Os Opostos Se Atraem
15 Nada há de errado com sonhar
Notas iniciais
Marina’s P.O.V mode ON.
Comecei a andar de um lado para o outro dentro do quarto igual uma idiota. A idéia de que Clara não aparecesse era mais do que humilhante, era assustadora. Eu nunca tinha deixado as coisas chegarem nesse ponto: seja lá de qual ponto estamos falando, digo, nunca tinha gostado assim de uma garota. É claro que algumas delas já me surpreenderam, mas com a Clara era diferente: Era estranho porque mesmo ela sendo bastante teimosa e insuportável, — Além de ser irmã da minha melhor amiga, devo acrescentar – Clara parecia me ter em mãos. Tudo o que ela fazia, cada gesto, o jeito de falar, de andar, até a forma com que ela me tirava do sério era irresistível pra mim. E eu não sei como isso veio acontecer, porque sinceramente eu a odiava. Tudo aquilo que eu não suportava nela tinha sumido, ou pior ainda, se transformado em alguma forma estranha de qualidade. Qualquer garota que me desse um bolo pra sair com as amigas deveria ser ignorada até a morte. Mas não, quando ela faz isso...
Olhei para o visor do celular e percebi que estava andando sem parar há pelo menos quinze minutos. Mas que merda, porque ela tinha que demorar tanto? Me joguei na cama, procurando algo na TV. Passei canal por canal, sem reparar em nada do que estava ali, era um gesto automático, irritante. Soltei o controle na cama e olhei para o teto.
Ano de 2002
Fazia pouco menos de um mês que eu havia me mudado com minha mãe para aquele bairro. Meus pais tinham se separado e eu estava achando tudo aquilo uma droga. Como toda criança de dez anos, eu queria ter meu pai por perto, mas com a mudança eu estava a pelo menos duas horas dele. Várias estações de metrô e um ônibus. Eu havia decidido que faria o possível pra irritar minha mãe, o suficiente pra que ela resolvesse voltar pra nosso outro bairro, perto do meu pai e das minhas amigas. Mas logo nos dias que eu cheguei, conheci minha vizinha da frente, a Fernanda. Ela era uma garota legal, e tinha uma outra amiga, a Vanessa. Logo me enturmei com elas e acabei perdendo o foco da filha revoltada que eu queria ser. Eu nunca tinha ido até a casa da Vanessa, costumávamos ficar na casa da Fernanda. Assim que Vanessa abriu a porta da casa, sua mãe, que estava sentada no enorme sofá enrolada em uma manta, sorriu pra mim.
– Hey querida, você é a famosa Marina?
– Famosa? – Fiz careta e Vanessa também.
– É, a Vanessa e a Fernanda falam bastante de você.
– Ah. – Respondi um pouco sem graça e ela riu.
– Estou com um bolo de chocolate no forno, vocês vão fazer o que?
– Correr no jardim! – Respondemos juntas e a Dona Chica riu.
– Tudo bem, eu as chamo assim que ficar pronto.
Saímos para o jardim e começamos a brincar por lá. Fernanda tinha saído com os pais dela e provavelmente não viria aquele dia, o que não tinha tanta importância, na verdade. Ela reclamava demais.
– Vou buscar alguns brinquedos, já volto! – Vanessa disse fazendo careta. Eu ri.
– Vou continuar aqui.
Comecei a juntar a terra do jardim assim que Vanessa sumiu. Poucos minutos depois, uma garotinha se aproximou. Ela estava toda de rosa, parecia de brinquedo, com as bochechas vermelhas por causa do frio e um gorro imenso na cabeça. Eu ri, e ela sorriu. Tossi logo em seguida, lembrando que eu não devia sorrir para ela e me virei para o que estava fazendo. Mas ela não se moveu. Continuou ali, como uma Barbie em miniatura que alguém tinha fincado na grama. Fiz uma careta.
– Perdeu alguma coisa? – Disse, levantando.
– Posso brincar com você? – Ela respondeu com uma voz animada, voz de menininha. Torci o nariz.
– Não, minha amiga já está brincando comigo. – Bufei.
– Porque você é tão idiota? Eu sou uma menina como você, não um leão. Eu não vou morder você! – Ela disse num tom de voz óbvio e meu queixo quase caiu no chão. Ela era menor que eu, como podia falar daquele jeito? Fiquei sem resposta, e ela riu.
– Mas... Mas... – Gaguejei – Essa é a casa da minha amiga!
– Eu sou irmã da sua amiga. – Ela riu – Você é a Marina, né? Minha mãe falou. Cadê a Fernanda, ela não vem hoje? Fernanda escondeu minha boneca, eu tenho certeza! Mas ela vai pagar, vai pagar muito caro e... – A pequena criatura disparou a falar e tudo o que eu fiz foi ficar com cara de boba, sem conseguir interromper. Menina estranha aquela.
