Selina me lançou um olhar “cala a boca” e eu não falei nada.

– O que foi? – Bruno disse – Vocês sabem de alguma coisa não é?

– É – Pedro disse – vocês estão se olhando... estranho

– É que... bem, nós – eu comecei, eles eram meus amigos eu devia contar a eles

– Nós temos um palpite – Selina interrompeu – um azul, ele vem me observando a um tempo e acho que possa ser ele. Ele estava atrás de nós dois na luta.

Qualquer que sege a coisa que eu ia falar antes, tenho certeza que isso saiu mais convincente. Não devia contar a eles sobre o sonho, isso eu entendi, mas não sabia por que. Nós comemos em silencio. Ninguém falou mais nada sobre o assunto, Bruno e Pedro olhavam constantemente para mim e para Selina como se tentassem descobrir o que escondíamos. Aron nos mandou ir dormir porque amanhã teríamos que acordar muito cedo para buscar o cristal da terra. Eu e Selina ficamos na mesa por ultimo para falar com Aron, cobrar ele do presente que nos devia. Pedro estava tão cansado que foi dormir, disse para a gente contar para ele amanhã.

– Então Aron – eu disse – e o nosso presente?

– Ah claro – ele disse – eu estava me esquecendo. São cavalos.

– Como cavalos vão ajudar contra a gorgona? – Selina disse – Eles vão virar pedras!

– Ah sim, vocês erraram, quero dizer, ela se despediu dhsbfhs – ele arranjou uma enrolada no final – Não é gorgona amanhã é um outro monstro que não tenho permissão para dizer. Agora vão dormir, amanhã terão muito trabalho.

Obedecemos. Perto da porta da cabana Selina me segurou antes que eu entrasse.

– Preciso falar com você.

– Ah ta, lá dentro você fala, to com frio.

– Você não entendeu, é só com você.

Fomos para perto de uma outra cabana, uma destruída, aos pedaços.

– É sobre aquele assunto da espada envenenada. – ela disse

– Eu sei tudo sobre isso, e porque Pedro não pode saber?

– Alguém tentou te matar hoje, sabia?

– Não diga! Quer a lista em ordem alfabética ou cronológica?

– Ah cala a boca, eu estou falando serio! Quando eu levei a espadada no braço foi quando estávamos a uns dois metros da entrada. Você estava com a bandeira e eu vim atrás de você... foi aí que fui apunhalada.

– E...?

– Pelos céus Erick você é muito burro! Eu entrei na frente sem querer. Quíron falou que quem envenenou a espada estava atrás de morte. Alguém ia te apunhalar pelas costas!

– E você me salvou sem querer?

– Claro!

– Quem pode ser?

– Qualquer um, por isso não queria falar na frente do Pedro. Ele é legal mas não pode confiar em ninguém.

– Tem razão, ainda mais que ele não estava lá na hora. Ele apareceu apenas depois com o arco. Você sonhou também não é? Na noite passada, você viu o que eu vi não foi?

– Acho que sim, eu vi um filho de Hades pedindo o elmo emprestado. Você viu isso também?

Assenti. Por que será que só nós dois sonhamos? Por que os outros não sonham também? Ela pegou meu braço e olhou a marca que Marte me deu.

– Ah, por isso você é tão ignorante.

– O que?

– Tem a benção de Ares, por isso não nos damos bem.

– Você tem a benção de quem?

Ela esticou o braço para mim deixando a vista uma marca também. Uma coruja. A marca de Atena.

– Ah, sabe-tudo.

– Não comente isso para ninguém, ninguém deve saber. Você é a segunda pessoa que sabe.

– Espera, você não mostra isso aí para ninguém, mas mostra para mim?

– Eu não sei porque, mas confio em você cabeça de vento. Vamos dormir, amanhã o dia promete.

