Os Opostos Se Atraem
1 Semanas até o verão
Notas iniciais
Enjoy
TRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM.
- Ah, mas que merda, mas que merda!
Clara procurou na mesinha ao lado da cama o maldito despertador que estava tocando muito, mas muito alto. Ao alcançar o aparelho, arremessou-o na maior distância que conseguiu, mas ele não parou de tocar.
- Puta que pariu!
Ela xingou novamente e saiu andando no escuro para mais um golpe naquele aparelhinho dos infernos. Respirou fundo e apertou o botão desligar. Dez horas da manhã, em pleno domingo, e ela de pé com um humor péssimo. Sua cabeça doía — certamente pela quantidade de vodkas e tequilas que havia consumido na noite anterior. Ou talvez por um certo outro motivo. Motivo esse que ela não gostava de lembrar, mas que parecia perseguir seus pensamentos de qualquer maneira.
“Não Clara, não. Você não quer pensar nisso. Você não vai pensar nisso. A festa foi ótima, não foi? Foi, claro que foi. Não teve nada demais. Você só bebeu até cair, mas isso não é novidade. Isso! NENHUMA NOVIDADE.”
Ela pensava alto e andava de um lado para o outro do quarto, quando resolveu descer para tomar café. Não conseguiria mais dormir, precisava de alguma espécie de distração e aquilo era urgente. Sua mãe, Dona Chica a avistou assim que desceu as longas escadas da casa.
- Bom dia meu anjo! – Disse Chica com um sorriso.
- Só se for pra você! – Clara respondeu irritada. Vanessa riu.
- Nossa, mas que mau humor filha! O que aconteceu?
- Desculpe, mãe. Nem aconteceu nada. – Clara disse sentando-se ao lado da irmã na bancada da cozinha.
- Aconteceu sim que eu sei. – Chica disse mexendo nos cabelos da filha que estavam extremamente bagunçados.
- Já disse que não aconteceu nada, mãe. – Ela mentiu.
- Filha, pode se abrir com a mamãe, somos amigas, não é?
- Somos, somos... – Clara rolou os olhos. – Mas eu não tenho nada pra...
- ELA É CORNA! – Vanessa gritou quase cuspindo os sucrilhos que estava comendo e rindo muito alto.
Em um surto, Clara se pendurou no pescoço da irmã , estapeando a garota. Chica tentou separar as duas, mas Clara não parava e Vanessa ria. Ria muito, ria alto, e Clara só estava ficando mais irritada com aquilo tudo.
- VAI SE FU...
- CHEGA VOCÊS DUAS! Parem de brigar AGORA ou teremos conseqüências sérias aqui. – Chica mudou a expressão e Vanessa reprimiu o riso. – Vanessa, sobe AGORA.
- Mas mãe eu tô...
- AGORA!
- Ah, tudo bem. – Ela bufou e subiu as escadas comendo uma maçã.
- Agora vamos ao o que aconteceu, filha.
- Eu não quero falar sobre isso mãe, é sério. – Clara olhou piedosa e a senhora sorriu.
- Está bem, a escolha é sua. Mas qualquer coisa...
- ... Qualquer coisa eu falo, mãe. – A garota sorriu sem mostrar os dentes. – Vou subir.
__//__
Clara entrou em seu quarto e foi direto para o banheiro. Tomou um banho rápido para tentar acordar daquele dia que provavelmente era um pesadelo qualquer. Colocou um short curto e uma blusa de moletom grossa e estava preparada para telefonar para alguma das amigas. Foi quando um toque suave na porta do quarto fez com que ela virasse sua atenção pra lá.
- Clarinha, posso entrar? – Vanessa perguntou com as mãos nos bolsos do short. Clara afundou a cara no colchão ao ver a irmã ali.
- Já tá aqui mesmo. – Ela respondeu simplesmente, mas ela não se moveu.
- Desculpa. É que foi inevitável te zoar e...
- ... Tudo bem Vanessa, relaxa.
- Mas é melhor assim, não é? Aquele tal de Cadu é um merda, fala sério.