– Achei uma pá para cavarmos, Marina! – Vanessa chegou – Ah, já se conheceram? Essa é a Clarinha, minha irmã.
– Clara, me chama de Clara! – Ela resmungou e eu ri.
– Que seja. – Vanessa murmurou.
– Posso brincar com vocês Vanessa? – Clara perguntou e Vanessa deu de ombros, fazendo-a dar pulinhos animados e se juntar a nós.
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– Fernanda! – Vi Clara correr em nossa direção e abraçar a Fernanda. Fernanda pareceu sem graça, mas a abraçou.
– Hey, Clara! – Respondeu sorridente.
– Oi, Marina! – Clara disse feliz e eu dei um passo pra trás, pra evitar que ela fizesse o mesmo comigo. Não que eu achasse que ela faria, ela parecia gostar bem mais da Fernanda. Mas só pra garantir. – A Vanessa está no quarto dela!
– Valeu, baixinha! – Fernanda disse e Clara fez careta, o que me fez rir.
– Ei, eu tô quase da sua altura, Fê! – Clara bufou e cruzou os braços, caminhando até a cozinha – Ô mãe, a Fernanda me chamou de baixinha de novo! – Ela dizia com a voz chorosa e nós gargalhamos, subindo para o quarto.
– Hey Vanessa! – Dissemos ao entrar no quarto, e ela sorriu.
– E aí! – Disse indo em nossa direção para cumprimentar a gente.
– Vocês acreditam que a minha irmã e as amigas dela conseguiram fazer um buraco maior do que o nosso? E ainda botou água pra fazer de piscina. Bem melhor que o nosso!
– Ah, fala sério! Elas só tem nove anos! – Respondi. E daí que eu só tinha dez, elas tinham NOVE. Pirralhas.
– A Clara consegue tudo o que ela quer, Meirelles! – Vanessa riu. – Meu pai veio aqui no fim de semana e terminou a casa da árvore! – Vanessa disse empolgada.
– Estamos esperando o que? Vamos pra lá! – Fernanda saltou da cama e nós descemos as escadas correndo.
Clara estava no jardim balançando numa árvore em frente a enorme casa de madeira que o pai delas havia feito. Clara sorriu ao nos ver.
– Vão fazer o que? Posso brincar com vocês? A Robby não vem mais... – Ela fez bico e Vanessa riu.
– Casa da Árvore. – Vanessa disse gargalhando. Clara fez uma careta e depois fechou a cara, Fernanda olhava séria. E eu com cara de nada.
– Vou ficar aqui mesmo. – Clara respondeu fazendo bico.
– Por quê? – Ouvi minha própria voz perguntar, sem eu nem ter pensado antes. Ela levantou o olhar, sem responder nada.
– Porque ela tem medo! – Vanessa apontou e começou a rir, e eu comecei a rir junto com ela. Medo de ir numa casa da árvore? Que garota besta!
– Gente, deixem ela... – Fernanda disse baixo e eu vi uma lágrima escorrer pelo rosto de Clara.
– Medrosa! – Eu disse rindo e bati minha mão na de Vanessa.
– Eu odeio você, Marina Meirelles. Minha irmã é uma idiota depois que te conheceu. Você é uma idiota – Clara chorava – Fiquem com sua casa da árvore estúpida. Eu odeio todas vocês! – Ela saiu correndo em direção a casa, e parou na escadinha, virando de frente – Menos a Fernanda, eu não odeio a Fernanda! – Disse chorando e correu pra dentro, enquanto nós ainda ríamos.
Acordei num pulo. Meus olhos demoraram pra se acostumar com a luz do abajur, e eu esfreguei os olhos.
– É por isso que ela me odiava? – Lembrei, confusa, sem saber se aquela imagem fazia parte de um sonho ou de uma realidade distante. Meu quarto estava vazio, nenhum sinal de que Clara tinha passado por lá. Olhei para o relógio, quase quatro da manhã, eu tinha cochilado por vinte minutos. Passei a mão pelo cabelo, revoltada, e me joguei nos travesseiros. Estava claro: Clara não iria aparecer.
Ano de 2007.