Deitei sem sono. Não sei o que viria dessa vez, não sei se viria Marte ou o traidor, mas com certeza viria alguma coisa. Dormi em fim e apareci em lugar diferente. O lugar era magnífico. Feito de pedras brancas e colunas de mármore e, é claro, o lugar era enorme. Havia doze tronos espalhados formando um U. Os tronos eram feito cada um de uma coisa. O primeiro da ponta da direita era feito de um metal acinzentado, tinha um desenho de um urso na ponta do encosto e dava direto para a lua.

O próximo era feito de um metal avermelhado e brilhoso. Havia desenhos de guerra, uma lança sangrenta e um javali no encosto e nos braços do trono. O outro parecia ser feito da mesma coisa que o local (pedras brancas e mármore) com uma coruja no topo do encosto.

O quarto era feito de um metal brilhoso, muito brilhoso e dourado, talvez fosse ouro, com um arco-e-flecha no topo do encosto. O quinto era feito de pedras com videiras e uvas crescendo por ele. No topo havia um tigre e uma garrafa de vinho.

O sexto era feito de ouro, era o maior e o mais majestoso de todos. Tinha desenhos de grifos, raios, e águias por todo ele. Em seu encosto (no topo) havia o desenho de uma águia envolvida por dois raios cruzados. O sétimo era majestoso também, nem tanto quanto o sexto, mas era majestoso, feito de prata com uma romã no topo.

O oitavo era feito de ferro e tinha umas ferramentas no topo. O nono tinha um caduceu no topo. O décimo era feito de conchas marinhas e tinha um enorme tridente no topo do encosto. O décimo primeiro era rosa e tinha uma pomba no encosto.

O décimo segundo e ultimo era feito tipo de arvores e tinha no encosto uma cevada. O local estava vazio, mas ficou assim por pouco tempo. Logo chegaram as doze pessoas e sentaram cada um em seu trono. A maioria estava usando túnicas, mas havia uns que usavam armadura de guerra e um deles eu reconheci: era o Marte.

– A grande reunião chegou! – anunciou o homem do trono majestoso com autoridade. Seus cabelos eram curtos e brancos e sua barba igual. Seus olhos eram azuis da cor do céu, usava uma túnica branca e sandálias – Teremos que decidir o futuro do mundo.

– Irmão, – o homem do trono de conchas disse. Usava uma armadura que parecia ter sido feita do mar, sandálias, cabelos castanhos e grisalhos e olhos azuis da cor da água – creio que somos capazes de evitar uma guerra. Apenas devemos nos manter atentos a qualquer rebelião e impedi-la.

– Poseidon – o homem de cabelos brancos, que pelo que percebi liderava, disse – se não formos capazes de evitar uma rebelião ou mesmo não percebê-la, as consequências serão graves, muito graves.

– Com sua permissão Zeus. – uma mulher disse. Sua aparência era de uns 24 anos, cabelos castanhos avermelhados, usava armadura grega e levantava de seu trono como todos que falaram fizeram – Acredito que uma guerra deve ser evitada. O poder do senhor é muito cobiçado por todos. Levanto a questão aqui de uma hipótese de um traidor entre nós, talvez um amante da guerra que queira promove-la.

Marte levantou de seu trono com javalis e lanças tão rapidamente que cheguei a me assustar. Por baixo do elmo pude ver seus olhos ardendo em chamas.

– Como ousa me acusar de traição? – ele perguntou aos berros para a mulher

– Acalme-se Ares! – Zeus rugiu

– Eu não lhe acusei irmão, mas se a carapuça serviu...

Marte pegou sua lança e foi enfurecido para cima da mulher, tiveram que segurá-lo. Eu também fiquei com raiva dela, ela estava acusando meu irmão de traição!

– Ares mantenha a calma! – Zeus rugiu novamente – Se perder o controle mais uma vez vou expulsá-lo da reunião. – ele se virou para a mulher que falava antes – Atena, continue, qual a sua sugestão?

– Um juramento. Sabemos que se a guerra acontecer será provocada por um dos três grandes...

– As profecias nem sempre são claras – interrompeu Poseidon

– A batalha épica por um dos três grandes será travada – Atena continuou –, parece bem claro para mim.