- Eu sei. – Ela disse sem olhar pra a irmã , que já estava abaixada em frente a sua cama.
- Você não parece triste... – Vanessa disse ao levantar o rosto da irmã com uma das mãos.
- E não estou. – Clara sorriu breve e Vanessa riu.
- Então porque todo o escândalo?
- Ah, por nada. Eu gosto de ser uma drama queen, você sabe.
Clara sorriu e Vanessa a acompanhou. Apesar das brigas, as duas tinham uma amizade incomum para duas adolescentes tão diferentes. Do modo delas, conseguiam se entender perfeitamente.
- Além do mais... – Clara continuou – Esse fim de relacionamento doeu muito mais nele do que em mim. – Ela piscou e desatou a rir, sem que a irmã entendesse.
- O que você fez? – Vanessa arregalou os olhos, interessada.
- Pensei que sua informante já tivesse te dito... – Ela torceu o nariz. – Ah, eu sumi com as roupas dele, larguei ele no quarto amarrado na cama e... bom, isso foi devidamente fotografado por metade do colégio. – Clara gargalhou com a cara da Vanessa.
- Você é impossível, garota! Isso foi incrível! – Vanessa riu alto, sendo interrompida pelo celular da irmã que tocava alto ao seu lado. – Argh, é a Flávia. – Ela fez cara feia dando o telefone pra irmã, que riu. – Vou pro meu quarto.
- Ok chuchu, vai lá. – Ela sorriu vendo a irmã sair do quarto falando sozinha. – Fala Flavinha meu amor!
_//_
Clara desligou o telefone feliz ao ficar sabendo que sua reputação estava em alta. Okay, ela era a mais nova vítima de Eduardo Portman, mas quem tinha saído por baixo nessa, era ele. Todos os presentes da festa estavam rindo da cara e da situação em que o Cadu se encontrou depois da vingança de Clarinha. Ela não era a coitadinha, era admirada. Isso fez com que aquele domingo ficasse um pouco melhor.
“Está vendo, bobinha. Você se saiu bem dessa, muito bem por sinal. Agora todos os garotos e garotas vão saber se comportar perto de você, ui. Isso é incrível, não é? Claro que é.”
- ... Mas isso não muda o fato de que você é CORNA. – Uma voz extremamente irritante surgiu no quarto e Clara não precisou nem virar pra trás pra saber quem era.
- Já ouviu falar em bater na porta antes de entrar, Meirelles? – Clara bufou virando-se para ela, que riu.
- Estava aberta meu bem. – Ela debochou.
- Meu bem. Meu bem. Vaza daqui Meirelles, anda logo.
- Sabe... – Marina disse sem mover um centímetro – Você é corna, mas pelo menos fez alguma coisa que prestasse. Fiquei chocada quando a Gisele me disse, hoje de manhã. Quem diria, Clara Fernandes me surpreendendo. Fez uma coisa boa na vida, deu uma lição naquele Cadu filho da...
- Ele é um merda, mas é melhor que você, Meirelles. – Clara disse encostando na porta ao lado dela. – Agora, não me estressa lindinha, some daqui.
- E se eu não quiser? – Ela perguntou segurando o rosto de Clara com uma das mãos, sendo levemente empurrado para trás.
- Meirelles, não brinca. Eu posso ser muito pior com você do que eu fui com o Cadu.
- Ah é? – Ela disse entrando no quarto e sentando na cama da garota. – Pago pra ver.
- Vaza. – Clara respondeu irritada e Marina riu.
- Esse é o seu melhor? Caramba docinho, você não é péssima nisso! – Marina disse olhando nos olhos de Clarinha, que fulminaram de raiva. Ela odiava esses apelidinhos melosos e Marina sabia disso.
- Eu vou contar até três. – Ela olhou para o teto quando Marina riu. – Um...
- Eu não vou sair.
- Dois...
- Agora eu estou com mais medo de você, hem?- Marina gargalhou.
- Três, tchau.
- N-Ã-O.