Era triste ser uma caloura de colegial. Nos primeiros dias de aula, era tudo novo, estávamos empolgadas e tudo mais. Nunca tinha visto tantas garotas bonitas concentradas em um só lugar. Mas quando você é nova na High School e não é exatamente como os veteranos, tudo perde a graça bem rápido. Garotas de quinze anos, magrelas e com tendências roqueiras não agradam as líderes de torcida. Talvez quando tivermos dezesseis... Coloquei os fones de ouvido e fiquei observando a movimentação da escola. Vi alguns garotos do terceiro ano pararem suas idiotices por dois segundos e virei o pescoço pra ver o que eles viam. Clara e suas amigas estavam entrando no pátio do colégio, que nem naqueles filmes americanos, desfilando. Parecia que todo mundo abria espaço pra que elas passassem. Porra, elas também são calouras! Quando cruzaram ao lado dos playboys do colégio, um deles a segurou pelo braço. Eu não estava perto o suficiente pra entender o que diziam, sei que ela sorriu idiotamente pra qualquer merda que aquele acéfalo disse. Os dois riram e ela continuou seu caminho, enquanto ele e seus quatro amigos encaravam sua bunda.
– Hey Mari! – Vanessa chegou do meu lado e eu chacoalhei a cabeça com força.
– Oi Van.
– Tava olhando o que? — Sua irmã, aquela nojenta gostosa! Quase respondi, mas respirei.
– Umas garotas que estavam passando, só isso. – Murmurei, rolando os olhos.
– Vanessa! Vanessa! Vanessa! – Clara chegou pulando e eu arqueei uma sobrancelha, assim como Gisele. Ela também não estava acostumada com o jeito estranho daquela garota.
– Meu Deus, vai chover hoje! A Clara Fernandes passando pela nossa mesa com o refeitório lotado, wow! – Bati palmas e ela levantou o dedo do meio, sem olhar pra mim. Ri baixo.
– O que aconteceu, sua doida?
Vanessa perguntou rindo e Fernanda encarava interessada. Duas amigas da Clara estavam paradas logo atrás. Roberta, que era simpática, vizinha delas desde sempre, e Luiza, uma garota meio maluca que se juntou a elas no colégio. A outra nojentinha, a tal da Flávia, não se deu ao trabalho de chegar perto de nós, estava na mesa dos populares, olhando para o nosso lado com desdém.
– Você está olhando para a mais nova integrante da equipe de líderes de torcida desse colégio! – Clara pulou animada junto com as amigas. Fernanda riu.
– Você passou? – Vanessa perguntou empolgada e Clara riu. Luiza deu um tapa na cabeça de Vanessa.
– Claro que não, Vanessa, ela só está empolgada porque perdeu! – Luiza disse gargalhando e Van fez careta – Eu tô brincando, bobinha! – Luiza sorriu e Vanessa e Fernanda também.
– Parabéns! – Vanessa disse tentando parecer empolgada, mas parecia um pouco preocupada. Muito provavelmente porque sua irmãzinha querida viraria uma biscate como todo o resto das cheerleaders. Mas eu desconfiava que Clara já era assim.
– Obrigada, chuchu! – Clara sorriu. – E nem venha pedir os telefones das minhas companheiras de equipe, Meirelles. Conheço sua tara por líderes de torcida, mas gosto bastante daquelas garotas para desejar algum mal a elas. – Clara disse com uma piscadinha e todas gargalharam.
– Outch! – Fernanda sacaneou.
Apoiei as duas mãos na mesa e inclinei meu corpo pra frente, aproximando meu rosto do dela. Clara fez o mesmo, queria mostrar que não tinha medo de mim, mas deveria. Vi os veteranos amigos dela se aproximarem e acariciei seu rosto.
– Mas que mal eu posso oferecer a elas, docinho? – Disse sorrindo o primeiro apelido infeliz que veio na minha cabeça – Elas já vão ter que aturar você, qualquer coisa depois disso é lucro! – Ri alto e as meninas também. Clara abriu a boca, mas não emitiu nenhum som. Sorri vitoriosa.
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Minha relação como Clara parecia ficar cada dia pior. Não que eu realmente me importasse com isso, afinal, infernizar a vida da docinho (ela odiava esse apelido, então eu passei a usar sempre) era um dos meus hobbies favoritos. O único problema é que ela parecia gostar de arruinar minha vida também, então eu sempre me via em situações complicadas por causa daquela garota. Eu odiava admitir, mas ela era esperta. Nossa guerra nunca teria fim.
– Marina, ME LARGA! – Ela berrou enquanto eu a prendia entre minhas pernas na cama, e segurava seus braços – SAI DE CIMA DE MIM!
– Você vai ter que retirar o que disse. Você foi longe demais, porra! – Gritei, sentia meu rosto queimar. Acho que nunca tive tanta raiva de alguém como naquele momento. Eu estava segurando seus pulsos, mas a minha vontade dá um murro bem dado nela. Ela merecia.
– Eu não vou retirar porra nenhuma! – Ela parecia gritar mais alto do que eu – Eu estou pouco me lixando pro que vão achar de você!