– As palavras da profecia geralmente são mistérios – disse um homem levantando. Seus cabelos castanhos arrepiados, olhos amarelados, dentes brancos que chagavam a brilhar. Usava roupas da atualidade: calças jeans, tênis e uma blusa branca escrito eu amo o Apolo em amarelo. Estava com arco e aljava nas costas; parecia um galã de filmes americanos. – Mas desta vez pareceu bem claro. Sabemos quem são os três grandes e suspeitamos de quem pode se rebelar.

– Por isso sugiro que os três grandes façam um juramento – Atena continuou – um juramento que evite a guerra e a volta dos titãs. Sugiro que os irmãos se desfaçam temporariamente de seus poderes até termos certeza que não há chances de Olimpo ser destruído.

– Protesto! – Poseidon gritou – Se os deuses se desfizerem de seus poderes como vamos combater os inimigos em uma guerra?

– Se vocês se desfizerem de seus poderes então não haverá guerra.

– Você não pode decidir o futuro do Olimpo! Você não pode obrigar os deuses a fazerem o que você quiser! – Poseidon estava descontrolado e gritava

– Silencio! – Zeus berrou – Temos que considerar a proposta de Atena. – ela deu um sorriso maldoso para Poseidon e ele só olhava com raiva – Faremos uma votação, amanhã a meia noite todos tragam respostas sobre o assunto. Amanhã à meia noite teremos a resposta se o juramento será feito ou não. Mais algum assunto a tratar?

– Irmão, – Poseidon disse – uma linha da profecia ainda me atormenta. O príncipe mestiço é a decisão pelo Olimpo tomará, e o deus dos mares vai destronar. Um de seus filhos irá me destronar, não podemos fazer nada para evitar? Como eliminar as crias semideusas.

– Como você mesmo disse Poseidon, – Atena disse – o príncipe mestiço é o único que salvará. Não podemos exterminar nossas chances de sobreviver a uma guerra.

– Atena tem razão, – Zeus concordou – se um de meus filhos pode nos salvar futuramente não posso mata-lo. Não deixarei ele te destronar irmão. Mais algum assunto?

Houve silencio, ninguém falou nada. Atena olhava com o canto do olho para Marte e ele bufava de raiva enquanto tomava um calmante medeia (no vidro dizia: acalma até cães infernais famintos!).

– Reunião encerrada. – anunciou Zeus – Hermes, leve a mensagem a Hades da proposta de Atena, quero que ele venha votar aqui amanhã.

A visão começou a enfraquecer e o sonho mudou. Apareci novamente naquele lugar escuro, na sala do trono. O homem e o traidor conversavam. O traidor usava a mesma capa preta e estava de costas me impedindo novamente de ver seu rosto.

– E então – o homem disse – acha que ele sabe de alguma coisa?

– Acho que não, – a voz da pessoa estava equalizada – ele conseguiu levantar a espada hoje.

– Omega?

– Sim. Estou próximo a ele, ele é um bom lutador. Vai nos ajudar a pegar os cristais e depois o matamos, assim conseguimos a confiança de Poseidon.

– Claro, se Poseidon estiver do nosso lado teremos as chances dobradas. Quanto ao garoto, quanto antes conseguir mata-lo melhor.

– Conto com a ajuda de Poseidon. No cristal da água ele pode nos ajudar fazendo seu monstro perseguir o garoto...

– Senhor Hades – um espírito entrou pela porta. – O barqueiro anunciou que o senhor tem visita, seu irmão veio vê-lo.

– Mande-o entrar. Vá filho e tome cuidado.

– Não se preocupe pai. Ele nunca desconfiará de mim, o que me preocupa são seus amigos. Eles podem desconfiar de mim se já não desconfiam.

– Livre-se deles, mate todos se for necessário, mas o menino não pode sobreviver.

A imagem se desfez em sombras e eu acordei com Selina me sacudindo e Pedro de olhos arregalados ao meu lado.