Marina soletrou a palavra e Clara não se conteve. Pegou um porta jóias de porcelana que estava na bancada e tacou na direção de Meirelles, acertando-a na testa. A garota caiu para trás na cama e o porta jóias se quebrou em mil pedaços ao tocar o chão, fazendo um barulho muito alto contra o piso. Clara arregalou os olhos quando percebeu o que fizera.
- PUTA QUE PARIU, VOCÊ É LOUCA? – Marina gritou segurando a testa com uma das mãos e Clara viu que escorria sangue da sua sobrancelha.
- A CULPA É SUA! – Ela gritou mais alto e meio desesperada, correndo em direção a ela.
- Tira a mão de mim, sua louca! – Marina disse quando ela se aproximou.
- Eu nem encostei em você, sua ridícula! – Clarinha reclamou e Vanessa entrou com Fernanda no quarto.
- O que foi isso? – Fernanda arregalou os olhos vendo a testa da amiga sangrar.
- A exterminadora de pessoas resolveu achar uma vítima nova. – Marina debochou e Clara fechou os pulsos, mas se conteve.
- Eu mandei você sair, Meirelles. A culpa é TODA SUA. – Ela gritou.
- Minha? MINHA? Ah, que ótimo! – Marina riu sarcástico. – Sua loucura não é culpa minha, Clara.
- eu nunca vou entender vocês dois! Vem aqui Marina, vamos descer! Acho que tem um kit de primeiros socorros na cozinha... – Vanessa disse e Marina levantou, seguindo-a.
- Louca... – Ela murmurou e Clara rolou os olhos.
- Idiota. – Ela respondeu alto e Marina não virou pra trás.
Então a porta se fechou num baque ensurdecedor. Fernanda estava em pé ao lado da cama, com as mãos nos bolsos. Clara se abaixou para pegar os pedaços maiores do porta jóias no chão.
- Não fale nada. – Ela disse e Fernanda sorriu, ajudando-a.
- Eu não ia dizer nada. – Ela suspirou. – Mentira, eu ia. – Fernanda riu e ela também.
- Eu não fiz por mal, juro. – Clara sentou-se encostada na cama e Fernanda a acompanhou.
- Eu sei que não. – Ela sorriu.
- Mas eu nunca imaginei que minha mira estivesse assim tão boa... Ou que a Marina fosse idiota o suficiente pra ficar parada quando viu o negócio voando na direção dela. – Ela riu sozinha. – Você acha que eu sou louca, não é?
- Não. – Fernanda riu. – Talvez um pouco.
- Muito, você quer dizer.
- Depende da situação.
- Ela me provocou. – Clara bufou e Fernanda riu alto.
- Vocês duas são muito idiotas.
- Eu nada, ela que é. – Clarinha fez bico e a amiga a abraçou de lado.
- Você parece uma garotinha de dez anos dizendo isso. – Ela riu. – Aliás, vocês duas ficaram presos naquela época, agem como se tivessem dez anos.
- Nós nunca nos demos bem, baby. E nunca vamos nos dar. – Clara rolou os olhos.
Clara conhecia Marina e Fernanda desde pequenos. Elas sempre estudaram no mesmo colégio, e sempre foram amigas de sua irmão Vanessa. Desde aquela época, ela e Marina sempre brigaram. Não no início, porque eram muito novas, mas foram necessários poucos meses para que começassem a se odiar. As coisas pioraram na adolescência, onde elas assumiram posições bem diferentes no colégio. Clara, a queridinha, a garota popular que todos conheciam. Marina, também era popular só que com um estilo de loser que faz um estilo totalmente diferente das lideres de torcida, mas que tem sua fama. A amizade de Clara e Fernanda, por sua vez, sempre esteve intacta. Nenhuma das duas sabia explicar exatamente o porque, mas ainda eram amigas. Gisele chegara no colégio tempos depois, e se uniu ao quarteto que algumas das melhores amigas de Clara não suportavam. E foi assim que a distância entre Clara e Marina que já era um fato, se concretizou, e desde então Marina e Clara não podem ficar juntas por muito tempo no mesmo ambiente sem que alguém saia moralmente ferido – ou pelo menos bastante irritado.
Fale com o autor