– Mas é mentira, caralho! – Apertei mais seus pulsos, e vi Clara morder o lábio para não gritar. Tentei afrouxar um pouco minhas mãos – Então ela começou a rir descontroladamente. Senti meu coração acelerar em um nível que poderia ser escutado a quilômetros. Bom, eu estava ficando com uma das líderes de torcida, a Janet. Ela era muito gostosa – Burra como uma porta, mas não é preciso muita inteligência para as intenções que eu tinha com ela – E a maldita da garota apareceu na minha casa no dia do aniversário da minha mãe. Estava cheio de parentes lá, e sabe... Ela queria um pouco mais do que eu conseguiria oferecer com toda a minha família no andar de baixo. Eu simplesmente a dispensei, o que não significa que eu não sei satisfazer alguém na cama. Mas não, é claro que a Clara Fernandes fofoqueira espalhou para o colégio inteiro que eu não sabia satisfazer alguém. Ótimo. Eu poderia matá-la ali mesmo.
– Para de rir! – Berrei e ela tentava recuperar o fôlego, mas não conseguia. Comecei a torcer pra ela ter um colapso e morrer engasgada. De verdade.
– Ai Meirelles! – Ela disse com a voz arrastada – Pela última vez: Eu não me importo que você não consiga dormir com mais nenhuma garota daquele colégio. Eu não me importo com nada que venha de você.
Meu estômago revirou e eu a apertei com um pouco mais de força, e dessa vez ela gritou. Num movimento rápido, eu soltei o pulso dela. Clara xingava baixo e girava os pulsos com cara de dor. Depois um sorriso malicioso tomou conta de seu rosto, ao ver o meu estado de raiva.
– Nunca mais olha na minha cara. – Murmurei, me contorcendo. Ela sorriu.
– Será um prazer.
Eu não gostava de festa com pessoas populares. Tudo bem que era engraçado ver aquelas riquinhas perderem a linha, os brutamontes brigarem entre si, mas definitivamente não era a coisa que mais me agradava no mundo. Stacey tinha ido ao banheiro com as amigas. Fernanda nem tinha vindo, tinha ido comemorar a sós com Lucy. Certa ela. Gisele e Vanessa deviam está com algumas garotas por aí. Esperei que Stacey voltasse, e ela começou a falar sem parar. Ela era irritante, a voz dela me irritava e eu não estava bêbada o suficiente pra agüentar aquilo. Saí atrás de algo mais forte, e vi Clara sentada no colo de Josh enquanto conversava com Flávia e o namorado dela, o goleiro do time que eu não lembrava o nome. Ela parecia ter um ataque de riso de algo que a Clara estava dizendo. Chacoalhei a cabeça e tirei meus olhos de lá, porque diabos eu estava os encarando mesmo? Fui até a cozinha, peguei um copo cheio de vodka e virei. E virei mais alguns outros, assim que Stacey me encontrou. Já estava sentindo meu corpo formigar, aquilo não era nada bom.
– Eu vou pra casa. – Disse com a voz arrastada e não ouvi o que ela disse, mas girei as chaves do carro nos dedos. Saí cambaleando, não vi nenhuma das garotas, nem procurei. Acionei o botão que abria a porta do carro e tentei acha-lo entre tantos. Olhei para trás e vi que Clara discutia com Josh. Flávia e o goleiro estavam atentos a tudo. Josh a puxou pelo braço, ela tirou o braço com força e para a minha surpresa, veio até mim. Pisquei os olhos várias vezes.
– Você não vai dirigir nesse estado, Meirelles. – Ela puxou a chave da minha mão, mas não com força suficiente para arrancar. Segurei ainda mais forte, rindo.
– Quem vai me impedir, você? – Gargalhei e ela bufou.
– Sim. – Opa. Por essa eu não esperava. – Dá essa chave, eu vou te levar.
– Que? – Definitivamente eu estava mais bêbada do que eu pensava. Clara Fernandes preocupada com meu estado? Não, aquilo não estava acontecendo.
– Anda Meirelles, dá a porcaria da chave! – Ela disse mais alto e eu olhei para suas pernas descobertas. Ri maliciosa.
– Belas pernas. – Ouvi minha voz de tarada e ri mais alto. Clara girou os olhos e pude perceber que ela reprimiu o riso.
– Pervertida!
– Mas é verdade! – Não, eu não estava falando isso! Dessa vez ela riu alto.
– Cala a boca. – Disse baixo e eu poderia estar louca o suficiente, mas acho que vi suas bochechas corarem.
Sorri sozinha e atravessei a rua até meu carro. Clara estava logo atrás de mim. Bufei.
– Eu vou dirigir, volta pro seu capitão, anda! – Disse impaciente.
– Você não sabe nem o que tá falando, sua idiota! Não vou deixar você dirigir assim!
– Por quê? – Perguntei e ela suspirou.
– Porque... Porque minha irmã gosta de você e porque a Stacey é muito nova pra ficar sem namorada!– Ela disparou e eu gargalhei, entrando no carro.
– Quem é a namorada da Stacey?
Foi a última coisa que eu disse, rindo alto, antes de arrancar cantando pneus. Olhei pelo retrovisor e não sei como – Ela devia ser ninja ou coisa do tipo – Mas ela estava atrás do meu carro. Buzinei, impaciente. Mas ela continuou me seguindo. Coloquei a cabeça pra fora da janela e virei pra trás, gritando:
– Pára de me seguir, porra!
– Marina! – Ela gritou, e eu virei para a frente. Não consegui frear, meu carro foi direto numa árvore. Bati a cabeça com força no volante e senti meus olhos girarem, procurando algum foco. Eu estava perdendo os sentidos. Ouvi o barulho da porta abrindo ao meu lado e alguns gritos desesperados. Dela.
– Marina, olha pra mim por favor! Marina! – Ela gritava, e do nada a dor em meu rosto parecia pequena, meu coração parecia que ia explodir. – Marina, por favor... – Ela repetia, e eu ouvi o barulho das teclas do celular dela.
– Clara... – Minha voz saiu fraca, e eu consegui levantar a cabeça, ainda completamente tonta. Ouvi o barulho de algo caindo no chão, e em seguida sua voz estava próxima de mim, baixa, chorosa.
– Vai ficar tudo bem... – Ela murmurou – Fique calma.
Abri os olhos devagar, e a vi abaixar pra pegar o celular.
– Eu tô bem. – Disse baixo – Me leva pra casa. – Pedi, vendo duas Clara’s em minha frente.
– Eu vou ligar pra uma ambulância, é melhor e... – Ela ia dizendo e eu a interrompi.
– Não, eu estou bem, só estou um pouco tonta, juro. – Disse e ela suspirou alto.
– Consegue se mexer? – Perguntou, sua voz tão baixa e doce que nem parecia ela. Eu podia ver o desespero em seu olhar. Sorri de canto, involuntariamente.
– Você me ajuda?
Disse jogando as pernas pra fora do carro e ela assentiu com a cabeça. Foda-se meu orgulho. Clara me ajudou a levantar e a andar até seu carro, que estava quase do lado do meu. Não lembro exatamente o que ela foi falando no caminho, mas percebi que ela tentava me manter acordada, porque eu tinha batido a cabeça. Chegamos até o hotel onde todos estávamos hospedados, e ela subiu até seu quarto, me levando meio sem jeito. O perfume dela era bom, mas eu nunca iria admitir isso. Sentei em sua cama e ela correu, arrumando seu cabelo em um coque. Meus sentidos estavam voltando. Ela veio com uma caixa de primeiros socorros.
– Você tem certeza que não quebrou o nariz? – Perguntou baixo e eu ri. Meu nariz realmente devia estar parecendo uma merda. Mas não doía.
– Tenho. Tá tão feio assim? – Perguntei e ela riu.
– Razoável. Vou precisar limpar esse corte, vai arder.
Disse com um algodão na mão e eu fiz careta. Clara se aproximou do meu rosto, e de repente meus olhos ganharam foco novamente. Puta merda, ela era muito linda. sua respiração calma e quente perto da minha boca fez com que eu mordesse o lábio sem querer, mas ela não reparou. Segurou meu rosto e passou algo que ardia muito na minha bochecha. Arfei e apertei sua cintura. Ela riu, e eu fiquei vermelha.
– Tudo bem. – Ela murmurou, sem olhar pra minha mão, e continuou o que estava fazendo.
Minha cabeça doía feito o diabo quando eu acordei naquela manhã. Xinguei todos os palavrões possíveis suspirei. Eu não lembrava exatamente de como tinha chegado ali, mas sorri ao lembrar do jeito que Clara havia me tratado. Tomei um banho e olhei meu rosto, não estava tão ruim, tinha um curativo na bochecha. Eu não sabia porque, mas senti meu coração bater mais forte, e fiquei com medo daquilo. Me troquei rapidamente e corri para o hall principal. Muita gente estava indo embora. Avistei Clara com algumas meninas e sorri, indo até elas. Ela saiu do meio das garotas e veio até mim.
– Não fala comigo, Meirelles. – Disse baixo, sua voz era de raiva.
– Mas... O que foi que eu fiz? – Eu disse, assustada. Ela abaixou o olhar, percebi que tinha chorado. Aquilo deu um nó na minha garganta.
– Você existe. – Disse simplesmente e saiu da minha frente, mas parou – Ah! A chave do seu carro está com a Vanessa.
Então ela partiu, e eu fiquei com cara de nada, no meio do saguão do hotel. Andei meio desnorteada entre as pessoas e ouvi Flávia, sua amiga, comentando com uma menina.
– O Josh terminou com a Clara por causa daquela idiota. Ela não devia ter ido atrás dela. Ela que morresse no primeiro poste. – Disse, olhando pra mim, e eu entendi tudo. Até tentei falar com Clara uns dias depois, mas ela não me ouvia. Então começamos a nos odiar de novo. Afinal, não era um gesto daqueles que ia mudar muita coisa. Ela não queria que mudasse, então, pra mim estava ótimo daquele jeito. Clara Fernandes volta pra lista negra. Fim de papo.
Ano de 2008.
Ouvi o telefone tocar e fiz um esforço enorme pra tentar achar que aquilo era um pesadelo. Mas não era. Quem diabos liga pra casa dos outros quatro da manhã numa quarta feira? Puta que pariu! Cocei os olhos e tentei focar no visor do celular. Vanessa.
– Que é, cacete?
– Marina, eu preciso da sua ajuda! – Vanessa disse e sua voz era realmente preocupada. Quando vi já estava sentada e preocupada também.
– O que aconteceu? – Perguntei, com a voz meio estranha.
– A Clara sumiu, Mari! E tá chovendo pra caralho, minha mãe tá preocupada e... – Ela continuou a falar, mas eu ri. – Puta merda Meirelles, dá pra você ser minha amiga uma vez na vida? – Outch! Ameaçar a amizade é golpe baixo.
– Desculpe, Van... Mas eu achei que fosse normal a Clara sumir! – Eu realmente achava, diga-se de passagem.
– Normal é, mas hoje ela ligou dizendo que estava voltando da casa dos tios da Luiza, que é a uns quarenta minutos daqui... Ela ligou meia noite, são quatro da manhã e tá essa puta chuva, Marina, eu vou sair pra procurar, falei com a Fernanda e a Gisele e elas vão ajudar! Posso contar com você?
Suspirei. Até a Gisele? Não devia ser nada, nunca era nada. Clara amava fazer a Vanessa arrancar os cabelos por porra nenhuma. Mas ela parecia realmente preocupada dessa vez. Suspirei, derrotada.
– Tô aí em cinco minutos.
Realmente estava chovendo muito, com trovões e tudo mais. Fiquei com dó da Dona Chica, ela estava desesperada e a Vanessa também. Eu ficaria realmente puta se fosse só mais uma gracinha da Clara. Mas eu não sabia porque, eu sentia que não era. Vanessa foi procurar com Gisele, porque achamos que ela não tinha condições de fazer isso sozinha. Fernanda e eu nos separamos, cada um com um carro. Comecei a andar pelos lugares improváveis, já que Clara podia ser tudo, menos previsível. Rodei cinqüenta minutos com o carro, já estava longe e com medo de nem saber voltar. A visibilidade tava uma porcaria. Liguei para as meninas, mas nem sinal, então me obriguei a continuar procurando. Não era algo que eu soubesse explicar, mas eu já não me movia mais por apoio a minha amiga ou a mãe dela. Eu queria encontra-la. Eu estava preocupada. Aquilo era ridículo, mas era um fato. A chuva fazia um barulho meio medonho contra o capô do carro, e eu parei em um posto de gasolina para abastecer. Entrei na loja de conveniência pra comprar uma água, e enquanto pagava, ouvi os comentários das funcionárias.
– Aonde isso? – Uma delas parecia assustada.
– A uns cem metros daqui. – A outra respondeu, com a mesma cara de espanto. – A garota realmente parecia mal, mas o cliente que passou não teve coragem de parar. Poderia ser uma emboscada, você sabe como anda essa cidade e...
Não consegui ouvir mais nada. Garota. Mal. Clara. Saí correndo e larguei a água, o dinheiro, tudo em cima do balcão. Cem metros pra que lado? Pensei rápido e lembrei que não tinha visto nada do lado que eu vim. Saí correndo na chuva grossa, ventava muito e estava muito frio. Quase não passava carro nenhum ali aquela hora. Continuei correndo, e então limpei meus olhos.
– Clara! – Gritei e fui até onde ela estava. Eu senti meu coração acelerar e meu corpo inteiro tremer ao avistá-la caída em um gramado vazio. – Clara! – Repeti alto, segurando seu corpo em meu colo e sem querer, a chacoalhando. Seus olhos se abriram, perdidos em qualquer lugar, e fecharam novamente.
– Marina... – Ela disse muito baixo, um sussurro. Minha cabeça girava.
Clara estava completamente gelada, seus lábios estavam arroxeados. Perguntei a mim mesmo quanto tempo ela estaria vagando na chuva, mas afastei o pensamento rapidamente. Eu precisava tirar ela dali.
– Clara, você tá me ouvindo? Clara! – Repeti, segurando seu rosto entre mãos. Ela não respondeu, e eu fiquei mais desesperada. Minha voz falhou. – Eu vou salvar você. Eu prometo.
A peguei nos braços e ela estava mole, seus braços escorregaram pra baixo e sua cabeça também. Senti uma lágrima escorrer em meu rosto, meu coração não batia normal. Eu não queria pensar naquilo, não queria. Ela não podia. Ela não faria isso. Não pensei naquela palavra, e quando vi, eu estava chorando feito uma idiota com ela em meus braços. A sorte é que estava chovendo e não tinha ninguém ali, o que era bem menos constrangedor. Meu choro se transformou num soluço, a medida que eu andava mais rápido. Quando cheguei no posto, as mulheres vieram correndo, espantadas, mas eu não consegui entender o que diziam. Eu não ia deixar ela... morrer. Suspirei, ainda alheia a tudo o que falavam e a coloquei no banco do carro. Abri o porta malas correndo e peguei um casaco que tinha deixado lá, tentei colocar nela, mas minhas mãos tremiam absurdamente. Senti alguém tocar meu ombro, era uma das moças da loja, com mais dois casacos.
– Obrigada. – Disse ainda tremendo e peguei. Ela me encarou desesperada.
– Você a conhece?
Fiz que sim com a cabeça, e ela começou a enrolar Clara com as blusas. Peguei o celular no porta luvas, mas não tinha sinal. Eu também não conseguiria discar. Não lembro como agradeci as duas, se é que agradeci, só vi meu dinheiro e a água voando pro banco traseiro do carro.
– Moça... – Uma delas fazendo sinal com a cabeça e eu olhei pra trás. Clara tinha aberto os olhos de novo. Dei a volta no carro e corri até ela, segurando seu rosto. Percebi que ela se esforçava pra tentar dizer alguma coisa, então interrompi rapidamente. — Não fala nada, fica quieta... Eu vou cuidar de você. Vai ficar tudo bem. – Disse, tentando parecer calma, mas minha voz mal saía. – Promete pra mim que você não vai... – Parei no meio da frase. Ela sorriu, de olhos fechados.
– Eu não vou morrer. – Disse com a voz muito baixa e eu suspirei aliviada, e não sei porque, mas eu beijei sua testa – Fica calma.
– Você que tá nervosa. – Ela sussurrou e eu não pude conter o riso. Até nessas horas ela consegue ser assim?
– Você não muda! – Chacoalhei a cabeça e entrei no carro, dando partida.
Clara estava tremendo, mas eu não podia fazer mais nada. Eu mal conseguia falar, a única coisa que saía era “Vai ficar tudo bem”. Era quase um mantra, e eu me sentia impotente ali.
– Água... – Ela sussurrou e eu estiquei o braço pra trás, alcançando a garrafa. Também estava com sede, mas tinha prioridades ali. Encostei o carro e a ajudei a tomar. Quando encostei em seu pescoço, percebi que estava queimando. Deslizei minha mão até sua testa, que parecia pegar fogo. Meu estômago revirou de novo.
– Você está queimando! – Eu disse, e depois me arrependi. Eu não precisava desesperar a garota. Mas ela continuou imóvel.
– Desculpe. – Ela sussurrou, e virei para a encarar. Ela estava de olhos abertos.
– Pelo quê?
– Por isso. – Ela disse baixo e segurei sua mão gelada. Corpo quente e mãos geladas. Honestamente, ela estava bem mal.
– Não por isso... – Empurrei a frase, antes que outro “Vai ficar tudo bem” escapasse. Acho que falava isso mais pra mim do que pra ela.
– Eu fui assaltada... – Ela parou num longo suspiro – Levaram meu carro. – Sua voz parecia sumir, e eu me desesperei.
– Mas não fizeram nada com você? – Quase berrei. Ela fez que não, e eu respirei com um pouco mais de facilidade. – Descansa, Clara. Já estamos chegando, eu prometo.
Dois minutos depois ela apagou. Não sabia se ela tinha me obedecido ou se tinha desmaiado, aquilo era terrível. Avistei um hospital e parei, a pegando no colo. Gritei com algumas pessoas, e os enfermeiros a carregaram pra dentro. Eu andava no corredor branco desesperada. Parecia que qualquer coisa dentro de mim ia explodir. Tinha conseguido falar com Vanessa, pessoal estavam a caminho, mas desconfiava que demorariam por causa da chuva. Não sei quanto tempo demorou, mas pra mim pareceu uma eternidade. Então o médico voltou.
– Você é a acompanhante da Clara Fernandes? – Ele perguntou e eu assenti – Já fizemos todos os exames, ela está se recuperando. A febre está abaixando e ela parecia estar em estado de choque, mas está melhorando. Você fez muito bem em traze-la correndo. Deve ser uma ótima pessoa na vida dela.
Quase engasguei com a última frase. Arregalei os olhos e respondi rapidamente.
– Ela é só minha... Amiga. – Tive dificuldade pra nomear nosso estranho relacionamento. Ele riu.
– Perdão. Sua amiga quer te ver, então. Pode entrar.
Abri a porta do quarto e Clara estava deitada presa a alguns fios estranhos. Caminhei até o lado da cama, e ela abriu os olhos. Curvou o corpo para sentar, e eu a ajudei. Então, mesmo com todos aqueles fios e com força alguma, ela me abraçou. Eu não consegui me mover, apenas passei a mão em seu cabelo, sem reações maiores.
– Obrigada. Você salvou minha vida, Marina. – Ela disse com a voz num tom audível e eu sorri.
– Você fez isso por mim uma vez. Estamos quites? – Perguntei e ela sorriu.
– Obrigada.
Então Vanessa e a mãe dela invadiram o quarto e eu vi Fernanda e Gisele do lado de fora. Vi as duas abraçarem a garota, a apertarem e sorri. Saí para junto das minhas amigas, respirando mais aliviada. Ela estava viva, e aquilo bastava.
Mal vi Clara depois daquele dia. Isso porque ela ficou quinta e sexta em casa, e nossas aulas terminaram na sexta. Não tive coragem de visitá-la, e meu pai passou no colégio na sexta pra me buscar pra viajarmos. Quando voltei, dois meses depois, ela ainda estava viajando com sua família. Algo em mim pedia pra que eu tentasse contato, mas eu não o fiz. Aproveitei o resto das férias arrumando uma namorada, e quando Clara voltou, ficou sabendo disso. Eu tinha esquecido que Clara Fernandes e Andy Simons se odiavam. Elas não podiam ficar no mesmo ambiente, porque Andy não se conformava de Clara ter tirado alguns papéis dela quando entrou para o teatro. Acho que Clara encarou isso como uma provocação, e nós continuamos as brigas de sempre. Quando é com Marina Meirelles e Clara Fernandes, nada é fácil. Nada.
Girei na cama acordei, desconfiada que mal tinha dormido. Lembrar de coisas assim enquanto se dorme é cansativo. Desenterrei minha cabeça do travesseiro, coçando os olhos. Então meu coração deu um pulo. Olhei para o relógio – cinco e dezenove – E voltei meu olhar pra ela. Sentada na poltrona olhando a chuva cair na varanda. Ela. Ela estava ali. Não consegui me mover, parecia que eu tinha borboletas no estômago. Tudo bem, isso foi bem clichê, mas parecia.
– Você disse meu nome enquanto dormia – Clara disse sem virar. Porra, como ela sabia que eu tava acordada? – Duas vezes. – Completou e eu senti meu rosto corar. Ela olhou por cima do ombro, sorrindo. – Talvez eu seja a garota dos seus sonhos... – Disse rindo, enquanto levantava em minha direção. Fiz o mesmo, me aproximando rapidamente.
– Talvez você seja... – Disse baixo, aproximando meu rosto do dela. A pouca luz vinha do abajour, e eu podia sentir um tremor na espinha ao olhar em seus olhos. Parecia que tinha alguma conexão ali. Clara sorriu de canto, cruzando os braços ao redor do meu pescoço.
– Pensei que você fosse me chamar de pretenciosa. – Disse baixo e eu a puxei pra muito mais perto, aproximando minha boca de seu ouvido.
– E você é. – Eu ri, e ela me acompanhou. – Pretenciosa, teimosa, mandona, irritante, maluca, bipolar...
– Eu espero que tenha um “mas” no final dessa frase... – Ela disse rindo e eu gargalhei.
– Mas... – Disse e ela me encarou nos olhos – Eu sei que eu também não sou grande coisa... Então eu me atrevo a dizer que a gente se merece — Eu ri e ela sorriu, mordendo minha bochecha.
– Um amor bipolar... – Ela sussurrou – Eu gosto dessa idéia! – Disse rindo, e eu ia me manifestar, quando ela me deu um longo selinho – Não mais do que eu gosto de você. Eu acho que no fim das contas, você sempre foi a parte que faltava, docinho — Rimos alto e ao mesmo tempo, e ela estava corada, o que fazia meu coração bater de forma estranha — Eu só demorei muito pra reparar. – Ela disse por fim.
Clara sorriu o sorriso que eu adorava, aquele que ela não mostrava pra ninguém. A puxei pra cima, e ela cruzou as pernas ao redor da minha cintura.
– Linda... – Disse sem nem pensar, colocando uma mecha de seu cabelo para trás da orelha, e aproximando nossas bocas. Ela fechou os olhos sorrindo e eu soube que aquilo era certo. Ela não era apenas quem eu queria. Ela era o que eu sempre quis.
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